ESCOLHA

Por: Alessandra Gabriel

Embora não haja ninguém para amar, 
meu coração está anafado de amor. 
Por vezes ele transborda na singeleza da vida 
por outras se perde na dor.

Dor 
essa ausência de ser do tamanho de si 
neve derretida, crisálida 
pele, cor...

Essa ânsia de viver o que não se traduz 
e esse medo de não se tornar a flor.

Toda escolha é certa, 
toda música expressa a emoção.
Agora escolho fechar os olhos 
para ouvir o som do vento nas flores do ipê rosa 
na noite de primavera.

Crédito da Imagem: Foto por Jonathan Borba em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

AMOR

Por: Carol Pessôa

Amor
Confunde-se com ódio 
É um querer além de si
Combina afeto e controle
Atração e desatino

Amor 
Tem a ver com desespero pelo outro
Com um preocupar-se acima do possível 
Uma mistura de saúde e doença 
Dias de alegria, dias de desavença 

Amor
É um esperar a troca
Mas se despir da vaidade
Aceitando a verdade 
Que muitas vezes vai, e não volta 

Amor
Tem certa leveza
Tem certo ciúme 
Tem certa incerteza
Tem certo costume

Amor
Encontrei-o
na noite sombria,
Nos vincos de teu rosto
nos pesadelos, indisposto
((Te vejo 
Pela manhã 
Alívio))

Crédito da Imagem: Foto por How Far From Home em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

V I N C E N T

Por: Livia Maria

Vincent estava lá...
No céu degradê ensolarado
Seus olhos azuis
Alma inquieta e apaixonada
Extasiada pelo amarelo
Vibrante infinito a percorrer o campo
Pólen soprado pela brisa em seus cabelos
Ah! Seus cabelos esvoaçavam 
Entre as folhas verdes, entre as pétalas 
Acariciando tua pele etérea.
Vincent estava lá...
Me sorriu milhões de vezes
Numa emoção incontrolável
Coração transbordando o peito
Coração habitando a inspiração genuína de quem ama uma flor
Além de qualquer sentido
Numa imensidão de arrepios
Eu soube de imediato, quando caminhei entre seus girassóis
Vincent estava lá! 

Crédito da Imagem: Foto por Livia Maria @liviamariaart

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

AOS MESTRES COM CARINHO

Por: Karina Freitas

Mês passado foi comemorado mais um Dia dos Professores. E veio a reflexão da importância dos professores na minha vida, de como esses mestres contribuíram para a pessoa e profissional que me tornei. Voltemos à educação infantil, começando pela alfabetização. Atualmente a nomenclatura já é outra, com mudanças dos últimos anos, mas isso é um detalhe.

O que realmente importa é que com a “tia” conheci as letras, que se transformaram em palavras, que viraram parágrafos e textos de uma ideia e capítulos de uma história. Que aprendi os sons das letras, cuja fonética me possibilitou pronunciar ideias e defender valores. Também fui apresentada aos números, que viraram um universo de possibilidades de soma, subtração, multiplicação e divisão (e vou para por aí … ).

Qual é a pessoa que não depende das letras e dos números para sobreviver? Quantos estão à margem da sociedade devido ao analfabetismo, principalmente o funcional? Quantos fazem parte de uma massa sem desenvolver o senso crítico porque a eles nunca foi oportunizado este exercício e o desenvolvimento de certas habilidades e potencialidades!

Avançando no tempo … o aprendizado foi se tornando mais difícil e exigindo uma postura menos infantil e mais condizente com a nova fase, era o ensino fundamental. A “tia” de uma única turma deu passagem a professoras e professores configurados por disciplina. Tínhamos grade horária para distribuição das aulas e éramos responsáveis por levar o material do dia certo, sob pena de comunicado para casa. Começamos a experimentar o aperitivo da universidade? Talvez! Mas não passávamos de crianças em corpos de adolescentes nos metamorfoseando.

Eis que chegamos na última série do fundamental! Fim daquela fase. Observávamos as meninas e meninos do ensino médio com admiração: lindos, altos e inteligentes, tão maduros aos nossos olhos, os colocamos num pedestal. Até que eles se formaram e fomos nós que ocupamos os espaços dos primeiro, segundo e terceiro anos. Tivemos medo desse mundo desconhecido, que nos distanciava do começo e nos aproximava do fim de um ciclo.

Finalmente nos tornamos os alunos do tão esperado e temido ensino médio. A fase da pré-faculdade. Ah! Como foi bom! Vivemos muitas emoções! Tivemos um professor que dizia “que éramos felizes e não sabíamos”! Afinal! A vida de adulto era muito mais difícil do que a nota ruim de uma prova ou até mesmo a reprovação. Na verdade, nós éramos felizes e sabíamos.

Soubemos viver e aproveitar cada momento daqueles três anos. Estudamos, nos ajudamos, brigamos, ameaçamos até greve, fizemos festas, rimos e choramos e, principalmente, criamos raízes de uma amizade além do tempo e das distâncias geográficas. Podemos ficar anos sem nos ver ou falar, mas o reencontro vira um encontro de quem ficou poucos dias sem se ver.

O ciclo fechou. Enfim, chegou o ano da tão sonhada formatura. Como soubemos fazer uma boa festa. Boas lembranças de um pé sujo de tanto dançar descalço porque o salto não sobreviveu àquele dia. E depois daquele dia, era cada um por si e vida de adulto.

Formados seguimos caminhos diversos pelos cursos universitários disponíveis aos desejos dos nossos sonhos, conforme a nota do vestibular, das obrigações e responsabilidades domésticas ou questões de ordem financeira. A maioria encontra-se na nossa cidade natal, já outros distribuídos pelo país, alguns estão no exterior. Uns seguem a carreira na área de formação, outros mudaram de rota, também há aqueles que estão buscando a mudança. Cada um trilhando seu caminho e contando sua história.

Mas quando…

…estou trabalhando, redigindo um documento que fique digno de uma bela apresentação de ideias, defendendo uma tese buscando coesão e coerência.

…ou ainda, brigando a favor de uma causa ou discordando de outra exercitando a retórica, a eloquência e a sensatez.

Por tudo isso vejo darem mérito ao curso universitário que escolhi. Mas neste instante, olho pra trás e reflito. Chego a conclusão de que não é justo, isso é consequência de um processo anterior e bem mais consolidado.

Foram as tias e tios, professoras e professores, mestras e mestres que contribuíram cada um em uma fase, com seu potencial e dedicação para nos permitir nos transformar nos profissionais que somos. E não é pelo sucesso, pelo status, pelo salário ou pela empresa que integramos, mas pela consciência e pela excelência que desenvolvemos em tudo o que nos determinamos a realizar.

Por tudo isso e muito mais… Feliz Dia dos Professores!

Muito obrigada é pouco, mas é de coração e com carinho.


Crédito da Imagem: Foto por Stephen Paris em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

VIDA

Por: Rosi Santos

Dormi triste, acordei triste. A notícia veio às 10:30 h. Menos uma tia no mundo, na minha vida. Inevitável não chorar, não lembrar dos momentos que passamos juntas nas minhas férias escolares, era a tia predileta.

A canja mais gostosa, o feijão mais saboroso, o frango perfeitamente assado e o melhor doce de laranja da terra do mundo. Com ela foi-se embora a receita da família. Como faremos agora? Não faremos…

A longevidade é uma herança genética e foi preciso um tombo inesperado no quarto para levar embora minha tia de 98 anos que nunca ficava doente, nem resfriada. Logo a tia mais cuidadosa e zelosa, partiu depois de uma queda. Ironia ridícula da vida. Faceta dolorida que teima em surgir vez ou outra na nossa realidade, nos desestabilizando. Esfregando na nossa cara que tudo é muitíssimo efêmero.

Ela me ensinou a importância da mulher “trabalhar fora” e ser independente. Preconizava o empoderamento feminino financeiro numa época em que as mulheres eram criadas para serem somente esposas e mães. Aprendi bem essa lição e a propago a todas! Sejamos independentes, livres, audaciosas, verdadeiras, guerreiras, sensíveis, amorosas, persistentes, determinadas, sejamos mulheres em toda a plenitude.

A morte é uma companhia bem esquisita, está sempre espreitando, além de ser a única certeza da vida. Não sei lidar com isso ainda, e ela está sempre me desafiando. Avós, pai, mãe, primos, tios, amigos. Tantas perdas, tantas lágrimas, tantas saudades. Um choro só, longo, profundo, quieto…

Ao acordar não sabemos se vamos dormir. Ao dormir não sabemos se vamos acordar. No espaço entre essas ações, a gente vive, planeja, projeta, realiza, ri, chora, ganha, perde, conquista, ama, odeia. Cada vida é uma odisseia, um emaranhado de caminhos, de aventuras, de eventos únicos e preciosos, de momentos singulares, singelos ou fantásticos, alegres ou taciturnos, importantes ou insignificantes, que determinam quem somos. E verdadeiramente somos a lembrança que deixamos ao partir.

Sendo assim, minha tia Martha foi fantástica, pois tenho as melhores lembranças dela, tanto da infância quanto de agora! Certeza que lá no céu tá um furdunço com a reunião da família Soares! Vovó, mamãe, papai, tios e tias, primos e primas, ouvindo as últimas novidades aqui da terra!

Então, mesmo triste e desanimada, prosseguirei na caminhada…


Crédito da Imagem: Foto de ROMAN ODINTSOV no Pexels

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O TEU OLHAR

Por: Karla Militão

No teu olhar me perco e me encontro.            
No teu olhar descubro o melhor e o pior de mim.                                                            No teu olhar vejo os anos da minha vida que não param de passar. Percebo a menina que fui e a mulher que me tornei.          
No teu olhar vejo a perspectiva contagiante de aventuras e novidades mas também vejo a rotina que sufoca.           
No teu olhar encontro um sentimento oceânico que me blinda de mim mesma.         
No teu olhar sinto as batidas do teu coração e o pulsar das minhas veias.        
Obrigado pelo teu olhar...

Crédito da Imagem: Foto por Hernan Pauccara em Pexels.com

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LEITURA

Por: Ivone Santana

Passei horas num dia cheio de trabalho, chegando em casa e o pensamento era descansar. Chegando fui direto pro sofá e os olhos voltaram para o livro ao lado. Abri uma página e começando a ler veio a vontade de ler mais para decifrar toda a história que ali continha. Nesse tempo de leitura a mente viaja a vários espaços, cores, paixões, dúvidas, lembranças e certezas.

Várias outras partes do livro ficaram marcadas para serem lidas depois, afinal já era madrugada e viria outro dia trabalhoso. A mente dormindo e ainda na imaginação os detalhes lidos anteriormente.

Ter o hábito de ler se torna uma mania divertida e gostosa de viver e assim é um mundo feliz, cheio de sabedoria.


Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

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XEROSTOMIA

Chiado. Chiado.
Rádio traçadores, Rádio traçadores. Zum. Zum. Zum.Zum.
Sinal. Rádio traçadores. Entrada liberada.

A mensagem era enviada por corredores estreitos sob uma luz intensa que se alternava ao refletir o rio vermelho durante o percurso.
Na corrida, nenhum soldado é abandonado, eles mantêm o ritmo constante.

Uma forte correnteza faz com que eles naveguem em fluxo contínuo. Há um bombeamento que torna o rio fluído, impulsionando-os sempre em frente. 

O primeiro pelotão de rádio traçadores chega ao destino e se aloja rapidamente. Eles não sabem, mas um gigantesco scanner verifica a área. Estão acuados enquanto a leitura é feita. Uma central recebe as informações e processa suas imagens em tempo real, mas… 

Nenhum som é emitido. Onde está o inimigo?

Nesse momento, nem a correnteza vermelha parece se mover com velocidade. A pouca luz obrigava-os a se alinhar e movimentar com sincronismo, como pássaros em voo no céu, reconhecendo o espaço no qual estão confinados.

O segundo pelotão é lançado na correnteza e a luz forte, que alterna períodos de total escuridão, os guia no mesmo caminho. É preciso chegar ao primeiro grupo e unir forças. Quando finalmente encontram o alojamento, estão sencientes de que há algo maior que os vigia.

O scanner varre a área e observa, num zunido quase imperceptível, aqueles guerreiros em seu espaço, as imagens sendo enviadas para uma central, onde ninguém nada vê. De súbito, uma ordem, o caos se instaura.

A central envia um carregamento da droga LA-6, um ataque sutil e letal, capaz de gerar um grande desequilíbrio eletrolítico: tonturas, agitação, sede, boca seca, náuseas e taquicardia. Uma efervescência crescente faz com que o rio se torne uma torrente caudalosa, arrastando tudo por onde passa, tal qual um terremoto no meio do mar.

Quando a onda gigante de LA-6 atinge o alojamento, os rádio traçadores são obrigados a nadar rapidamente para escapar da morte por sufocamento causada pela droga. O segundo pelotão mal chega a se alojar e é realocado em outro acampamento, mas tudo é provisório, e sua situação está por um triz.

O scanner continua acompanhando seus movimentos.

Eles se movem aleatoriamente.

Minutos depois, tudo está acabado. 

Dois pelotões de rádio traçadores foram completamente exterminados por meio de uma central de processamento de dados, uma inteligência artificial, sem contato humano, sem amparo.

O rio vermelho segue seu curso. O scanner volta a sua posição inicial.

Um dia as imagens serão analisadas por olhos humanos, e o grande massacre dos rádio traçadores será lembrado. Bem como sua virtude tóxica.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

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FÊNIX

Por: Lidianne Monteiro

Sou mil mulheres em várias vidas
Em cada fase que parecia infinita, vi desmoronar sem aviso o muro das certezas
Cada etapa se foi sem que se percebesse que jazia o tempo de dizer adeus

De repente se foi
Nem notei
Nem me despedi

E, sem aviso prévio nem lamento, uma vida nova estreia com ar de campeã de bilheteria

As novas fases empinam seus narizes arrogantes 
e minimizam o que ficou para trás
Ofuscam com seu brilho a saudade para que não se pense nela

Então bate à porta um novo recomeço
Inesperado
Duvidoso
Instigante
A roupa velha é descartada
Ou guardada como relíquia preciosa
Para ser contemplada como um troféu do que se viveu

Na fase em que se quer calma, a alma se regozija pelo consolo da trégua
O corpo cansado da batalha nem entende como se deixou calejar tanto
Parecia que só existia esse jeito de ser
Encabeçando guerras e convencendo a ser seguida rumo às trincheiras
Para em um átimo tudo se dissipar e o que se fez parecer desvario

Ora era pássaro construindo minuciosamente o ninho com cada graveto escolhido a bico
Ora decidia destruí-lo para conseguir se apartar dele e ir curar as feridas em outro pouso
Para então seguir o voo mais alto que se ousava imaginar, desbravando feliz a nova
oportunidade de Fênix renascida

Em sendo jovem, já me fiz velha pelo peso do fardo
E, com cabelos brancos, ja me vi menina de novo, invencível e arteira

Tem fase de busca
E tem aquela de apenas se deixar encontrar
Como quem espera desprevenida e intencionalmente

Já vivi a rigidez das convenções e a expectativa ilusória de que estaria resguardada
Deste rio avassalador que leva tudo que encontra quando se vê impelido pela tempestade
Para depois retomar o fluxo calmo
E inaugurar um novo tempo

Fui terna e protetora
Frágil e indefesa
Menina e mulher ao mesmo tempo
Forte e inabalável às vezes
Enquanto calculo palavras e escrevo números
E contemplo apaixonadamente a vida e os meus
Para, logo em seguida, me abraçar às urgências impacientes
Sou muitas
Sou todas
Nasço e findo a todo instante
Como a Fênix mitológica com sua melodia cíclica

Sou tantas em uma
Que cada fase parece ter sido vivida por outras
E foi
E todas elas aplaudem o espetáculo que protagonizaram
Ora chorando
Ora sorrindo
Esperando pelo próximo ato

Crédito da Imagem: Foto por Marek Piwnicki em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

VIDA X MORTE

Por: Claudia Nagau

Dia 5 de novembro, comemorei meu aniversário como há muito tempo não fazia: leve.

Acordei com o entusiasmo e esperança de todos os dias, disposta a escrever todos os propósitos para meu novo ano pessoal.

Agradeci pela minha vida, mentalizei coisas boas, fiz uma postagem no Instagram para que todos soubessem da minha alegria e parti para meu dia, agora com motor 4.4.

Recebi felicitações de amigos, parentes, alunos, cantei sozinha no carro, me dei um belo charuto de presente, trabalhei a manhã toda disposta e sorridente e fui para casa na hora do almoço.

Ao rolar o FEED do Instagram, dei de cara com a notícia da morte da Marília Mendonça. Não ouço sertanejo, não acompanhei a carreira, não era fã; mas a primeira coisa que veio à cabeça foi a brevidade da vida, tudo que ela tinha para viver e o filho que ficou sem sua mãe tão jovem.

Não gosto destes posts piegas e nem desse senso comum, mas o fato do ocorrido ter atropelado o dia do meu aniversário, ter me feito pensar sobre os planos, metas e objetivos que almejava traçar naquele dia, me fez querer falar sobre isso.

Diante da ironia da brevidade da vida, deixei meu bloco de metas de lado, abracei meus filhos, fiz uma piadinha com minha mãe, conversei com amigos pelo Whatsapp, recebi duas amigas e vivi meu dia com quem eu amo, um copo de whisky e o tabaco aceso.

O futuro é agora…


Crédito da Imagem: Foto por Julia Volk em Pexels.com

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