CORPO

Por: Lidianne Monteiro

1- JOELHO

Abro os olhos e vejo o teto bege de plástico quase encostando no meu nariz. Talvez não esteja tão próximo assim como parece. Mas a clausura das paredes laterais que sobem em curva sobre minha cabeça reforça a sensação de confinamento. Sinto-me como naqueles filmes de aventura em que a mocinha está em uma câmara onde as paredes e teto se movem na direção dela até quase esmagá-la. O suor na testa, o coração batendo rápido, os olhos arregalados em agonia e a mocinha procurando a saída ou a engrenagem que interrompa o movimento progressivo rumo à morte certa. Mudo de pensamento. Tento relaxar e me concentrar na respiração. Estou calma mas não é o que o ritmo da minha respiração quer me dizer. A mente tenta dominar o corpo. Mas ele grita com sua própria linguagem que nem tudo precisa estar bem o tempo todo. Aceito. Fecho de novo os olhos.  Penso em Marie Curie e no quanto suas descobertas revolucionaram a medicina diagnóstica. Penso nas dificuldades que enfrentou enquanto mulher e cientista em uma época de tanta discriminação. Agradeço a ela. Agradeço também às ancestrais que me deram esse corpo que agora está sendo invadido tão intimamente por olhos de quem nem sei o nome. É meu corpo. É só um corpo. Quase adormeço. Está frio e escuro. Sopra um vento gelado. É confortável. O joelho, imóvel, jaz sobre um acolchoado macio e de desenho anatômico. Mas é só um joelho. Não posso me mexer e esse imperativo é mais limitador do que a máquina de teto de abóbada que me engole. Devagar. Em goles. Desperto com o tamborilar ensurdecedor da máquina. Há quem se apavore apenas em ouvir esses tamborins sem festa. Eu até gosto. Lembra uma batida animada como as músicas que escuto eufórica enquanto dirijo por aí com meu joelho latejante e meus cabelos longos ao vento. Acaba. Levanto. Desfilo no corredor de azulejos brancos e com cheiro de desinfetante. Sigo exibindo minha roupa azul de TNT e as pantufas descartáveis engraçadas. Finjo normalidade. Um boa noite para quem passa. Um joelho que me leva. Mas é só um joelho.

2 – SEIOS

Estou de pé em frente à máquina gigantesca e moderna. Enfrento. Cheia de botões, telas planas impecavelmente limpas, computadores que comandam. Sou uma criança pequena frente à imponência dela. Lembro das matérias da TV que dizem quantas mulheres poderiam ter sobrevivido ao câncer de mama se houvesse mamógrafo na rede pública suficiente para todas. As imagens do jornal mostram máquinas antigas e quebradas. Em outras, as salas vazias que aguardam a chegada delas. São caras. Estou em um encontro íntimo com uma versão moderna dela. Por minutos apenas. Mas ainda é um encontro. Privilégio. Cabelo preso. Corpo sem adornos. Bata descartável sobre o corpo sem roupa. Abertura frontal. Nos pés, apenas meias. Os tênis ficaram me esperando fora da sala junto as outras mulheres imersas em seus pensamentos, cada uma em seu próprio mundo subterrâneo. Outra mulher, como eu, me conduz nesse encontro. Ela tenta ser leve. Os cantinhos dos olhos demonstram o sorriso que a máscara não me deixou ver. Ela posiciona meu corpo com um contorcionismo desconfortável. Pede para eu fazer movimentos que ela prefere descrever do que forçar meu corpo a fazer pelas suas mãos. Ela respeita o pudor que nem tenho. Perdi faz tempo. Esse pudor. Obedeço aos comandos. Nem sempre acerto. A moça precisa me mostrar o caminho. Posiciona-me e encosta meu seio na máquina gelada. Sinto-me uma boneca de pano, um mamulengo. Deu certo. O seio é apertado com força porque é para isso que a máquina está ali. Para extrair dele toda a informação que a delicadeza do trato normal não seria capaz de denunciar. Repetimos com o outro seio. Concluído. Para aquela mulher, mais um par de seios comuns dentre tantos outros vistos todos os dias. Para mim, é mais do que corpo, é mensageiro. Avisou da chegada da menina-moça. Mostrou-se imponente enquanto uma nova vida crescia dentro da minha vida. Alimentou outro corpo com a seiva materna. Avisou-me da maturidade dos 40 anos quando marcou esse encontro com a máquina. Gratidão. Até o ano que vem. 

3 – PÉS

Acordo. Olho para o teto branco e vejo a luminária ao centro. Parece estar quebrada com sua lâmpada amarelada de sempre. A porta permanece fechada a minha esquerda e na parede de frente à cama há uma TV que está sempre ligada. Não sei se é dia ou noite. Não faz diferença. A temperatura é agradável mas sinto um pouco de frio. Do lado da cama, sempre há alguém vigilante. Ela levanta e fala algo para mim. Respondo sem entender. Ela se conforma com a resposta, sorri e se senta novamente. Pega no meu braço, observa algo em mim e sai do quarto falando alguma coisa séria para alguém que não consigo saber quem é. Durmo. Acordo. O cenário é o mesmo. Na vez seguinte, faço diferente. Não olho para o teto nem para as paredes ou para a moça. Tento me ver. Quero lembrar quem fui, quem sou. Vejo minhas mãos e braços. Há aparelhos conectados. Não dói. Sinto fome de algo que não sei o que é. Inquieto-me com essa vontade imprecisa, com esse vazio de não fazer uma refeição como antes. Toco no meu rosto e pescoço. É estranho. Quero me ver em um espelho mas não consigo pedir. Continuo me distraindo com o que está disponível em meu campo de visão. Toco nos lençóis macios e levo uma pontinha até o nariz. Sinto um perfume com cheiro de casa e de afeto. Escuto vozes que parecem vir do corredor. Escuto voz de criança. Acalmo-me. O sono vem. Acordo. Sigo tentando entender o porquê dessa rotina em looping. Entender cansa. Deixo para depois. Concentro-me no meu corpo. Olho para os pés que apontam para o teto. Não tem meias nem sapatos. Pés nus. Faz tempo que não são calçados. Parece que nesse mundo de quatro paredes isso não é necessário. Lembro de uma vida em que meus pés me levavam para outros cenários e nunca estavam nus como agora. Eu lembro. Quero sapatos. Talvez eles me ajudem a entender. Peço. Calçam-me com um par de tênis vermelhos. São lindos! Lembro do dia que os calcei pela primeira vez. Saí toda serelepe inaugurando um dia solar com meus sapatos novos. Feliz por lembrar. Peço que preparem meu vestido branco que combina com os sapatos. Em breve, saio por aí novamente. Agora posso voltar a dormir.


 

Crédito da imagem: Foto por Ana Karen de Carvalho Albuquerque

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

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