EFÊMERO


Ela espreita e pela fresta vê a fina luz

Ninguém diz nada.

O incômodo cresce...

de quem era mesmo o mérito?

Do palhaço que rodopia ou da lona que protege do vento?

Qual deles será premiado?

A menina sorri e de soslaio vai em direção ao nada.

Inconformados, lona e palhaço se apavoram.

O prêmio é o efêmero instante da felicidade...passou.

O prêmio é o efêmero instante da felicidade…passou.

Sônia Souza

Sônia Souza

Adora podcasts, ouvir cigarras no final da tarde e café.

ENCONTRO

Por: Lidya Gois


No silêncio outra vez 
almejo ouvir a tua voz

Na brisa suave
sentir teu abraço

Enxergar tuas cores
na escuridão

Na tua direção
sigo em cada passo

Encontrar-me contigo
só consigo

Na quietude do meu coração

Lidya Gois

Acredita que sabedoria e simplicidade andam juntas.


Foto do post por: Miguel Ary

CONSTRUAM UM FOGUETE, MENINOS!

As crianças faziam barulho, correndo pela grama ainda úmida da garoa matinal. O cachorro corria e latia, pulava em suas pernas curtas, tentando alcançar as bolas de sabão, que pintavam aquele dia de multitons. A cada vez que o sol passeava por uma delas, um arco-íris parecia saltar para o nosso jardim.

E então eu acordei do meu sonho idílico.

O apartamento pequeno e quente, todos juntos na mesma cela para gastar menos energia elétrica, usando o único aparelho de ar condicionado que se esforça por cuspir pequenas migalhas frescas.

Discutem animadamente sobre o jogo. “Eu sou melhor!”, “Você é melhor? Não, eu sou o melhor!”, “Olha essa carta!”, “Cara, esse Pokémon é demais, troca comigo?”…

O cachorro dorme em silêncio, a barriga estendida no assoalho frio, família de patas.

Meu marido cobre os ouvidos com os fones, meus ouvidos também estão abafados pelo crescente da música, me permitindo aproveitar a companhia dos que amo e, ainda assim, manter meu espaço próprio de sanidade mental.

Alguém grita na rua por novas oportunidades de trabalho, alguém pede o direito de ir e vir, alguém deseja que as crianças possam estudar nas escolas.

Eu silencio minha mente com um bocado de meditação, pra não deixar que o todo engula os poucos neurônios que sobrevivem ao nosso ocaso, não posso deixar sucumbirem à falta de opção.


Em breve, não importa o que seja o futuro, em breve, correremos pela grama verde, ainda úmida, sob nossos pés descalços. Sentiremos a brisa suave, serão risos e latidos. E um abraço envolverá meu corpo carinhosamente, beijará meu ombro e meu rosto, enquanto apreciaremos a cena mais bucólica das nossas vidas.


Lippy Kids – elbow – lançamento em 07/03/2011 – Álbum “build a rocket boys!”. A música que inspirou a crônica.

Imagem em destaque disponível sob licença cc: https://pixy.org/src2/578/thumbs350/5787085.jpg

CAFETAL

Por: Daniela Echeverri

Nós quatro saímos da fazenda caminhando direto para o riacho, no riacho cada um procurava um lugar para submergir nas águas cristalinas e eu me concentrava em observar as correntes e brincar com as pedras.

Após a pequena passagem pelo riacho continuávamos para a frente.

O objetivo sempre era subir uma colina.

Ao longo do caminho, minha mãe e meu pai estavam sempre contando histórias e ensinando coisas novas.

Falavam de quando eram mais jovens e subiam as montanhas carregando os ingredientes para fazer um sancocho1 no pico da colina. Naquela época eles iam com todas as tias e talvez com  os avós.

As tias eram um matriarcado. Manuela, Lucy, Teresa, Nina, Leonor e minha avó Lucrencia, e   apenas dois homens: Gustavo e Neto. Neto foi morto pela violência.

As tias eram todas viúvas, separadas ou solteiras; Manuela, a mais velha, era alta e magra, tinha a presença de uma madre superiora. Ela era viúva e tinha várias filhas.

Quando ela fez oitenta anos, fizeram uma grande festa em Cafetal, foi a última festa que houve com as tias. Todas as tias estavam lá com seus filhos e netos, a fazenda estava lotada.

De manhã, os que estivessem acordando se reuniam para o café da manhã. Olivia – a empregada da fazenda – espremia laranjas para o suco, e um cheiro doce e cítrico espalhava-se pela cozinha.

No café da manhã tinha sempre torradas, arepas2, ovos mexidos, queijo fresco e chocolate.

Enquanto isso, Teresa cortava a cebola, o coentro, o tomate e o pimentão para fazer a pimenta passarinho que tinha colhido no quintal.

Enquanto alguns se levantavam para tomar café, outros iam dormir. Passaram a noite bebendo, cantando música de carrilera, dançando e contando histórias.

As filhas de Nina eram ótimas cantando música carrilera3:

“… Si no me querés te corto la cara
Con una cuchilla de esas de afeitar
El día de la boda te doy puñaladas
Te arranco el ombligo y mato a tu mamá…”

Vicente Bueno, filho único de Neto era quem contava as histórias da família, afinal, ele era o único que tinha o sobrenome Bueno na testa, seu destino era manter viva a história da família.

Depois do desjejum as tias ficavam contando histórias na mesa e minha mãe nos levava para tomar banho e nos arrumar.

1Sancocho: Panela composta de carne, mandioca, banana e outros ingredientes, e que se come no almoço.

2Arepa: Uma espécie de pão circular, feito com milho amolecido em fogo baixo e depois moído, ou com fubá pré-cozido, que é cozido na grelha.

3Música carilera: música popular colombiana.

Fotos desse post: Daniela Echeverri

O DISCURSO

Por: Sônia Souza

Ela se levantou e olhou a multidão

Seriam cem mil ou mais... 

De certo não estavam ali para filosofar.

A respiração suspensa e a dúvida dominando as veias.

Quem de mim começa a se apresentar? 

Um olhar de lado já define o prólogo.

De onde eu vim tem mais cem mil

Soberba insossa! 

Se tu queres me afligir 

Põe a alma a venda e reza para sumir!

Sônia Souza

Adora podcasts, ouvir cigarras no final da tarde e café.

SEMENTE


 Antes de brotar, semente
 A vida já existia
 Escondida e caprichosa
 Esperando um momento para se revelar
 E você veio me visitar em forma de inspiração
 Tomou forma palpável na minha alma
 Me visitou em meus sonhos
 De mansinho para eu não fugir
 Eu tinha medo
 Era solo árido
 E cresceu meu desejo de ouvir seu sorriso que eu ainda não conhecia
 De sempre te ver
 Semente, brotou no meu coração
 Fez tum-tum mudinha e se enraizou
 E um dia eu, que não sabia amar
 Te peguei no colo
 E você, brotinho
 Agora é raiz grossa, caule, seiva
 Primavera em luz
 Polidez poética
 Gentileza que abraça
 Você é um cadinho de tudo de bom 

Não vá embora ainda!

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LÍNGUA EM CHAMAS

Por: Daniela Echeverri

Às cinco da tarde, na saída da escola, caminhávamos pela avenida principal; íamos para a academia e antes paramos em vários lugares para comer.

Meu lugar favorito era a barraca de burrito. Quando pedimos o burrito, a mulher que anotou o pedido nos perguntou quantas listras de chili queríamos acrescentar. Normalmente pedia três ou quatro linhas, mas naquele dia Simon me desafiou a colocar trinta e sete.

Como uma boa pimenteira que sou, aceitei o desafio sem medo. O fogo subiu à cabeça, toda a boca ardeu e os lábios ficaram dormentes; nós dois acabamos chorando.

Photo: Adobe Stock

Não podíamos beber água porque ia piorar a situação, pois ia espalhar o tempero ardido por toda a nossa boca, então Martín nos deu a ideia de atravessar a avenida para ir até o carrinho de sorvete, que estava na promoção dois por um.

Eu não conseguia falar, tudo estava embaçado e as lágrimas escorriam pelos meus olhos.

Balancei a cabeça e aceitei a proposta de Martin, peguei-o pelo braço e me deixei guiar para atravessar a avenida.

A minha língua também estava dormente e quando a cobertura de chocolate tocou as papilas gustativas senti um alívio imediato, o chocolate derreteu na minha boca, parecia uma pomada calmante na ferida, e quando o creme entrou neutralizou completamente a queimação na boca. 

Aos poucos as lágrimas secaram e a vista ficou clara de novo, a cabeça se refrescou e pude olhar nos olhos dos meus amigos novamente, rimos alto durante cerca de dez minutos, retomamos a caminhada e nunca mais aceitei os desafios do Simon.


AMARELO

Por: Elaine Resende

Meus dentes amarelos não dizem nada de mim. Mas o olho que repuxa e a mão que balança denunciam a ansiedade. Os cafés e os cigarros, que não me deixam dormir e evitam a fome a qualquer hora, têm seu preço.

Entre um cigarro que pede um café e um café que implora a tragada, quatrocentas palavras são digitadas, céleres como meu pensamento torto. E quando saem da tela, vejo o amarelado da velhice dos escritos, como livro antigo em estante empoeirada. Pretendem o estrelato, serem clássicos antes mesmo de lidos, e espraiados como poeira no universo das letras.

Na chama que consome o cigarro, o tempo passa e as desditosas páginas se amontoam. Uma pilha de cacos desconexos do meu ser. O que está ali sobre a mesa sou eu em forma de prosa. Prosaica.

Escureceu. Troco o café por vinho. Tento tirar o cheiro amarelo dos dedos, dos dentes. Sou a chama que queima as pontas dos dedos. E as ideias maquinam sua nova versão de clássico.

Sorrio amarelo no espelho para a figura esquálida que me olha assustada. Há tempos não nos vemos. Impressiona-se com a palidez e grita comigo irritada que precisa parar de se esconder nas palavras. Quer forma nova, quer ter vida e se espalhar. Quer ser mais que a sombra que me acompanha enquanto desce o crepúsculo.

Respondo para acalmá-la “amanhã finalizo. O amanhã logo chega.” As letras pulam do teclado de volta às pontas dos dedos. Talvez essa seja a noite das promessas cumpridas.

Fotos desse post: Daniela Echeverri