Todo mundo sabe que homem não chora

Estive em um festival de dança cuja etapa da competição estava sendo realizada em minha cidade. Minha enteada estava competindo com sua academia de dança e fomos prestigiá-la. As apresentações eram realizadas em um ritmo frenético, praticamente sem pausas. Uma verdadeira maratona que deixava os expectadores sem fôlego, como se fôssemos nós a entrar, dançar e sair do palco repetidas vezes.

Assistindo à sequência de apresentações, vi muitas mulheres, das mais variadas idades e corpos. Havia mulheres de músculos esculpidos pelos treinos de repetição e força necessários aos movimentos precisos de um nível mais sofisticado de dança. E também havia os corpos mais “comuns”, sem músculos tão definidos, alguns até franzinos, outros com contornos mais generosos. Em todos esses corpos femininos cheios de representatividade senti igualmente a dedicação e paixão pela dança, o brilho no olhar, o sorriso para o público e a expressão atenta nas parceiras de palco em busca da sincronia que deixa os movimentos ainda mais impressionantes. Fiquei feliz em ver que não havia um padrão único de corpo feminino habitando aquele “mundo da dança”. Pelo menos não naquela etapa da competição e naquele festival. A mensagem era a de que meninas-mulheres de quaisquer idades e corpos tinham o direito de ocupar aquele espaço.

Mas e os homens? Onde estariam? Nos bastidores? Na organização? Na apresentação do evento? Na plateia vi alguns gatos pingados. Mas por que os homens não ocupavam o palco também? Confesso, contudo, que só passei a me questionar sobre isso justamente quando um grupo de dança composto apenas por homens subiu ao palco. Até aquele momento, o repetido desfilar de grupos de mulheres, um após o outro, não havia me despertado questionamento algum. Talvez porque a gente às vezes se acostuma tanto com o que vê ao nosso redor que se esquece de questionar por que determinadas coisas acontecem (ou deixam de acontecer).

O grupo de rapazes subiu ao palco e causou estranhamento e surpresa na plateia. Vi o público se entreolhar e esboçar um sorriso como se dissesse: “Olha lá! Finalmente um grupo masculino!” Os rapazes formavam um grupo numeroso que dançou uma música brasileira que eu ainda não tinha ouvido e cuja letra falava de masculinidade tóxica. Eles dançavam com beleza e força e, dentro da coreografia, interpretavam a mensagem que a letra da música nos oferecia. Aquela apresentação me impactou porque dava visibilidade à questão da masculinidade tóxica por meio da quebra de um estereótipo de gênero que era o fato dos homens estarem ali, naquele palco, dançando. E ainda que a letra da música tenha abordado apenas a ponta do iceberg da questão da masculinidade tóxica, um problema que afeta homens e mulheres e, consequentemente, toda a sociedade, a experiência de vê-los no palco naquela performance lançou holofotes sobre essa questão. E também sobre o “status quo” e sobre a quebra de paradigmas.

Se você pesquisar por aí sobre masculinidade tóxica, assim como eu fiz depois da apresentação dos meninos, vai ver que se trata do aprisionamento dos homens a um conjunto de comportamentos associados ao “masculino” e que são extremos e prejudiciais a eles próprios e à sociedade.

Lembro do meu pai lavando a louça da nossa casa quando eu era criança e se preocupando se alguma visita chegaria porque não ficaria bem para ele ser visto naquela tarefa doméstica. Como se o “cuidar” da casa fosse uma tarefa exclusivamente feminina. E, pior, como se essa tarefa inferiorizasse alguém. Em outro momento, recordo de assistir às aulas de judô das minhas filhas e testemunhar o pai de um dos meninos xingá-lo durante a luta porque ele não estava se saindo bem e dizer, dentre outras sandices: “Se não lutar direito, vou te levar para fazer balé” ou “Parece uma menininha lutando. Lute direito!”. Como se fazer balé fosse um castigo ou algo que o diminuísse. Ou como se lutar como uma menina fosse sinônimo de lutar mal. Eu torcia para que a criança lutasse melhor só para o pai parar de falar aquelas coisas. E torcia mais ainda para que a criança não chorasse. Afinal, todo mundo sabe que homem não chora… Essas cenas são apenas um “recorte” de uma vida inteira a testemunhar uma infinidade de situações como essas. Não condeno os protagonistas dessas histórias, encharcados que estavam de uma cultura que exigia deles uma série de comportamentos esperados do “ser homem”. Felizmente, eu não sou a única a levantar essa questão hoje em dia e vejo uma mudança crescente, principalmente vinda dos mais jovens.

Estereotipar pessoas a partir das expectativas que se têm sobre elas em virtude de alguma condição (porque é homem ou mulher, jovem ou velha, gorda ou magra, etc) é reflexo dos padrões de comportamento replicados de geração em geração como heranças culturais que recebemos e muitas vezes nem questionamos. Eu própria já fui enroscada na armadilha dos estereótipos por várias vezes. Estou sempre me policiando mas sei que escorrego vez ou outra em alguns dos rótulos que surgem como verdadeiras cascas de banana. Os rótulos estão por aí, em todos os lugares e para quase todas as situações e extrapolam “apenas” a questão do ser homem ou do ser mulher. Apesar de ter ilustrado aqui apenas algumas situações de estereótipos de gênero, nossa sociedade é permeada por muitos outros. Construamos menos rótulos e menos muros aprisionadores de pessoas. Sejamos mais abertos, tolerantes e empáticos com a complexidade e beleza das múltiplas formas de ser de cada um.

4 comentários em “Todo mundo sabe que homem não chora

  1. “como se lutar como uma menina fosse sinônimo de lutar mal.”
    Esse é um dos estereótipos que a gente que educa meninos tenta o tempo todo quebrar. Muito boa tua colocação, crescemos em meio a esse caldeirão cultural de preconceito que não nos damos conta quando estamos reproduzindo.

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  2. Oi, Lidiane, parabéns! Seu texto é excelente. De pensar no número de vidas que perduraram na dor, na opressão e sucumbiram e que só queriam ser o que eram traz um sentimento de angústia e impotência e nos trazem a pergunta: até que ponto nós, mulheres mães amigas amantes namoradas artistas escritoras contribuímos para a manutenção desses “paradigmas tóxicos? “. Muito obrigada pela reflexão. Um beijo

    Curtido por 1 pessoa

  3. Texto maravilhoso Lidianne! Parabéns querida!
    Reflexões muito importantes nos dias de hoje!
    Acredito que é uma preocupação constante para nós mulheres e mães de mulheres a prática e a propagação da masculinidade tóxica !
    Me preocupa muito e muitas vezes fica pensando como devem se sentir as mães que geraram e criaram filhos que ainda nos dias de hoje proíbem mulheres de frequentar uma universidade ! Até que ponto vai sua responsabilidade e o seu poder de mudar isso ?

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