Quando percebi meu fim

Me peguei pensando que comecei a morrer, após um pesadelo. Nele, eu mergulhava no fundo de um mar, e não mais voltava.

Acordei assustada, suando.

Mas afinal, quando começa a vida, e quando ela de fato termina?

Seria viver estar preso a um corpo material, que apodrece aos poucos? Ou a vida teria um significado muito mais abstrato e metafísico, como pregam religiões e filosofias?

Levantei. Tomei um copo d’água.

E recebi a notícia de que meu humorista preferido havia partido. No mesmo dia em que completa um mês que o mesmo ocorreu com meu professor de literatura favorito.

E um menino vítima de bala partida.

E o pai de uma amiga.

E tantos outros esquecidos pelo tempo.

Parece mórbido, mas pela primeira vez me dei conta de minha própria finitude. Parece que a morte me rondava, esperta e sorrateira.

E senti medo. Um medo apavorante que quase me congela.

Como conseguimos seguir em frente sabendo que a jornada pode ter um fim a qualquer momento? Será que por isso temos filhos, escrevemos livros e plantamos árvores?

Será que por trás de tudo o que fazemos, está o desejo de nos eternizarmos, frente a irremediável realidade: nosso fim ocorrerá, quer queiramos ou não?

Corri para o computador. Precisava escrever sobre isso. E junto com lágrimas de pânico, nasceram versos, poema, prosa…

E um sorriso. Seria a vida, para um escritor, renascer em suas palavras todos os dias?


Crédito da imagem:  Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Amei

Amei
Amei e me lembro
Até ontem amava 
o contorno de 
todo rosto tatuado 
na minha memória 
a ferro e fogo

O instante
em que cada chama
se instalou
repercute na lembrança
como fragmentos
de realidades distantes
que simplesmente
se queimaram
sobre a brasa dos dias
até que restasse 
apenas cinzas

Dias cinzas
embrulhados 
em nuvens cinzas
sitiando a cidade 
igualmente cinza

O cinzeiro torpe da verdade: 
os amores foram tragados
e aos poucos se desmancharam
na boca torta do tempo

Não guardo fotografias 
dos dias alegres
nem o registro do trágico
por trás dos finais
para que se amarelem
pouco a pouco
dentro de caixas
empoeiradas 

Confio na minha memória
que impreterivelmente
se acende
a cada recordação 
porque apesar de tudo
amei
Amei e me lembro.


Escritora, poeta e artista visual mineira de 32 anos. Fã de mojitos, jogos de tabuleiro, karaokê e festa, compartilha o apê com quatro gatos: três felinos e seu marido. Publicou os livros: Não escrevo poemas de amor (Penalux 2020), Quando versos gotejo (Penalux 2021). E produziu o livro artesanal Deserto azul – cartas em tempos de internet (2022).  Participou de antologias como organizadora e autora. Também foi publicada em revistas. Integra coletivos de arte, literatura e adora realizar parcerias. É uma das coordenadoras do projeto O sabiá no guarda-roupa (@bibliotecapoesiamg) que visa a criação de uma biblioteca mineira comunitária exclusiva de poesia. Apresenta aos domingos no Instagram @camiladio.poemas às 17:00 horas, o projeto Arte Agora, divulgando o trabalho de artistas e escritores. É formada em Artes Visuais pela UFMG e é estudante de Letras do CEFET-MG. Oferece oficinas de cunho artístico e literário e participa de eventos culturais diversos devido à versatilidade da sua atuação no campo das artes de modo geral. Falou que é arte, literatura e diversão é com ela mesmo!

Instagram: @camiladio.poemas camila.dio.poemas@gmail.com

Crédito da imagem:  Foto por Jill Burrow em Pexels.com

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Riqueza

Eu soube no dia que nos encontramos que você seria cheiro de chuva na terra e maçã do amor com groselha numa tarde de sábado.

Nunca gostei das tardes de domingo, não me leve a mal se você se sente assim, tipo a música da Gal.

Eu tô mais pra verão na serra e casa na montanha, enquanto você é minha Copacabana ensolarada. Dança no calçadão despertando minha malemolência, cobrindo de laranja púrpura meus cabelos.

Se eu soubesse que seria melhor do que eu imaginava, o que mais eu poderia ter feito?

Ainda bem que eu guardei esse sorriso só pra você. E esse choro que nunca mais caiu também foi por você. Essa coisa que é só nossa, é só sua e só minha, e só tem por encomenda.

Falei com as estrelas e elas me disseram que outros assim, mais uma geração inteira pra se ver igual. Eles estão aqui, podes crer. Geramos a partir da poeira intergalática que carregamos nas nossas viagens, quando deixamos Andrômeda.

Me concede mais um desejo?

Que as nossas vidas sejam dia, que nossos nomes sejam constelações, que eu seja tua efemérides e você meu mapa celeste. Para sempre lembrar de voltar.


Crédito da imagem:  Foto por Joshua Woroniecki em Pexels.com

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Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra
portuguesa
Tinha uma pedra
portuguesa
no meio do caminho
no meio do caminho
tinha
uma portuguesa

Ela vinha
distraída
Nunca me esqueci
Deste acontecimento
Na vida de minhas retinas
Tão castigadas
Nunca me esqueci que no meio do caminho
Tinha uma pedra
portuguesa
E uma portuguesa
Sonhadora...

Que caiu
No meio do caminho
Em vila Isabel
Em uma pedra
portuguesa
Com nota
musical
E levantou
E dançou
Já castigada
Em cima da pedra

Em cima da pedra
portuguesa
A portuguesa
Em cima da pedra

Crédito da imagem:  Foto por Karyme Franu00e7a em Pexels.com

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Eco

Dentro de mim tem um Eco que repete a mesma fala, a mesma voz, o mesmo comando. Esse Eco que percorre meus pensamentos desagua no meu corpo histérico que escandaliza e cancela minhas possibilidades de ser.

Só sei que não sou. E não sendo me atormento, me paraliso e mobilizo aqueles que de mim estão próximos.

Tento gritar para externar o Eco para fora de mim. Não consigo. Minha boca trava. A garganta fica seca. Parece que todos estão surdos. Ou será que sou eu, que não sei dizer nada do que sinto?

Em vão coloco as duas mãos nos ouvidos, mas o Eco continua repetindo coisas que não sei dizer, coisas que não sei fazer, coisas que nem sem se existem.

Socorro, me ajuda. Me escuta. Preciso conversar. Você pode me ouvir? Só quero existir, só quero viver, preciso de você.


Crédito da imagem:  Foto por Anna Rye em Pexels.com

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Clara no Sistema

Clara não conseguia respirar dentro do ônibus lotado. Estava abafado e sua sensação era a de que o ar que entrava pela janela estava denso, pesando sobre seu corpo franzino. A máscara no rosto incomodava mas não era prudente prescindir dela se quase todos os seus companheiros de viagem já a haviam dispensado. O suor que escorria pelo rosto e caía sobre seus olhos deixava-a com vontade de chorar. Tentou pensar em amenidades, observar a paisagem da cidade e o movimento dos transeuntes de rostos sérios que enfrentavam a manhã de segunda-feira.

Lembrou-se do filho na escola. Achou-o diferente aquela manhã, queixando-se de sono e dispensando o achocolatado que ele normalmente bebia de um gole só. Titubeou se ele deveria ir mesmo à escola. Contudo, como nada mais ele apresentava além do comportamento atípico, decidiu que o levaria mesmo assim. Caso ele ficasse em casa, ela teria que faltar seu trabalho de meio-período, a faculdade e tudo o mais…

Desde que Francisco nascera, Clara arrastava um curso universitário em uma faculdade pública que lhe exigia horários de aula difíceis de conciliar com a maternidade e com o trabalho que a ajudava a manter a si e ao filho. O trabalho de meio-período foi um achado que ela tratava como uma pedra preciosa e frágil, potencialmente quebrável a menor turbulência de sua vida inconstante. Na semana anterior, havia sido alvo do comentário de uma colega de trabalho que dizia que uma mãe solteira como ela não deveria se dar ao luxo de fazer faculdade e trabalhar apenas meio-período. Constrangida, engoliu o comentário e, na primeira oportunidade, devolveu-o ao universo em um choro silencioso e solitário no banheiro da empresa. Não acreditava naquela ilógica mas recebê-la recorrentemente deixava-a desanimada.

O ônibus parou no seu ponto e, ao desembarcar, retirou a máscara e recebeu a lufada de um inesperado vento frio que parecia anunciar uma chuva-surpresa. O céu ficou nublado de repente e ela apressou-se para ganhar a corrida contra a chuva. Mal pisou na recepção da empresa, sua bolsa vibrou. Na tela do celular, o número de telefone da escola. Francisco estava realmente indisposto e já começava a apresentar uma febre que subia rápido. Preocupou-se porque ele tinha um histórico de convulsões em situações assim. Lastimou-se por não ter dado ouvidos a sua intuição e ter racionalizado a decisão da ida à escola.

 A chuva despencou forte, lavando as ruas e tangendo as pessoas para os abrigos pelo caminho. Tudo ela observava pela porta de vidro da recepção, absorta. Clara permaneceu imóvel, sem ação por alguns instantes, olhando a chuva intensa que rapidamente encharcava os colegas que chegaram depois dela. Decidiu telefonar para o pai de Francisco, saber se ele poderia pegar o filho na escola e levá-lo ao hospital que ficava no meio do caminho entre a escola e o trabalho de Clara. A ligação foi rápida, como era de costume. Ele não podia buscar Francisco nem deu outra alternativa. E desligou. Simples assim.

 Clara pediu um transporte por aplicativo. Não iria sair barato mas não lhe ocorreu outra ideia. Ao se dirigir à porta, deparou-se com a chefe que acabava de chegar e lhe lançava um olhar de quem não entendia por que Clara estava saindo em um horário em que todos estavam chegando. O motorista do transporte que Clara havia chamado chegaria em minutos. Clara apressou-se em explicar à chefe o porquê de sua saída. Gaguejou, atropelou as palavras e mal se fez entender porque ela própria estava confusa, sem nem saber se a compreensão que buscava era mesmo legítima de ser obtida. Sua chefe, contudo, fez um sinal para que Clara interrompesse o discurso. Olhou com atenção para ela e respirou lenta e profundamente, como quem incentiva que o outro faça o mesmo. Clara entendeu e fez uma pausa em seu relato trôpego. Sua chefe a abraçou e disse que tudo ficaria bem. Que fosse ao encontro do filho. Depois ela compensaria aquelas horas não trabalhadas. Apesar da aprovação confortadora da chefe, o que relampejou na mente de Clara, naquele momento, foram as palavras da  colega na semana anterior. Despediu-se e embarcou no carro.

 Clara telefonou para a escola e soube que Francisco havia sido medicado. A febre, apesar de persistente, estava mais amena. No trajeto, o motorista começou a conversar e perguntou no que atuava a empresa na qual Clara trabalhava. “É uma empresa de Tecnologia da Informação. Trabalhamos com softwares para outras empresas”. O motorista achou muito interessante e começou a falar de uma sobrinha formada nessa área. Disse que ela era executiva de uma grande empresa de TI e morava em São Paulo. Que ela sempre fora muito estudiosa e agora, aos quarenta e poucos anos, era muito bem-sucedida e palestrava Brasil afora. Disse que ela viajava muito a trabalho e a lazer. Contou que ora ela estava no exterior ora em alguma cidade turística brasileira. Depois de várias demonstrações de admiração pela carreira bem-sucedida da sobrinha, ele soltou: “Mas é solteirona. Nunca casou nem teve filhos. Com uma carreira dessas, ou ela escolhia uma coisa ou outra, né?”. “Verdade…”, Clara respondeu quase sem pensar. Mal se calou, porém, arrependeu-se imensamente da sua resposta.

 No rádio, tocava a sua canção preferida, um reggae que falava de uma longa estrada cujas curvas e dificuldades só conheciam quem nela caminhava. O ritmo gostoso trazia a tiracolo a mensagem de resiliência e esperança. Clara estava muito cansada e a música que enchia o carro não a alegrou tanto como de costume. Ainda era segunda-feira mas o cansaço do fim de semana de estudos e tarefas domésticas davam à Clara o peso de quem nunca se sentia menos que exausta. As adversidades das situações e o peso das palavras que vinha ouvindo nos últimos dias a levavam para um lugar de desconfiança sobre seu futuro e o de Francisco. O momento não podia ser pior para essa reflexão, um início de semana estranho em que ela acabava de largar o trabalho para socorrer o filho.

Clara chegou à escola e encontrou Francisco deitado em um colchonete. Seus olhinhos estavam lacrimejando e sua testa quente. Ela se pôs de joelhos para abraçá-lo e ele correspondeu com o pouquinho da disposição que lhe restava. Seu hálito adocicado pelo antitérmico a deixou enjoada e a despertou para as providências que estava ali para tomar. Pegou a mochila de Francisco e se encaminhou para pedir outro transporte rumo ao hospital. Qual não foi sua surpresa ao ver seu pai adentrando o pátio da escola e indo ao encontro deles. Ele estava de folga e ela nem lembrava. Ele também recebera uma ligação acerca da febre de Francisco pois seu número de telefone estava na ficha escolar dele. Clara achava que seu pai estava trabalhando então nem cogitou que ele poderia acudí-los.

A presença do pai deu à Clara um novo ânimo e uma sensação acolhedora de quem não está sozinha. Na verdade, desde que chegou à escola e abraçou o corpinho de Francisco, ela se lembrou disso.  

No hospital, Francisco foi atendido e tudo indicava que era mais uma virose de criança. A febre cedeu e logo ele tentou se desvencilhar do colo da mãe para brincar no mini-escorregador da sala de espera. Ao vê-lo assim, Clara se alimentou de uma esperança que o reggae não tinha sido capaz de inspirar. No celular, uma mensagem da amiga avisava que a aula da tarde havia sido adiada por um contratempo da professora. Isso daria à Clara a possibilidade de se dedicar a Francisco no resto do dia. Seu pai, contudo, a presenteou com outra missão para aquela tarde de folga dele. Ele trazia no celular a propaganda de uma startup que contratava estudantes de TI.

A seleção era exclusiva para estudantes do gênero feminino e que fossem chefes de família. A empresa tinha como uma das premissas a valorização profissional da mulher e a inclusão de mães de família, solteiras ou não, no mercado de trabalho. O salário era um pouco maior que o do seu emprego atual e trazia a possibilidade de trabalhar em casa quando necessário. Clara enxergou nessa chance de trabalho uma oportunidade que superava sua questão individual. Atrás desse anúncio e dessa empresa, havia uma causa maior. O avô de Francisco avisou: “Melhor almoçarmos logo para você não se atrasar para a seleção. Pode deixar o Francisco comigo.” E, imitando voz de criança, fingiu sussurrar para Francisco: “O vovô só não pode lhe dar sorvete porque senão sua mãe vai brigar com a gente”. O pai pendurou Francisco no colo e cheirou seus cabelos cacheados de menino arteiro. Clara se encaixou entre eles e molhou o rostinho de Francisco com o gosto salgado do seu amor por ele.


Crédito da imagem:  Foto por George Pak em Pexels.com

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Gotas

Olhei para fora e as gotas da chuva escorriam pelo vidro da janela na mesma sintonia das minhas lágrimas. Por um instante, me perdi nessa visão e esqueci um pouco da dor.

O dia estava cinzento e melancólico. A música ao fundo também inspirava uma atmosfera tristonha.

O trinado lamentoso de um pássaro me tirou do devaneio. Olhei lentamente para cima e o vi cortando o ar com seu voo planado. Ele parecia solitário. Talvez estivesse bailando alguma melodia saudosa. Uma fisgada forte me trouxe de volta a minha agonia.

Catei um pedaço de papel qualquer e com um lápis recém-comprado, anotei esse recorte do tempo. Contei sobre as gotas no vidro e sobre o pássaro viajante.

Escrevi porque senti um desejo frívolo de eternizar aquele momento. Escrever geralmente me ajuda a aliviar anseios e dores. Trata, cuida e algumas vezes me consola.

Guardei com carinho aquela anotação e por um tempo nem lembrei mais dela. Esses dias, arrumando umas gavetas da mesa de cabeceira, encontrei o pequeno texto e pude reviver, agora de forma aliviada, os sentimentos de outrora.


Crédito da imagem:  Foto por Markus Spiske em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Ciclos…

...idas e vindas, 
términos e recomeços,  
alegria e tristeza, 
abundância e escassez, 
desespero e esperança, 
vigília e sono, 
sobriedade e embriaguez,  
equilíbrio e destempero, 
calor e frio, 
introspecção e expansão,  
claro e escuro, 
perto e longe, 
você e ela, 
você e você,  
eu e eu, 
de repente...nós e, 

logo, 

o todo se encaixa em um.

Crédito da imagem:  Foto por Jben Beach Art em Pexels.com

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Verdades ínfimas

Acordou acompanhada pelo Chico. Buarque. “Cotidiano”, a música com a qual despertara naquela terça-feira. Ainda deitada, visitava, por meio da melodia, o ritmo padronizado de suas escolhas; na letra, que se repetia incessantemente em seu pensamento, a estória de uma vida. Dia a dia. Ano a ano. Décadas. Definitivamente, era aquela “A música” que representava sua vida vivida. 62 anos completos. “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Aquela constatação a oprimiu, mais do que qualquer violência, física ou moral, outrora experimentada. Era a confirmação de sua mais absoluta passividade e falta de coragem perante cada um dos diferentes caminhos que lhe acenaram – como mulher, profissional, ser humano. À frente não haveria mais surpresas, opções, espaço. Tempo? Quanto mais? Resignava-se. Implodia-se, na verdade. Amanhecia lá fora e, dentro, ela apenas desejava que a esquecessem na cama, por um dia, uma semana, um ano, o resto de sua vida.

No banheiro, olhava-se no espelho e não se reconhecia. A imagem refletida, sentida como defletida, a atravessava cortante, debochada e provocativa. O creme dental, companheiro por décadas, tinha gosto de fel. Não compreendia porque desejava gritar. Não se situava em tempo e espaço. Não recordava o roteiro programado para o dia. Não distinguia a frieza dos azulejos e a intensidade de sua dor interna. A água vertia pela pia, gelada; e ela se derramava em lágrimas, ferventes. As mãos tremiam e as pernas fraquejavam. Sentia o sangue correr nas veias e um vento incômodo soprar pelo ventre. Os pensamentos tinham vida própria e velocidade alucinante, não se fixavam e não faziam sentido. Enlouqueci, assentiu em um lapso consciente. Encarou-se novamente, buscando-se. Por fim, a aceitação da loucura, em olhos flamejados, não trouxe qualquer estranhamento. Ao contrário, um certo regozijo, a satisfação de quem encontra um amigo de infância. Uma gargalhada movimentava-se por seu corpo, a explodir, quando o “Sr. Cotidiano” bateu à porta, cobrando-lhe o café que estava atrasado.

Vencida a tristeza matinal e reprimida a loucura privativa momentânea, espreitava uma sombria lembrança de que fora invadida, tendo-lhe sido roubado o direito a uma deliciosa gargalhada. Na cozinha, a rotina se impôs. Jornal. Leite. Café. Pão. Açúcar. Fruta. Remédio. Remédios … Lembrou-se do ditado popular de que a diferença entre o remédio e o veneno estaria na dosagem do produto. Ficou imaginando quantos comprimidos de losartana seriam suficientes para dar fim ao “Sr. Cotidiano”. Enquanto divagava, seu inconsciente sacava compulsivamente os comprimidos do blister. Ao final, eram 13 em cima da mesa, alinhados em fila de comando. A gargalhada não mais se conteve, e o som, decibéis incontáveis acima dos padrões aceitáveis para o horário, para o momento e, principalmente, para o quase “de cujus”, assustou-o. Paralisado na cadeira, com o olhar tentava ordenar por uma explicação, mas, em verdade, suplicava pelo estancamento daquela exaltação desarrazoada. Ela percebeu horror naqueles olhos incrivelmente submetidos. Quanto mais alarmado lhe parecia o “Sr. Cotidiano”, mais alto, dissonante e gostoso ela gargalhava. Provocava-o, encarava-o, e flertava com os limites da situação. Deliciava-se o torturando e experimentando um gozo absolutamente individual, íntimo e imperscrutável.

Arrefecida a ideia do homicídio e recalcado o gozo pela singela maldade imputada ao personificado cotidiano, percebeu-se sozinha no (in)cômodo. Esquadrinhou todas as tarefas do dia e resolveu que naquele dia tudo deveria ser diferente. Decretou feriado pessoal, em razão de 62º aniversário e se deitou no sofá. Feira, farmácia, trabalho, netos, banho, almoço, cachorro, unhas, o mundo externo não a subjugaria naquele dia. Uma rebeldia muito bem-vinda, ponderou, depois de anos dispondo-se ao serviço e aos cuidados dos outros. Respirou aliviada, desligou os instrumentos para o mundo externo e cerrou os olhos.

Foi acordada pelo barulho do ferrolho, às 18h47. “Sr. Cotidiano” havia chegado do trabalho, como de costume entre 18h40 e 19h. Ainda com os olhos fechados, sabia que viriam as flores – lírios brancos – acompanhadas de um beijo e a pergunta sobre o quê gostaria de jantar, para celebrar. Sabia, também, que a filha havia lembrado o pai da data e que a resposta correta, repetida mais uma vez, deveria ser “vamos pedir uma pizza, meu amor?”. Seguiu-se também a ritualística demonstração de surpresa com a chegada dos filhos e netos em torno das 20h.                 

Ao se deitar, percebeu que passou seu aniversário exatamente como viveu a sua vida. Sonhando, encerrada em si própria. Entregue. Alienada. Revoltada. Deitada e paralisada. Quem sabe amanhã ressuscite Bom Scott e acorde ao tom de “Highway to Hell”, ou encarne Michael Douglas em “Dias de Fúria”, e então possa dar vida externa à sua tristeza, loucura e maldade. Ou não. Talvez a companhia cotidiana de Chico Buarque não seja, assim, tão ruim. Programou o despertar para 6h20 de quarta-feira, ao som de “Cotidiano”, como de costume. 


Crédito da imagem:  Foto por Bianca Salgado em Pexels.com

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Marque um Encontro

Quais são os seus alicerces?
Você se namora?
Você se sente livre?
Marque seu encontro com você.
Conecte-se com o amor, com alegria, com a saúde 

Marque um encontro com tudo o que te conecta com a sua identidade.
Marque um encontro com as suas emoções, sinta, seja, veja, receba!
Pergunte o que te traz felicidade, pergunte:

Como eu posso me encontrar com a minha Essência?
Ouça você! Toque você! Veja você!
O que te traz paz
O que você está fazendo de sua vida?
Você faz falta?
Marque um encontro com tudo que está dentro de você!
Transborde!

Crédito da imagem:  Foto por Monstera em Pexels.com

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