UMA CARTA PARA VOCÊ

Quando estávamos na escola, minhas amigas e eu, preocupadas com o inevitável fim das cartas escritas, decidimos criar um “clube de cartas” e para facilitar a logística o fizemos por e-mail.

Não me lembro do conteúdo de nenhuma das cartas, já verifiquei meu e-mail de acima a abaixo e definitivamente não consigo encontrá-las, com certeza as apaguei em algum momento de tristeza.

Enfim, como esperávamos, perdemos aquele lindo hábito de escrever cartas e as cartas viraram e-mails e os e-mails passaram a ser SMS, e o SMS a mensagens de WhatsApp e as mensagens de WhatsApp  emojis.

Durante anos, as cartas inspiraram histórias, romances, filmes e personagens. Os personagens que mais me interessam são aqueles que escreviam cartas de amor para outros, que ajudavam a amigos e estranhos a conquistarem através de textos românticos.

 Há poucos dias conheci uma verdadeira escritora de cartas de amor de carne e osso, e não pude deixar de lembrar de Florentino Ariza que amava tanto Fermina Daza que se dedicava a declarar-lhe seu amor a traves das cartas que escrevia para outras pessoas.

Depois que o e-mail passou a fazer parte das narrativas cinematográficas, o filme “Mens@gem Para Você” que em 1998 retratou perfeitamente aquele frio no estômago que Kathleen (Meg Ryan) sentia quando recebia um e-mail da Joe Fox (Tom Hanks), seu amigo misterioso que tinha conhecido pela internet.

Ontem à noite senti aquele frio quando recebi uma carta em meus sonhos, era uma carta física que estava em minhas mãos, mas não era escrita à mão ou à máquina de escrever, eram letras recortadas de revista e periódicos nos mais diversos tamanhos, estilos e cores, como os sequestradores dos anos 80 e 90 para que ninguém reconhecesse a sua caligrafia.

Apesar de a carta não ter sido assinada por ninguém, eu sabia de quem era e enquanto lia, ficava feliz em saber que acompanhava minha vida, que lia minhas crônicas e contos, e conhecia minhas amigas.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi verificar meu celular para ver se tinha recebido algum e-mail, não encontrei nada, mas soube que outras pessoas também tinham recebido algumas cartas nos seus sonhos.

Crédito da imagem: Foto por Pexels

“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

PORTÕES

Eu abri meus olhos…

Com eles, minha mente.

Horizonte em cinza…

Céu em nuvem, carregado

Trazendo inspiração.

Fechei, tranquei portões

O vento que me embala,

Sopra hoje, canta agora!

Não há mais passado

Que me sirva no presente.

A chuva que desce e dança

Me envolve e me banha

Lava corpo, peito e alma.

E minha alma se expande

Meu coração se colore…

Se preenche de luz e vida

Eu abri meus olhos…

Com eles, minha mente.

Horizonte em cinza…

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(Lívia Maria – 27/12/2017)

Crédito da imagem: Foto por Lívia Maria

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VALE CARIOCA

Por: Elaine Resende

Peguei os exames na gaveta, coloquei na sacola de pano e dei uma última olhada no espelho. Tenho orgulho de parecer uma cobra que engoliu um boi. A roupa não esconde mais a pele lustrosa e o zebrado branco, a mensagem evidente de que o dia tão esperado está próximo.

Um arrepio correu pela coluna quando abri a porta e avistei o mar de tijolos cobertos de cimento e musgo. O céu cinza chumbo prenuncia sirenes e alertas da defesa civil nos alto-falantes. Fechei a porta e pensei duas vezes se deveria mesmo sair.

Mamãe falou para não atrasar. Perder a consulta me levaria de novo para o fim da fila, não daria tempo. Busquei o chapéu e o casaco, abri a porta e inspirei uma dose extra de coragem. A descida íngreme descortinava o vale carioca.

Os passos calculados na pedra sabão, um bom dia dona Maria aqui, outro bom dia para o seu José acolá, as pessoas seguindo seu ritmo em busca do pão e vinho, súplicas ao Pai Nosso diário. Benzi o corpo em busca da companhia preciosa, que avistava ao longe de braços abertos.

Cheguei ao beco escuro, nada à vista, fui passando confiante, segurando a medalha milagrosa, a cabeça baixa. Eu tenho fé, mas não ousaria encarar o mal nos olhos. Há dezenove anos dá certo, hoje não teria por que ser diferente.

E foi nesse momento que uma estrela cadente cruzou o céu e iluminou o beco. Um estampido, um grito e a chuva caiu em gotas pesadas. Minha roupa ficou molhada e os sons ficaram confusos. A chuva dessa manhã deixou um gosto metálico na boca, esfriou o corpo quente, esquentou o peito. O coração disparou e a cabeça vagueou com um zunido que não conseguia identificar.

Decidi que me sentar um pouco não seria ruim. Pode ter sido o medo, o frio ou a chuva, o peso da barriga ou o café da manhã minguado, não importa, não me sentia bem. Tenho o direito de me sentar.

Passei a mão no peito e, quando a ergui até meus olhos, o céu enevoado se fez em mim. Uma mão se estendeu para a minha e ouvi sua voz, quase um sussurro, me dizer que tudo ficaria bem.

Naquela manhã gris, meu corpo escuro estendido no beco escuro, adormeceu.

Crédito da imagem: Foto por Elaine Resende

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CAFÉ – ABRAÇO NEGRO DE AFETO!

Por: Angelica

Quem nunca tomou um café, atire a primeira pedra.
Cafezinho para ajudar a digestão 
depois de um belo churrasco com amigos.
Café a tarde para jogar conversa fora com as amigas. 
Café de manhã para dar ânimo.
Café para dar uma pausa no trabalho.
Café para confidenciar o amor.
Café na cama para uma paixão especial 
ou acalentar alguém doente.
Café na hora da raiva para pensar melhor no que se vai dizer.
Café para festejar um reencontro.
Café depois de um bom licor.
Café riqueza brasileira.
Café para unir e reunir.
Café – um cafuné na alma.
Quando alguém estiver triste, desconfortável
querendo desabafar: convide para um café.
Café abraça, consola, anima e aquece.

Caso você seja do tipo que não gosta de café, 
convide para uma xícara de chá. 
Dá no mesmo. 
O importante é estar junto, partilhar a vida e ser feliz.

Crédito da imagem: Foto por Arshad Sutar em Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ANSHEIN

Por: Sônia Souza

Às 16h 
Esperava 
Passara o dia 
As horas 
Minutos 
Precisando daquele olhar

Às 16 01
Algo estava errado
Sentiu seu chão desaparecendo
Não era possível 
Que pudesse não ser 
Era real e mágico 
Como música inteira
feita numa nota só 
a completar e dar sentido a TUDO 

Às 16 02
O fim 
A noite chegou
Não conseguia respirar 
A dor forte atravessava a alma
Não havia mais nada a fazer

Às 16 03
Atônita
Paralisada
Sem emoção 
O frio intenso
destituía os traços da sanidade
Acabou

Às 16 04
Uma voz 
"Pipoca ou chocolate?" 
Explosão
COR
Renascimento 
Luz 

"Ah, desculpa o atraso"

Segura de si, ela sorri 
"Nem percebi"

Crédito da imagem: Foto por Pavel Danilyuk em Pexels.com

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TODO / INTEIRO / IMENSIDÃO

Já vivi de metades
Pedaços largados
Amores inexistentes
Abraços sem conexão
De completos vazios
Já me doei e me esvaí
Me esvaí tentando ver
Sentir e receber afeto
Mas não havia sentido
Verdade também não havia

Já vivi de metades
Imensurável espera
E não espero mais
Me lanço adiante
Ressurjo das cinzas
Levito vivaz como nunca
Sou inteira. Real. Completa.
Carne, osso, alma e chamas.
A frieza não mais me toca
Mentira alguma se mantém

Já vivi de metades
Hoje não aceito menos
Não reconheço migalhas
Se não me olhas na alma
Não lhe adentro os olhos
Transbordo, transpareço amor
Hoje vivo do todo
Hoje vivo do inteiro
Hoje vivo da imensidão

(Lívia Maria – 06/04/2021)

Crédito da imagem:  Lívia Maria

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Errante

Um dia torto.

Cancelam-se as alegrias

Anulam-se a saliva nos cantos

Cala a língua minguante

Entre incisivos.

Apaga esses calores

Limpando os vestígios

Dos poros dilatados

Transpirando as cores desconhecidas

As texturas escondidas

Dos suspiros sibilantes…?

Cale-os

Crédito da imagem: PEXELS

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ELA DISSE SIM

Por: Lidianne Monteiro

Disseram-lhe que ela deveria sossegar. Reforçavam quase diariamente que já era hora de se aposentar também dessa inquietude de querer alguma coisa que ela não sabia direito o que era. Mas que sabia que queria. Isso a impulsionava, ainda que passasse por represálias dos que teimavam em condená-la a viver uma vida que ela não queria que fosse sua. As vizinhas comentavam que as suas roupas não eram apropriadas para a idade, que a risada era muito espalhafatosa, que ela não sossegava em casa, que nunca a viam cuidando dos netos e mais um monte de “defeitos” que elas entendiam imperdoáveis para uma senhora de família. Os filhos não eram tão explícitos nas críticas mas se queixavam que a mãe não proporcionava os almoços domingueiros de família como as mães dos amigos faziam. Também diziam que ela deveria parar de viajar tão frequentemente porque era perigoso para alguém da idade dela. “Imagina se a senhora passa mal em uma viagem dessas?” e “Se a senhora conhecer alguém de má fé que a engane?” eram os mantras repetidos a exaustão. Ela não se detinha a remoer esses julgamentos porque há muito tempo exercitava o hábito de não se importar tanto com eles. Ela sabia que não se deixar condenar pelos julgamentos alheios requeria vigilância e prática constantes. Com relação aos filhos, entendia que tinham um zelo excessivo. Eles ainda não tinham a maturidade dela para discernir que a intensidade com que se vive, para algumas pessoas, tem mais importância do que a quantidade de anos arrastando desgostos ou indecisões.

            Na véspera, recebeu o telefonema de uma amiga dos tempos do escritório. A amiga queixava-se de uma dor crônica na coluna, do minguado salário da aposentadoria e do filho mais velho que havia se divorciado e voltado a morar com ela, no quarto que ela havia transformado em ateliê de costura. Percebia na fala da amiga um tom de queixa entrecortado pela culpa por reclamar da volta do filho. “Quem pariu Mateus que balance”, a amiga dizia, justificando para si própria a acolhida a contragosto. Ouviu a amiga desatentamente. O discurso era muito parecido com os anteriores, então não precisaria se deter tanto para dar os conselhos de praxe.

            O telefonema da amiga a fez sonhar consigo própria voltando para a casa da mãe após uma longa viagem. Chegava na porta carregando uma pesada mala que quase não conseguia suspender. Precisava arrastá-la. Estava exaurida mas a mãe não a deixava entrar. Tentava pela porta da frente. Dava voltas em busca de outra entrada. Todas as aberturas estavam trancadas e o movimento dentro da casa desdenhava do seu calvário. Ela não entendia o porquê. No sonho, ela era jovem mas tinha as lembranças de toda a vida que viveu até ali. Isso era confuso e a fez acordar muito angustiada, justo naquele dia. Levantou-se e se olhou no espelho. Lá estava ela com todos os sinais da idade que carregava. Não era a jovem do sonho. Sorriu e as rugas do rosto se movimentaram em comemoração. Afastou-se do espelho para se ver de corpo inteiro. As curvas estavam ali, a cicatriz da perna do acidente de carro na adolescência também. E mais a pele branca com alguns sinais de sol que ficaram de lembrança das praias aos sábados. Os cabelos grisalhos cacheados que davam a todo o conjunto um quê de brejeirice emolduravam o rosto marcado e sorridente. Gostava dessa imagem de mulher madura, apesar de só lembrar da idade que tinha quando se via no espelho. Às vezes até se assustava quando estava na rua e era surpreendida por sua imagem refletida em alguma vitrine. Pensou na menina jovem e angustiada do sonho. Dessa vez, imaginou-a sorridente, com um vestido branco de renda que dançava ao ritmo do vento e com os cabelos soltos batendo no rosto. Imaginou-a jogando a mala pesada e inconveniente ao mar, em um dia abrasador mas fresco. No movimento pendular das ondas, a mala teimava timidamente em retornar à costa. Mas o mar se mostrava persistente e apesar de permitir breves descansos com o retorno da mala a rebote de pequenas ondas, apropriou-se de vez do pacote, sem que ela precisasse empurrar vez alguma, para nunca mais devolvê-lo. Sorriu mais uma vez.

            Vestiu-se para uma saída rápida para providenciar algumas poucas coisas que restavam pendentes para o jantar. Contudo, mais cedo do que o costume, a filha mais nova chegou em sua casa, arrastando pela mão a neta ainda sonolenta que não tinha acordado a tempo de ir à escola. Ela preparou um café e ofereceu um pedaço do bolo que havia sobrado da confraternização do grupo seleto, e cada vez menor, das amigas da faculdade. Contou do sonho mas a filha mal ouviu, ocupada que estava em distrair a pequena com algum vídeo no celular para poder despejar os conselhos que a levaram ali, tentando dissuadir a mãe de cometer o que seria um grande erro. “Mãe, a senhora não tem mais idade para isso”, diziam a filha e a torcida do Flamengo. Mas ela estava tão feliz que a forma ríspida com que a filha achou de lançar o apelo final nem a incomodou. Beijou-a ternamente, olhou-a bem no fundo dos olhos e disse, igual como fazia quando ela era criança e a filha estava assustada com o remédio que ela iria colocar no joelho ralado: “Confia em mim?”. A filha nada mais disse, vencida.

            Despediu-se da filha e da neta e saiu à rua feliz da vida, tomando as últimas providências. Hoje não queria se ver na rua em vitrine alguma. Sentia-se como uma adolescente que voltava à escola depois das férias escolares e iria reencontrar o “paquera”. Quem sabe não seria hoje que o rapaz a pediria em namoro ou a convidaria para assistir “Love Story” no cinema? Não podia (e nem tentava) negar, era mesmo uma romântica veterana e inveterada.

            À noite, na sala de estar, emoldurada pelos porta-retratos dos filhos e netos e tendo-os como testemunhas, foi pedida em casamento pela primeira vez na vida. E, como todos já esperavam, ela disse “sim”.


Crédito da imagem: https://www.papodecinema.com.br/filmes/love-story-uma-historia-de-amor/

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PORTAL

Por: Lidya Gois

Ela adentrou em um desses portais que te fazem viajar no tempo. Quando recobrou os sentidos, reconheceu instantaneamente a familiaridade daquele lugar. Era uma espécie de quintal que abrigava um quartinho cheio de tralhas. Tinha uma modesta plantação de bananeiras e alguns pintinhos empenhados em achar algo para beliscarem.

Ela ainda estava absorta nos cheiros e sensações, quando uma voz delicada e intrigantemente conhecida a despertou. “Venha almoçar, filha”. Não demorou muito para uma garotinha surgir saltitante do meio das plantas. Seus cabelos eram loiros e alinhadamente cacheados. Vestia uma blusa vermelha e um short com listras laranjas e amarelas. A menina passou distraída e não percebeu a presença daquela que a observava, mas esta sentiu uma ligação impressionantemente forte.

Continuou explorando o lugar e, logo que entrou na casa, teve repetidas sensações de déjà vu. A certeza de que já estivera ali ia aumentando conforme o tempo transcorria. Viu a menininha outra vez. Estavam no mesmo cômodo, quando aquela mesma voz de antes ecoou perguntando: “Lia, cadê você?” Em uníssono as duas responderam: “estou aqui.” Houve surpresa e silêncio. Em seguida, seus olhares se cruzaram e a conexão que sentiram revelou uma verdade surpreendente. Eram a mesma pessoa.


Crédito da imagem: Miguel Ary

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A HUMILHANTE

Mercedes foi convidada a entrar numa sala.

De início era para falar de algo do dia a dia, de coisas de menor importância, mas ao adentrar naquela sala lá estava a humilhante que a tentou diminuir com muitas palavras a colocando como uma pessoa que ela não era.

 Ela foi chamada de egoísta, de individual e a humilhante a comparava com alguém de caráter duvidoso.

 No momento em que ouvia as palavras iam chegando como uma tesourada em seu corpo. Cada característica apontada jamais ela poderia acreditar que fosse uma pessoa tão ruim como a que fora apontada ali naquela sala.

 O altruísmo de Mercedes venceu naquele momento não a deixando abaixar a cabeça para quem a humilhava. A humilhante pôde ter se sentido feliz pois quem humilha sente prazer em cada palavra para destruir ou quem sabe a humilhante pode ter se sentido uma idiota pois não conseguiu o que queria já que o intuito era deixar ela triste e rendida aos seus ataques de humilhação. Tudo bem até agora? Sim. Ela não se deixou humilhar.

 Ao sair da sala saiu de consciência leve e tranquila e ficou ainda mais forte para enfrentar qualquer outra tentativa de humilhação. Não se curvou a nenhuma injustiça e a nenhum injusto. Isso é ser feliz.

Crédito da imagem: Pexels.com

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