Um dia você vai encontrar o que procura

Sabe, hoje em dia, tudo que precisamos saber o significado damos um Google e tcharam, ali está o que estava procurando.


‎         Mas o que realmente procuramos não está escrito em uma página de internet, numa rede social ou no aplicativo de compras dos produtos que vem da China. Às vezes não percebemos que está aqui do lado, a razão ou a consequência de algo que fizemos, pensamos ou passamos e é aí que está o ponto máximo da questão, estamos sempre querendo ser completados e nem sempre conseguimos atingir esse objetivo.


‎         É difícil lidar com o ser humano pois nunca sabemos se estão sendo verdadeiros ou mentindo descaradamente sobre o que está ocorrendo mas é sempre bom ter com você e dar aos outros o “benefício da dúvida”.
‎ O grande dia vai chegar, devagarinho ou como um furacão e caro leitor vai causar uma desordem para no prosseguir da caminhada (a sua vida) tudo se coloque na devida ordem.

Para mais textos, acesse: https://personasdegaia.wordpress.com/

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O Céu e O Inferno (Conto)

Velas acesas, uma música gostosa tocando e uma garrafa de vinho tinto aberta sobre a mesa da sala.

Sentada na janela, Maria olhava a chuva forte que caía lá fora. Uma taça de vinho na mão, lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios. Estava feliz.

Maria teve uma infância conturbada. Não sentia-se amada, não sentia-se segura, pertencente. Escassez, violência e sentimentos invalidados eram lugar comum em sua rotina. Filha de mãe solo, passava maior parte do tempo sozinha enquanto a mãe trabalhava. Sua mãe era dura com ela. Aos 8 anos Maria já tinha a responsabilidade de cuidar da casa e começava a aprender a cozinhar. Dividia-se entre as responsabilidades domésticas, escolares e um desejo incontrolável de ser apenas criança. Sonhava, criava. Enrolava toalhas na cabeça e fantasiava ter longos cabelos enquanto dançava com a vassoura, varrendo a pequena casa. Queria ter irmãos. Imaginava que assim, terminariam as tarefas de casa depressa e, juntos, poderiam brincar.

Não havia muito diálogo entre mãe e filha, mas a mãe de Maria estava sempre preocupada em fazê-la entender o que era pecado, porque este sim, era o maior dos perigos: a levaria ao inferno. Maria não entendia muito bem, mas frequentava as aulas de catequese, ia às intermináveis missas e começou a pensar que andava pecando por achar tudo aquilo uma chatice. Disse isso de cabeça baixa e bastante envergonhada ao padre ao confessar-se. Era o único pecado de que se lembrava.

Com o passar dos anos, Maria ficou “mocinha” e a preocupação de sua mãe aumentou. Maria começou a entender então o que era pecado, o que era céu e inferno. Era pecado tocar a genitália. Se ela sem querer a coçasse na frente de sua mãe, logo vinha a bronca: tá com a mão aí por que? Não sabe que é errado? Tira a mão daí!

Com a chegada do primeiro namorado, aos 15 anos, sua mãe foi bem clara: se você fizer qualquer coisa que seja pecado eu vou saber. Se algum menino tocar em seus peitos eles ficam caídos. Se tocar em outro lugar (e olhava sisuda na direção da vagina de Maria) o andar da moça muda imediatamente, todos ficam sabendo. Se isso acontecer, nunca ninguém vai querer se casar com você. Nenhum homem quer se casar com uma mulher que passou nas mãos de outro. Vai ficar sozinha o resto da vida, sem família e em pecado. Maria tinha medo de que um dia a chamassem de vagabunda como faziam com a filha de Dona Marlene, uma vizinha querida. Coitada da Dona Marlene, sempre tão bondosa, trabalhadora. Mas não deu sorte com a filha que só lhe dá desgosto, é uma piranha – diziam a mãe de Maria e suas amigas quando conversavam.

É que o céu era encontrar um homem, casar-se, ter uma família. Não conseguir isso era o inferno, era não ter futuro, a comprovação de que você não era boa o suficiente, não era merecedora, não era pura.

Maria, então, seguia cheia de medos e dúvidas as orientações de sua mãe. Beijava seu namorado com medo. Pensava o tempo todo nas mãos perigosas dele que, ao menor sinal de distração dela, poderiam levá-la para o inferno, para o pecado. O namoro não durou muito.

Aos 17 Maria sentia sensações estranhas em seu corpo. Já havia as sentido antes, mas agora era diferente, mais forte, mais intenso, quase que incontrolável. Negava, fingia não sentir, lutava contra, não queria aquilo, orava. Conheceu um rapaz. Esse, mais ousado, tentava de tudo, mas Maria segurava – apesar de gostar do que sentia. Gostava mas não podia. Todos saberiam, seus peitos cairiam. Quando se permitia beijos mais quentes, culpava-se. Chorava antes de dormir e pensava: se ele contar a alguém estou desgraçada, não presto, sou uma vagabunda.

Aos 19 conheceu um homem, Felipe era seu nome. Este dizia que a amava. Maria, que nunca sentiu-se amada, amou a sensação de ter alguém amando-a, cuidando dela. Ele se preocupava com ela como nunca ninguém havia se preocupado antes. Ligava o tempo todo para saber onde ela estava e com quem estava, sabia de todos os seus horários, dos horários das aulas da faculdade. Aparecia às vezes sem avisar para fazer-lhe uma surpresa, ligava no fim da aula e ficava com ela ao telefone até que ela chegasse segura em casa, dizia-lhe que sua mãe nunca cuidou dela direito, que ela merecia ter tido mais cuidado e atenção. Nessas horas ela chorava. Ele era mesmo a única pessoa que a amava e preocupava-se com ela. Mostrou a ela que muitas de suas amigas não eram assim, tão amigas. Aconselhou-a a afastar-se delas. Ele sempre quis o melhor para ela.

Cuidava de suas roupas, dizia o quanto era perigoso usar roupas curtas ou decotadas. Mulheres que andam de roupas curtas demais e decotadas demais são umas vagabundas, ele dizia.

Foi ganhando a confiança de Maria. Disse que tudo que sua mãe dissera era mentira. Os peitos não caíam, o andar não mudava. Ele a amava e queria casar-se com ela.

Maria achou que ele era o céu, que ele merecia o que ela tinha de mais valioso. Ele a amava como ninguém nunca a amou. É claro que merecia! Maria então entregou-se a ele. Ao terminarem, Maria entendeu que aquilo era mesmo um presente para o homem amado porque ele estava muito feliz. Já ela, não havia sentido nada de bom. Quando Felipe adormeceu, ela chorou copiosamente por mais de uma hora. Traiu sua mãe, pecou. E se ele não quisesse se casar com ela? Estava desgraçada!

Com o passar do tempo, os peitos não caíram, o andar não mudou, a culpa diminuiu. Maria sentia raiva de sua mãe. Não achava assim tão bom fazer sexo, mas fazia. Felipe gostava. Suas amigas adoravam e sempre falavam sobre como era bom. Ela não entendia o por quê. Achava bom às vezes, mas nada tão incrível assim. Vai ver aquilo não era para ela.

Um tempo depois, a mãe de Maria desconfiada, perguntou a ela: você se perdeu, não foi? Maria empalideceu. Não conseguia responder. Uma lágrima escorreu e então, sua mãe caiu em prantos: você me traiu, traiu a minha confiança. Saiu do quarto em silêncio. Ficou sem falar com a filha por uma semana. Maria sofreu muito. Culpa, dor, rejeição, sensação de não pertencimento. Precisava sair daquele lugar. Aquele não era o seu lugar.

Aos 22 anos Maria casou-se com Felipe. Teve então o tão prometido céu. O problema é que a tal felicidade não chegava. Maria cuidava dele como quem cuida de um filho, fazia-lhe todas as vontades. Não era suficiente. Felipe estava sempre a reclamar, queixar-se da vida. Já Maria, era alegre, divertida, engraçada. Tinha sempre um sorriso no rosto e uma leveza difícil de explicar, carregava a estranha mania de querer ver a vida bonita. Varria suas dores para debaixo do tapete e seguia.

Sem perceber, foi-se entristecendo. Culpava-se por não gostar do céu, mas não podia ir embora. Família é para sempre. Felipe cuidava dela e sempre lembrava-lhe como ela era infeliz quando vivia com a mãe. Dizia que se não fosse por ele, ela viveria uma vida medíocre. Mostrava-lhe como ele era inteligente e dizia-lhe sentir muito por ela ser tão simples, por não ter um mestrado como ele tinha, por não valorizar as coisas requintadas que ele lhe apresentava. Chegou a chamar-lhe de burra algumas vezes. Ele devia ter razão. Maria adoeceu. Depressão. Felipe dizia-lhe palavras de ânimo e motivação para que ela saísse daquele estado. Dizia que ela estava gorda e ficando feia, desinteressante, que não se cuidava. Você precisa levantar dessa cama, tá cheio de gente passando fome lá fora, morrendo de câncer e você aí, deitada de preguiça.

Isso era motivação para que ela voltasse a se cuidar, levantasse daquela cama.

A parte ruim era quando ele queria sexo. Maria não tinha vontade e culpava-se por isso. Como podia não desejar o homem que a amava? Ele não aceitava um não – e com toda razão. Casou-se para isso. Era homem e tinha suas necessidades. Maria aprendeu a abrir as pernas, fechar os olhos e rezar para que ele acabasse logo. Assim ele ficava calmo, não brigava e ainda lhe abraçava e dizia umas coisas bonitas. Apesar desse jeito meio bruto, ele a amava mesmo.

Maria viveu com Felipe por 13 longos anos, até que ele a deixou. Apaixonou-se por outra.

Num primeiro momento, Maria olhou para trás e desesperou-se. Entregou toda sua juventude àquele homem e agora, estava fadada ao desamor e à solidão. Quem ia querer uma mulher separada? Por que o marido não a quis mais? Boa coisa não deve ser! Nem a juventude tem mais para oferecer.

Depois que Felipe saiu de casa, Maria passou alguns dias sem sair da cama. Uma tristeza profunda a abatia. O que havia feito de errado? Qual era o seu problema? Será que estava ainda mais feia? Seriam as celulites em seu corpo de que ele se queixava? Por que não emagreceu? Ela não era boa o suficiente? A nova mulher que Felipe amava era melhor que ela? Certeza que sim! Melhor em tudo! Afundava-se. Não era nada. Acordou certa vez e não sentia nada. Vazio.

Passados alguns dias, Maria levantou-se da cama, tomou um banho, vestiu uma calcinha e uma camiseta, penteou os cabelos molhados e caminhou até a sala. Felipe não estava lá e não voltaria. Ela estava sozinha. Sentiu paz. Colocou uma música alta e dançou. Pulou no sofá, abriu um pote de sorvete, viu um filme. Sentiu um sopro suave de liberdade. Dormiu como há anos não dormia.

Seguiu em frente mesmo ferida, atravessou conflitos e dificuldades, enfrentou-os. Abriu-se para a vida.

Cerca de um ano depois, Maria conheceu um homem. Havia tido alguns encontros antes mas rejeitava qualquer homem que tivesse mera semelhança com Felipe. Não queria mais saber daquilo.

Esse homem era diferente de Felipe. Despertou seu interesse. O primeiro encontro foi bonito. Maria já havia aprendido um bocado sobre si, estava apaixonada por ela mesma, conhecendo-se, descobrindo-se e não deixaria ninguém atravessar isso. Nunca mais. Amava a si mesma pela primeira vez. Gostava de quem era, de quem descobria ser.

Mas é que esse homem era leve, suave. Não queria atravessá-la ou diminuí-la. Parecia ser o oposto disso. Ela desconfiava, não lhe daria muito espaço, mas abriu uma brecha. No espaço dela, ninguém meteria mais o bedelho.

Tiveram sua primeira noite juntos. A lua iluminava o quarto. Se sentiu bonita. Bastaram uns poucos toques e algumas palavras, aquele olhar sobre ela… Maria sentiu seu corpo arder em brasa naquela noite fria, sentiu vibrar em si partes que ela sequer conhecia. Aquele homem queria dar-lhe prazer. Isso era completamente novo. Ela relutou no início mas relaxou em seguida, permitiu-se, aceitou. Deixou a luz entrar por aquela brecha. Fechou os olhos e desligou-se do mundo. Pela primeira vez não estava pensando no que fazer para agradar, no próximo passo para dar prazer. Não estava pensando em nada. Até que algo estranho começou a acontecer. Seu coração acelerou, seu corpo inteiro parecia não ter mais controle, suas pernas tremiam, a coluna envergava, braços expandiam , abdômen contraía, sua respiração parecia uma música fora do compasso e, de repente, como numa explosão, Maria sentia sua alma elevar-se, sair do corpo ao som de um gemido que deixava seu corpo através de seus lábios. Maria jorrou de prazer. Beijou aquele homem com fome, com paixão , sentia o cheiro do prazer, sentia seu sabor nos lábios dele. Gozou pela primeira. Morreu e nasceu de novo ali, naquela cama. Chorou. Chorou muito. De alegria e de tristeza. Tristeza pelo que lhe foi negado, arrancado. Pela vida de gozos perdida. Por ter acreditado durante tanto tempo que aquilo era pecado. Não podia ser! Aquilo era divino! Ela tinha certeza, era divino!

Abraçou aquele homem e agradeceu. Ele a acolheu. Fizeram amor. Olhos nos olhos, peito no peito, cheiros, sabores, desejo. Aconteceu de novo. Sentiu-se poderosa, dona de seu prazer.

Ela precisava ficar sozinha. Foi para casa.

Tomou um banho, vestiu uma calcinha e uma camiseta, penteou os cabelos molhados. Olhou pela janela e viu uma chuva forte cair. Dentro dela também chovia forte. Tempestade. Colocou uma música gostosa, acendeu algumas velas – ela amava luz de velas; abriu uma garrafa de vinho tinto. Serviu-se uma taça. Brindou com o ar, rodopiou ao dançar, sentou-se na janela acompanhada de sua taça de vinho com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios. Estava feliz, estava livre. Maria estava no céu. E nunca mais ninguém tiraria isso dela.

Memento mori – Lembre-se da morte

 A expressão “Memento mori” perseguiu-me por alguns dias. Eu a vi estampada em uma fachada de Fortaleza enquanto dirigia em modo distraído, em uma rua não-sei-qual em um dia não-lembro-quando. Mas a frase ficou piscando em minha mente e me reaparecia nos momentos mais inusitados ao longo de dias. Ela me soava familiar mas eu não fazia ideia de onde a conhecia e o que significava.

Foi então que me lembrei de um anime japonês que vi com Isabel e que tinha um vilão chamado “Mori”. Quem sabe a expressão da fachada não tinha relação com esse anime? Perguntei à minha especialista em animes e ela confirmou que um dos vilões de Bungo Stray Dogs realmente se chamava Mori. Mas achava que a expressão completa “Memento mori” tinha relação com algo premonitório ou alguma coisa ligada ao sobrenatural. E ela ainda me lançou em tom de reprovação: “- Mãe, o que a senhora andou procurando que se deparou com essa expressão?”. Estava apenas dirigindo por aí… Depois de procrastinar um bocado e a expressão aparecer em minha mente muitas e muitas vezes como um letreiro piscante, parei de arrumar as malas e rendi-me ao Google. Sem rodeios, o oráculo da internet me despejou o resultado para a expressão originada do latim (soube depois) a qual significava secamente “Lembre-se da morte”. 

Meu coração congelou. Procurei, em seguida, por mais respostas para entender o porquê de tê-la visto em uma fachada qualquer de Fortaleza. Será que li mesmo essa frase em alguma fachada? Seria um lembrete divino? Felizmente, achei na internet a menção a uma exposição em Fortaleza com esse tema. Era isso. Passei em frente à bendita exposição e a frase ficou no meu encalço. Isabel diria que eu estava com hiperfoco em Memento Mori, assim como fiquei quando assisti a “Orgulho e Preconceito” pela primeira vez e passei dias consumindo livros, matérias da internet e séries de TV sobre a obra de Jane Austen.  

Bateu-me o receio de que algo pudesse acontecer na viagem de avião que estava prestes a fazer. Mãe que viaja sem os filhos tem preocupação dupla: uma delas é como os filhos ficarão na ausência temporária da mãe; a outra é sobre os riscos da viagem para a vida da própria mãe, quando a ausência temporária poderia virar algo terrivelmente permanente. Dizem que as estatísticas mostram que seria mais seguro viajar de avião do que de carro, etc e tal. Será mesmo? O avião dá a impressão de que estamos completamente a mercê da máquina, do tempo, do controlador de voo, do piloto, etc. Veio-me então a ideia sombria de que a morte poderia estar à espreita e que, por isso, deveria ser lembrada, como quem precisa ficar atento para não sucumbir a um inimigo que nos perscruta. 

Contudo, à medida que pesquisava sobre a expressão, encontrei referências que amenizaram a má impressão inicial. Então passei a encarar esse comando de “lembre-se da morte” como uma reflexão sobre a mortalidade e, de certa forma, como uma ode à vida. Ao nos lembrarmos da morte e da finitude certa a que todos nós estamos sujeitos, podemos canalizar nossa energia em aproveitar ao máximo o que a experiência terrena está nos proporcionando aqui e agora, ao invés de seguirmos, dia após dia, com a ilusão de que sempre haverá um novo amanhã. Nem sempre haverá. Então faça as pazes hoje, usufrua intensamente dos bons momentos agora, ame (e diga que ama) para ontem e viaje sempre que puder. Memento mori para você. Viva o agora.

 Nessa toada, fechei as malas, calcei meus tênis e segui viagem. No caminho para o aeroporto, apertei a mão do meu marido e, sem querer verbalizar a frase bendita para não preocupá-lo fora de hora, repeti-a em mente, dessa vez acompanhada de outra expressão também de origem latina e bem mais conhecida: “carpe diem”. Respirei com prazer e parti para desfrutar o presente, ciente da mortalidade que me atravessa e agradecendo pelo dia que me foi colocado gentilmente nas mãos.

Fuga

A mão apertada contra o meu pescoço esmagava-me.
Meu fôlego ia diminuindo e uma sensação de pânico
tomava conta da minha mente.

Aquele relacionamento abusivo já durava anos. Por
inúmeras vezes apanhei, mas nunca tive coragem de
denunciá-lo.

Agressões verbais, pressões psicológicas, socos, tapas…

Passei pelo inferno nas mãos daquele homem.

Mas ainda assim eu persistia, persistia.

Sempre alegando ser a família, os filhos, a
estabilidade… Ou que ele só estava passando por uma
fase difícil e ia mudar.

Até aquele momento.

O soco na mesa na frente da criança demonstrou que
dessa vez o transtorno poderia ser pior.

– Essa comida está um nojo – ele berrou em seguida.

Já preparada para catar os restos no chão, senti sua
mão apertar meu pulso. Tentei gritar, mas com a outra
ele segurou a minha boca. E jogou-me contra a parede,
lançando na sequência suas patas no meu pescoço.

Tentei me debater.

Em vão.

Vi de canto de olho o pequeno perdido, chorando, com
seu carrinho de brinquedo na mão.

Precisava sobreviver. Nem que fosse por ele.

Uma criança inocente não poderia continuar viva nas
mãos desse monstro. Ele já era uma ameaça para mim,
quanto mais para ele, um ser indefeso. O menino não
tinha culpa.

Então, quando já estava quase perdendo a consciência,
vi uma tesoura em cima do móvel. Era só esticar rápido
o braço e atacá-lo, apenas o suficiente para paralisar
aquele inferno e conseguirmos fugir.

Mas precisava ser um movimento rápido e certeiro,
sem segunda chance.

Meu filho grita, parece entender meu pensamento. E
em um milésimo de segundo, o monstro se distrai. Não
penso duas vezes: pego a tesoura e enfio forte.
O sangue escorre pelo carpete.


(((Silêncio. Nunca mais precisamos entrar naquela casa,
marcada pela dor, e pelo medo)))

***

Texto publicado pela escritora e jornalista Carolina Pessôa na 12ª edição da Revista La Loba, sobre violência contra a mulher. Acesse em: https://drive.google.com/file/d/1BptwzvWL0_Mw8wieV9G-npK7YJgqpNl2/view

SE VOCÊ FOI VÍTIMA DE VIOLÊNCIA, DENUNCIE!


Bicicleta

O vento soprava nos dois.
Seus cabelos esvoaçantes me fizeram regressar no tempo e sorri no íntimo.
Uma pontada de saudade me cutucou.

O rosto dela estava banhado de genuína alegria.
O dele transparecia um esforço sacrificioso.

Ela, sentada, tinha o olhar contemplativo. Apreciava a bonita paisagem que se irrompia a sua frente.
A ele não era permitido desfrutar da mesma forma. Precisava reunir forças para fazer a engrenagem deslizar no trajeto.

Ela tinha os pés suspensos e cruzados.
Os dele permaneciam ocupados cumprindo movimentos cíclicos e constantes.

Continuei dirigindo. E segui, o quanto pude, apreciando absorta a cena daquele pai levando sua filha de bicicleta para a escola.

Revanche

Eles minha trapaça

minha farsa, meu útero seco

meu apego, minha graça

a alegria da cachaça?

Lerdos! Viver basta.

Eles me querem sem homem

sem seda, sem nome, com fome

querem meu marasmo, meu vexame

mãos sujas no meu orgasmo.

Mujas.

Querem meu choro

meu colostro

um coro em meu encalce

gritando: vaca!

minhas costelas

quebradas numa maca

mazelas, paredes sem arandelas

e que eu fale mal dela.

Perguntem à flor amarela.

Querem jarros

de flores machucadas

no adentrar a minha casa,

a sala vazia, o quarto mofado

um lamento abafado

a afazia malograda.

Esperam morta a minha poesia

uma trava em minha porta

minha boca torta

um rato fedendo na dispensa

uma grande desavença

uma descrença.

eu, de bengala?

não cabem em minha mala.

Teve inverno

sobre  minha casa

a horta

perfuma meu quintal.  

caminho na orla

soltei os galos de rinha

subi o morro em Natal

sou boneca em Olinda

dancei fado em Buenos Aires

mudei de ares, li Ezra Pound

aprendi outras línguas

xinguei autoridade com rima.

comprei a Monalisa

(mostrei seus dentes)

louvei Deus em repente.

tatuei um dragão no coração

uma naja no ombro

larguei à tempestade

o meu assombro

Almoço de domingo

É a primeira vez que conto essa história. Nunca fui de falar sobre sentimentos, sabe? Quando eu era pequeno, meu pai reclamava que minha santa mãezinha me dava carinho demais, dizia que eu era mimado. Então segurei o choro e parei de pedir carinho a minha mãe, porque eu precisava ser um homem forte como meu pai. Ele nunca chorava.

Era domingo, eu preparava o frango do almoço quando o telefone tocou. Larguei tudo sobre a bancada de granito, muito desajeitado, e corri para atender. Eu faço isso, é verdade, de esticar a barba no rosto antes de falar alô. Minha mulher sempre se divertia com esse tique e com o alô, que ela dizia que tinha saído das profundezas da terra.

Não sou uma pessoa de pressentimentos, mas uma ligação àquela hora, coisa boa não podia ser. Estive me preparando para receber Esther por toda a semana. Cuidei das pimenteiras na sacada, contratei uma pessoa para limpar as janelas. Lembrei da alergia dela, então tirei as cortinas e mandei para a lavanderia. Também tirei o forro do sofá e aspirei toda a casa. Agora tenho janelas limpas e nenhuma privacidade. Os vizinhos acenam para mim quando chego perto da janela, detesto gente alegre a troco de nada. Balanço a cabeça pra eles, podia ser pior.

O Pereira vem todo dia e toca a campainha para saber se eu estou vivo. Aí acaba entrando para tomar um café e só vai embora quando digo que vou esticar as pernas.

Ainda bem que não sou vidente! Não era o que eu esperava e fiquei muito aliviado. É sempre isso agora, um telefonema suspeito, esses vendedores que nem me deixam pensar para responder. Ainda tem uma juventude que acha ridículo ter telefone fixo e fala apenas por essas coisas de celular. Detesto essas modernidades. Eles acham que vão ser jovens para sempre? Hahaha para eles! Os dedos deixam de ser ágeis e olhos de águia, pffff, nem se fala.

Eu era rápido demais com os números, batia os dedos na tecla da calculadora sem olhar, sem parar. Serve pra nada, isso!

Esther foi para a Irlanda explorar uma nova vida. Saiu de casa no mesmo dia que me aposentei. Foi bonita a festa de despedida na empresa, ganhei uma caneta com a data que comecei a trabalhar e a data da saída, trinta e oito anos de dedicação. Teve discurso e comes e bebes.

Esther não pôde ir, estava se preparando para a viagem. No aeroporto foi tanta gente se despedir dela… me deu um abraço e pediu desculpas por não ter ido mais cedo. Eu entendo, isso nunca foi problema. Quantos eventos eu faltei por causa do trabalho? É assim mesmo, eu disse.

O frango já estava no forno. O cheiro tomando a casa. Fazia tempo que eu não preparava uma refeição completa. Dois anos e três meses. Cozinhar só pra mim? Que nada! Muito mais econômico e limpo comer no Bar do Siqueira. A Marieta faz a comida com aquele tempero que eu adoro, mas nunca lembro o nome. Ela fala, eu esqueço. Aí acabei indo esses dias com um caderno e ela anotou a receita. É tomilho fresco.

Eu nunca entendi porque as pessoas precisam largar suas casas e estudar no exterior. Temos excelentes universidades aqui mesmo, perto de casa. Esther disse que precisava. Ela esvaziou as gavetas e foi. Conseguiu tudo sozinha, não me pediu um centavo, um pedaço do que era dela por direito, nada.

Apenas foi. Minha vida, vivida em função da sua por tantos anos, de
repente é partida por essa aventura. Um título. Um pedaço de papel. Bisonho. Que vai ser pendurado numa parede junto com todos os títulos que ela já tem. Eu pergunto, isso serve para que, no final das contas?

O alho refogado tomou conta de tudo, vou usar para temperar o feijão preto, que já cozinhou. O alho deixa tudo ainda mais cheiroso, e o tomilho fresco… como demorei tanto para descobrir? Arroz e feijão prontos, maionese na geladeira, só falta o frango. Aproveito para lavar as panelas.

Hoje o Pereira não vem, avisei a semana toda que estaria muito ocupado, que
não precisa fazer prova de vida. Mas acho que ele não vem por mim, vem por ele mesmo, e não implico mais com a campainha que toca todo dia como um relógio suíço.

Se Esther me ouvisse falar essas coisas… penso nela ralhando com esse meu jeito de expressar e não consigo ficar sério. Recomendei tanto! Falei sobre todos os sequestradores que drogam mulheres sozinhas e roubam seus órgãos, avisei que o frio pode realmente congelar a ponta dos dedos, o risco de uma nevasca…

Assisto aos especiais da Discovery. Aposentadoria não é sinônimo de desinformação. Ela me chamou para ir várias vezes, mas não quis, nem tenho
passaporte. E agora que ela volta para me ver – que arrumei a casa, fui ao barbeiro, ao dentista e ao cardiologista – sinto a dúvida e a angústia do abandono, como se a qualquer momento o telefone me desse a notícia de que surgiu outro imprevisto, não virá.

Então volto a atenção aos detalhes: frango assado, inteiro, pele crocante. Preparei o molho de manteiga com tomilho fresco, ela vai gostar. Nosso almoço de domingo, costume de quando a mãe dela ainda era viva.

E quando a campainha toca, eu abro a porta e deixo aquele menino que queria ser igual ao pai desaparecer. Com minha filha nos braços, meu coração transborda de amor. E meus olhos também.

Passagem de amar

O amor despertou.

Ao abrir os olhos, levantou-se feliz.

Banhou-se em imersão numa banheira de águas quentes e calmas

Cheia de sorrisos, perfumes e flores:

Peônias e tulipas, suas favoritas.

Vestiu-se de beleza, luz e alegria

Saiu para te encontrar.

Puro

Sensível

Inteiro

Capaz de perceber tudo o que havia em ti e amar-te maior.

Expandiu sem medo.

Encontrou imensidão de desejo em liberdade

Movimento e dança

Música e poesia.

Belo

Sublime

Solene.

Você estava lá

Molhou os pés nesse mar

Desviou o olhar

Abriu alas e deixou o amor passar.

Uma surpresa daquelas

Tive uma surpresa hoje, uma daquelas surpreendentes. Como um dia comum sai de casa tomando todos os cuidados para fazer diversas coisas e resolver alguns problemas, o isolamento para mim teve diversos efeitos em relação às minhas emoções, fiquei mais sensível o que pode ser uma coisa legal levando em consideração todo o histórico extremamente engraçado de todas as minhas amizades.

Eu lembro basicamente como conheci cada amigo que tenho, ás vezes até a data eu marco no calendário para ser aquela pessoa que manda um textão no dia, é fato que gosto de escrever desde sempre e principalmente para quem gosto. Hoje tinha tudo para ser um dia comum, mas eu sabia que ia acabar esbarrando em você em alguma hora ou em algum lugar sem perceber.

Meu coração acelerou de repente enquanto procurava por algo e de relance vi você, quase não reconheci, pensei que fosse uma miragem e segui em frente. Depois vi você caminhando em minha direção como se eu fosse a única pessoa no caminho. Seu abraço foi casa e sua voz se tornou música em meus ouvidos.

Uma das mais belas

Volte sempre…

Se me faz ser melhor,

ver o mundo com cores vibrantes,

acordar com um sorriso,

enxergar o sol na noite,

volte sempre…

Se é tormenta e calmaria,

me acende e me acolhe,

me excita e me entende,

me abraça e me devora,

volte sempre…

Se é momento e atemporal,

dessa vida e de muitas outras,

se faz perto estando longe,

é sagrado e profano,

volte sempre…

Se é certeza e inquietação,

amor e paixão,

sorriso e suspiro,

gemido e gozo,

volte sempre…

Se me beija e desvenda minha alma,

me dá medo e prazer,

me acalenta e me nina,

acolhe meu sono e me desperta,

volte sempre…

…este é o teu lugar, dentro de mim.