PALETA DE CORES

Por: Lidianne Monteiro

Nesse cenário onírico, ela fazia parte de cada aventura e se sentia tão pertencente a aqueles lugares como os demais que ali transitavam com familiaridade.

Acordou no seu quarto preto e branco e nele passou todo o dia. Já tinha se acostumado a falta de cor. No começo foi estranho e tomou um susto, coração bateu rápido, esfregou os olhos para tentar trazer as cores de volta mas não conseguiu. Achou que era assim mesmo. Era tão jovem e conhecia tão pouco do mundo. Vai ver isso acontecia com todo mundo e ela é que não sabia.

A cor só voltava nos sonhos, quando revia todos os animes que tinha assistido e era visitada por todos os personagens incríveis que ela tinha aprendido a amar. No sonho era tudo fantástico. Ela tinha cor e andava ao lado daqueles personagens que pareciam tão vivos quanto ela. A cada sonho ela se apaixonava de novo por um personagem diferente, fosse homem ou mulher, fosse herói ou vilão. Os personagens eram sempre tão lindos, com seus cabelos coloridos e de cortes assimétricos, os olhos grandes e expressivos, o corpo tão perfeitamente delineado que nem parecia que nele seria possível caber todos os órgãos. Era muito fácil se apaixonar porque eles eram perfeitos e previsíveis. Ela sabia tudo de todos. Não haveria a menor possibilidade deles a surpreenderem com defeitos inesperados ou com um comportamento qualquer que ela desaprovasse. Eles eram perfeitos como só os personagens japoneses de duas dimensões poderiam ser.

Nesse cenário onírico, ela fazia parte de cada aventura e se sentia tão pertencente a aqueles lugares como os demais que ali transitavam com familiaridade. Ora ela era detetive em uma cidade mafiosa nas proximidades de Tóquio, correndo de mãos dadas com o menino que virava tigre e salvava até os inimigos porque ele era movido só pelo coração. No outro dia, ela era transportada para uma bucólica cidade pequena, empunhando seu arco no treino de kyudo, arrumando-se lindamente com seu hakama branco de saia longa e rodada, usado tanto por ela como pelos personagens homens. Porque a saia era para eles também e era tão natural que no sonho ela não lembrava que fora dele nem sempre isso é visto sem espanto.

E os dias se sucediam alternando sonho e realidade, a cor e a ausência dela. E a cada despertar, o desalento do quarto frio e sem graça. Ao invés de tentar dormir novamente e fugir daquela realidade mais uma vez, resolveu aproximar-se da janela para ver se colhia uma lufada de vento fresco que trouxesse algum espectro de normalidade àquela situação tão surreal de um mundo em preto e branco. Ao aproximar-se, não só sentiu um vento gostoso que a fez arrepiar-se por inteiro como viu uma folhinha verde que entrou no quarto e caiu no chão, talvez desprendida de alguma árvore.

Surpreendeu-se em perceber que a folha tinha cor.

Já estava ficando tão acostumada com um mundo sem cor que a folha verde, ao invés de alegrá-la, trouxe mais incertezas. Mas o ar fresco estava convidando-a a chegar mais perto da janela e ela não resistiu. Caminhou com cuidado, devagar, como quem tem medo de pisar em falso e cair. Chegou até a janela, abriu todas as folhas da esquadria, afastou as cortinas e lançou o olhar para fora do quarto. Foi uma explosão de cores e cheiros que quase a fizeram recuar instintivamente para se proteger dessas sensações. Lá fora o mundo pulsava em um ritmo diferente do que ela estava vivendo em sonho nas últimas semanas. Tinha cheiros e cores mais vivas e mais vibrantes do que aquelas dos sonhos que ela amava tanto.

Prolongou-se por muito tempo ali, contemplando aquela cena enquadrada da sua janela. Era só um pedacinho tão pequeno de mundo. Devia ter muito mais além do que ela estava vendo. Por algum motivo que agora ela não lembrava, ela tinha esquecido que aquele mundo existia ali, a poucos passos dela. Gostou do que via mas não quis admitir que a sensação era melhor do que as aventuras dos sonhos. Seus personagens amados iriam deixar de estar com ela nos sonhos se ela gostasse mais desse mundo de cá? Olhou para dentro do quarto e percebeu que a cor começava a preencher as paredes, os quadros pendurados, as roupas, os móveis… Viu os desenhos dos seus personagens pendurados no mural, suas coleções de mangás na estante. Tudo tinha cor. Deu uma gargalhada pois percebeu que o medo se desvaneceu em um calorzinho de esperança de que podia sim viver os dois mundos. E nunca mais aceitou viver sem cor.      


Ilustração: Isabel Monteiro

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