Resenha ” Mulheres Perfeitas: universos femininos à flor da pele”

O cotidiano de mulheres que lutam para conciliar as tarefas e os desafios do dia a dia, com muitas dificuldades e muita coragem! Esse é o livro Mulheres Perfeitas, da escritora baiana Séfora Oliveira.

Dona de uma escrita leve, e ao mesmo tempo incisiva, Séfora nos apresenta personagens marcantes, como a arquiteta Ana, que batalha para equilibrar vida pessoal e profissional, e a médica Ana Amélia, que luta contra o racismo no ambiente de trabalho.

O relato torna-se ainda mais cheio de emoção no conto “O telefonema”, em que vemos a dramática perda do filho de Alice para a morte: “O seu coração falhou na batida. Hesitou um minuto para pegar o aparelho, pois veio na sua mente uma frase tantas vezes repetidas por sua mãe: Telefonemas na madrugada com certeza trazem más notícias”.

Outro relato forte e cortante é o da personagem Isabel, no conto Hora do Jantar. Ela sofre violência doméstica: “Ele se levantou e jogou o conteúdo do seu prato sobre a blusa branca de Isabel, que se manteve imóvel. Puxou a toalha da mesa com um único movimento, fazendo tudo se espalhar por toda a sala. O som da louça se quebrando penetrou como pontas na cabeça de Isabel”.

E assim, por 119 páginas de muitos conflitos, Séfora nos conduz pelo universo de mulheres que, aos trancos e barrancos, só querem mesmo se libertar das amarras sociais, e serem felizes, claro. 

Vale à leitura!

Lágrimas

Mais uma lágrima desejosa de liberdade fugiu. Saiu apressada, deslizando. Mas, como não sabia voar, caiu e acertou em cheio o fio teimoso de esperança que ainda estava lá.

Eu nunca imaginei que aquela coisinha miúda e fluida pudesse fazer tal estrago.

Era madrugada, a cidade estava quieta. Acho que por isso consegui ouvir o som da queda.

Fiquei parada observando aquilo tudo. E, por um instante, tive pena dela. Imaginei quais seriam seus sonhos. Se ela tivesse asas, talvez tivesse sido diferente.

Amanheceu. Senti cheiro de café e ouvi risinhos saltitantes se aproximando. Fui tomada por um frenesi. Ah não! Avistei outra lágrima. Pobrezinha, pensei. Mal sabe seu destino.

Cheguei mais perto para observá-la melhor. Essa era diferente. Tinha uma roupa alegre, seu olhar era entusiasmado e feliz.

Curiosamente ela não tentou fugir. Olhou pra mim e pude ler seus lábios silenciosos falando: “eu sou mensageira da gratidão, ainda há esperança”.

Logo depois, quatro bracinhos miúdos me abraçaram dizendo: “bom dia, mamãe!”.

Não tenho dormido, mas ontem sonhei com você

Pode soar como uma mentira deslavada, mas se tem uma coisa que não tenho feito com frequência é dormir. O trabalho tem estado interessante e estressante ao mesmo tempo. Você me conhece há muito tempo e sinceramente, existem coisas que não mudaram com o passar do tempo.

Eu ainda adoro ouvir música enquanto estudo e/ou trabalho, correr em horários totalmente diferentes e ainda gosto de você. Falando sério, sempre que dizia isso você ficava super sem-graça, mas nunca me respondia. Acredito que sejamos polos não tão opostos, amigos há tanto tempo que nem me lembro, pessoas cheias de ideias e super ocupadas. E ainda assim, ontem sonhei com você.

E que sonho bom foi este.

Espero que leia o que te escrevo e que me encontre qualquer dia para um café e um abraço. Te conto mais sobre como foi bom reviver lembranças e visualizar algumas possibilidades de futuros. Eu sinto sua falta.

보고 싶어요,Oppa!

E se…

E se o dia amanhecesse diferente

Se seu sentimento fosse feliz

Se seu sorriso não fosse forjado

Se sua mente estivesse em paz

Se você fosse de verdade

Se o sonho se tornasse real

Se a luta não fosse em vão

Se o amor prevalecesse

Se a morte fosse recomeço

Se os povos se unissem

Se a fome não matasse

Se a sua fé fosse contagiante

Se seu carinho fosse reconhecido

Se seu esforço fosse recompensado

Se o descaso não existisse

Se o amor…

Se o…

Se…

Eu gostaria que chovesse agora

A caixinha de som na traseira da moto vibrava ao solo da guitarra. Parecia uma súplica, que chovesse naquela hora, aplacando o sol escaldante do Ceará, e lavasse sua alma empoeirada da estrada, que acumulava as traças da falta de contato, da distância que aquela missão havia imposto aos dois. Ele havia voltado apenas por ela. Por eles.

Ainda estava de uniforme quando saiu do aeroporto com a lua e o sol no céu. Precisava passar em casa antes de seguir para encontrá-la. Jogou uma jaqueta sobre a farda e foi direto para casa. Esperava que ela o encontrasse, que a música a fizesse, como uma Julieta em Verona, atender seu chamado. E lá estava há cinco longos minutos: Phil Collins cantando e Douglesney sentado em sua moto, as sacadas do edifício se enchendo de curiosos, e ela, onde estaria?

– l –

Haviam conversado muito ao telefone, não se tratava de uma intenção, mas uma decisão. E ela, do outro lado do Brasil, devia entender seus motivos, afinal era a razão de tudo ter chegado ao ponto que chegou. Para que os planos dessem certo, precisou negociar sua permanência na unidade. Passou noites em vigília na fronteira, cobriu turnos incansavelmente, sacrificou sua patente, ela não precisava saber.

Antes que o avião da FAB pousasse em Fortaleza naquela madrugada, fez uma oração silenciosa, uma prece ao padroeiro de sua mãe, precisaria de sua intercessão. O dia raiava em tons de roxo e laranja. Uma continência aos superiores, mochila nas mãos, tomou seu rumo.

Queria que ela estivesse em sua casa, mas apenas Caetana, herança de seu pai o aguardava. No celular nenhuma mensagem. A conversa não tinha ido na direção pretendida, mas se tem algo que aprendeu no exército foi nunca desistir. Ele não desistiria deles tão fácil assim. Tentaria ainda mais uma vez, mesmo que parecesse desesperado.

A cama desfeita no seu quarto e as partículas de poeira em suspensão trouxeram uma visão da noite em que ele a deixou. A hora em que sentiu sua respiração pesada pelo sono, retirou seu braço e se arrumou para partir com o pelotão. Era melhor que a despedida tivesse sido aquela, sem choro. Havia obstáculos a sua união, mas não para o homem que venceu a doença, não para o soldado condecorado, não para sua alma exposta e seu coração. Eles chegaram juntos até ali, naquele beijo de despedida, e estariam juntos de novo no beijo do reencontro, ele sabia, estava mais perto a cada minuto.

Preparou um café forte, foi até a garagem e tirou a capa de Caetana, uma Harley Glide década de 1970. Colocou mais algumas roupas na mochila e sua partida estava pronta. Ela saberia dele, onde quer que estivesse. Sobre a camiseta branca vestiu a jaqueta de couro. Minutos antes de sua partida uma chuva intensa fez o dia claro se fechar, assentando a poeira no chão, escorrendo pelos telhados de cerâmica da Rua dos Tabajaras. E logo se fez sol alto outra vez.

Quando parou a moto no Meireles, conectou a boombox ao celular e ligou o som. Era a música que ela gostava que ele tocasse ao violão, ela reconheceria, ele sabia. Phil Collins cantava I wish it would rain down. Ele queria que a chuva lavasse os erros do passado, que ela desse uma segunda chance ao amor deles, que Sofia o entendesse.

Dos prédios ao redor todos espreitavam das janelas, as varandas curiosas, sacadas esperançosas pelo desfecho dessa serenata moderna à luz do dia. Ele permanecia parado em sua moto, aguardando a vida mudar num salto, uma chegada, uma decisão tomada.

Aquela era a música, a hora, o local.

Nada.

No verso final da canção encarou seu destino.

– II –

Quando desligou o telefone naquela noite Sofia chorou até deixar o travesseiro empapado. Ela havia arrumado suas coisas e deixado a casa de Douglesney totalmente desalentada, pouco tempo depois que ele partiu em missão. Não havia sentido em permanecer ali se ele não estava. Ela se sentia adoentada, e a solidão potencializava sua fraqueza.

De volta a casa da prima no Meireles, precisava pensar sobre a vida e o que seria deles. Três meses separavam os dois daquela noite. Douglesney era capitão, tinha tempo de serviço para sair, começar uma vida nova. Ele havia planejado tudo: com as economias do soldo, eles comprariam a casa da Praia da Baleia em Itapipoca, aquela com o quiosque na frente que tanto gostaram quando passaram o fim de semana. Criariam ali aquele menino que crescia e os unia, uma vida de sonhos. Sofia poderia terminar sua faculdade de medicina depois que o bebê nascesse, e eles poderiam ter mais filhos quando ela quisesse. Ele tinha certeza que seriam felizes, tinha certeza de que a amava e que tudo era bênção.

Vai dar certo, ele repetia para a menina. Mas tudo parecia um pouco mais complexo. Sofia, mesmo ciente do amor de Douglesney, não tinha certeza se estava pronta. Não queria se casar, nem filhos, nem morar na Praia da Baleia, não naquele momento. Ela não queria o sonho de verão do namorado, estava sofrendo. Desejava que tudo voltasse no tempo, fossem namorados passeando na cidade de moto, curtindo a vida sem compromisso e feliz. Havia muito futuro para ser conquistado, e um filho e um casamento estavam longe de preencher os requisitos.

A prima havia chamado os pais de Sofia, que a encaravam quando ela desligou o telefone. Era uma menina de vinte anos, prodigiosa, um investimento de longo prazo que, diante dos pais, desmoronava por causa de um soldado em missão no sul do país. Não havia como dar certo.

Sofia queria ficar só é chorar. Tudo estava decidido, ele estava voltando, tinham planos, tudo daria certo. O pai argumentando com a filha que seu futuro era de glória, e ela o estava enterrando. Ela revidava com os planos que não eram seus, talvez fossem de Deus, mas ela aceitava. A mãe pedindo calma ao homem, calma à filha, tentando se acalmar também.

Os hormônios, os enjoos, a tristeza, uma menina frágil segurando o peso de uma vida em seu colo, de um mundo em seus ombros. Não tinha dinheiro, dependia dos pais. Veio para a capital estudar, ficava na casa da prima de sua mãe, a primeira a perceber os sinais. E o destino lhe deu uma rabissaca que a deixou sem chão.

Para aplacar a discussão, a mãe ofereceu um chá de camomila e um comprimido, apenas para relaxar. Quando dormiu, o pai a tomou nos braços e caminhou até o carro. Foram para Juazeiro do Norte na mesma noite, onde a menina acordou em seu quarto de adolescente. O telefone não estava lá.

– III –

Quando Phil Collins cantou o último verso e Sofia não apareceu na varanda, Douglesney encarou seu destino. Juazeiro do Norte era a terra do seu padim, seu intercessor, ele resolveria tudo pessoalmente com Sofia. Acionou o motor e, sem pressa, se afastou por entre os carros. Os acordes finais da música sufocados pelo som das buzinas e motores da avenida principal.

Os sonhos mudam

Desde pequena sonhava em ser bailarina. Dessas que dançam em grandes companhias, ganham prêmios, e dão entrevistas. Para a realização do projeto, treinava todos os dias. Era incansável em seus passos e piruetas. Ensaiva, e ensaiava, e ensaiava…

Até que com apenas dezoito anos entrou para o corpo de baile de um grande grupo. A família era só orgulho. E Clarice, pura vaidade. Amava os elogios, os aplausos e, principalmente, as luzes do palco.

Mas depois de cinco anos fazendo o trabalho, começou a se sentir cansada. Os ensaios pareciam cada vez mais exaurir seu corpo, já abatido por vários machucados e lesões. As cobranças começaram a gerar ansiedade. E o relacionamento com os colegas naufragava em meio à competitividade e picuinhas.

Começou então a refletir sobre até onde isso iria. Em mais algum tempo chegaria aos 30 e ainda não tinha namorado, casa própria, e sequer poderia sonhar com filhos, com aquela rotina corrida que possuía.

Clarice começou a perceber que aquele sonho não poderia ser tudo em sua vida. Que precisava virar essa chave. Só assim, teria espaço para se dedicar a outras tarefas e atividades.

Começou então a estudar para o vestibular de algo que sempre gostou, mas nunca teve tempo para se dedicar: direito. E, com isso, seus sonhos se transformaram. Pensava em ajudar os mais humildes, tornar-se uma defensora pública.

E os anos foram passando, passando. Até que, pouco a pouco, passo por passo, ela começou a reconstruir seu caminho. E pensou: “sonhos não são para sempre”.

E como no balé, dançou lindamente por esse espetáculo maravilhoso que se chama: VIDA!

((Esse texto é dedicado a todas as mulheres que tiveram a coragem de mudar de ideia))

Minha mão agora

Minha mão agora
é quase tão exigente
quanto meus olhos
leitores e vorazes

Minha pena hoje
Não profere mais
quaisquer palavras

E o papel
diante de mim
não provoca
ansiedade

No silêncio
e na virtude intocada
da superfície branca
distante do trânsito
de letras e pontos

Descobri:
É o lugar onde encontro
minha alma poética
dormindo e sonhando

Porque a vida é repleta de
Antíteses que se completam
O movimento é importante
também a pausa.

Hospedeiro de palavras

Ela tinha a ligeira impressão de que sempre era escutada por ele, mas nunca ouvida.

Ficava sempre presa na contingência do pensamento dele e não vivia o real das palavras que sua boca reproduziam.

Sensação de desespero, sensação de eco ineficaz.

Definitivamente ele era o opressor da sua linguagem, ele era um hospedeiro das suas ideias.

Naquele dia especifico ela percebeu que ele sempre respondia as perguntas, mas suas respostas eram diferentes das que realmente tinham sido perguntadas.

Ela pensava “Ele mais uma vez não me ouviu”.

Como gostaria de ficar ao seu lado e lhe ensinar a arte de realmente ouvir. Como gostaria de se colocar em contato com ele, talvez isso enriquecesse a vida dos dois.

O contato com o outro, o ouvir… tudo isso era riqueza de vida. E aquela relação era pobre, falida. Não havia conexão.

Quando você deixa de ser afetado pela palavra ela deixa de tocar sua vida, se você não é afetado você não ouve realmente.

O que restava a ela agora no meio de um discurso sem sentido? Gritar, falar, silenciar. As duas primeiras opções eram tentativas inúteis. Pensou que talvez o seu silêncio simbolizasse o que a linguagem verbal não foi capaz de fazer por todos esse anos.

E assim ela partiu… muda, silenciosamente brilhante como o nascer do sol. E pela primeira vez ele que nunca tinha ouvido nada, compreendeu o real significado de tudo o que não aconteceu.

RECOMEÇO

Três da manhã
pesou-lhe a mão que lhe fez
filhos.
da cama ao chão
subsolo da humilhação
caída. alma e camisola
em desalinho
o quarto, arco de entrada
porta de saída
dizia o dedo em riste.
ela, rainha em seus desejos
ela, rama de lenha molhada
foi o que lhe dera a existência.
A mulher há incontáveis sóis
não pescava caranguejos na lama
não comia peixe salgado para o mês
arrancado de anzóis.
raízes. voltar já foi ideia,
coisa nenhuma
pluma levada
sem alcance de seu fôlego.
Aquele chão também
lhe pertencia.
pelourinho privado
ela mesma o ergueu.
seus pés rachados
sempre vermelhos
um brilho de medrança.
iscas de atalhos.
A dor planta areia
nas vistas
faz cortes sem parábolas
versículos
sem bíblia que os queira.
Ergueu-se. largou
a história. o fogão. o in mente.
Consigo:
a vergonha do despejo
o vulcão do novo
a barriga de oito meses
sem destino para chegar.
Recomeço

Grito eloquente

Quer tudo para o mesmo instante

Não sabe esperar nem poucos minutos

Balança as mãos e respira ofegante

Essa é a vida do impaciente.

É o trabalho, a casa, o financeiro.

Um turbilhão de coisas na memória;

Não sabe se dá um passo a frente

Ou se acalma e espera.

Vidas do século XXI

Terapias para aprender a conviver

A necessidade já vem do útero.

E o dia vai seguindo e findando

As vezes precisa mais e outras vezes menos

Dar um grito eloquente a si mesmo.