XEROSTOMIA

Chiado. Chiado.
Rádio traçadores, Rádio traçadores. Zum. Zum. Zum.Zum.
Sinal. Rádio traçadores. Entrada liberada.

A mensagem era enviada por corredores estreitos sob uma luz intensa que se alternava ao refletir o rio vermelho durante o percurso.
Na corrida, nenhum soldado é abandonado, eles mantêm o ritmo constante.

Uma forte correnteza faz com que eles naveguem em fluxo contínuo. Há um bombeamento que torna o rio fluído, impulsionando-os sempre em frente. 

O primeiro pelotão de rádio traçadores chega ao destino e se aloja rapidamente. Eles não sabem, mas um gigantesco scanner verifica a área. Estão acuados enquanto a leitura é feita. Uma central recebe as informações e processa suas imagens em tempo real, mas… 

Nenhum som é emitido. Onde está o inimigo?

Nesse momento, nem a correnteza vermelha parece se mover com velocidade. A pouca luz obrigava-os a se alinhar e movimentar com sincronismo, como pássaros em voo no céu, reconhecendo o espaço no qual estão confinados.

O segundo pelotão é lançado na correnteza e a luz forte, que alterna períodos de total escuridão, os guia no mesmo caminho. É preciso chegar ao primeiro grupo e unir forças. Quando finalmente encontram o alojamento, estão sencientes de que há algo maior que os vigia.

O scanner varre a área e observa, num zunido quase imperceptível, aqueles guerreiros em seu espaço, as imagens sendo enviadas para uma central, onde ninguém nada vê. De súbito, uma ordem, o caos se instaura.

A central envia um carregamento da droga LA-6, um ataque sutil e letal, capaz de gerar um grande desequilíbrio eletrolítico: tonturas, agitação, sede, boca seca, náuseas e taquicardia. Uma efervescência crescente faz com que o rio se torne uma torrente caudalosa, arrastando tudo por onde passa, tal qual um terremoto no meio do mar.

Quando a onda gigante de LA-6 atinge o alojamento, os rádio traçadores são obrigados a nadar rapidamente para escapar da morte por sufocamento causada pela droga. O segundo pelotão mal chega a se alojar e é realocado em outro acampamento, mas tudo é provisório, e sua situação está por um triz.

O scanner continua acompanhando seus movimentos.

Eles se movem aleatoriamente.

Minutos depois, tudo está acabado. 

Dois pelotões de rádio traçadores foram completamente exterminados por meio de uma central de processamento de dados, uma inteligência artificial, sem contato humano, sem amparo.

O rio vermelho segue seu curso. O scanner volta a sua posição inicial.

Um dia as imagens serão analisadas por olhos humanos, e o grande massacre dos rádio traçadores será lembrado. Bem como sua virtude tóxica.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

FÊNIX

Por: Lidianne Monteiro

Sou mil mulheres em várias vidas
Em cada fase que parecia infinita, vi desmoronar sem aviso o muro das certezas
Cada etapa se foi sem que se percebesse que jazia o tempo de dizer adeus

De repente se foi
Nem notei
Nem me despedi

E, sem aviso prévio nem lamento, uma vida nova estreia com ar de campeã de bilheteria

As novas fases empinam seus narizes arrogantes 
e minimizam o que ficou para trás
Ofuscam com seu brilho a saudade para que não se pense nela

Então bate à porta um novo recomeço
Inesperado
Duvidoso
Instigante
A roupa velha é descartada
Ou guardada como relíquia preciosa
Para ser contemplada como um troféu do que se viveu

Na fase em que se quer calma, a alma se regozija pelo consolo da trégua
O corpo cansado da batalha nem entende como se deixou calejar tanto
Parecia que só existia esse jeito de ser
Encabeçando guerras e convencendo a ser seguida rumo às trincheiras
Para em um átimo tudo se dissipar e o que se fez parecer desvario

Ora era pássaro construindo minuciosamente o ninho com cada graveto escolhido a bico
Ora decidia destruí-lo para conseguir se apartar dele e ir curar as feridas em outro pouso
Para então seguir o voo mais alto que se ousava imaginar, desbravando feliz a nova
oportunidade de Fênix renascida

Em sendo jovem, já me fiz velha pelo peso do fardo
E, com cabelos brancos, ja me vi menina de novo, invencível e arteira

Tem fase de busca
E tem aquela de apenas se deixar encontrar
Como quem espera desprevenida e intencionalmente

Já vivi a rigidez das convenções e a expectativa ilusória de que estaria resguardada
Deste rio avassalador que leva tudo que encontra quando se vê impelido pela tempestade
Para depois retomar o fluxo calmo
E inaugurar um novo tempo

Fui terna e protetora
Frágil e indefesa
Menina e mulher ao mesmo tempo
Forte e inabalável às vezes
Enquanto calculo palavras e escrevo números
E contemplo apaixonadamente a vida e os meus
Para, logo em seguida, me abraçar às urgências impacientes
Sou muitas
Sou todas
Nasço e findo a todo instante
Como a Fênix mitológica com sua melodia cíclica

Sou tantas em uma
Que cada fase parece ter sido vivida por outras
E foi
E todas elas aplaudem o espetáculo que protagonizaram
Ora chorando
Ora sorrindo
Esperando pelo próximo ato

Crédito da Imagem: Foto por Marek Piwnicki em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

VIDA X MORTE

Por: Claudia Nagau

Dia 5 de novembro, comemorei meu aniversário como há muito tempo não fazia: leve.

Acordei com o entusiasmo e esperança de todos os dias, disposta a escrever todos os propósitos para meu novo ano pessoal.

Agradeci pela minha vida, mentalizei coisas boas, fiz uma postagem no Instagram para que todos soubessem da minha alegria e parti para meu dia, agora com motor 4.4.

Recebi felicitações de amigos, parentes, alunos, cantei sozinha no carro, me dei um belo charuto de presente, trabalhei a manhã toda disposta e sorridente e fui para casa na hora do almoço.

Ao rolar o FEED do Instagram, dei de cara com a notícia da morte da Marília Mendonça. Não ouço sertanejo, não acompanhei a carreira, não era fã; mas a primeira coisa que veio à cabeça foi a brevidade da vida, tudo que ela tinha para viver e o filho que ficou sem sua mãe tão jovem.

Não gosto destes posts piegas e nem desse senso comum, mas o fato do ocorrido ter atropelado o dia do meu aniversário, ter me feito pensar sobre os planos, metas e objetivos que almejava traçar naquele dia, me fez querer falar sobre isso.

Diante da ironia da brevidade da vida, deixei meu bloco de metas de lado, abracei meus filhos, fiz uma piadinha com minha mãe, conversei com amigos pelo Whatsapp, recebi duas amigas e vivi meu dia com quem eu amo, um copo de whisky e o tabaco aceso.

O futuro é agora…


Crédito da Imagem: Foto por Julia Volk em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CARTA PARA MÃE BIOLÓGICA DA MINHA FILHA ADOTIVA

Querida amiga:

Este ano resolvi escrever cartas para as pessoas, que de alguma forma fazem parte da minha vida. Você é uma dessas pessoas, que entrou na minha vida de forma radical e para sempre.
Hoje é seu aniversário. Não me esqueço e nunca poderei esquecer. Você me deu uma das joias preciosas de minha família. Você gerou e nós, meu marido e eu, cuidamos.
Nós não nos conhecíamos. Morávamos em cidades muito distantes uma da outra. Não sabíamos como éramos, mesmo assim, você me entregou certa de que nós faríamos o melhor por aquela criança que crescia em seu ventre, mas que você não podia ficar com ela. Nós a recebemos e não questionamos seus motivos, não fizemos nenhum julgamento sobre sua atitude.
Nossa filha acostumou-se a verdade de sua existência e sempre conheceu toda a sua história e dizíamos que o dia que ela quisesse a levaríamos para conhecer você.
O tempo passou e aos 23 anos o desejo dela de conhecer você foi realizado. Lindo foi ver vocês duas se encontrarem e se abraçarem como grandes amigas. Tudo ficou tão natural e nossas famílias passaram a ser uma só.
Já há alguns anos você foi incluída nas nossas conversas abertamente. Todas as pessoas da nossa amizade conhecem a história da nossa filha. Somos felizes e agradecidos por toda esta maravilha em nossa existência.
Parabéns pela família que você soube construir ao lado do seu marido. Parabéns pelos netos lindos. Nós duas completamos nossa maternidade de forma a nossa filha poder desfrutar as duas famílias, a que você formou depois do nascimento dela e a que nós já tínhamos e que foi aumentada com ela.
Abraçamos você com carinho em mais um aniversário e que venham muitos mais para a alegria de todos nós.
Nós dois.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

DUAS FORMAS DE SER

Por: Sônia Souza

ÍMPAR

Era um naquele instante ímpar
procura seu lugar pequeno e cômodo no final do dia
Pela manhã se feria no meio dos outros tantos pares
E sentia na pele a dor de dividir 
o que deveria se completar

FALTA UM

Nas segundas emergia 
e duvidava até do que dizia(…) 
Na terça renovada 
sentia o chão sob os pés e orava 
Na quarta, ingenuidade refletia a água 
e tudo o que passava 
Na quinta, o incômodo 
a ânsia do que há por vir 
Na sexta e sábado a libertação 
Não tinha dono nem preço certo não 
Na segunda(…)

Crédito da Imagem: Foto por Elina Fairytale em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ESTAÇÕES

Por: Lidya Gois


No inverno perco a roupagem
 
Fico seca, aparento fraqueza e solidão
 
Olho o entorno, as outras estão vaidosamente exuberantes e frondosas
 
A comparação golpeia meu sossego e me lança flechas venenosas
 
Ainda cingida de angústia, decido ouvir o Vento suave sussurrando
 
O que Ele diz me aduba com um novo ânimo
 
Aprofundo minhas raízes e reencontro o alimento
 
Percebo que o sol ainda brilha a despeito das nuvens opacas
 
Um broto de esperança começa a germinar
 
Volto a sentir a primavera se refazendo em mim


Crédito da Imagem: Foto Cerrado por Karina Freitas @kvdfreitas

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Memento

Memento.

Gosto de te esquecer

Gosto de te esquecer todos os dias

Como um processo degenerativo,

te lembrar.

Para então,

Ter motivo de esquecer.

Gosto de verificar as portas e as janelas 

Me certificar

continuam fechadas.

Te olhar rindo nos dentes de domingos

E desfolhar as cartas de mínimas

Escritas

Ditas

Lidas

Guardadas

Furtivas

De promessas suspensas de aindas.

Perfídias.

Repetidas novelas. 

No hoje busco te olhar

Vestido 

tecido fibroso de desprezo 

te saber avesso.

Naturaleza

Tão ridiculamente normal

Que a aura Diosa 

Torna-se fácil de esquecer,

Tinta secando nas paredes

Desse quarto que não habita.

Gosto de esquecer.

Do processo venenoso do esquecimento.

Deuses não existem

No vazio esquecimento.

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Ela – Segunda parte

… Já dentro do crepúsculo tranquilo da caverna entre o medo e uma leve sensação de bem-estar, ela seguiu contando os passos atenta às camadas de poeira e teias que se exibem sedentas por mudança e aceitação.

Daqui de dentro o medo e o pavor semelham-se raquítico na procura do alimento que mantém esse lugar tão seguro e menos assustador.

Lágrimas derramam no lavar dos sentimentos inexplicáveis dos rastros impuros das sensações proibidas e ocultadas, quase inacessíveis pela dúvida e a dualidade.

Ela respira corajosamente e acolhe a caminhada dentro desse “Dèjá vu” montando pedaços que ela não inventa.

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

MEU REENCONTRO COM RENATO RUSSO

Por: Elaine Resende

Durante anos trabalhei apenas para o jornal e a rádio AM, subindo e descendo com a equipe de trabalho e os visitantes. Gente fina esse pessoal! Até o dia em que eu percebi uma movimentação estranha, uma gente bem jovem, muito ruidosa, inquieta. Foi a primeira vez na vida que ouvi a zoeira que eles chamavam de rock and roll. Não era o som do Roberto e Erasmo, Little Richard, Elvis ou do Chuck Berry. Esses eu conhecia, não sou ultrapassado. Era um som barulhento que ecoava na minha cabine de 2×2 e fazia as partes metálicas reverberarem. Tremia tudo!

Era isso, estava feito: chegou ao prédio a mais nova atração de Niterói e adjacências, a primeira rádio FM da cidade, a Maldita 94,9 Fluminense FM.

Vai ser passageiro, essas coisas ruins não se criam, eu pensava a cada novo dia de trabalho. Como um prédio que recebia tanta gente importante ficaria com todo aquele povo baderneiro circulando? Tive certeza de que Sr. Alberto Torres ia se cansar daquele movimento e botar todo mundo para correr.

Sou tão antigo aqui que mereço placa de patrimônio. Estou aqui desde a fundação do jornal, sabe? Lembro bem dos plantões, os jornalistas chegando e saindo apressados com suas máquinas fotográficas e blocos de notas para caçar matéria na rua. Tempo das joaninhas da polícia, da rádio AM e da foto em preto e branco. Tudo muito bacana!

Eu tenho orgulho de dizer que em meus mais de 40 anos de dedicação ao trabalho transportei pessoas realmente importantes. Vi grandes homens nesses dois metros quadrados. Acompanhei os primeiros passos de muitos políticos. Donos de empresa negociando seu espaço nas páginas do jornal e nos anúncios da rádio, as mulheres da High Society niteroiense, prefeitos e vereadores, e até mesmo um presidente da república. Sabe por que me orgulho disso? Porque todos eles, sem exceção, elogiaram minha elegância discreta, minha aparência de simplicidade e imponência.

Ainda hoje me envaideço daquelas senhoras de unhas bem tratadas tocando em meus botões. Até me arrepio, olha só! Meu parceiro de trabalho, bem mais humilde que eu, carrega de um tudo nas costas. O coitado nunca recebeu uma visita ilustre, muito diferente de mim.

Qual não foi minha surpresa no dia que escutei Sr. Alberto Torres comentar com um dos diretores que estava gostando daquela turba. Eles não vão embora. Como assim eles não vão embora? Aquela rapaziada que ocupou os dois últimos andares do prédio não vai embora? Perfeito! Quem mais vou ter que transportar agora? Quero nem saber. Ora tinha um bando de gente que parecia ter voltado da praia, ora era a horda de cabeludos com roupa de couro. Gente que se espremia dentro daquele espaço confinado, querendo ir todo mundo junto numa viagem só. Nem tem cabimento um negócio desses. Eu alertava para a capacidade máxima permitida, com rigor, porque afinal essa era a minha função, transportar a todos com segurança. Estacava no andar e não subia ou descia enquanto não se adequassem às regras. aí uma coisa que podem falar de mim: sempre fui implacável na aplicação das regras.

Mas, sabe como é, né? Com o tempo as coisas vão se assentando, quando se vê, sente falta até do que achava ruim. E olha eu lá, acostumado com aquele sonzinho deles, com a juventude, com as altas demandas que eles faziam. E nesses horários de pico a música até que era boa, dava aquela animada no dia. E não era só isso que era bom. As vozes das locutoras eram igual veludo, uma mais macia que a outra. Ondas de FM comandadas por mulheres, e só mulher surfava naquelas ondas! Negócio inédito! Eita lasqueira! Quando elas trocavam de turno e entravam no meu cubículo, era a minha praia, eu ouvia a melodia das sereias! Sempre com muito respeito, claro! Elas eram novinhas, mas tinham uma potência na voz que dava gosto de ouvir.

Quando se é velho as adaptações são difíceis, posso garantir. Mas quando se dá uma chance ao novo, certeza de se sentir jovem outra vez. Foi o caminho que segui. Me entreguei aos novos sons, ao rock nacional que tocava logo cedo, sabia de cor sobre o mar e onde a molecada podia ir surfar. Comecei a transportar um bocado de gente diferente, de vez em quando eles batucavam uma melodia nas paredes da cabine e eu acompanhava de leve, não queria atrapalhar. Toda aquela movimentação para o décimo andar era um barato.

Mas como tudo que é bom passa, eu estava passando do meu tempo também. Comecei a falhar no trabalho. Às vezes no início do turno eu precisava de um atendimento emergencial para dar conta do dia. Eles não me substituíam, sempre acreditei que era por conta da minha dedicação. E eu me firmava e continuava o dia. Outras vezes eles me pediam para encerrar mais cedo, o que eu fazia com tranquilidade. Era melhor que passar vergonha com o cubículo cheio de gente.

O pessoal do décimo era o mais prejudicado com as minhas ausências. Meu parceiro transportava de tudo, e o pessoal viajava com o que ele estivesse transportando. Ele também estava velho e falhando, e eu não via esforço nenhum da direção para sua substituição. Entendo que o serviço dele era importante, mas acho que era mais fácil substituir a ele do que a mim!

Naquele fim de ano, era dezembro de 1993 lembro bem, a FM tinha anunciado todos os dias por uma semana inteira a chegada de uma banda importante para a juventude, a Legião Urbana. A banda chegaria para dar uma entrevista de lançamento de um disco, eles falavam disso o tempo todo. Uma expectativa enorme. E era fim de ano, as pessoas sempre ficam animadas, compras, festas natalinas, um calor típico desse período, e eu… eu não estava nos meus melhores dias. Eu completei nesse ano meus 39 anos de serviço e meu cansaço e desgaste eram aparentes.

Quando o tão esperado dia chegou, até eu já estava ansioso com o aguardo. Me coloquei pronto para o trabalho. A primeira pessoa que chegava para o décimo andar era a menina da recepção da rádio. Ela era muito simpática, chegava cedo e subia sempre cantarolando alguma coisa, mas nesse dia ela me olhou e deu meia volta. Não entrou. Sem dizer uma palavra, abriu e fechou a porta do elevador, deu meia volta e foi embora. Que coisa mais grosseira de se fazer! Estapafúrdia, no mínimo.

E foi assim esse início de manhã, algumas pessoas passavam em frente e iam para a cabine do meu colega, me ignorando totalmente. Pensei com meus botões: que raio de comportamento estranho é esse? Será que eu fedendo? Ou isso, ou estavam me guardando para receber a Banda no meu melhor estado. Talvez fosse isso. O calor intenso e toda aquela gente suada sendo transportada, meu envelhecimento, esses fatores todos juntos, quiseram me poupar. Sempre percebi a consideração deles por mim.

Não lembrava direito da primeira vez que transportei a Legião Urbana. Mas sei que fui eu. Eles estavam em início de carreira e eram falantes, um pouco bagunceiros. Não podia imaginar que aquela rapaziada se tornaria uma referência para a juventude. Então estava lá eu, orgulhoso de poder transportá-los de novo, agora banda famosa de gravadora grande e mais de 4 discos lançados e premiados. Eles chegaram, eles chegaram!

Quando abriram a porta do elevador eu me engasguei. Travei. Renato Russo pronto para dar sua entrevista na rádio e eu sem ação. Me faltava energia para qualquer coisa. O Renato foi um dos seres humanos mais gentis que conheci em todos esses anos de serviço. Vendo a precariedade da minha condição, voltou para a recepção e decidiu por esperar até que eu fosse atendido, fez questão de subir comigo. Nunca experimentei nada parecido com essa sensação! Um ato de compaixão como esse, de um homem acostumado a lhe abrirem as portas, esperar humildemente por mim, me deixou sem palavras!

Chamaram rapidamente um especialista para me atender. Logo, dois grandalhões estavam lá me cercando de todos os lados, me apertando em pontos sensíveis em busca de uma reação. Eu estacado no lugar, imóvel como uma rocha, engasgado, travado, sombrio. Um funeral no qual só compareceu o defunto. Nesse caso: Eu!

Podia ouvir os passos apressados dos homens na recepção, sussurravam algo sobre gravidez, mas acho que não era isso, não. Parecia que uma pequena multidão se formava na rua, bradando pela anunciada entrevista do astro do rock nacional. A cada intervalo a locução ao vivo repetia que ele estava lá, faltava pouco para “uma entrevista exclusiva da Fluminense FM”. E eu simplesmente ouvia, e mais nada.

Inerte estava, inerte fiquei. Minhas forças haviam se acabado. Uma vida de dedicação para aquele trabalho, uma vida de condução dos grandes nomes da cidade, quiçá do país, para eu esmorecer quando todos aguardavam seu grande ídolo.

Se eu fosse um Samurai teria dado um fim aquele suplício. Os minutos seguintes foram os piores da minha carreira. Uma ligação entre as recepções e tudo estava resolvido: Renato e Dado não deveriam mais esperar, era para subir imediatamente.

Um fim desonroso o meu. Os rapazes da Legião Urbana subiram os dez andares de escada. Por meus alto-falantes, pelas paredes ocas da minha casa de máquinas, eu ecoava a felicidade de quem os recepcionava. Queria que fosse da minha cabine que eles saíssem para receber aqueles aplausos calorosos.

Bem mais tarde naquele dia substituíram uma peça do meu motor que havia quebrado e voltei a funcionar. Recebi de portas abertas, a pantográfica e a de madeira, um Renato Russo desconfiado, me olhando de lado. Queria muito tê-lo deixado seguro de que não ficaria travado entre dois andares, mas tudo que consegui expressar foi um som que parecia um gemido de dor.

Ele se apoiou na barra do fundo da cabine e bateu na minha parede de carvalho antigo como um amigo que compreende nossas limitações e disse: “Só a Flu FM para fazer isso com a gente!”.


PS: Renato Russo visitou a Rádio Fluminense FM entre o final de 1993 e início de 1994, no lançamento do disco O Descobrimento do Brasil. Em julho de 1994 a Rádio Fluminense FM encerrou suas atividades, dando lugar a Rádio Jovem Pan de São Paulo. Há 25 anos, em 11 de outubro de 1996, Renato Russo faleceu, deixando uma legião de fãs órfãos da sua poesia urbana.


Crédito da Imagem: https://adnews.com.br/renato-russo-conheca-o-acervo-do-cantor-que-vai-inspirar-minisserie/

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SAUDADE

Por: Carol Pessôa

Desde pequena sentia um estranho aperto no peito. Os pais a levaram a vários médicos. Também iniciou tratamento psicológico. Mas nada resolvia a estranha pontada no coração.

A família comentava que ela era uma menina problemática. Sempre com notas baixas, problemas de saúde, desânimo para as brincadeiras.

Não havia o que a fizesse sorrir de verdade. Nas fotos, sozinha ou em grupos, exibia sempre uma expressão amarela, sem graça.

Assim foi até os 33 anos.

Cresceu, tornou-se uma médica pediatra responsável, decidida.

Cuidava das crianças com todo o empenho. Era como se buscasse naqueles pequenos a cura de suas próprias dores de menina.

Até que em um dia de emergência, atendeu um pai viúvo que carregava a filha nos braços em desespero. Ela estava com fortes dores na barriga, e ele não fazia ideia de que era apenas uma cólica menstrual. Perdido e preocupado, não entendia que seu bebê estava se tornando uma mulher.

Alice riu. E pela primeira vez, teve a estranha sensação de que seu riso era sincero. E ao receber a notícia de que sua filha virou mocinha, Pedro também riu. Sentiu-se ridículo.

E naquele inusitado encontro, surgiu um sentimento diferente. Alice, como boa médica, foi percebendo dia a dia que a pontada em seu peito melhorava. E foi aconselhada por uma amiga a procurar atendimento espiritual em um grupo kardecista.

Cética, ela teve dúvidas, mas decidiu arriscar.

Ao conversar com o conselheiro, escutou aquilo que jamais imaginava.

“Saudade. Era saudade”.

Alice e Pedro foram companheiros em muitas vidas. E escolheram a madura idade para o reencontro, este abençoado pelos espíritos amigos.

Encantada com a descoberta, ela correu como nos filmes românticos. Já sabia onde ele trabalhava. Pedro era defensor público, e atuava no centro da cidade.

E como nas comédias românticas, ao chegar ela descobriu que ele havia acabado de sair. Para ir ao hospital, explicou uma das funcionárias, entregar um buquê de rosas a uma médica que havia atendido sua filha há poucos dias.

E assim, mais uma vez, recomeçou uma das mais lindas histórias.

Vivida, revivida, eterna.


Crédito da Imagem: Foto por Viktoria Slowikowska em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”