VAZIO

Não se beija o olhar

Não se enxerga a voz

Não se sente a alma

Vazio

Cerram-se os lábios

Acumula-se a voz

Cegam-se os olhos

Vazio

A alma beija a solidão

A solidão preenche os olhos

Os olhos cantam o silêncio

Vazio

E nada faz sentido

E nada supera a dor

E o nada torna-se tudo

Vazio

E tudo torna-se nada

Nada além do vazio…

(Lívia Maria – 31/01/2017)

Crédito da Imagem:  Lívia Maria

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

NUNCA É TARDE

Por: Karina Freitas

Domingo estava fazendo minha caminhada matinal quando uma imagem me desviou a atenção.

Uma senhora nos áureos dos seus cabelos brancos andava de bicicleta de rodinhas.

Exatamente, a mesma rodinha que usei quando criança para aprender a pedalar.

Atrás um jovem rapaz a acompanhava em outra bicicleta.

Olhei, admirei e pensei: – Nunca é tarde para aprender.

Imaginei … um diálogo entre avó e neto …

…de como ela lhe contou aquele sonho antigo de aprender a andar de bicicleta.

De como ela achava que o tempo tinha passado, que estava velha demais!!!

Afinal, o que as pessoas iriam pensar ?

Aquela senhora aparentava ter mais de 60 anos, mas tinha uma alma jovem, de quem tem sonhos a realizar.

E o neto ao conhecer aquele sonho adormecido, sufocado e esquecido pelas atribulações da vida … a estimulou e despertou algo esquecido há anos.

Ela tinha medo de cair, de não conseguir, de se machucar, de de expor ao ridículo.

Mas ela tinha se machucado a vida toda, mas a dor era moral e não física, escondia em seu íntimo e ninguém sabia o que se passava em seu coração.

Ele um jovem rapaz que aparentava seus 20 anos, com olhar amoroso disse que ajudaria e sempre estaria a seu lado!!! E a abraçou.

Ela aceitou aquela oferta com um brilho nos olhos como uma menina que ganhava a boneca que tinha pedido de Natal.

E com certeza andar de bicicleta foi um dos dias mais felizes de sua vida.

Afinal! Nunca é tarde para aprender.

Olhar aquelas aquela senhora me fez lembrar quando aprendi a andar a pedalar!

O porto seguro que eram aquelas rodinhas: havia equilíbrio, estabilidade e um falso controle.

E o momento de retirá-las: as quedas, as feridas, os hematomas, os choros.

Primeiro uma… e depois a outra.

E durante aquele processo aprendi: persistência, insistência, resiliência, prudência, coragem, medo, ousadia e liberdade.

Refleti de como andar de bicicleta pode ter me feito uma adulta mais segura de mim.

O tombo dói, as feridas cicatrizam e o sabor da aventura é um deleite, que minha memória saboreia até hoje.

Aquela senhora relembrou que ninguém é tão velho que não tenha algo a aprender.

E aquele jovem aprendeu que ninguém é tão novo que não possa ensinar.

Crédito da Imagem: Foto por Taryn Elliott em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

FINAL FELIZ



Quando eu ainda era criança ouvia muitas histórias infantis. Mesmo que durante toda a narrativa houvesse o relato de sofrimento ou dificuldades no final sempre acabava tudo bem. Com certeza o príncipe se casava com a mocinha mesmo que ela fosse a gata borralheira.


Toda história terminava muito bem. Os malfeitores eram castigados e os bons recompensados. No entanto o que havia de mais importante era o casamento dos protagonistas, que eram “FELIZES PARA SEMPRE! ”


Cresci ouvindo esses relatos e percebia que não era bem assim. Via casais que se amavam tanto e que viviam uma relação infeliz e cheia de violência.

Percebia, às vezes, ela se queixar para as vizinhas. Outras vezes, ouvia uma voz de homem dar um grito alto com sua mulher e além de humilhá-la fazia com que ela se sentisse envergonhada diante das outras pessoas, como se fosse a culpada por ele ficar nervoso. Ele um pobre pai de família mal compreendido pela própria esposa.


Os anos se passaram, deixei de ouvir histórias de Cinderelas e passei a prestar mais atenção nos relacionamentos de casados e namorados. Percebi que os jovens se sentindo preparados começaram a ter pressa para construir suas vidas de adultos, seus relacionamentos amorosos e muitas vezes não se davam conta de toda a responsabilidade de uma vida a dois.


A descoberta do amor trazia uma certeza de se ter encontrado uma paixão para o resto da vida e que seriam felizes para sempre. Aquela paixão muitas vezes virava um grande pesadelo.


A descoberta do amor não correspondido ou ainda a falta do amor que pensava existir em seu peito por aquela pessoa, levava a um grande sofrimento. A separação do casal, o reconhecimento da escolha errada, a desilusão amorosa levava a uma grande frustação e culpa.


Durante algum tempo este reconhecimento do erro desmotivava o casal que deixava de tentar se ajustar, e passava a viver insatisfeito e desanimado, transformando o lar doce lar em uma prisão.


O divórcio trouxe a esperança e o direito a uma nova união civil para quem assim desejasse. Foi um alívio para muitos filhos que deixaram de conviver com a guerra entre seus pais. A separação trouxe a oportunidade de acerto para um novo casamento e para as crianças uma nova chance de serem amados pelos casais agora formados por seu pai e madrasta e mãe e padrasto.


Sabe-se agora, que final feliz não é apenas aquele das histórias de príncipes e princesas, mas sim de mulheres e homens que reconhecendo a escolha não muito certa, assumem e aceitam uma separação e vão em busca de uma vida equilibrada e feliz, onde não há lugar para violência. Agora sim, é o verdadeiro FINAL FELIZ da história, onde há respeito e amor.

Crédito da Imagem: Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ROSA, NA CABECEIRA

Por: Jovina GBenigno

Nele um amarelo marrom,
herança do tempo.
pingos vermelhos
feito água de sangue
aspergida sobre o corpo.
ao tocá-lo, aspirei
o olor molhado de mofo,
o cheiro do abandono.
Cobria-lhe um frio úmido
de matéria sem vida,
sem o calor de existir,
como se nele
não mais
pessoas e suas histórias
como se viagens sem malas
não mais fossem possíveis.

Na carícia de seu rosto
a aspereza de grânulos
feto sal fugido do mar
que ali encontrara abrigo.

Como pude abandoná-lo?!
era o preferido
e o larguei num desmazelo
de quem, distraído,
põe no cesto do quintal
as cascas gêmeas da laranja,
exauridas no portento suco.

Forte a nossa história.
em cada linha que eu sorvia
me encontrava personagem
de tramas, alegrias, desgostos,
estradas de poeira em sertões
onde viver era
ter as noites exauridas
de luta e sede.

Um cansaço nas carnes
segurava corações.
dormiam em colchão de formigas,
olhando o céu,
a liberdade das estrelas.

Decidida,
corri a salvá-lo.
durante muito tempo
eu o colocava sob o sol
na esperança
da ressurreição
(não tinha pecados).

Fugiram os odores envelhecidos
feito se vai o cheiro
do chá não tomado.
arrefecera o vermelho das gotas,
nele não há êxodo
de palavras.
as vidas estavam ali,
seca, chuva, morte, fome
e o dizer inusitado delas,
os cenários de existência
eram ele próprio.

E desde então,
oráculo em minha cabeceira,
repouso minhas mãos
sobre ti
com serenidade e gratidão,
Rosa do Sertão
das Veredas de Guimarães. 

Crédito da Imagem: Foto por MoldyVintage Photo em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

EU NÃO TENHO CÓDIGO DE BARRAS

Por: Lidianne Monteiro

Meu nanochip estava dando sinais de instabilidade há algumas semanas.

As falhas, a princípio, não me prejudicaram muito. Uma loja que entrei e a vendedora me ofereceu artigos que eu não tinha interesse, o robô do supermercado que me trouxe comida para o passarinho que não tenho, o café que veio descafeinado quando a cafeína é minha mola propulsora…

Mas a gota d’água foi no trabalho e quase me rendeu uma demissão. Em uma reunião importante para contratação de um cliente que bateria minha meta individual anual, meu código retornou que eu estava o tempo todo flertando com o cliente. Nossa empresa não permite que desconectemos o código individual. Então nossas emoções ficam ali à disposição de quem quiser ler com seus óculos de decodificação. Dizem que é por isso que nossos clientes nos veem como confiáveis. Eu só percebi essa falha no meu chip ao fim da reunião, com o cliente me olhando desconcertado e meu chefe querendo me matar. E o cliente nem fazia meu tipo. Só o contrato dele é que verdadeiramente me interessava! Quando o chip enviou sinais para o meu celular e a tela começou a piscar intermitentemente informando que algo estava errado, é que me dispus a conferir a decodificação que eu estava exibindo. Vi muitos corações flamejantes e nada de cifras e objetividade. Daí até explicar a eles que o meu chip estava com defeito, apesar da manutenção periódica estar em dia, foi uma novela mexicana. No fim das contas, acho que ninguém acreditou mesmo e eu posei como uma descompensada que não sustenta uma reunião sem deixar seus impulsos passionais dominarem a cena.

Na volta para casa, depois que o carro travou e deixou de funcionar porque queria me obrigar a ouvir samba nesse dia cinza de poucos amigos, resolvi largar os outros compromissos e encarar a manutenção corretiva do meu código. Se meu chip estivesse funcionando adequadamente, não enviaria o comando para tocar samba naquele momento.

Aguentando o carro que insistia no samba de feijoada de domingo, fui até uma unidade de atendimento de plantão. Na sala de espera, o robô da triagem me conduziu para o primeiro atendimento. Eu disse a ele que não se ofendesse mas que meu caso era grave, tinha que ser resolvido por um humano. Ainda assim, ele seguiu o algoritmo e me submeteu a uns testes que eu sabia que não iam ajudar em nada. Superada essa fase, fui para a sala onde o atendimento seria com um humano, um luxo que felizmente meu plano de manutenção de código me permitia usufruir.

Na sala, várias pessoas aguardavam atendimento. Percebi que todas as pessoas cujos códigos estavam requerendo manutenção corretiva de nível avançado eram mulheres. Nem adiantava colocar os óculos que me retornariam com a descrição delas e de seus estados de espírito. Assim como eu, todas estavam com seus códigos desbalanceados. Diferentemente de mim que estava deveras mal-humorada pela reunião malsucedida e pelo samba de brinde, algumas pareciam bem contentes. Escutei uma delas dizer que estava se sentindo livre, com seu código desligado permanentemente. Mas estava ali porque tinha recebido duas multas da agência reguladora. Quase cochichando para sua interlocutora de sala de espera, confessou: “Esse código nunca soube me ler de verdade. E nem vai conseguir. Estou aqui porque sou obrigada mas sei que não vai dar certo”.

O burburinho da recepção foi silenciado pela entrada de uma mulher misteriosa que serpenteou pela sala com seu passo rápido e leve, como uma gata astuta com itinerário minuciosamente calculado. Rapidamente sacou da bolsa um dispositivo-mensageiro que foi sendo colocado em cada um dos nossos celulares. Ao colocar meus óculos decodificadores para entender um pouco sobre ela, fui alvejada por um olhar duro. Percebi o porquê quando meus óculos retornaram com mensagem de código inexistente para aquela mulher. Ela não tinha chip.

Os dispositivos-mensageiros nos trouxeram automaticamente a propaganda de um levante de mulheres contra a prática obrigatória dos códigos ambulantes que classificam a todos e expõem mentes, desejos e sentimentos. Eu já tinha ouvido falar desse movimento mas era a primeira vez que ele chegava tão perto de mim e da minha irrefletida vida de monitorada. O movimento era tão antigo que ainda se reportava ao começo do monitoramento. O levante se chamava “Eu não tenho código de barras”. 

As outras mulheres da sala não demonstraram surpresa com a visita subversiva. E algumas até trocaram olhares de cumplicidade com a militante. Por alguns instantes, fiquei absorta pensando como seria a vida sem o código. Desde que nasci era assim. Não sabia como era viver de outro jeito. Fui despertada pela notificação do meu celular de que havia sido disparada uma mensagem automática para todos os lugares onde estive e pessoas com quem interagi nas últimas semanas, informando da minha localização naquele momento, em uma unidade de manutenção de código. A notificação informava do envio de um relatório sucinto das falhas (ainda sem solução) do meu chip. Emprego e reputação salvos!

Um sinal sonoro e metálico avisou que em instantes um humano viria até a recepção buscar a próxima pessoa a ser atendida. Uma notificação nova no meu celular indicou que a próxima da fila seria eu. Uma pessoa com fisionomia familiar apareceu na porta, olhou-me e com um movimento de cabeça me deu permissão para que eu me aproximasse. Recolhi minha bolsa apressadamente e quando olhei a humana com atenção identifiquei de quem se tratava. Espantada, tentei rapidamente decodificar seu código com meus óculos mas não consegui. Ela também não tinha chip! Então, em um rápido movimento, ela levou o dedo indicador aos lábios em um sinal para que eu ficasse em silêncio. E seu rosto rígido e enigmático emoldurado pela porta de vidro fosco se desvaneceu e nada mais eu vi.

Comentário: Este texto veio de um insight (dentre tantos) de uma conversa nada futurista em uma sexta à noite com Afrânio de Sousa Alves, a quem dou os créditos pelo título do texto, utilizado por ele em referência a si próprio.


Crédito da Imagem: Foto por Tara Winstead em Pexels.com

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Lições que aprendi com a vida

Aprendi que os verdadeiros amigos são raros e preciosos.

Por mais que as pessoas me queiram bem, cada uma vai seguir o seu próprio caminho.

Não importa o tamanho da minha dor, nem da minha alegria; o mundo não vai parar.

Anjos vem em forma de pessoas, geralmente, as que menos imaginei.

Tomar um porre é necessário.

Ler ainda é a melhor viagem.

Prefiro a minha própria companhia à gente fútil.

O trabalho enobrece.

Serei sempre eu comigo mesma.

Olhar para meus filhos é o que me faz ter forças além de que imaginei.

Honrar minha ancestralidade me liberta.

Acreditar em algo maior, me faz sentir acolhida.

A vida começa quando eu quiser.

Um foda-se será sempre um foda-se.

Meus planos não me pertencem.

Meus orixás estão sempre à frente.

Gente besta não se mete comigo.

Não devo ter medo de dizer não.

Sim, as pessoas vão me decepcionar.

O que fica é o bem que fazemos.

Cada amanhecer é um recomeço.

A lua desperta minha mulher selvagem.

Cresço com as lições que aprendi com a vida.

Preciso quebrar os ciclos que vieram antes de mim.

Aprendi que encontrar meu propósito na vida foi a chave da felicidade duradoura.

Cláudia Nagau

Crédito da Imagem:  Pexels.com

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Sonho de amor

Quando imagino a vida antes de você

Vejo um mundinho vazio

Você chegou com maestria

Trazendo a luz e o brilho

Que minha simples vida pedia

Antes mesmo de te ver

Já tinha pedido aos céus

Que você fosse o que tenho

E o que tenho agora é lindo

Seu abraço faz meu coração sorrir

Sua companhia preenche meu viver

Farei tudo para sua felicidade

Correrei até contra o vento

Meu filho, meu príncipe da sorte

Você mudou tudo para melhor

Trouxe uma vida de cumplicidade

Ao meu sonho de amor incondicional.

Crédito da Imagem:  Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

O DIA SEGUINTE

Por: Sônia Souza

Ontem 
Uma explosão de emoções 
Aliás,  os dias se sucediam em um frenético passar de horas, 
com o coração se enchendo de beleza pela vida

As pessoas estavam mais bonitas, 
generosas e felizes
O céu estava mais azul 
e nas veias aquela sensação de que 
algo maravilhoso 
estava por vir

Era música, luzes e sonhos
Ah...como era mesmo o nome...

Esperança

De que tudo ia ser diferente 
Os problemas iriam acabar 
E ninguém mais queria acordar daquele sonho 
Claro, bom e contagiante 

E chegou o dia seguinte

Alguns fechavam os olhos
para permanecerem naquele instante passado
Outros sentiam que já não era mais possível 

Até que 
em meio ao que foi e ao que será 
Alguém falou baixinho

É agora

Crédito da Imagem: Foto por Matheus Bertelli em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CALMARIA

Por: Lidya Gois

Ali parada, contemplando a infinitude, 
o silêncio clama por atenção, 
mas o burburinho dos pensamentos 
não me permite atender seu chamado.

Desço ao mar 
e deixo o movimento da água espantar o barulho. 
Por um instante consigo ouvir a calmaria 
e meu corpo dança na cadência das ondas.

Sinto cheiros conhecidos 
que me trazem de volta à realidade. 
Abro os olhos 
e retorno aos afazeres do dia 
com o coração tranquilo.

Crédito da Imagem: Foto por Miguel Ary

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

AMOR EM VÃOS

Por: Jovina GBenigno

Este amor que inibido,
nem alvo foi do cupido,
pois já vinha concebido
num peito distraído.

Ignorado ferido,
Solitário, desvalido,
sem nenhuma esperança,
tão adulto
tão criança,
vai e vem
não se cansa.

Revela-se em alternância,
e mesmo sem confiança,
de ser mesmo um dia Amor,
é flor de mel revelado,
é pão com limão cortado.

Atado ao vento do tempo,
sem rima, sem meio,
é sina em que me ateio,
e como foi, veio.
finda sua caminhada,
virou olhou a estrada
perplexo, não viu nada. 

Crédito da Imagem: Foto por Mario Wallner em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”