Estou presa entre quatro paredes. Há um pouco de exagero nesta afirmação porque a casa onde moro é grande e tem muitas paredes.
Sinto-me terrivelmente só e busco nos quadros de fotografias que enfeitam a minha sala, sentir de novo a alegria dos encontros que não posso ter.
Minha mente é capaz de lembrar de cada gesto, de cada palavra e até de cada gargalhada que demos juntos. Depois me descubro sozinha de novo, quando volto a realidade.
Ocupo-me muito. Faço as tarefas domésticas que são impostas pelas necessidades de cada dia. Aqui estou só de novo. Não posso deixar ninguém entrar na minha casa, nem mesmo para me ajudar.
Crio trabalhos em crochê, minha paixão desde criança. Leio muito, os livros me levam a muitos lugares e muitas histórias.
Cozinho, trabalho que me fascina. Gosto de modificar receitas e criar novos pratos.
Vejo televisão ou fico online e leio e costuro e cozinho e olho as fotos e telefono e continuo me sentindo sozinha.
Sinto que preciso acrescentar ao meu dia algo mais. Vou até a janela da casa e vejo a rua barulhenta. Vejo também a obra que estão fazendo aqui perto. Poeira, conversas em voz alta, batidas fortes, cheiro de cimento etc. Surpreendo-me, nada mais me incomoda, tudo representa vida.
Percebo que no fundo do meu coração existe algo maior que tudo isto, existe esperança de que ainda possa abraçar, beijar e conviver. Agarro-me com força a esta certeza, levanto-me da cama para mais um dia.
Feliz por acordar e agradecida, preparo meu café da manhã.
Angelica
Apaixonada pela vida, sempre em busca de novos desafios.
Nesse cenário onírico, ela fazia parte de cada aventura e se sentia tão pertencente a aqueles lugares como os demais que ali transitavam com familiaridade.
Acordou no seu quarto preto e branco e nele passou todo o dia. Já tinha se acostumado a falta de cor. No começo foi estranho e tomou um susto, coração bateu rápido, esfregou os olhos para tentar trazer as cores de volta mas não conseguiu. Achou que era assim mesmo. Era tão jovem e conhecia tão pouco do mundo. Vai ver isso acontecia com todo mundo e ela é que não sabia.
A cor só voltava nos sonhos, quando revia todos os animes que tinha assistido e era visitada por todos os personagens incríveis que ela tinha aprendido a amar. No sonho era tudo fantástico. Ela tinha cor e andava ao lado daqueles personagens que pareciam tão vivos quanto ela. A cada sonho ela se apaixonava de novo por um personagem diferente, fosse homem ou mulher, fosse herói ou vilão. Os personagens eram sempre tão lindos, com seus cabelos coloridos e de cortes assimétricos, os olhos grandes e expressivos, o corpo tão perfeitamente delineado que nem parecia que nele seria possível caber todos os órgãos. Era muito fácil se apaixonar porque eles eram perfeitos e previsíveis. Ela sabia tudo de todos. Não haveria a menor possibilidade deles a surpreenderem com defeitos inesperados ou com um comportamento qualquer que ela desaprovasse. Eles eram perfeitos como só os personagens japoneses de duas dimensões poderiam ser.
Nesse cenário onírico, ela fazia parte de cada aventura e se sentia tão pertencente a aqueles lugares como os demais que ali transitavam com familiaridade. Ora ela era detetive em uma cidade mafiosa nas proximidades de Tóquio, correndo de mãos dadas com o menino que virava tigre e salvava até os inimigos porque ele era movido só pelo coração. No outro dia, ela era transportada para uma bucólica cidade pequena, empunhando seu arco no treino de kyudo, arrumando-se lindamente com seu hakama branco de saia longa e rodada, usado tanto por ela como pelos personagens homens. Porque a saia era para eles também e era tão natural que no sonho ela não lembrava que fora dele nem sempre isso é visto sem espanto.
E os dias se sucediam alternando sonho e realidade, a cor e a ausência dela. E a cada despertar, o desalento do quarto frio e sem graça. Ao invés de tentar dormir novamente e fugir daquela realidade mais uma vez, resolveu aproximar-se da janela para ver se colhia uma lufada de vento fresco que trouxesse algum espectro de normalidade àquela situação tão surreal de um mundo em preto e branco. Ao aproximar-se, não só sentiu um vento gostoso que a fez arrepiar-se por inteiro como viu uma folhinha verde que entrou no quarto e caiu no chão, talvez desprendida de alguma árvore.
Surpreendeu-se em perceber que a folha tinha cor.
Já estava ficando tão acostumada com um mundo sem cor que a folha verde, ao invés de alegrá-la, trouxe mais incertezas. Mas o ar fresco estava convidando-a a chegar mais perto da janela e ela não resistiu. Caminhou com cuidado, devagar, como quem tem medo de pisar em falso e cair. Chegou até a janela, abriu todas as folhas da esquadria, afastou as cortinas e lançou o olhar para fora do quarto. Foi uma explosão de cores e cheiros que quase a fizeram recuar instintivamente para se proteger dessas sensações. Lá fora o mundo pulsava em um ritmo diferente do que ela estava vivendo em sonho nas últimas semanas. Tinha cheiros e cores mais vivas e mais vibrantes do que aquelas dos sonhos que ela amava tanto.
Prolongou-se por muito tempo ali, contemplando aquela cena enquadrada da sua janela. Era só um pedacinho tão pequeno de mundo. Devia ter muito mais além do que ela estava vendo. Por algum motivo que agora ela não lembrava, ela tinha esquecido que aquele mundo existia ali, a poucos passos dela. Gostou do que via mas não quis admitir que a sensação era melhor do que as aventuras dos sonhos. Seus personagens amados iriam deixar de estar com ela nos sonhos se ela gostasse mais desse mundo de cá? Olhou para dentro do quarto e percebeu que a cor começava a preencher as paredes, os quadros pendurados, as roupas, os móveis… Viu os desenhos dos seus personagens pendurados no mural, suas coleções de mangás na estante. Tudo tinha cor. Deu uma gargalhada pois percebeu que o medo se desvaneceu em um calorzinho de esperança de que podia sim viver os dois mundos. E nunca mais aceitou viver sem cor.
durante um tempo tive ciúmes. não de corpos atravessados ou atravancados, ciúmes de um quê de todas as pessoas. dos sorrisos que te roubaram exibindo a nudez de seus dentes irregulares. das voltas que seus pés davam e tocavam um solo de redemoinhos balançado os braços do vento que produzia ao movimentar o ar, aquele que te tocava inteira, na curva de um tempo de aindas. e rangi os dentes pelo brilho dos seus olhos à luz de uma vela. do banco do trem da porta do ônibus do elevador do trinco da janela do sofá amarelo, aquele que suportou seu peso seu choro, seu gozo. Senti a falta de todo um eu que não estava lá.
Pesquisando sobre como fazer um pão de fermentação natural, fiquei fascinada pelo levain – o fermento natural.
É um processo longo, exige dedicação e atenção às instruções do modo de preparo; mas, acima de tudo, resiliência e altruísmo.
Aí você me pergunta por quê.
Porque mesmo depois da dedicação de tantos dias, parece que o levain tem vontade própria. Ele não depende do seu esforço para dar certo.
Li vários depoimentos de pessoas que aventuraram-se a fazer o fermento natural e foi unânime o comentário de que nunca se sabe se tudo terminará bem. O fermento não aumenta como deveria, o pão não cresce, ou cresce e desmorona. Cada um conta seus percalços com o levain.
Foi inevitável associar este processo de fermentação aos esforços e à vontade de ver avanços em meu filho.
Seiji é uma criança com paralisia cerebral e alguns traços do Espectro Autista. Tem nove anos, ainda não fala e não teme o perigo. Menino corajoso, forte, alegre, carinhoso e esperto (até demais quando convém).
É uma criança privilegiada. Não somos ricos, mas ele tem acesso à fisioterapia, fonoaudiologia, Atendimento Educacional Especializado, convênio médico, escola, cuidado, estímulo, muito amor e carinho.
Mesmo com tudo isso, ele é o levain mais lindo que já vi. Avança no seu tempo, nos ensina a cada dia o mais alto grau de altruísmo e, como diz o autor Andrew Solomon, em seu livro “Longe da árvore”, quebra todas as relações verticais; aprendemos a não esperar, a não criar expectativas, apenas a celebrar as conquistas do dia a dia e saber que não estamos sozinhos.
O universo de famílias das crianças com deficiências é muito maior do que imaginamos e acabamos formando uma rede de apoio entre pessoas fantásticas, escolhidas a dedo, para cultivar o levain mais demorado e precioso.
Um abraço!
Sou Cláudia Nagau, mãe da Joana, 12 e do Seiji, 9. Vivo na pele, a cada dia, as emoções de uma montanha russa. Num momento vivencio as descobertas e dilemas de uma pré-adolescente com altas habilidades e, no outro, as aventuras de um filho com deficiência em seu universo misterioso e cheio de aprendizagem. E assim, eu me doo na maternidade e vou tentando ser um ser humano melhor a cada dia.
Na calada dos desejos
Foi trancada a muitas portas (…)
Hesitou
Qual era mesmo o caminho de volta?
Não tem volta
Nunca tem
Então levantou os olhos
E abriu a parede
Mas não era o clima ou a noite de verão. Era o meu corpo. Estava no cio. Parecia um animal selvagem, espreitando a minha presa, pronta para o ataque.
Farejei atrás de suas orelhas, toquei as pontas de seus dedos com a minha língua. Meu corpo se curvava para frente e para trás suavemente, tentando explorar o corpo da presa com delicadeza para não a afugentar. Seu cheiro me deixava cada vez mais entusiasmada, querendo, desejando.
Talvez não fosse bem assim.
Ou talvez fosse. Mas era uma noite de segunda-feira na casa de uma dona de casa, nem tão bela, nem tão jovem. E nesses casos, isso efetivamente não existe. Era tema de novela picante, daquelas que passam tarde, depois das vinte e duas horas.
Eu sei, eu sei, mulheres do lar também têm tesão. Se o marido é gostoso, cheiroso e fica pronto para o combate rapidamente, por que não aproveitar?
Ah, porque a sobrevida desses momentos é fugaz… os três filhos, o cachorro e o papagaio que o digam. Ainda tem a TV ligada, a marmita do dia seguinte para preparar, o uniforme que ainda não foi engomado.
Dona de casa não tem vez! Cuida de todos antes de si. Quem cuida de mim?
Nessa noite não teria futebol na TV, não teria ônibus lotado, não teria a prova do menino no dia seguinte. Essas coisas só existem quando se concretizam. Nessa noite, não! Nessa noite a única coisa concreta era a TV ligada na novela e meu desejo de sentir minha presa entrelaçada em minhas pernas.
Ele não teria tempo, não teria vez.
Esse gozo eu guardei para mim, no fundo da gaveta, há muito tempo. E achei de surpresa, quero usar e vai ser hoje!
Retomo meus movimentos de ataque, minha camisola balança levemente quando o ventilador sopra a sainha rodada do tecido de jersey. Nem preciso de perfume, exalo meu desejo com uma bala de hortelã.
Ele sabe que essa noite ele é meu. Egoisticamente meu!
Uma buzina na rua me traz de volta à vida real. As crianças acordam, o cachorro late e o papagaio fala. O circo da frustração estende de pronto sua lona e tudo parece perdido.
Me sinto como a leoa cuja presa escapa por pouco. Volto de cabeça erguida ao quarto, a bala estralando entre os dentes, descarrego do insucesso na batalha.
Sinto o ataque pelas costas. De predadora sou presa. Agora, enredada no seu corpo, sou frágil. E me entrego feliz ao nosso ritmo. A felicidade vem em ondas para ambos. Não me importo em compartilhar.
Já há algum tempo eu tenho pensado muito na minha ancestralidade e no que as mulheres incríveis que vieram antes de mim me deixaram de legado.
Nesta semana que passou escutei a frase de que herança seria diferente de legado. Enquanto a herança seria o que você deixa para o outro, o legado seria o que você deixa “no outro”. Já há algum tempo eu tenho pensado muito na minha ancestralidade e no que as mulheres incríveis que vieram antes de mim me deixaram de legado. Para muito além dos genes que gentilmente recebi, tem nesse legado um quê de força, de dores, de crenças e valores passados de geração em geração e que chegaram até mim, ajudando-me a construir a pessoa em que me tornei, fosse replicando e repassando parte desse legado já transformado pelas minhas próprias vivências ou mesmo me rebelando e rompendo com ciclos deletérios que as fizeram mais sofrer do que florescer.
Quando a gente tenta voltar no tempo, não viajando por uma máquina como nos filmes de ficção científica, mas embarcando na nuvem fresca e macia das lembranças, comumente alcançamos mães, tias e avós. Felizes daquelas que puderam conhecer e conviver com suas bisavós, tendo a oportunidade preciosa de sorver in natura as histórias delas, relatadas com a vivacidade que nos transporta para um tempo antes de nós.
Tenho lembranças muito marcantes das minhas duas avós. Tanto da avó que beijei, abracei, que me alimentou, que me ensinou a andar de bicicleta e colocou mertiolate nas feridas das quedas da infância quanto da avó que meus olhos mundanos não alcançaram ver os seus, porque ela partiu antes de eu chegar. Para ambas, carrego comigo a sensação de que também são parte de mim e que se encaixam em várias partes do quebra-cabeça da minha identidade.
Minha vó Noeme foi a avó que conheci ao vivo e em cores. É a avó que tem cheiro de café e tapioca com coco fresco ralado por ela, que fazia chá de capim santo para eu tomar no café da manhã quando estava com dor de barriga. Ela era a avó que guardava só para mim a nata do leite fresco para colocar sal e eu comer com pão fresquinho quando eu aportava na casa dela nas férias escolares.
As lembranças mais recorrentes que tenho dela têm como pano de fundo o cenário da cozinha da casa de São Gonçalo. Cozinha que era só dela e de onde tolerava ruidosamente, uma vez ou outra, alguma ajudante intrusa. Adorava vê-la moer a carne em uma máquina manual que ela tinha, onde moía a carne junto com as ervas e verduras, potencializando o cheiro gostoso do tempero no calor da tarde. Fazia isso quando se levantava da sesta e depois de preparar o café para quem fosse chegando. Era sempre um vai-e-vem de tios e primos chegando para tomar esse café e ter um dedo de prosa com ela. Quando dormia mais tempo depois do almoço e a gente comentava, dizia: “Não dormi nada! Estava acordada o tempo todo, só com os olhos fechados”! E ríamos dizendo que ela não queria admitir que tinha dormido “demais”.
Na verdade, ela parecia se justificar porque talvez sentisse que não tivesse o direito de descansar. Vejo esse legado em algumas posturas das mulheres da minha família que têm essa cobrança interna e desmedida de que mulher e mãe não podem descansar porque tem sempre que estar atentas às necessidades dos seus. Os legados são assim mesmo, uma base em que construímos nossa identidade, replicando ou ressignificando as marcas que ficaram na gente.
Ela era a avó incansável em cuidar dos seus e o cuidado podia ser sentido no carinho de fazer a comida preferida de cada um, escolhendo os ingredientes e fazendo vários menus diferentes para agradar a todos, ainda que precisasse ir ao mercado quase todo dia, sob os protestos das filhas que reclamavam que ela se cansaria muito com esse movimento. Ela se sentia satisfeita em ver a mesa cheia dos seus sendo alimentados pela sua mão.
Lembro da vó Noeme ensinando-me a andar de bicicleta. Foram incontáveis as pedaladas em frente à igreja matriz, contornando a mangueira centenária em frente à casa, o asfalto ainda morno pelo início do anoitecer e os familiares já chegando para se reunirem sentados em cadeiras de balanço colocadas na calçada. Ela permanecia incansável, segurando a garupa da bicicleta de forma que eu não a visse. Sem vê-la, eu não percebia os momentos em que ela me deixava pedalar sem apoio, exercitando a confiança de que eu precisava para saber que iria conseguir, simplesmente porque ela estava ali.
A vó Noeme vivia tão intensamente em prol da família e do meu avô que cuidou dele até o último dia. E, depois da partida dele, ela também se deixou ir. Sua mente poderosa manteve seu corpo firme mesmo no avançar da idade porque ela entendia que ele precisava dela. Quando ele se foi, ela, de certa forma, também se permitiu descansar. A saga não foi curta nem fácil por toda uma vida, incluindo se mudar temporariamente com a família de filhos pequenos para acompanhar meu avô que se lançou à loteria de conseguir uma vida melhor embalado pelo ciclo da borracha na década de 50. A passagem pelo Norte não correspondeu às expectativas e eles retornaram ao Ceará trazendo pela mão a maior vitória dessa empreitada: minha mãe recém-nascida. A fortaleza da minha avó como mulher me inspira e me deixa um legado de amor incondicional e dedicação, ainda que eu exercite o ressignificar constante desse legado, entendendo-me como mulher que exerce outros papéis que minha avó, em seu tempo, não pôde exercer. Fosse pelas limitações que a vida lhe impôs em sua juventude, com escassez de recursos, de instrução e de apoio, reforçadas pelos costumes da época que a impediram de reinar para além dos muros da vida familiar.
O quadro em que pinto minha avó paterna, por sua vez, tem o colorido das mulheres criativas, pensantes, que causam admiração com o que constroem para além da vida doméstica.
Como não a conheci em vida, a imagem dela foi desenhada com o lápis das palavras e impressões dos que a conheceram. Assim, terá sempre uma aura de poesia, de etéreo, ao mesmo tempo em que sua vida foi tão real como o fato de eu estar aqui escrevendo sobre ela. Minha avó de corpo franzino, submissa ao meu avô paterno na vida familiar, mãe e avó quase ao mesmo tempo, tinha um jeito só dela de ganhar asas e inspirar as pessoas fora do círculo familiar. Minha avó Fransquinha Eulália escrevia cantigas para serem cantadas na igreja, hinos religiosos para o padroeiro da cidade, peças de teatro e até jingles para as campanhas políticas. Tudo isso no interior do Ceará, na década de 30, em meio às adversidades de viver em uma terra seca, em um distrito afastado da sede, com filhos, marido e casa para cuidar. Ainda assim ela encontrava uma forma de expressar o que acreditava, tal qual como eu estou fazendo agora.
Desde a minha infância, minha avó Fransquinha sempre foi apresentada como uma mulher muito inteligente e criativa. De tanto se falar nela, eu a imagino tal qual como se eu a tivesse visto em vida, de corpo inteiro, o jeito de andar e de falar, talvez fruto de uma miscelânea de outras mulheres em que a vejo refletida de alguma forma. Inclusive em mim que quase recebi o nome dela para chamar de meu, Eulália.
O quanto em mim vêm de todas essas mulheres, o quanto de mim está e ficará nas minhas filhas e nas filhas delas… não saberei dizer. Apenas saúdo a todas e agradeço pela força dessa ancestralidade que permitiu que eu estivesse aqui, com tantas escolhas e caminhos que cada uma dessas mulheres poderia ter seguido, todas escolheram, ainda que indiretamente, por mim.
Os legados são assim mesmo, uma base em que construímos nossa identidade, replicando ou ressignificando as marcas que ficaram na gente.
Ela disse adeus, e chorou. Ainda havia sinal de amor, mas era o fim. Ela já não estava feliz! Mas demorou para perceber, para aceitar e para se decidir.
Havia se perdido de si mesma.
Já não se reconhecia mais.
Distante de seus sonhos, seus desejos e expectativas.
Já consciente, sentiu o peso do relacionamento, de um futuro que não se desenhava. Depois a dor pela decisão que tinha que tomar.
Afinal, estava abrindo mão voluntariamente da ideia de um relacionamento amoroso que animava seus sonhos, mas também de tudo que a realidade a desagradava.
Renunciaria para voltar ao status de solteira. Quase um estigma, uma doença, um sinal de perigo para a sociedade. Afinal, “ – Nenhuma mulher escolhe estar sozinha”.
Enquanto homem solteiro é sinal de virilidade, mulher solteira pode causar estranhamento.
O que ela não sabia era que sua decisão não era pelo fim do relacionamento falido, que já tinha acabado. Ela estava escolhendo a si mesma, sua paz, sua felicidade, suas prioridades, sua autoestima, seu auto-amor.
Foi corajosa!
Mas ele a chamou de egoísta. Que simplesmente fora notificado do término, que não lhe foi dado chance ao diálogo! Oportunidade para corrigir o que não estava indo bem! Porque nada estava bem!
Também foi chamada de egoísta por ele não saber ler os sinais! A cada dia ela estava um pouco mais triste.
Ainda, foi chamada de egoísta por se dedicar a um relacionamento de mão única. Por amar e não ser amada.
Ela foi egoísta sim! É verdade!
Egoísta por se escolher, por se amar. Ela não precisava mais dele. Talvez nunca tenha precisado. Tinha a si mesma. Sua melhor companhia. Apenas se esquecera disso.
Ela disse adeus! Chorou! Era triste o fim. Um amor se acabou. Tinha aceitado! Se perdoado!
Ela sorriu. Sentiu-se em paz. Estava inteira novamente! Estava feliz! Um amor recomeçou.
Karina Freitas
Nascida em Niterói/RJ, residente na Capital Federal, desbravadora do cerrado. Ama natureza, trilha, pedalar, filmes, música, conversar bastante (gêmeos, já entendeu) e vez em quando se perder dentre as letras e as palavras.
Ela sorriu. Sentiu-se em paz. Estava inteira novamente! Estava feliz! Um amor recomeçou.