Querido Basílio

Lisboa, um dia qualquer de junho

Querido Basílio,

O abismo entre nós fez minhas lágrimas secarem, porém, ainda sinto na boca o gosto frio do punhal da humilhação, da chantagem e do abandono que cravaste em mim.

Ainda me consumo de arrependimentos, quando lembro que devia ter deixado no passado, aquele amor que chamastes de “inclinação infantil”. Quem dera pudesse voltar no tempo e sepultá-lo junto com as promessas que não cumpriste.

Aliás, meu caro, iludir é tua especialidade. Com ares de aristocrata, fazia-me crer que minha vida era sem graça. No fundo, uma das tuas estratégias perversas para que eu me sentisse frágil e insegura, e tu, um grande homem. A bem da verdade não passavas de um almofadinha, soberbo e entediante.

Ah, quanto sofrimento eu teria evitado se não tivesse me rendido à luxúria que me consumia. Sucumbi! Não resisti ao toque das tuas mãos libidinosas em meu corpo febril de paixão, nem às palavras sedutoras que me fizeram conhecer o paraíso, tão somente para depois descer ao inferno.

Ingênua! Mil vezes estúpida! Nosso paraíso, era como chamavas aquele quarto vulgar e pestilento onde nos encontrávamos. Que decepção. Trataste-me como uma qualquer. Como me dói saber que não fui mais do que um capricho em tuas mãos e que, passada a novidade de me possuir, o que restou foi tédio, desprezo e dores febris.

Apaixonada, fui tua de corpo e alma. Uma presa fácil para Juliana e sua chantagem, que me fez viver o desassossego das trevas na Terra. E, mais uma vez, não cumpriste tuas promessas.

Jorge, pobre Jorge! Meu marido não merecia passar por tamanha vergonha. Ele sofre e eu mais ainda, pois continuo a remoer infidelidade e ingenuidade. Não tenho paz. Talvez nunca venha a tê-la. Quanto a ti, meu caro, garanto que também não terás um só instante de sossego. Estarei em teus pesadelos até que tu, ao despertares, estejas nas profundezas do inferno, que é o teu lugar.

Com rancor,

Luísa

Publicado por ceupassos

Escrevo e rabisco contos, crônicas e poemas. Faço colagens digitais e tudo mais que minha alma deseja e o corpo permite.

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