MEU REENCONTRO COM RENATO RUSSO

Por: Elaine Resende

Durante anos trabalhei apenas para o jornal e a rádio AM, subindo e descendo com a equipe de trabalho e os visitantes. Gente fina esse pessoal! Até o dia em que eu percebi uma movimentação estranha, uma gente bem jovem, muito ruidosa, inquieta. Foi a primeira vez na vida que ouvi a zoeira que eles chamavam de rock and roll. Não era o som do Roberto e Erasmo, Little Richard, Elvis ou do Chuck Berry. Esses eu conhecia, não sou ultrapassado. Era um som barulhento que ecoava na minha cabine de 2×2 e fazia as partes metálicas reverberarem. Tremia tudo!

Era isso, estava feito: chegou ao prédio a mais nova atração de Niterói e adjacências, a primeira rádio FM da cidade, a Maldita 94,9 Fluminense FM.

Vai ser passageiro, essas coisas ruins não se criam, eu pensava a cada novo dia de trabalho. Como um prédio que recebia tanta gente importante ficaria com todo aquele povo baderneiro circulando? Tive certeza de que Sr. Alberto Torres ia se cansar daquele movimento e botar todo mundo para correr.

Sou tão antigo aqui que mereço placa de patrimônio. Estou aqui desde a fundação do jornal, sabe? Lembro bem dos plantões, os jornalistas chegando e saindo apressados com suas máquinas fotográficas e blocos de notas para caçar matéria na rua. Tempo das joaninhas da polícia, da rádio AM e da foto em preto e branco. Tudo muito bacana!

Eu tenho orgulho de dizer que em meus mais de 40 anos de dedicação ao trabalho transportei pessoas realmente importantes. Vi grandes homens nesses dois metros quadrados. Acompanhei os primeiros passos de muitos políticos. Donos de empresa negociando seu espaço nas páginas do jornal e nos anúncios da rádio, as mulheres da High Society niteroiense, prefeitos e vereadores, e até mesmo um presidente da república. Sabe por que me orgulho disso? Porque todos eles, sem exceção, elogiaram minha elegância discreta, minha aparência de simplicidade e imponência.

Ainda hoje me envaideço daquelas senhoras de unhas bem tratadas tocando em meus botões. Até me arrepio, olha só! Meu parceiro de trabalho, bem mais humilde que eu, carrega de um tudo nas costas. O coitado nunca recebeu uma visita ilustre, muito diferente de mim.

Qual não foi minha surpresa no dia que escutei Sr. Alberto Torres comentar com um dos diretores que estava gostando daquela turba. Eles não vão embora. Como assim eles não vão embora? Aquela rapaziada que ocupou os dois últimos andares do prédio não vai embora? Perfeito! Quem mais vou ter que transportar agora? Quero nem saber. Ora tinha um bando de gente que parecia ter voltado da praia, ora era a horda de cabeludos com roupa de couro. Gente que se espremia dentro daquele espaço confinado, querendo ir todo mundo junto numa viagem só. Nem tem cabimento um negócio desses. Eu alertava para a capacidade máxima permitida, com rigor, porque afinal essa era a minha função, transportar a todos com segurança. Estacava no andar e não subia ou descia enquanto não se adequassem às regras. aí uma coisa que podem falar de mim: sempre fui implacável na aplicação das regras.

Mas, sabe como é, né? Com o tempo as coisas vão se assentando, quando se vê, sente falta até do que achava ruim. E olha eu lá, acostumado com aquele sonzinho deles, com a juventude, com as altas demandas que eles faziam. E nesses horários de pico a música até que era boa, dava aquela animada no dia. E não era só isso que era bom. As vozes das locutoras eram igual veludo, uma mais macia que a outra. Ondas de FM comandadas por mulheres, e só mulher surfava naquelas ondas! Negócio inédito! Eita lasqueira! Quando elas trocavam de turno e entravam no meu cubículo, era a minha praia, eu ouvia a melodia das sereias! Sempre com muito respeito, claro! Elas eram novinhas, mas tinham uma potência na voz que dava gosto de ouvir.

Quando se é velho as adaptações são difíceis, posso garantir. Mas quando se dá uma chance ao novo, certeza de se sentir jovem outra vez. Foi o caminho que segui. Me entreguei aos novos sons, ao rock nacional que tocava logo cedo, sabia de cor sobre o mar e onde a molecada podia ir surfar. Comecei a transportar um bocado de gente diferente, de vez em quando eles batucavam uma melodia nas paredes da cabine e eu acompanhava de leve, não queria atrapalhar. Toda aquela movimentação para o décimo andar era um barato.

Mas como tudo que é bom passa, eu estava passando do meu tempo também. Comecei a falhar no trabalho. Às vezes no início do turno eu precisava de um atendimento emergencial para dar conta do dia. Eles não me substituíam, sempre acreditei que era por conta da minha dedicação. E eu me firmava e continuava o dia. Outras vezes eles me pediam para encerrar mais cedo, o que eu fazia com tranquilidade. Era melhor que passar vergonha com o cubículo cheio de gente.

O pessoal do décimo era o mais prejudicado com as minhas ausências. Meu parceiro transportava de tudo, e o pessoal viajava com o que ele estivesse transportando. Ele também estava velho e falhando, e eu não via esforço nenhum da direção para sua substituição. Entendo que o serviço dele era importante, mas acho que era mais fácil substituir a ele do que a mim!

Naquele fim de ano, era dezembro de 1993 lembro bem, a FM tinha anunciado todos os dias por uma semana inteira a chegada de uma banda importante para a juventude, a Legião Urbana. A banda chegaria para dar uma entrevista de lançamento de um disco, eles falavam disso o tempo todo. Uma expectativa enorme. E era fim de ano, as pessoas sempre ficam animadas, compras, festas natalinas, um calor típico desse período, e eu… eu não estava nos meus melhores dias. Eu completei nesse ano meus 39 anos de serviço e meu cansaço e desgaste eram aparentes.

Quando o tão esperado dia chegou, até eu já estava ansioso com o aguardo. Me coloquei pronto para o trabalho. A primeira pessoa que chegava para o décimo andar era a menina da recepção da rádio. Ela era muito simpática, chegava cedo e subia sempre cantarolando alguma coisa, mas nesse dia ela me olhou e deu meia volta. Não entrou. Sem dizer uma palavra, abriu e fechou a porta do elevador, deu meia volta e foi embora. Que coisa mais grosseira de se fazer! Estapafúrdia, no mínimo.

E foi assim esse início de manhã, algumas pessoas passavam em frente e iam para a cabine do meu colega, me ignorando totalmente. Pensei com meus botões: que raio de comportamento estranho é esse? Será que eu fedendo? Ou isso, ou estavam me guardando para receber a Banda no meu melhor estado. Talvez fosse isso. O calor intenso e toda aquela gente suada sendo transportada, meu envelhecimento, esses fatores todos juntos, quiseram me poupar. Sempre percebi a consideração deles por mim.

Não lembrava direito da primeira vez que transportei a Legião Urbana. Mas sei que fui eu. Eles estavam em início de carreira e eram falantes, um pouco bagunceiros. Não podia imaginar que aquela rapaziada se tornaria uma referência para a juventude. Então estava lá eu, orgulhoso de poder transportá-los de novo, agora banda famosa de gravadora grande e mais de 4 discos lançados e premiados. Eles chegaram, eles chegaram!

Quando abriram a porta do elevador eu me engasguei. Travei. Renato Russo pronto para dar sua entrevista na rádio e eu sem ação. Me faltava energia para qualquer coisa. O Renato foi um dos seres humanos mais gentis que conheci em todos esses anos de serviço. Vendo a precariedade da minha condição, voltou para a recepção e decidiu por esperar até que eu fosse atendido, fez questão de subir comigo. Nunca experimentei nada parecido com essa sensação! Um ato de compaixão como esse, de um homem acostumado a lhe abrirem as portas, esperar humildemente por mim, me deixou sem palavras!

Chamaram rapidamente um especialista para me atender. Logo, dois grandalhões estavam lá me cercando de todos os lados, me apertando em pontos sensíveis em busca de uma reação. Eu estacado no lugar, imóvel como uma rocha, engasgado, travado, sombrio. Um funeral no qual só compareceu o defunto. Nesse caso: Eu!

Podia ouvir os passos apressados dos homens na recepção, sussurravam algo sobre gravidez, mas acho que não era isso, não. Parecia que uma pequena multidão se formava na rua, bradando pela anunciada entrevista do astro do rock nacional. A cada intervalo a locução ao vivo repetia que ele estava lá, faltava pouco para “uma entrevista exclusiva da Fluminense FM”. E eu simplesmente ouvia, e mais nada.

Inerte estava, inerte fiquei. Minhas forças haviam se acabado. Uma vida de dedicação para aquele trabalho, uma vida de condução dos grandes nomes da cidade, quiçá do país, para eu esmorecer quando todos aguardavam seu grande ídolo.

Se eu fosse um Samurai teria dado um fim aquele suplício. Os minutos seguintes foram os piores da minha carreira. Uma ligação entre as recepções e tudo estava resolvido: Renato e Dado não deveriam mais esperar, era para subir imediatamente.

Um fim desonroso o meu. Os rapazes da Legião Urbana subiram os dez andares de escada. Por meus alto-falantes, pelas paredes ocas da minha casa de máquinas, eu ecoava a felicidade de quem os recepcionava. Queria que fosse da minha cabine que eles saíssem para receber aqueles aplausos calorosos.

Bem mais tarde naquele dia substituíram uma peça do meu motor que havia quebrado e voltei a funcionar. Recebi de portas abertas, a pantográfica e a de madeira, um Renato Russo desconfiado, me olhando de lado. Queria muito tê-lo deixado seguro de que não ficaria travado entre dois andares, mas tudo que consegui expressar foi um som que parecia um gemido de dor.

Ele se apoiou na barra do fundo da cabine e bateu na minha parede de carvalho antigo como um amigo que compreende nossas limitações e disse: “Só a Flu FM para fazer isso com a gente!”.


PS: Renato Russo visitou a Rádio Fluminense FM entre o final de 1993 e início de 1994, no lançamento do disco O Descobrimento do Brasil. Em julho de 1994 a Rádio Fluminense FM encerrou suas atividades, dando lugar a Rádio Jovem Pan de São Paulo. Há 25 anos, em 11 de outubro de 1996, Renato Russo faleceu, deixando uma legião de fãs órfãos da sua poesia urbana.


Crédito da Imagem: https://adnews.com.br/renato-russo-conheca-o-acervo-do-cantor-que-vai-inspirar-minisserie/

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SAUDADE

Por: Carol Pessôa

Desde pequena sentia um estranho aperto no peito. Os pais a levaram a vários médicos. Também iniciou tratamento psicológico. Mas nada resolvia a estranha pontada no coração.

A família comentava que ela era uma menina problemática. Sempre com notas baixas, problemas de saúde, desânimo para as brincadeiras.

Não havia o que a fizesse sorrir de verdade. Nas fotos, sozinha ou em grupos, exibia sempre uma expressão amarela, sem graça.

Assim foi até os 33 anos.

Cresceu, tornou-se uma médica pediatra responsável, decidida.

Cuidava das crianças com todo o empenho. Era como se buscasse naqueles pequenos a cura de suas próprias dores de menina.

Até que em um dia de emergência, atendeu um pai viúvo que carregava a filha nos braços em desespero. Ela estava com fortes dores na barriga, e ele não fazia ideia de que era apenas uma cólica menstrual. Perdido e preocupado, não entendia que seu bebê estava se tornando uma mulher.

Alice riu. E pela primeira vez, teve a estranha sensação de que seu riso era sincero. E ao receber a notícia de que sua filha virou mocinha, Pedro também riu. Sentiu-se ridículo.

E naquele inusitado encontro, surgiu um sentimento diferente. Alice, como boa médica, foi percebendo dia a dia que a pontada em seu peito melhorava. E foi aconselhada por uma amiga a procurar atendimento espiritual em um grupo kardecista.

Cética, ela teve dúvidas, mas decidiu arriscar.

Ao conversar com o conselheiro, escutou aquilo que jamais imaginava.

“Saudade. Era saudade”.

Alice e Pedro foram companheiros em muitas vidas. E escolheram a madura idade para o reencontro, este abençoado pelos espíritos amigos.

Encantada com a descoberta, ela correu como nos filmes românticos. Já sabia onde ele trabalhava. Pedro era defensor público, e atuava no centro da cidade.

E como nas comédias românticas, ao chegar ela descobriu que ele havia acabado de sair. Para ir ao hospital, explicou uma das funcionárias, entregar um buquê de rosas a uma médica que havia atendido sua filha há poucos dias.

E assim, mais uma vez, recomeçou uma das mais lindas histórias.

Vivida, revivida, eterna.


Crédito da Imagem: Foto por Viktoria Slowikowska em Pexels.com

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NA POESIA DOS TEUS OLHOS

Poeta das cores e luzes instantes,

que se repetem sequer em sonhos.

Encanto entorpecente aos sentidos!

Meus olhos fixos em ti e em teu jardim,

seguem teus passos a cruzar a ponte

sob a tela flutuante de nenúfares…

O amor se revela na vivacidade poética

dos traços eternizados no entardecer…

As sombras beijam o orvalho nas folhas.

Paixão impressionista em pinceladas

únicas, tal qual a claridade efêmera

acariciando as flores e tua face ao sol.

Um momento, visão de uma obra-prima

fúlgida no portal da alma criativa…

Êxtase profundo! Expressão fugaz!

E porque a poesia reside no poema

dos traços de cada olhar, eu quero

estar presente na poesia dos teus olhos.

(Lívia Maria – 13/08/2021)

Crédito da Imagem: Foto PEXELS

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DE MALAS PRONTAS

Por: Rosi Santos

Minha querida M,

As malas já estão prontas. Coloquei as melhores blusas, as melhores calças, os melhores vestidos e sapatos. Os brincos de prata, o terço de rosas prensadas, a Bíblia Sagrada.

Numa pasta organizei os últimos exames médicos, os certificados e diplomas, o currículo atualizado. Levo fotos de todos os meus amores: humanos e felinos, vivos e mortos, os de perto e os de longe.

Não foi fácil tomar essa decisão, mas já era hora de caminhar por minhas próprias pernas e seu apoio foi fundamental para que eu desse esse passo. O primeiro passo de uma caminhada nova, desconhecida, ousada, determinada.

Sou muito grata por tudo que recebi de você nesses 21 anos de vida: amor, cuidados, ensinamentos. Quantas coisas maravilhosas vivenciamos juntas? Incontáveis! Inesquecíveis! Incríveis! Importantes!

Com você aprendi que honestidade e sinceridade são imprescindíveis. Que devemos sempre respeitar nossos sentimentos, nossos desejos, nossas limitações. Que devemos nos priorizar sempre, mas sem esquecer do próximo. E que espiritualidade é fundamental!

Aprendi a ser equilibradamente positiva, a acreditar sempre que tudo dará certo e a ter um plano alternativo para situações inesperadas. A me importar verdadeiramente com as causas das “minorias”, a defender bandeiras e posicionamentos que nem imaginava que existiam. Aprendi sobre sororidade e empatia, e me sinto mais HUMANA depois de tantas identificações!

Aprendi a valorizar toda manifestação cultural, a opinar sobre algo só depois de conhecer, a estar disposta às experimentações musicais, cinematográficas, gastronômicas e me surpreendi com as descobertas, com os novos gostos, as novas predileções.

Foram muitos aprendizados adquiridos e muitos ainda virão. Agora numa nova fase das nossas vidas!

Sei que a saudade da nossa convivência diária será grande e doída, sei que os afazeres e compromissos tomarão nosso tempo e que nem sempre vamos poder nos conectar como desejamos, sei que deixaremos de viver coisas juntas, que vamos querer estar perto da outra quando algo legal estiver acontecendo com a gente, mas você me preparou para esse momento, então sigo em paz, sabendo que você é a pessoa que mais torce pelas minhas conquistas!

Fica bem, minha filha que tanto amo, vou ali trilhar uma nova jornada!


Crédito da Imagem: Foto arte por Manuela Santos

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APENAS UM MINUTO

Por: Karina Freitas

Quanto tempo dura um minuto?

Para o tempo do relógio apenas sessenta segundos. Nem mais. Nem menos.

Mas…

E quanta emoção cabe em um minuto? 

Pelo prisma do tempo psicológico…

Um minuto…(10)

  1. para aguardar o sinal abrir;
  2. para atravessar a rua;
  3. para cair;
  4. para levantar;
  5. para se afogar;
  6. para ficar sem ar;
  7. sem fôlego;
  8. sem as batidas do coração;
  9. para quem pede socorro;
  10. para quem ajuda;

Um minuto…(20)

  1. para alguém que parte;
  2. para quem chega;
  3. para o beijo de despedida;
  4. para o abraço de boas vindas;
  5. para o adeus que nunca termina;
  6. para a briga;
  7. para a reconciliação;
  8. para o avião que aterrissa;
  9. para o trem que some na curva do trilho;
  10. para o elevador que não chega;

Um minuto…(30)

  1. para a criança que chora;
  2. para o adulto que sofre;
  3. para o jogador que vai bater o pênalti;
  4. para o último gol que vai garantir o título do campeonato;
  5. para definir a vitória e a derrota;
  6. para a nota do vestibular;
  7. para o resultado do exame;
  8. para aprovação do concurso;
  9. para a ligação de emergência;
  10. minuto que define vida e morte;

Um minuto…(40)

  1. para celebrar;
  2. para descansar;
  3. para despertar;
  4. para se olhar;
  5. para ver o filme da vida frente aos olhos;
  6. para o mergulho no mar;
  7. para o banho de chuva;
  8. para fugir da tempestade;
  9. para correr do vendaval;
  10. para sonhar;

Um minuto…(50)

  1. para saborear a fruta madura;
  2. para se deliciar com o sabor do doce;
  3. para degustar o salgado;
  4. para a água que mata a sede;
  5. para a discussão;
  6. para a oração;
  7. para estabelecer a paz;
  8. para decretar a guerra;
  9. para a ligação perdida;
  10. para a mensagem não respondida;

Um minuto…(60)

  1. para o desencontro;
  2. para o reencontro;
  3. para olhar o céu;
  4. se perder no horizonte;
  5. para apreciar o canto dos pássaros;
  6. o movimento da vida;
  7. para respirar;
  8. para si;
  9. para agradecer…
  10. a Deus.

O coração acelera, as mãos ficam frias, o corpo treme, os olhos lacrimejam, a garganta seca, a voz que trava, a palavra que silencia.

O conjunto desses minutos formam as horas, os dias, as semanas, os meses e os anos.

O tempo pode ser calculado pela contagem do calendário ou aferido pela intensidade da emoção que experimentamos, dos sentimentos que guardamos nos afetos, da lembrança que trazemos no coração.

O tempo pode parecer o mesmo, mas o quanto esse minuto representa pode durar toda a vida.

E é só seu e de ninguém mais.


Crédito da Imagem: Foto por Giallo em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

RISCOS ANÔNIMOS

Por: Jovina GBenigno

há espaço
em meu sobrado
volta
tirei a chave da porta
dos lençóis
lavei o cheiro
do outro
foram poucos
nada deixaram
além de restos
no banheiro
sem tons carmins
sem folguedos
e lamentos do fim.

Aquela
não mais
te espera
fúria
fera
saciaram penúrias.

fartei tertúlias.

não estranhe as novidades
de minhas carícias
de gato
lambendo teu passado

dos traços
em ti riscados
algum traz meu nome?

Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

LITERATURA FEMININA

Comecei a ler livros de literatura na adolescência. Iniciei com a Ilíada de Homero, e a partir desse momento fiquei obcecada pelos livros de literatura clássica: Dostoiévski, Tolstoi, Gogol, Kafka, Sartre, Tomas Man, depois fui para a literatura latino-americana: Cortázar, Borges, García Márquez, Sábato e depois tive uma fase japonesa: Murakami e Yoshimoto Banana eram meus favoritos. E assim foram passando os anos, sempre levando um livro na minha bolsa, lendo na sala de espera dos consultórios médicos, nos pontos de ônibus, esperando uma entrevista de emprego, em metrôs, trens, aviões, aeroportos e na cama antes de dormir.

Passei quase vinte anos lendo sem perceber que a maioria desses autores eram homens e apenas de vez em quando uma autora surgia entre minhas leituras.

No avião, além de ler o romance de plantão, gosto muito de dar uma olhada na revista que disponibilizam na poltrona da frente, e sempre desfruto de uma atenção especial às primeiras páginas da revista Avianca, onde aparecem os escritores do mês com uma foto em preto e branco e uma minibiografia.

Foi assim que descobri Maitena Caiman, uma escritora espanhola que me chamou a atenção porque em sua minibiografia dizia que dava oficinas de redação. Isso me lembrou de um antigo sonho de escrever, que com a correria da vida adulta acabei arquivando e esquecendo em uma gaveta. Então peguei a agenda que sempre levo comigo, anotei o nome dela e continuei lendo a revista como já era minha rotina no avião.

À noite, quando cheguei ao hotel, procurei pela Maitena Caiman na internet, encontrei seu Instagram, me inscrevi em sua Newsletter e explorei todo o conteúdo que ela oferecia online: textos, poemas, workshops e círculos de escritores.

Descobri que por aqueles dias estavam lançando as inscrições para um desafio epistolar, que para quem lê meus textos regularmente, sabe que sou apaixonada por cartas e que esse desafio foi uma inspiração para outros textos que já publiquei aqui no Sabático.

Para quem não leu meus textos anteriores ou não se lembra, o desafio consistia em enviar três cartas a uma estranha. No terceiro dia, recebi o desafio pouco antes de entrar no avião para voar de Barranquilla a Bogotá e consistia em recomendar à destinatária das minhas cartas – que depois das duas primeiras cartas já não nos sentíamos como desconhecidas, mas sim um pouco íntimas – três escritoras do meu país.

Para minha surpresa, passei os noventa minutos do voo com a minha mente em branco, nenhuma autora do meu país que eu tivesse lido nos últimos meses, ou no último ano, me veio à cabeça. Depois de várias reflexões e chicotadas mentais durante o voo, finalmente desembarquei em Bogotá e corri até a livraria mais perto para procurar na seção de literatura colombiana escritoras que me chamaram a atenção ou que alguém me recomendou um dia, mas nunca me animei a ler.

Selecionei dois: Somos Luces Abismales de Carolina Sanín e La Perra (A Cachorra) de Pilar Quintana, ambas li em uma sentada. E foi assim que comecei a selecionar mais e mais livros escritos por mulheres e cada vez me identifiquei mais com eles, a tal ponto que hoje só há livros escritos por mulheres na minha mesinha de cabeceira; não quer dizer que eu tenha eliminado escritores homes da minha vida, de vez em quando um deles aparece na minha mesa de cabeceira, mas são as mulheres que ocupam a maior parte das minhas horas de leitura.

É claro que evoluímos muito se olharmos para a época de Jane Austen e as Irmãs Brontë, mas não é coincidência que a revista da Avianca que tenho agora na minha escrivaninha apresente na sua página dentre seis escritores participantes da edição número 76, só duas mulheres, e que o Google insista em traduzir a palavra “escritoras” como “escritores” enquanto faço a tradução deste texto do espanhol para o português.

É por isso que precisamos de mais espaços para nós mulheres escrevermos e nos lermos, e é por isso que a @criaelaineresende e eu criamos o Sabático Literário, onde quatro vezes por semana nos deleitamos lendo amigas e colegas, com diferentes crenças, culturas e estilos.

E você, quantos livros escritos por mulheres tem na sua biblioteca pessoal ou leu no último ano?

Crédito da Imagem: Daniela Echeverri Fierro

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário. ”

MEIO-DIA

Por: Sônia Souza

Todos os dias, na saída da Escola 
passava por aquela casa de vila 
em uma rua repleta de árvores.  

Dali vinha um cheiro de casa, vozes ao fundo,  
panela de pressão no fogo, 
tempero de comida fresquinha para alguém.

Nunca vi nem tampouco conheci qualquer pessoa dali.
Mas, naqueles não mais que 02 minutos de passagem acontecia  
um abraço, aconchego,  
uma intimidade reconfortante.

Quando crescemos, vez em quando precisamos disso
Um cheiro afetivo
Uma sensação carregada de matizes
de um lugar só seu 

Passados muitos anos 
Agradeço ao universo por aquela casa da vila, que me fazia sentir
que tudo estava exatamente 
onde deveria estar.

Crédito da Imagem: Foto por Daniela Echeverri @danielaecheverri

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CARTEIRO

Por: Angelica

Na minha adolescência tínhamos uma verdadeira veneração pelo carteiro. Como já está dito no próprio nome da ocupação que tem, o carteiro era o funcionário dos Correios que tinha por obrigação entregar a correspondência nos endereços escritos nos envelopes.
Naquele tempo, só homens podiam ser carteiros. Andavam a pé por muitas ruas do bairro e a gente ficava a espera deles, todos os dias, com um enorme desejo de receber alguma mensagem. Com o passar do tempo surgiram as carteiras, moças que andavam a pé ou de bicicleta, funcionárias do correio ocupando o mesmo lugar dos homens.
Muitas vezes ouvi a vizinha chamando a minha mãe e dizendo: – Olha, o carteiro já está subindo a rua!
O uniforme deste entregador de cartas e cartões era amarelo parecido com uma roupa de soldado.
Ficávamos ali, algum tempo no portão ou andando na calçada, para quem sabe receber alguma coisa.
Podia ser uma mensagem de alegria ou de tristeza. Uma carta de amor ou de reclamação. Ficávamos a esperar porque podia ser que desta vez chegasse.
Era também mais um momento do dia que as vizinhas se cumprimentavam e trocavam algumas palavras, interrompendo o trabalho doméstico que estivessem fazendo. Às vezes, quando a patroa não tinha condições de ficar na frente da casa, mandava algum filho ou a empregada, ficar a espera do carteiro, com medo de não receber  aquela carta querida.
O tempo passou, cresci, casei, formamos nossa família. Antes eu morava em uma casa e o carteiro tinha acesso aos portões das residências. Quando me casei fui morar em apartamento. A correspondência não era entregue ao morador, o carteiro entregava ao porteiro que distribuía nas Caixas de Correio do prédio.
Assim, foi tirada de minha vida a magia da espera do Carteiro. Já não sabia mais a cor do uniforme dele. Não via o seu rosto nem desejava uma Boa Tarde, moço!
E não parou por aí, meus filhos cresceram e tornaram-se adolescente e surgiu o computador e a internet. O deslumbre agora era outro, a rapidez com que a mensagem chegava ao seu destino era incrível. As pessoas esqueceram-se de que existia CORREIOS. As agências que eram cheias começaram a ficar mais vazias.
Claro que o Correio é usado para se mandar documentos, encomendas, cartões de felicitação ou de pêsames, mas a internet tornou tudo mais rápido. Posso mandar uma mensagem que chega imediatamente ao seu destino, ou simplesmente faço uma chamada de celular ou vídeo e dou pessoalmente o recado.
Tudo tornou-se imediato. Tudo muito rápido. Com o aparecimento das redes sociais o contato com os amigos ficou só de um lado. O administrador da rede faz uma postagem e se espalha por todos que são amigos. E cada um tomará conhecimento do fato ou da mensagem a hora que acessar a sua própria rede.
Foi recebendo e-mails que me dei conta de que os sentimentos são parecidos com o que se sentia à espera de uma carta. De repente me pego olhando o celular ou o computador a espera de alguma resposta ou confirmação.
Hoje fazemos compras online que nos são entregues por portadores motorizados. Muitas lojas realizam a façanha de entregar encomendas até em três horas.
A modernidade chegou e trouxe uma grande mudança a toda nossa vida. A informática facilita e nos proporciona segurança. Mas fica registrada na história da humanidade a atuação do nosso carteiro e o nosso: muito obrigada, moço!


Crédito da Imagem: Foto por Ylanite Koppens em Pexels.com

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O MAR

Estava correndo na praia sem prestar muita atenção em nada, apenas inserida na corrida e na música que gritava alto aos meus ouvidos, quando de repente um insight passou pela minha cabeça; estou correndo aqui agora como estou correndo na vida ordinária e estou perdendo o simples e belo que a paisagem do viver contém.

Então parei de súbito, e fui em direção ao mar. Poxa como o mar é lindo. É um perder-se infinito de verde sem fim. As vagas vêm e vão em ciclos que começam e terminam num movimento eterno.

Assim somos nós, mulheres cíclicas que estão sempre recomeçando e finalizando as várias fazes da existência. Somos crias, somos criaturas, somos criadoras. Porque não dizer que também somos gotas desse imenso mar e fazemos parte desse universo aquático. Um mar que pode estar calmo, mas que também tem seus dias de ressaca.

Respirei toda aquela brisa que embalava meus cabelos e minha alma. Poxa como o mar é lindo. Sentei e contemplei minha história por alguns minutos e agradeci a Deus por estar presente. Viver é um presente. Viver é o presente. O amanhã não existe e ontem não volta mais.

Olhei mais uma vez aquela beleza e lembrei porque as sereias encantam; com certeza elas sabem todos os mistérios do mar. Respirei profundo e gravei o marulho e a pintura daquela paisagem na minha memória. Enfim, sai caminhando e quando reparei estava já correndo novamente.

Crédito da Imagem: Pexels

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