A onda sônica

Por Elaine Resende

Eu olhava incrédula para o noticiário. Seria aquele o momento da nossa extinção? O meteoro vinha em nossa direção e nos esmagaria. As pessoas estavam em suas casas junto às suas famílias acompanhando o noticiário que trazia as imagens em tempo real. Alguns grupos, no entanto, reuniram-se nas igrejas de adoração e culto ao meteoro.

E então a imagem na TV cessou por completo. Abraçada ao marido e aos filhos, fechei os olhos e esperei que o impacto fosse breve e nos varresse por completo sem dor. Ouvia o choro baixo dos meninos e nos beijamos em despedida. Mas a TV reiniciou a transmissão e um homem de gravata colorida narrava feliz sobre a chegada do meteoro. O único impacto aparente eram nossas comunicações afetadas pelas ondas sônicas de sua chegada. Nossos satélites não transmitiriam nenhum sinal, mas ainda haveria o rádio. Os meninos correram para os seus celulares e constataram: sem sinal.

Ouvimos a igreja próxima a nossa casa celebrar com gritos e festa, pois suas orações foram atendidas. Nós, por outro lado, começamos a pensar como seria uma vida sem os satélites de comunicação. Vivíamos num tempo de conexões virtuais. Era imperativo estar conectado para estar vivo. Sem os satélites de comunicação não saberíamos nosso saldo no banco, não haveria como pagar pela comida no mercado. Nossas identidades biométricas, guardadas em grandes servidores conectados à rede de comunicação, seriam apenas uma memória distante de um desenho futurista dos meus tempos de infância. Nossas identidades deixariam de existir. Olhava para o meu marido, ambos de ombros caídos frente à nossa nova realidade.

No dia seguinte, saímos para olhar a vizinhança. Havia longas filas nos bancos e nos mercados. Longas linhas tristes. Um ato do governo havia autorizado que cada família tivesse acesso a uma pequena quantia, que seria devidamente anotada como dívida futura. Os mercados distribuíam cestas básicas, apenas uma por família. Andamos a esmo por um tempo, perdidos sem o GPS, e observávamos os semáforos piscarem aleatoriamente, como um código MORSE por socorro.

Os dias foram se passando e nós fomos nos habituando aquela nova rotina. Do nosso trabalho de um mês, apenas uma pequena parcela do salário nos era fornecida. Muitos postos de trabalho foram extintos e algumas pessoas realocadas em funções que há muito não se ouvia falar. As cestas básicas eram fornecidas uma vez por mês, mas não mais no mercado, e sim em centros de distribuição de alimentos organizados pelo governo. Não havia espaço para o luxo. Toda a população estava empenhada em custear um novo satélite. Sabíamos que algumas pessoas partiam em expedições do governo para estudar soluções de comunicação, mas não tínhamos notícia de sucesso ou de seu retorno.

A TV transmitia um único canal com a imagem pixelada daquele homem com a gravata colorida. Ele incentivava que as pessoas buscassem a fé nas igrejas dos adoradores do meteoro, pois talvez assim ele, o meteoro, tivesse piedade de nossas vidas.

Nós, que antes vivíamos de transporte por aplicativo e carros particulares alugados, passamos a nos deslocar sempre em pares, a pé ou de bicicleta. Os transportes comunitários foram proibidos, assim como os voos, pois as ondas sônicas atrapalhavam seus sensores delicados e, frequentemente, havia os tirado de rota e gerado grandes colisões, com muitas perdas. As aglomerações estavam cada vez menos frequentes. Os adoradores do meteoro viviam em procissão nas ruas e não gostavam de quem não era fiel da igreja.

Numa manhã de sábado recebemos uma visita estranha. Um carteiro nos trouxe uma carta. Notícias de um amigo americano que estava consternado com nossa situação. Ele estava providenciando um transporte em um pequeno avião para nos encontrar. Seriam muitas viagens, algo revolucionário nos nossos tempos de onda sônica, mas daria certo, estavam testando em pequenos grupos. Eu que achava que os correios haviam morrido, avisei ao marido e aos filhos: o correio estava vivo, trazia boas novas e nossa situação iria mudar.

FIM

UMA BANDA APENAS

 Procurou um médico. Procurou porque não suportava mais aquela dor no peito, uma dor estranha. Não que doesse, era dolorida, dor palpável, martelante e contínua que permanecia atada à falta de ar. Faltava-lhe o ar, uma respiração sempre entrecortada como que interrompida e que por mais que inspirasse o ar nunca era o suficiente. Pouco, era muito pouco.

 Tinha a sensação de que havia um buraco enorme dentro de si. Um buraco que se podia ver de lado a lado e nessa falta de matéria a falta de coisa alguma e de todas as coisas. Pensou em fome, logo, uma falta de que não se sabe de quê, nem por quê. Comia, depois corria, e comia, depois lia, e não havia o que lhe tapasse.

 Amava. Alguém, logo outro alguém e outro e de uma intensidade louca de abandono. Louca de santo e devasso. Mas amava todo o tempo. Pensava que só  era possível vida assim, de entrega. E que sempre era para sempre e único. Único como aliança. Um de cada vez, pelo menos, cada um com a sua porção de unidade. Pelo tempo eterno da extensão que cada Amor era capaz de dar.  E todo Amor lancinante  deixava atrás de si um corpo de marcas.

 Sentada naquela sala branca diante de um homem de meia idade branco e gordo. Psiquiatra. E pensou em Psique, que amava alguém que não podia ver. Talvez estivesse aí o segredo, não ver, porque assim a imagem era só sua. E esse homem parecia automático. Ouvia-a dizer dessa pressa, e dessa dor de não pertencer e essa fome e desse não sei o quê. Automático. Se importava com uma tatuagem aparente, tentava ver melhor, ver melhor e parecia não ouvir. Ela também queria ver.

 “Vamos tentar uma coisa, continua com o que você já toma, mas vamos acrescentar um novo. Faz assim, toma meio comprimido desse ao dia. Uma única banda por dia, entendeu? Depois de 40 dias você volta que quero te ver.”

 No primeiro dia sentiu-se mal, como se fios invisíveis arrancassem partes vitais. No segundo dia, terceiro, uma semana melhor e melhor. Alguns dias depois percebeu que depois de uns dias convivia bem. Não se angustiava, nem se estressava, calma. E percebeu que uma banda de um comprimido laranja arrancou-lhe um a um cada Amor, mesquinhamente deixando-a sozinha com ela mesma. Percebeu que aquele buraco era passagem de vento para sua fluidez e que tomar um comprimido inteiro seria suicídio.

Crédito da imagem:  Pexels.com

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

DESPERTAR

Por: Karla Militão

Ela acordou, abriu os olhos e sentiu um arrepio estremecer todo o seu corpo. Parecia que todo o seu ser estava sendo aniquilado. Um suor frio percorria seus pelos.

Fechou os olhos bruscamente e desejou nunca ter acordado. Sentiu um frio no estômago. Ficou perdida em vários pensamentos acelerados e desconexos. Buscou um sentimento oceânico que a confortasse.

Seu coração palpitou rapidamente. Abriu os olhos novamente, ainda estava lá largada em cima da cama. Veio um único pensamento: não tenho tempo a perder, a vida é apenas um ensaio e quero ensaiar bem.

Sabia que os sintomas da ansiedade caminhavam junto consigo a muito tempo. E quantas vezes ela se deixou paralisar…

Agora estava mais forte. Agora conhecia mecanismos para enfrentar a temível fera. Estava mais confiante. Conseguia sorrir e falar sobre a própria dor.

Levantou da cama e olhou o dia lá fora. Era um lindo dia de sol, abriu os braços em posição positiva e aos poucos foi se sentido aquecida. Sussurrou o que parecia ser uma oração. Sorriu para si mesma, sorriu para o mundo, sorriu para a vida.

Percebeu que estava viva. Percebeu que poderia ser feliz apesar de tudo. E seguiu em frente.


Crédito da imagem: Foto por Tim Samuel em Pexels.com

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CORPO

Por: Lidianne Monteiro

1- JOELHO

Abro os olhos e vejo o teto bege de plástico quase encostando no meu nariz. Talvez não esteja tão próximo assim como parece. Mas a clausura das paredes laterais que sobem em curva sobre minha cabeça reforça a sensação de confinamento. Sinto-me como naqueles filmes de aventura em que a mocinha está em uma câmara onde as paredes e teto se movem na direção dela até quase esmagá-la. O suor na testa, o coração batendo rápido, os olhos arregalados em agonia e a mocinha procurando a saída ou a engrenagem que interrompa o movimento progressivo rumo à morte certa. Mudo de pensamento. Tento relaxar e me concentrar na respiração. Estou calma mas não é o que o ritmo da minha respiração quer me dizer. A mente tenta dominar o corpo. Mas ele grita com sua própria linguagem que nem tudo precisa estar bem o tempo todo. Aceito. Fecho de novo os olhos.  Penso em Marie Curie e no quanto suas descobertas revolucionaram a medicina diagnóstica. Penso nas dificuldades que enfrentou enquanto mulher e cientista em uma época de tanta discriminação. Agradeço a ela. Agradeço também às ancestrais que me deram esse corpo que agora está sendo invadido tão intimamente por olhos de quem nem sei o nome. É meu corpo. É só um corpo. Quase adormeço. Está frio e escuro. Sopra um vento gelado. É confortável. O joelho, imóvel, jaz sobre um acolchoado macio e de desenho anatômico. Mas é só um joelho. Não posso me mexer e esse imperativo é mais limitador do que a máquina de teto de abóbada que me engole. Devagar. Em goles. Desperto com o tamborilar ensurdecedor da máquina. Há quem se apavore apenas em ouvir esses tamborins sem festa. Eu até gosto. Lembra uma batida animada como as músicas que escuto eufórica enquanto dirijo por aí com meu joelho latejante e meus cabelos longos ao vento. Acaba. Levanto. Desfilo no corredor de azulejos brancos e com cheiro de desinfetante. Sigo exibindo minha roupa azul de TNT e as pantufas descartáveis engraçadas. Finjo normalidade. Um boa noite para quem passa. Um joelho que me leva. Mas é só um joelho.

2 – SEIOS

Estou de pé em frente à máquina gigantesca e moderna. Enfrento. Cheia de botões, telas planas impecavelmente limpas, computadores que comandam. Sou uma criança pequena frente à imponência dela. Lembro das matérias da TV que dizem quantas mulheres poderiam ter sobrevivido ao câncer de mama se houvesse mamógrafo na rede pública suficiente para todas. As imagens do jornal mostram máquinas antigas e quebradas. Em outras, as salas vazias que aguardam a chegada delas. São caras. Estou em um encontro íntimo com uma versão moderna dela. Por minutos apenas. Mas ainda é um encontro. Privilégio. Cabelo preso. Corpo sem adornos. Bata descartável sobre o corpo sem roupa. Abertura frontal. Nos pés, apenas meias. Os tênis ficaram me esperando fora da sala junto as outras mulheres imersas em seus pensamentos, cada uma em seu próprio mundo subterrâneo. Outra mulher, como eu, me conduz nesse encontro. Ela tenta ser leve. Os cantinhos dos olhos demonstram o sorriso que a máscara não me deixou ver. Ela posiciona meu corpo com um contorcionismo desconfortável. Pede para eu fazer movimentos que ela prefere descrever do que forçar meu corpo a fazer pelas suas mãos. Ela respeita o pudor que nem tenho. Perdi faz tempo. Esse pudor. Obedeço aos comandos. Nem sempre acerto. A moça precisa me mostrar o caminho. Posiciona-me e encosta meu seio na máquina gelada. Sinto-me uma boneca de pano, um mamulengo. Deu certo. O seio é apertado com força porque é para isso que a máquina está ali. Para extrair dele toda a informação que a delicadeza do trato normal não seria capaz de denunciar. Repetimos com o outro seio. Concluído. Para aquela mulher, mais um par de seios comuns dentre tantos outros vistos todos os dias. Para mim, é mais do que corpo, é mensageiro. Avisou da chegada da menina-moça. Mostrou-se imponente enquanto uma nova vida crescia dentro da minha vida. Alimentou outro corpo com a seiva materna. Avisou-me da maturidade dos 40 anos quando marcou esse encontro com a máquina. Gratidão. Até o ano que vem. 

3 – PÉS

Acordo. Olho para o teto branco e vejo a luminária ao centro. Parece estar quebrada com sua lâmpada amarelada de sempre. A porta permanece fechada a minha esquerda e na parede de frente à cama há uma TV que está sempre ligada. Não sei se é dia ou noite. Não faz diferença. A temperatura é agradável mas sinto um pouco de frio. Do lado da cama, sempre há alguém vigilante. Ela levanta e fala algo para mim. Respondo sem entender. Ela se conforma com a resposta, sorri e se senta novamente. Pega no meu braço, observa algo em mim e sai do quarto falando alguma coisa séria para alguém que não consigo saber quem é. Durmo. Acordo. O cenário é o mesmo. Na vez seguinte, faço diferente. Não olho para o teto nem para as paredes ou para a moça. Tento me ver. Quero lembrar quem fui, quem sou. Vejo minhas mãos e braços. Há aparelhos conectados. Não dói. Sinto fome de algo que não sei o que é. Inquieto-me com essa vontade imprecisa, com esse vazio de não fazer uma refeição como antes. Toco no meu rosto e pescoço. É estranho. Quero me ver em um espelho mas não consigo pedir. Continuo me distraindo com o que está disponível em meu campo de visão. Toco nos lençóis macios e levo uma pontinha até o nariz. Sinto um perfume com cheiro de casa e de afeto. Escuto vozes que parecem vir do corredor. Escuto voz de criança. Acalmo-me. O sono vem. Acordo. Sigo tentando entender o porquê dessa rotina em looping. Entender cansa. Deixo para depois. Concentro-me no meu corpo. Olho para os pés que apontam para o teto. Não tem meias nem sapatos. Pés nus. Faz tempo que não são calçados. Parece que nesse mundo de quatro paredes isso não é necessário. Lembro de uma vida em que meus pés me levavam para outros cenários e nunca estavam nus como agora. Eu lembro. Quero sapatos. Talvez eles me ajudem a entender. Peço. Calçam-me com um par de tênis vermelhos. São lindos! Lembro do dia que os calcei pela primeira vez. Saí toda serelepe inaugurando um dia solar com meus sapatos novos. Feliz por lembrar. Peço que preparem meu vestido branco que combina com os sapatos. Em breve, saio por aí novamente. Agora posso voltar a dormir.


 

Crédito da imagem: Foto por Ana Karen de Carvalho Albuquerque

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CÉU, SOL, ÁGUA E NATUREZA

Como eu amo estar no meio do verde olhando o céu em sua imensidão com algumas nuvens brancas e o brilho maravilhoso de um sol. Nas nuvens brancas do céu aparecem bichos, flores e tudo de belo que se possa imaginar.

Fico a olhar a beleza de uma sombra escura de uma árvore tão plena na natureza. No meio do verde a água cristalina que parece aliviar as dores do corpo e da alma; cada gota é uma forma de paz.

Eu sou apaixonada pelo natural que foi criado por Deus e acredito ainda na presença Dele em cada detalhe da natureza pois tudo é tão belo, tão radiante e o principal tão capaz de transmitir o bem e aliviar a alma.

Crédito da imagem:  Pexels

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Maria(s)

Maria retomou a escrita no diário após três anos sem nenhum registro. Ao pegar aquele caderno de capa cor de rosa, meio emborrachada e com suas folhas sem pauta (Maria não gostava de limites), pôs-se a escrever…

“Ah! Que saudade dessas páginas! Quantos sentimentos registrados aqui! Quase três anos se passaram e entre os fatos mais importantes: a mudança de emprego e a separação.

O que poderia ser um acontecimento trágico, devastador, transformou-se em libertação, autoconhecimento, um amor profundo por mim mesma e uma admiração imensa pela mulher que me tornei. A valorização da minha mãe e da minha filha, como mulheres fortes que são. O amor incondicional pelo meu filho, que me faz renascer a cada sorriso pela manhã.

A liberdade de ser quem eu sou; de fazer amigos; de rir sem julgamentos; de ler um livro quando eu quiser; de tomar vinho sozinha, sem dividir com ninguém (kkk); de me sentir linda, amada por mim e desejada por alguns; feliz e realizada no trabalho; me ter de volta.

Como eu estava mergulhada a até o último fio de cabelo em um relacionamento que me fazia mal e não tinha noção disso!

Mas tudo se resolve, cicatriza, caleja.

Hoje sou grata à vida, às pequenas coisas, aos pequenos milagres de cada dia. Não preciso curar ninguém, apenas a mim mesma e renascer cada dia mais forte…e feliz! Mais merecedora de realização, de amor!

Hoje, consigo admirar o sol, a chuva, o vento, a noite, a comida, o brincar dos meus filhos, as rugas da minha mãe!

Me devolvi pra mim, pro mundo, pra quem de fato me ama. E sem querer, por caminhos inesperados, fiz amigos que me devolveram a crença de que o amor e a admiração existem e me fizeram perceber o quão foda eu sou!

A vida é sábia! Se tivermos o dom de observar e a maturidade para entender o ir e vir dos fatos, sem temor, sem ansiedade, sem querer fazer acontecer do nosso jeito, seremos contemplados com a serenidade e a serendipidade do universo.

Serendipidade é quando encontramos algo que não estávamos procurando, ao buscar outra coisa. Deu pra entender?

Em meio ao caos, encontrei paz. Me achei. Me amei.

A letra? Meu filho acordou!

Te amo, Maria(s)!”

Desejo que muitas Marias consigam se libertar, se encontrar e ser felizes!

Cláudia Nagau

Crédito da imagem:  Pexels

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SINAIS

Por: Sônia Souza


Gente que vive de sinais
Eu sou assim
Uma esperança voando na sala
Um sonho mal sonhado
Uma borboleta bruxa a espreita

Desde pequena procuro sinais em tudo que vejo
Foi assim que passei a vida paralela interpretando tudo o que acontecia 
com um script que brincava comigo aqui e ali
tal como pique pega.

Como Sherlock 
Vi nas estranhas intrigas, secretas conspirações 
Vi nos pequenos casos clássicos 
o verdadeiro amor
Vi no desassossego 
Os desacertos do que haveria de ser

Muita alegria, sinal de tristeza
De tanto ouvir eu já nem ria tanto
Decerto a tristeza não chegaria de surpresa
Por que a mágica 
Era o escudo que protegia

A colher caída do nada
Antecipava a visita da mulher 
O sal perdido no raso 
Era a briga que vinha ao acaso
E o arrepio de fora de hora
Nossa... 
Indicava companhia que já nem estava  viva

Isso tudo que aconteceu 
Eu falo para vocês
Eu vi ali 
Na minha frente
Pedido aos céus 
E logo depois o presente

E assim fui tecendo uma história 
Muito minha com enredo próprio e final adaptado

Para o bom entendedor
Um sinal
Já basta

Crédito da imagem: Foto por Wesley Carvalho em Pexels.com

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CEIA DA LUZ

Por: Lidya Gois


O universo emudece no turbilhão de emoções desconexas.

E nesse angustiante silêncio, a palidez da alma é revelada pela face.

A formosura aviltada, no entanto, pode retornar.

Volta teus olhos à janela e sente o aceno do consolo.

Abre a porta, convida a Luz para entrar e come do alimento que ela traz.

A transformação do ambiente gélido começará.

Crédito da imagem: Karina Freitas

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CORAÇÃO

Eu vejo poesia nas flores da calçada,

No desgastado reboco da parede expondo os tijolos em forma de coração.

Na textura histórica dos asfaltos,

No peso dos passos e na leveza dos sons.

No toque do sol me ardendo a pele.

Nos inesquecíveis pequenos detalhes.

Na presença das cores e na ausência delas eu também vejo poesia. 

Eu vejo poesia no período de seca poética, no medo, na sede de viver.

Na paixão, em toda a sua intensidade!

No amor que só o olhar expressa…

Nos corações cansados, na dor…

Na chuva se entregando ao solo.

Nas tardes vazias e noites de insônia.

Nas cinzentas nuvens carregadas de saudade eu também vejo poesia.

Eu vejo poesia, fazer o quê?

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(Lívia Maria – 31/10/2019)

Crédito da imagem: Foto por Lívia Maria

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DITO DE FRIDA

Por: Rosi Santos

“Onde não puderes amar, não te demores”, nunca antes em minha vida, esse dito de Frida fez tanto sentido.

Não posso amar onde não há empatia para com os sentimentos e dor do próximo, porque o “amor é paciente e bondoso”.

Não posso amar onde não se vive uma história autêntica, nossa, de sentimentos reais e autorais, porque o amor “não inveja, não se vangloria, não se orgulha”.

Não posso amar onde não há preocupação autêntica com o que o outro está sentindo, vivenciando, desejando, ansiando, porque o amor “não maltrata, não procura seus interesses”.

Não posso amar numa relação iniciada com mentira e em que meus sorrisos custem as lágrimas de alguém, porque o amor “não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade”.

Elucubrando tudo isso, foi fácil decidir seguir sozinha e em paz…

Roupa de cama trocada, corpo lavado, alma renovada…

A verdade sempre liberta!

Em um primeiro momento, quando descobrimos que fomos enganadas, nos culpamos, nos envergonhamos, nos entristecemos, nos encolhemos.

Mas é preciso lembrar que quem foi enganado é a vítima e que nem por isso precisamos nos vitimar. De tudo que vivemos há lições a aprender, há marcas que ficarão, há histórias que contaremos, e a vida segue em seu fluxo insano.

Hoje estou só e em paz, amanhã, talvez me apaixone de novo, por que sempre acredito que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”!


Crédito da imagem: Foto por Brett Sayles em Pexels.com

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