VOAR PARA LONGE

Voar para longe do que é ruim. Não adianta se apegar e agarrar aquilo que não faz sentido, o que não acrescenta em nada de bom para a vida. Voar para longe é a melhor solução. Voando para longe a vida te dá novas asas para que se possa chegar em novos endereços. 

Se algo parecer sem solução, se você não tem estratégias para sair de um mundo louco que te faz remoer e remoer mais de uma vez em cada pensamento; então voe para longe desse ambiente, pessoa ou qualquer seja o seu problema. 

O minuto seguinte sempre é de esperança. Voar para outra história em busca da alegria e de todo encanto que a vida pode te proporcionar. Não se apegue ao passado pois as novas oportunidades aparecem quando se desapega daquilo que não te traz felicidade e do que não lhe faz bem.

Então voe para longe sem medo de ser feliz.

Crédito da Imagem: Daniela Echeverri Fierro

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

LICENÇA PARA SER

Por: Sônia Souza

Na porta da cozinha ela se sente segura

Afinal, no doce lar, cada um tem seu espaço

Da porta da cozinha ela espreita a sala
Por vezes não acredita em tudo o que conquistou
Da porta da cozinha ela olha a janela
Lembra do diploma, prêmios, cargos conquistados
O sucesso ainda por vir
Mas... há uma linha invisível e forte
entre a porta da cozinha e o mundo
Que insiste em prender sem amarras
Constranger sem palavras
Paralisar sem pudor
Na porta da cozinha ela se sente segura
Afinal, no doce lar, cada um tem seu espaço
E transgredir é delírio de quem não é
Na porta da cozinha tudo se conforma
E quem canta a liberdade lá fora
Aqui é presa dócil
Da porta da cozinha
Vê-se a nudez da realidade
Árida e experiente
Mas... tudo passa
Desde que se continue
simples e irremediavelmente
na porta da cozinha

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

MELANCOLIA

Melancolia, uma harpa ressoa…

Esmeralda, ilha da minha saudade.

Livre, meu pensamento a ti retorna,

Atormentado, lhe abraça, dança e chora.

Nos olhos e coração, ondas, ondas…

Chove em mim o dia frio e cinza.

Outono das folhas secas caídas…

Longe de ti, longe do meu próprio ser

Inspiro-me em lembranças, canções…

Afoga-me, doe-me n’alma. Melancolia.


(Lívia Maria - 07/01/2018)

Crédito da Imagem: Lívia Maria

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.

CONQUISTE-SE

Por: Karina Freitas

Faria qualquer coisa para alcançar a felicidade que lhe garantiram.


Ela queria conquistar o mundo, mas não conquistou a si mesma.

Era jovem, bonita, dedicada e inteligente.

Era determinada, forte, competente e capaz.

Amava o trabalho.

Tinha acabado de ser promovida.

Teria um futuro promissor.

Respeitada por clientes,

querida por amigos,

amada pela família,

cuidava de todos. 

Tinha alcançado o sucesso.

Amava a família, o cachorro e a bicicleta.

Pedalava para buscar sua paz.

Era livre e independente.

Mas…não era feliz.

Não se amou de verdade.

Não aceitava sua imagem, seu corpo, nem sua essência.

Achava-se feia e nada atraente.

Buscava  o padrão de beleza do mundo para agradar o mundo que não a agradava.

Queria ser aceita socialmente, se sentir amada.

Queria um amor que a acompanhasse nesta jornada chamada Vida.

Acreditava que seu fracasso amoroso era devido à sua aparência.

Invejava o sucesso das amigas com assuntos do coração.

Queria uma beleza irreal, fabricada, se sentir desejada.

Tentou se encaixar no padrão do mundo: lhe garantiram a plena felicidade.

Fez dieta, fazia exercícios e vários procedimentos estéticos.

Mas nada disso bastava.

Queria mais, queria ser completa.

Faria qualquer coisa para alcançar a felicidade que lhe garantiram.

Estava disposta a pagar preço, mas pagou com a própria vida.

Aceitou se submeter a uma cirurgia com o sonho de sentir-se bonita e desejável.

As coisas saíram dos planos, passou por complicações…

Ela não resistiu.

Tentando ser aceita pelo mundo, não aceitou a si mesma.


Crédito da Imagem: Daniela Echeverri

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.

GATA NO CIO

Por: Rosi Santos

Em cada salto, uma esperança de matar a vontade de algo que nunca experimentou.

E ela amanheceu assim, completamente no cio! É um desespero de contorções, um desassossego de movimentos, nada tá bom, nada tá satisfatório. E ela segue no seu sofrimento matinal ao longo do dia…

Comer e beber é um sacrifício, falta concentração, foco, vontade. Em movimentos circulares e repetitivos, ela percorre todo o quarto, a sala, a cozinha… espera uma brecha pra fugir em busca de satisfazer sua vontade.

Por quantos dias ela ficará desse jeito? É perturbador, angustiante, sentir tanta necessidade e não poder saciá-la… tô ficando cansada por ela, quero ajudar e não sei como…

Tento conversar, acarinhar, deixa-la confortável, mas nada ajuda, nada faz efeito, nada alivia esse tormento da natureza felina…

Em cada salto, uma esperança de matar a vontade de algo que nunca experimentou, é o primeiro cio e ela não sabe o que é isso, ela não sabe como fartar tanto desejo, só sente… e espera…

De repente ela para, se posiciona e espera… espera por algo, espera o preenchimento, espera a penetração, espera um momento fugaz de prazer e nada…

Janelas e portas fechadas impedem que ela fuja, impedem que um intruso entre, impedem um momento de prazer irracional, impedem a concretização do instinto de reprodução, impedem que a população felina dos arredores aumente…

Sigo contemplando esse estado de excitabilidade profunda, pensando nas minhas carências e necessidades há tanto tempo esquecidas, há tanto tempo camufladas, há tanto tempo deixadas de lado…

Então somos duas fêmeas desejando satisfazer de tanto desejo: pra mim adormecido e pra ela novidade…

Queremos acasalar, mas não procriar. Eu posso e consigo, sei como ter o prazer sem cria…Ela não… Quando for castrada perderá esse desejo sôfrego, essa necessidade, essa inquietação…

Agora ela adormeceu e está sossegada. E eu também. Faz um tempo que despertei pra vida dos orgasmos múltiplos, das caricias intimas, dos beijos nos pescoço e tenho gostado de viver de novo tanta coisa boa…

Castração agendada para início de maio/2021, falta pouco Dandara! Falta pouco pra você ficar livre desse tormento pra sempre… te prometo… você terá uma vida tranquila, segura, estável, poderá comer e beber em paz, brincar sem amarras, dormir onde e como quiser!

Mas eu estou embarcando numa viagem inversa. Quero a inquietação e o desassossego de um relacionamento… quero as incertezas e as possibilidades infinitas de fracasso e sucesso… quero deitar de um jeito e acordar de outro, todo dia… quero me sentir diferente, vulnerável e um tanto insegura… quero as expectativas, as emoções e muito gozo… quero viver plenamente meus cios!


Rosi Santos

Artesã, apaixonada por gatos, apaixonada pela vida.


CASA SOLAR

Em janeiro do ano passado, participei de um desafio epistolar com uma comunidade de mulheres de língua espanhola. Nos três dias de desafio, enviei três cartas a uma estranha e devia receber três cartas de outra estranha.

Recebi uma bela carta de uma professora de literatura que morava em Cali, uma cidade tropical do interior da Colômbia onde – como ela diz – às vezes chove, mas nunca faz muito frio.

Ela me contou que mora em uma casa grande e amarela com quatro desconhecidas que sempre se ajudam ente elas.  Como aquela vez em que seu gato ficou preso em algum lugar do jardim e todas a ajudaram a resgatá-lo.

Ela só me escreveu uma vez e durante algum tempo eu checava ansiosamente meu e-mail todos os dias, na esperança de receber a segunda e a terceira carta contando sobre sua vida tropical, mas essa carta nunca chegou.

Eu me interessei muito pela história dela, pois além de ser professora de literatura – profissão que considero maravilhosa – ela morava em Cali, cidade onde nasceu um movimento cultural nos anos 70, que alguns chamavam de Caliwood, muito rico em cultura e artes. A cidade da salsa, La María de Jorge Isac, Sandro Romero Rey, Patricia Restrepo, Pilar Quintana, Andrés Caicedo, Luis Ospina, Carlos Mayolo, o pandebono¹ e o chontaduro².

Pensei em escrever-lhe de novo para que me contasse mais sobre a sua vida e escrevesse uma crónica mais real, confesso que tenho alguns receios de escrever sobre uma cidade que não é minha, que nunca foi, mas de alguma forma senti que foi minha através da literatura, música e as curtas passagens que tive por ela.

Também tive medo de arriscar e ela me dissesse – como disse uma vez Luis Ospina – que o narcotráfico acabou com a cultura de Cali, ou que em Cali agora só existe o futebol, como já disse Sandro Romero Rey.

Decidi então criar minha própria versão da Carla, aquela professora de literatura que passava noites inteiras em frente à máquina de escrever tomando café e escrevendo poemas, escrevia palavras aleatórias que rimavam umas com as outras e depois juntava para criar belos versos.

Imaginei que ela chamava aquela casa grande e amarela de Casa Solar e suas quatro companheiras de casa também eram artistas e de vez em quando realizavam exposições de fotografia e peças de teatro abertas ao público no quintal da casa.

Ela ouvia “Elsa y Elmar” e dava aulas de literatura na Universidade del Valle, onde o fantasma do jovem escritor Andrés Caicedo a perseguia pelos corredores, nos quais o viu parado entre as ondas do oceano Pacífico que tinham viajado centenas de quilômetros até entrar no recinto.

Falava para seus alunos sobre “Que viva la música” e “El Atravesado” de Caicedo, “Las cerimónias del deseo” de Sandro Romero Rey e “La perra” de Pilar Quintana.

Aos sábados, gostava de passear nas livrarias e de vez em quando estacionava no corredor para ler um poema achado entre as prateleiras.

À tarde, quando voltava da faculdade com fome, comia chontaduro com mel e sal sentada no terraço de seu quarto observando o pôr do sol e acariciando seu gato, enquanto ouvia Let it bleed dos Rolling Stones.

E depois de imaginá-la de muitas maneiras e em muitos lugares, imaginei-a lendo essa história e me mandando para o inferno de raiva por ter inventado uma ficção tão distante de sua realidade simples e plana.

E depois de me mandar para o inferno, ela continuaria comendo, escrevendo, ensinando, dançando, continuaria sendo o que sempre foi. https://www.youtube.com/watch?v=JXw9HXXcUK4&ab_channel=ElsayElmar

¹ Produto de panificação típico do Departamento de Valle del Cauca com alguma semelhança com o pão de queijo.

²Fruto vermelho ou amarelo comestível

Instagram, Lord Byron, Ada Lovelace e as coincidências divertidas da vida

Por: Elaine Resende

Alguém há de comentar laconicamente que tudo ficou mais tedioso depois do smartphone. Um pouco, tenho que concordar!

Para contar uma boa história muitos elementos são necessários. Precisa ter bons personagens, enredo cativante, as primeiras linhas devem entreter seu leitor para que ele não vá embora. Às vezes eu vou! E faço isso também em filmes.

Não consigo passar muito tempo lendo algo com o qual não me identifico, nem mesmo vendo um filme que não me agrada, e me perdoo por isso. Alguém há de comentar laconicamente que tudo ficou mais tedioso depois do smartphone. Um pouco, tenho que concordar!

Um post no Instagram, por exemplo, é uma história curta com 2.200 caracteres, que cabe no tempo de uma leitura de 2 minutos. Em um único post, uma vida narrada. Para os excelentes escritores, uma linha basta. Para mim, tateando no escuro dos meus pensamentos, uso cada uma das linhas que me é permitida. Mas não continuo nos comentários, como vejo ocorrer vez ou outra. Acho ruim o suspense, a quebra. Melhor cortar no texto e deixar tudo na linha de visão do leitor.

Li de um escritor, o cronista recém falecido Contardo Calligaris, que ele precisava fazer muitas coisas, ler e ouvir outras tantas, para escrever sua crônica semanal para um grande jornal paulista. Ele precisava ter o que contar para tanta gente que valesse a pena ser lido. Me peguei pensando na vida interessante que ele deve ter vivido por conta de sua profissão. Percebi que, assim como ele, vivo em busca de coisas interessantes para alimentar minha vida e meus textos.

Dentre os meus interesses da semana surgiu a escritora Renata Corrêa (@letrapreta), que comecei a seguir no Twitter. Em sua publicação ela informa que assiste ao BBB – Big Brother Brasil – enquanto lê um bom livro (assim as pessoas param de reclamar do programa, nas palavras dela), e compartilha sua lista atualizada a cada livro que termina. Deus, perdoa, que baita inveja eu senti daquela organização! Enquanto isso, ela escreve para a TV, trabalha em sua vida de roteirista, apresentadora de podcast e escritora. Eu sigo levando meus dias como malabarista de pratos, o que também é bastante trabalhoso.

Outra história que ouvi nessa semana veio de uma escritora que tem as melhores Newsletter do mundo. Estava ouvindo o podcast da Aline Valek (@alinevalek), Bobagens Imperdíveis, e ela lembrou que desde criança já escrevia, fazia zines e roteiros para suas bonecas Barbie, brincando de ser aquilo que se tornaria sua profissão no futuro. Daí veio uma grande revelação: eu brincava de ser bancária. Se comecei uma carreira literária, culpem minhas professoras de português!

Não tenho certeza se posso chamar escrita de profissão, acho que está mais para vocação, assim como o sacerdócio, no qual se aceita que há um chamado muito maior que deve ser acatado. Escrevemos mesmo quando isso não nos remunera o suficiente para pagar um cafezinho no boteco da esquina. A necessidade de escrever é anterior a racionalidade, ao cérebro organizado, ao projeto e ao planejamento. Só se precisa escrever.

E será que para escrever tem que ler, assistir filmes, ver desenhos animados, ouvir o que toca nas rádios, acompanhar as novelas e o jornal, numa busca implacável pela novidade? Talvez não! Esse pode ser o meu estilo de escrita, mas não precisa ser o seu. A sua escrita pode brotar simplesmente dentro de você, como uma planta espontânea que cresce sem ser cultivada, uma flor de tiririca amarelinha que enfeita os campos. E, assim como a flor, ser linda e tocar os corações, porque toda história que precisa ser contada é uma história que importa.

Noite passada aconteceu um desses momentos em que ouvi o chamado da caneta e do papel, meu sacerdócio.

Byron, nosso cachorrinho que tem seu nome inspirado no escritor romântico Lord Byron, foi protagonista dessa história de coincidências. Ele invadiu minha reunião virtual e seu nome foi motivo de alegria por parte da coordenadora do evento, pois seu irmão tem uma cadelinha chamada Ada Lovelace, mesmo nome da filha de Lord Byron. Essa é uma das coisas que só o destino nos traz.

Quer mais? Deu vontade de sentar na hora e escrever sobre isso tudo. E contar que Lord Byron, o poeta, era um namorador incorrigível que teve medo, e por isso casou-se com Annabella, a quem ele chamava Princesa dos Paralelogramos, uma mulher genial amante da matemática. Dessa união nasceu Ada Lovelace, a mulher danada de boa que uniu o conhecimento matemático de sua mãe com a poesia de seu pai, e projetou a inteligência do que seria a máquina conhecida 100 anos mais tarde como o primeiro computador. Li trechos de cartas escritas por eles, verdadeiras obras de arte.

Essa foi uma semana de leitura de colunas de jornais, que assim como os posts do Instagram, são textos mais curtos. Foi tanta gente que não cabe num só texto! Para encerrar, a última que li foi da Socorro Acioli (@socorroacioli), escritora e colunista de um grande jornal cearense, que veio por mensagem de um amigo. Ela falava da leitura em tempos de pressa e das muitas vidas que precisaríamos ter para ler todos os livros de uma biblioteca caseira, tal qual essa que tenho aqui em casa. Sugestão dela (e minha): saboreie os clássicos, deguste os demais.

Sobre não terminar a leitura de um livro ou um filme, preciso confessar que ainda sinto a curiosidade de saber o fim. Muitas vezes volto como quem não quer nada, naquele tempo que perderia com qualquer coisa sem sentido, e finalizo a pendência, saciando meu desejo de saber como acaba a história. Sem expectativas, apenas como observadora. Como diria Francine Prose, lendo como uma escritora.


Foto: Mauricio Mercandante (Flickr, 2020)

O EXEMPLO DO GIRASSOL

Nesse mundo de especialistas estamos perdendo o nosso olhar aberto. O olhar simples que percebe a eterna transitoriedade do mundo.

Por: Karla Militão

Parafraseando Fernando Pessoa; quero meu olhar nítido como um girassol que olha para o lado direito e para o lado esquerdo e de vez em quando também olha para trás. Desejo nunca perder a flexibilidade de poder olhar em várias direções e principalmente desejo sempre ver algo novo. Uma novidade que estava escondida e que quando revejo me espanta por não ter percebido antes.

Nesse mundo de especialistas estamos perdendo o nosso olhar aberto. O olhar simples que percebe a eterna transitoriedade do mundo. Nesse olhar fixo que só busca uma única direção vamos deixando o inusitado passar ao largo de nossas experiências.  Nossa inflexibilidade nos coloca uma viseira ensimesmada que reduz o nosso deslumbramento e a capacidade de acreditar no milagre do vir a ser. Vamos perdendo nossos sonhos ou quando não perdermos deixamos eles adormecerem ao lado da nossa condição transformadora do nosso próprio ser.

Quero ser como um girassol que tem todas as pétalas abertas mesmo quando o sol não esta brilhando no horizonte ou quando há ameaças de um temporal.

Quero seguir sempre em frente, mesmo que as vezes precise recomeçar e que dez passos para trás seja necessário dar. Mesmo que muitas vezes precise olhar novamente para algo que ainda não havia compreendido ao olhar de relance pela primeira vez. Ao olhar para a realidade desejo ver seus ângulos e recantos e não me prender apenas na minha subjetividade. Sem conflito, sem negação ou idolatria. Se for necessário pedir perdão, por um mal juízo de valor.

Quero meu olhar nítido como um girassol de visão ampla e inclusiva. Que não desiste nunca de enxergar a constante novidade que é a vida.


Karla Militão

Psicanalista, graduanda em Psicologia, leitora apaixonada e aprendiz no mundo da escrita.


<p value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80"><strong>Foto: Daniela Echeverri</strong>Foto: Daniela Echeverri

Por: Angelica

Estou presa entre quatro paredes. Há um pouco de exagero nesta afirmação porque a casa onde moro é grande e tem muitas paredes.

Sinto-me terrivelmente só e busco nos quadros de fotografias que enfeitam a minha sala, sentir de novo a alegria dos encontros que não posso ter.

Minha mente é capaz de lembrar de cada gesto, de cada palavra e até de cada gargalhada que demos juntos. Depois me descubro sozinha de novo, quando volto a realidade.

Ocupo-me muito. Faço as tarefas domésticas que são impostas pelas necessidades de cada dia. Aqui estou só de novo. Não posso deixar ninguém entrar na minha casa, nem mesmo para me ajudar.

Crio trabalhos em crochê, minha paixão desde criança. Leio muito, os livros me levam a muitos lugares e muitas histórias.

Cozinho, trabalho que me fascina. Gosto de modificar receitas e criar novos pratos.

Vejo televisão ou fico online e leio e costuro e cozinho e olho as fotos e telefono e continuo me sentindo sozinha.

Sinto que preciso acrescentar ao meu dia algo mais. Vou até a janela da casa e vejo a rua barulhenta. Vejo também a obra que estão fazendo aqui perto. Poeira, conversas em voz alta, batidas fortes, cheiro de cimento etc. Surpreendo-me, nada mais me incomoda, tudo representa vida.

Percebo que no fundo do meu coração existe algo maior que tudo isto, existe esperança de que ainda possa abraçar, beijar e conviver. Agarro-me com força a esta certeza, levanto-me da cama para mais um dia.

Feliz por acordar e agradecida, preparo meu café da manhã.

Angelica

Apaixonada pela vida, sempre em busca de novos desafios.


Foto: Daniela Echeverri

PALETA DE CORES

Por: Lidianne Monteiro

Nesse cenário onírico, ela fazia parte de cada aventura e se sentia tão pertencente a aqueles lugares como os demais que ali transitavam com familiaridade.

Acordou no seu quarto preto e branco e nele passou todo o dia. Já tinha se acostumado a falta de cor. No começo foi estranho e tomou um susto, coração bateu rápido, esfregou os olhos para tentar trazer as cores de volta mas não conseguiu. Achou que era assim mesmo. Era tão jovem e conhecia tão pouco do mundo. Vai ver isso acontecia com todo mundo e ela é que não sabia.

A cor só voltava nos sonhos, quando revia todos os animes que tinha assistido e era visitada por todos os personagens incríveis que ela tinha aprendido a amar. No sonho era tudo fantástico. Ela tinha cor e andava ao lado daqueles personagens que pareciam tão vivos quanto ela. A cada sonho ela se apaixonava de novo por um personagem diferente, fosse homem ou mulher, fosse herói ou vilão. Os personagens eram sempre tão lindos, com seus cabelos coloridos e de cortes assimétricos, os olhos grandes e expressivos, o corpo tão perfeitamente delineado que nem parecia que nele seria possível caber todos os órgãos. Era muito fácil se apaixonar porque eles eram perfeitos e previsíveis. Ela sabia tudo de todos. Não haveria a menor possibilidade deles a surpreenderem com defeitos inesperados ou com um comportamento qualquer que ela desaprovasse. Eles eram perfeitos como só os personagens japoneses de duas dimensões poderiam ser.

Nesse cenário onírico, ela fazia parte de cada aventura e se sentia tão pertencente a aqueles lugares como os demais que ali transitavam com familiaridade. Ora ela era detetive em uma cidade mafiosa nas proximidades de Tóquio, correndo de mãos dadas com o menino que virava tigre e salvava até os inimigos porque ele era movido só pelo coração. No outro dia, ela era transportada para uma bucólica cidade pequena, empunhando seu arco no treino de kyudo, arrumando-se lindamente com seu hakama branco de saia longa e rodada, usado tanto por ela como pelos personagens homens. Porque a saia era para eles também e era tão natural que no sonho ela não lembrava que fora dele nem sempre isso é visto sem espanto.

E os dias se sucediam alternando sonho e realidade, a cor e a ausência dela. E a cada despertar, o desalento do quarto frio e sem graça. Ao invés de tentar dormir novamente e fugir daquela realidade mais uma vez, resolveu aproximar-se da janela para ver se colhia uma lufada de vento fresco que trouxesse algum espectro de normalidade àquela situação tão surreal de um mundo em preto e branco. Ao aproximar-se, não só sentiu um vento gostoso que a fez arrepiar-se por inteiro como viu uma folhinha verde que entrou no quarto e caiu no chão, talvez desprendida de alguma árvore.

Surpreendeu-se em perceber que a folha tinha cor.

Já estava ficando tão acostumada com um mundo sem cor que a folha verde, ao invés de alegrá-la, trouxe mais incertezas. Mas o ar fresco estava convidando-a a chegar mais perto da janela e ela não resistiu. Caminhou com cuidado, devagar, como quem tem medo de pisar em falso e cair. Chegou até a janela, abriu todas as folhas da esquadria, afastou as cortinas e lançou o olhar para fora do quarto. Foi uma explosão de cores e cheiros que quase a fizeram recuar instintivamente para se proteger dessas sensações. Lá fora o mundo pulsava em um ritmo diferente do que ela estava vivendo em sonho nas últimas semanas. Tinha cheiros e cores mais vivas e mais vibrantes do que aquelas dos sonhos que ela amava tanto.

Prolongou-se por muito tempo ali, contemplando aquela cena enquadrada da sua janela. Era só um pedacinho tão pequeno de mundo. Devia ter muito mais além do que ela estava vendo. Por algum motivo que agora ela não lembrava, ela tinha esquecido que aquele mundo existia ali, a poucos passos dela. Gostou do que via mas não quis admitir que a sensação era melhor do que as aventuras dos sonhos. Seus personagens amados iriam deixar de estar com ela nos sonhos se ela gostasse mais desse mundo de cá? Olhou para dentro do quarto e percebeu que a cor começava a preencher as paredes, os quadros pendurados, as roupas, os móveis… Viu os desenhos dos seus personagens pendurados no mural, suas coleções de mangás na estante. Tudo tinha cor. Deu uma gargalhada pois percebeu que o medo se desvaneceu em um calorzinho de esperança de que podia sim viver os dois mundos. E nunca mais aceitou viver sem cor.      


Ilustração: Isabel Monteiro