Meu querido adversário

O medo é um sentimento que costuma me rondar vez ou outra. É a ele que chamo, carinhosamente, de Querido Adversário. Querido, porque, se não fosse ele, eu não teria conseguido enfrentar algumas situações em minha vida. Situações que exigiram coragem, muita coragem e determinação.

E foi por causa dele também, medo de me expor, de receber críticas e não saber o que fazer com elas, de me diminuir frente aos outros e me sentir incapaz de colocar no papel as histórias que fervilhavam na minha cabeça, que comecei a escrever.

Esse sentimento, que teimava em se agigantar dentro de mim, me impedia de ver e de acreditar que, o que eu escrevia poderia ser interessante, não só para mim, mas para outras pessoas também.

Desde mocinha gostava de escrever, colocar no papel meus pensamentos e sentimentos. No colégio, no final do que hoje é o Ensino Médio, escrevia poesias de amor inspirada pela paixão que nutria por um professor de Literatura.

Foi por causa desse amor platônico que uma vez, em plena sala de aula, enfrentei meu Querido Adversário impetuosamente. O professor pediu que alguém lesse o Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes. E eu, em um rompante, me ofereci para ler o poema que até hoje sei de cor.

“De tudo, ao meu amor serei atento antes

E com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento…”

Na verdade não li, declamei apaixonadamente o poema para o professor! Os colegas da sala sabendo dessa paixão, riram. Meu rosto se incendiou, e o professor ficou desconcertado com a minha ousadia. Apesar da situação constrangedora, consegui derrotar meu Querido Adversário com uma boa rasteira.

Agora já mais madura, retomei meus escritos. Uma escrita intimista e despretensiosa. Mas, o que realmente me impulsionou a escrever e publicar meus escritos foi o que ouvi, ou melhor, li de um amigo com quem comecei a me corresponder durante a pandemia: “lidar com críticas é sempre complicado, mas na minha profissão ou você aprende, ainda que seja na paulada, ou desiste de fazer pesquisa competitiva!”. E mais uma vez vi meu Querido Adversário rolando de dor no chão com o soco que lhe apliquei no estômago, quando iniciei meu Instagram de escrita criativa. Mais um round vencido.

Com isso, entendi que existem algumas situações em nossas vidas que não tem jeito e é preciso enfrentar corajosamente, sem medo de apanhar, ou de ser criticada. E escrever tem sido um desafio diário, prazeroso e sofrido.

Explico: prazeroso pela grandeza da linguagem escrita, pela possibilidade de materializar os pensamentos e sofrido, porque o processo de escrita nos coloca em situação de confronto e fragilidade. Confronto com nossas crenças, sejam quais forem, e fragilidade diante das nossas emoções mais íntimas, secretas e inconfessáveis.

De qualquer maneira, decidi enfrentar o monstro da crítica, ou melhor, meu Querido Adversário, tendo clareza de que qualquer um pode opinar sobre o que bem quiser. Porém, cabe a mim decidir o que fazer com as opiniões alheias.

E foi assim, com o coração aos solavancos, que iniciei minha aventura no universo literário. Hoje me arrisco em editais de variados gêneros, participo de desafios de escrita e o que mais aparecer pela frente. É desse jeito que mantenho meu Querido Adversário na coleira, colado a mim. Afinal somos íntimos e sem suas provocações, com certeza cairia com facilidade na vala do fracasso, lugar comum dos que desistem fácil e não se permitem lutar. Às vezes, um olho roxo vale a pena, principalmente quando a luta é honesta e por uma boa causa.

Publicado por ceupassos

Escrevo e rabisco contos, crônicas e poemas. Faço colagens digitais e tudo mais que minha alma deseja e o corpo permite.

2 comentários em “Meu querido adversário

  1. Ah, Céu! Eu tb botei meus escritos na rua com o coração aos pulos, e o medo da rejeição existe o tempo todo. Por isso a gente se esforça pra sempre melhorar, e isso tenho percebido em mim, talvez vc tb tenha notado nos seus textos. É bom demais ter o medo do desconhecido e ainda assim enfrentar. Parabéns!

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