PORTAL

Por: Lidya Gois

Ela adentrou em um desses portais que te fazem viajar no tempo. Quando recobrou os sentidos, reconheceu instantaneamente a familiaridade daquele lugar. Era uma espécie de quintal que abrigava um quartinho cheio de tralhas. Tinha uma modesta plantação de bananeiras e alguns pintinhos empenhados em achar algo para beliscarem.

Ela ainda estava absorta nos cheiros e sensações, quando uma voz delicada e intrigantemente conhecida a despertou. “Venha almoçar, filha”. Não demorou muito para uma garotinha surgir saltitante do meio das plantas. Seus cabelos eram loiros e alinhadamente cacheados. Vestia uma blusa vermelha e um short com listras laranjas e amarelas. A menina passou distraída e não percebeu a presença daquela que a observava, mas esta sentiu uma ligação impressionantemente forte.

Continuou explorando o lugar e, logo que entrou na casa, teve repetidas sensações de déjà vu. A certeza de que já estivera ali ia aumentando conforme o tempo transcorria. Viu a menininha outra vez. Estavam no mesmo cômodo, quando aquela mesma voz de antes ecoou perguntando: “Lia, cadê você?” Em uníssono as duas responderam: “estou aqui.” Houve surpresa e silêncio. Em seguida, seus olhares se cruzaram e a conexão que sentiram revelou uma verdade surpreendente. Eram a mesma pessoa.


Crédito da imagem: Miguel Ary

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

A HUMILHANTE

Mercedes foi convidada a entrar numa sala.

De início era para falar de algo do dia a dia, de coisas de menor importância, mas ao adentrar naquela sala lá estava a humilhante que a tentou diminuir com muitas palavras a colocando como uma pessoa que ela não era.

 Ela foi chamada de egoísta, de individual e a humilhante a comparava com alguém de caráter duvidoso.

 No momento em que ouvia as palavras iam chegando como uma tesourada em seu corpo. Cada característica apontada jamais ela poderia acreditar que fosse uma pessoa tão ruim como a que fora apontada ali naquela sala.

 O altruísmo de Mercedes venceu naquele momento não a deixando abaixar a cabeça para quem a humilhava. A humilhante pôde ter se sentido feliz pois quem humilha sente prazer em cada palavra para destruir ou quem sabe a humilhante pode ter se sentido uma idiota pois não conseguiu o que queria já que o intuito era deixar ela triste e rendida aos seus ataques de humilhação. Tudo bem até agora? Sim. Ela não se deixou humilhar.

 Ao sair da sala saiu de consciência leve e tranquila e ficou ainda mais forte para enfrentar qualquer outra tentativa de humilhação. Não se curvou a nenhuma injustiça e a nenhum injusto. Isso é ser feliz.

Crédito da imagem: Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Escrita criativa

Dia desses, recebi de uma amiga artetarapeuta, uma proposta de atividade que me encantou: escrita criativa.

Ela apresentava diversas fotos e propunha que, num lugar tranquilo, com uma música relaxante, escrevêssemos o que viesse a nossa cabeça. Assisti ao vídeo rapidamente, descartei a possibilidade de realizar aquela atividade em meio a tantos afazeres e segui meu dia.

Curioso foi, que uma das imagens habitou minha mente a tarde toda – uma foto com margaridas, ou algumas flores muito parecidas com margaridas.

À noitinha, depois que as crianças aquietaram um pouco, me dispus a realizar aquele exercício que, logo vi, levou-me a pensar em meus alunos e nos estudos de psicanálise tão recentes, desafiadores e encantadores para mim. Segue o que produzi e, tenho certeza, será modificado e acrescido a cada nova leitura. (Tentei não alterar a primeira versão.)

Visceral que nasci e professora que sou, peguei um caderno novo só para realizar a proposta e, tenho certeza, será a primeira de muitas. Obrigada, Simony!

“Flores…nunca fui boa em nomeá-las. As únicas que não me causam dúvidas são as rosas e as tulipas, de todas as outras, não tenho certeza.

Margaridas? Perece que sim. Minhas favoritas quando eu era criança: são fáceis de desenhar!

Não saber os nomes não me constrange. O que importa é o sentimento despertado. Isso me remete aos tabacos e vinhos que tanto aprecio. Não ligo para notas técnicas, preço, status, mas se eles me proporcionam prazer e relaxamento. Se são gostosos ou não.

Em relação às flores, quer um exemplo? Tulipas me lembram frio, inverno, minha estação favorita; consequentemente, amo tulipas. Rosas me irritam! Não sou romântica.

Margaridas não são mais minhas flores favoritas, costumo confundi-las com crisântemos que, pra mim, tem cheiro de morte; um cheiro impregnado em minha alma – lembrança de quando perdi meu pai.

Falei de sensações até aqui.

Outro fato me chama a atenção: cada flor tem sua beleza. Umas brancas, outras menos; pétalas perfeitas, outras nem tanto; flores robustas, outras mirradinhas. No conjunto, é a singularidade que compõe o todo e permite à foto transmitir seu encanto.

Transponha para a vida, para o humano, para a alma”.

Não precisamos ser perfeitos, mas enxergar em nossas imperfeições a boniteza das lições aprendidas e das que virão.

FORMAS DE MIM

Por: Julia Quintanilha

Existem várias versões minhas vivendo em cada um.

Existe a triste e machucada

A que tem a alegria contagiante

A que chora e é frágil, e a que não se abala com nada 

Existe também a apaixonada, a obcecada, a que desiste de um amor, e a que nunca se apaixonou

Há a que se esforça, a que não se importa, a que lê muito e a que lê nada.

A que gosta de música, de dança, ou de tirar fotos. Às vezes as três de uma vez.

A que fala demais, e a que nunca desabafou.

A traumatizada e a que venceu todos os problemas

A que fica, e a que vai embora.

Às vezes sou uma, outra ou nenhuma. 

Mas na maioria das vezes, nada é o que sou.


Crédito da imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

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O SABIÁ E O MISTÉRIO

Por: Jovina Gbenigno

Nos dias de manhãs sem nuvens
Ela abria a janela do quarto insone.
Nele, o cheiro das bonecas da infância
Misturava-se com o perfume das
Flores, que agora ela roubava de jardins
Incautos, e as deitava sobre a cama,
Areia e beleza sobre os lençóis.
Ela olhava aquele mistério, vida e eternidade.
Depois víamos as flores em jarros transparentes
Enfeitando a casa...

Nos dias de manhãs sem nuvens
Ao abrir a janela do quarto insone
Ela festejava ver o sabiá-laranjeira entrar
Num voo de balé e melodias,
Desenhava um círculo
Num ritual de encanto e bênçãos
Inspiração para poetas, alegria das crianças,
Sinal da Aliança entre a potência e o ser.
Sabiá, escada de Jacó ligando o céu
E a Terra, por onde os Anjos desciam.
Sabiá, o peixe para os Cristãos,
Sabiá, a chave do mistério.
Sabiá, o Ferrugem, de nome e de plumas.

No quarto insone, cortado pela luz
A ave parava no ar, solo na sinfonia.
Depois pousava no centro da mesa
Ao lado do lápis deixado sobre o livro
Vizinho ao caderno faminto de versos.
O pássaro observava tudo o que ali habitava,
Orgulhoso de ser quem era: a ave nacional do Brasil,
Singular no canto e no espetáculo.

Ela fechava os olhos, entorpecida
E a tarde a encontrava desperta.
O Ferrugem se fora
E ela o imaginava ali.
Então, sentava-se à mesa e escrevia poemas.

Jovina Gbenigno

Jovina GBenigno nasceu em Fortaleza. De família pobre, oito irmãos, embalados pela devoção do pai aos livros, Raimundo Mesquita Benigno, e pelos poemas, seus declames, obras de sua mãe, poeta e artista plástica, Isabel Leila Gomes Benigno. Jovina escreve desde a infância. Nas décadas de setenta e oitenta foi integrante da Casa dos Poetas Juvenal Galeno, onde semanalmente poetas de sua geração declamavam poemas de autoria própria, e de autores consagrados, com debates literários, lá participou também do embrião do projeto de criação do primeiro Museu de Audição de Poetas Cearenses. Foi premiada em Concurso Nacional de Poesia pela Escola Nova Acrópole de Filosofia, em 2017. Publicações: Livro solo de poesias, Versus de Uma Vida. Antologias: Poesia Brasileira, Prêmio Poetize 2021, pela VIVARA Nacional Editora; Antologia Prêmio Poesia Agora 2021,Editora Trevo;Antologia Esboços da Alma,edição comemorativa aos 39 anos de fundação da Editora Scortecci. A poeta tem poema selecionado para compor a Antologia Poética do Selo Off FLIP de Literatura 2021,a ser lançada na feira literária de Paraty/2021.


Crédito da imagem: Foto por Lum3n em Pexels.com

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CAMAS CONDENADAS

Naquela noite cheguei por volta das 3 horas da manhã e escolhi uma cama de solteiro que estava disponível entre tantas outras ocupadas. Me parece que havia uma cama de tamanho médio ao meu lado onde dormia um casal que chegou uma hora antes de mim. Aos meus pés havia um berço -em forma de caixa- vazio e atrás dele o que parecia ser a cama de um adolescente.

Eu consegui ver tudo isso apenas quando clareou, porque quando cheguei estava muito escuro e eu mal conseguia deslizar pelos espaços vazios apertados entre as camas, tocando e apalpando com as mãos até encontrar um leito vazio.

Entre as 3 e as 5 horas da manhã dormi pouco, de vez em quando era acordada pelo ronco de alguém que parecia se afogar no último suspiro ou pelo barulho de uma velha cama estralando quando alguém se mexia nela.

O primeiro guarda chegou antes do amanhecer, minutos depois do alarme das 5 tocar e a primeira turma entrar para tomar banho. O guarda abriu a porta e iluminou as camas com uma lanterna, apesar de haver várias vazias, ele já percebeu que estávamos lotados, então saiu rapidamente para avisar seu superior.

No entre tanto, Sabine gritou comigo porque eu não tinha dormido no berço e tinha tomado uma cama de solteiro inteira para mim. Enquanto ela me gritava, eu imaginava como eu, uma adulta de 1,70 de altura, poderia me dobrar como calças engomadas para caber no berço.

Poucos minutos depois o guarda entrou, com seu uniforme militar impecável e o Hábito de Madre Superiora na cabeça, começou a percorrer o local e caminhar entre as camas em quanto eu e os demais itinerantes multiplicamo-nos repentinamente como pragas.

Ao ver a cena, Sabine começou a se derreter da cabeça aos pés e as pessoas em volta correram para enxugar o líquido antes que se espalhasse por todo o lugar.

Crédito da imagem:   Pexels.com

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LIMÃO PARA TEQUILA

Por: Rosi Santos

Fui despejada da minha zona de conforto sem nenhum prévio aviso. Me expulsaram dos meus costumes e rotinas que tinha sob controle. Me arrancaram do meu pedaço seguro, que não me assustava e que me mantinha tranquila, passiva, acomodada.

          Meus pensamentos e comportamentos arraigados por um longo tempo, foram drasticamente podados e fiquei desconjuntada. Meus medos e ansiedades, que estavam contidos, foram arremessados pra fora de mim.       Os riscos que não corria, agora estavam soltos, gargalhando na minha cara.

          Mas aprendi com Frida, que se a vida te dá um limão, você chupa com tequila.

          Então desce tequila!

          Sendo assim mergulhei com tudo na minha zona de desconforto e descobri o quanto isso é bom!

          Num estalar de dedos mudei alguns hábitos, acertei pendências práticas, organizei vários caos domésticos, desengavetei projetos antigos. E digo com convicção, realmente não devemos temer esse desconforto, porque ele é essencial para o nosso crescimento, fortalecimento, rejuvenescimento.

          E a cada dia a necessidade de mudança inflama meu coração e meu cérebro. Não paro de pensar e refletir em todas as coisas que posso fazer para mudar tudo o que está bom, mas que com certeza pode ficar muito melhor!

          Que venha o novo para colorir mais ainda a minha vida! Que venha mais hábitos saudáveis para melhorar minha saúde, afinal estar com 5.3 requer mais cuidados e atenção!

          Que venha novas oportunidades em todas as áreas da minha vida, para me arrancar de vez do mundinho antigo e me transplantar para um mundão novo de vastos caminhos e escolhas.

          Diante de tantas possibilidades que estão me esperando, me mantenho positiva, focada, consciente. E com toda a certeza, pela primeira vez na minha vida, estou amando essa tal ZONA DE DESCONFORTO, ela é maravilhosa!


Crédito da imagem: Foto por Tara Winstead em Pexels.com

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O VOO DELA!

Por: Karina Freitas

Ela partiu…
Voou para terras distantes.
Foi enfrentar seus medos.
Descobrir sua coragem.
Buscar seus desejos.
Viver seus sonhos.
E realizar suas conquistas.

Permitiu-se falhar, perder e chorar... 
Desesperou, desistiu e retomou...
Experimentou, aprendeu e cresceu...
Comemorou derrotas e vitórias.  
Se perdeu e se achou.
E voou mais...

Seria ousadia, um sonho, um desejo?
Ainda um capricho, uma revolta, uma aventura?
Ou quem sabe um pouco de cada. 
Talvez todos ou nenhum.
Então ... por que? 
Porque ela escolheu voar!
Para que?
Para ser feliz.
Escolheu ser, viver e experimentar.

Ela ousou enfrentar padrões, expectativas, frustrações e projeções.
Apenas foi… e voou.
Para uma nova cidade, em uma nova morada, com um novo trabalho…
Para conhecer novos amigos e viver novos desafios...
Foram muitas aventuras e alguns perrengues também.
Ela foi…e voou...
...e não voltou porque encontrou o seu lugar!

Crédito da Imagem: Foto por Eva Elijas em Pexels.com

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Espelho



Quando a dor ou a raiva vier, olhe bem fundo nos seus olhos, sinta, ampare e solte!

Quando a tristeza e indignação chegar, encare de frente não seja resistente, receba, acolha e coloque cada coisa em seu lugar!

Se o amor , a alegria chegar receba, sinta, explore e deixe fluir!

Se em plenitude você chorar, sinta, aproveite, mergulhe em todas as oportunidades de se abrir!

E se a dor e a raiva voltar, não resista, não negue essa parte em você, ampare tudo que vier, esteja presente, desenlace e deixe ir e vir.

Olhe no espelho seja observadora de si e veja você além da imagem e de quem você acredita ser, transborde todo o amor que puder ser!


Com amor e gratidão Alessandra Gabriel

Crédito da imagem:  Pexels.com

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A IDADE DA MULHER

Por: Angelica

Sou nascida numa época em que as mulheres não podiam ultrapassar os 30 anos de idade. Casadas eram consideradas não jovens, solteiras viravam “titia” ou pior ainda moças-velhas.
Era triste porque todas precisavam se casar no máximo até 20 anos e se não o fizesse entrariam para o “caritó”. Era assim chamado o lugar onde ficavam as solteironas.
Bonitas ou feias, bem vestidas ou cafonas todas tinham a mesma idade, no máximo 30 anos. Esta era a fronteira entre escapar do rótulo “balzaquiana” ou recebê-lo para sempre.
As mulheres diminuíam tanto a idade, que o passar dos anos, era para trás e não para frente. Não se aumentava em idade, diminuía-se. Na minha família mesma tivemos um caso. Uma tia nossa já casada e mãe de um filho, vivia diminuindo a idade. Um dia, o próprio filho descobriu que ela estava com a mesma idade dele. Este e outros fatos nos renderam boas gargalhadas e piadas na família.
Nos dias de hoje as mulheres conseguiram um feito maravilhoso. Não importa a idade que tenham, elas só querem ser felizes. Solteiras ou casadas, crescendo em seus estudos, realizando tudo que podem com os novos recursos tecnológicos e construindo suas famílias de acordo com suas formas de pensamento.
Hoje, cabelos brancos não são problema. Não são mais um atestado de velhice e sim de preferência. Não demonstro a minha idade na cor dos meus cabelos ou na maquiagem e enfeites que uso, nem mesmo no tipo de roupas que cobrem o meu corpo. Tenho o direito de ser como gosto e de gostar de como sou. Para mim esta é a maior libertação que conseguimos diante da sociedade.
Orgulho-me de ser MULHER e com muito gosto acompanho a evolução das mulheres que chegaram ao mundo depois de mim. Mulheres que não se preocupam com quantos anos têm, 30, 40 ou mais que se enchem de orgulho pelas próprias conquistas. Mães donas de casa, ou trabalhadoras profissionais, boas conhecedoras de tecnologia, amigas do GOOGLE, comandando suas próprias redes sociais, mostrando conhecimento e uma beleza só sua e do jeito que ela quer.
O mundo para ser um paraíso da raça humana precisa de todos: MULHERES e HOMENS de todas as cores, de todas as raças, de todas as nações, de múltiplas inteligências e de boa vontade exercendo a JUSTIÇA e plantando a PAZ!


Crédito da imagem: Foto por Francesco Ungaro em Pexels.com

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