O TEU OLHAR

Por: Karla Militão

No teu olhar me perco e me encontro.            
No teu olhar descubro o melhor e o pior de mim.                                                            No teu olhar vejo os anos da minha vida que não param de passar. Percebo a menina que fui e a mulher que me tornei.          
No teu olhar vejo a perspectiva contagiante de aventuras e novidades mas também vejo a rotina que sufoca.           
No teu olhar encontro um sentimento oceânico que me blinda de mim mesma.         
No teu olhar sinto as batidas do teu coração e o pulsar das minhas veias.        
Obrigado pelo teu olhar...

Crédito da Imagem: Foto por Hernan Pauccara em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

LEITURA

Por: Ivone Santana

Passei horas num dia cheio de trabalho, chegando em casa e o pensamento era descansar. Chegando fui direto pro sofá e os olhos voltaram para o livro ao lado. Abri uma página e começando a ler veio a vontade de ler mais para decifrar toda a história que ali continha. Nesse tempo de leitura a mente viaja a vários espaços, cores, paixões, dúvidas, lembranças e certezas.

Várias outras partes do livro ficaram marcadas para serem lidas depois, afinal já era madrugada e viria outro dia trabalhoso. A mente dormindo e ainda na imaginação os detalhes lidos anteriormente.

Ter o hábito de ler se torna uma mania divertida e gostosa de viver e assim é um mundo feliz, cheio de sabedoria.


Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

XEROSTOMIA

Chiado. Chiado.
Rádio traçadores, Rádio traçadores. Zum. Zum. Zum.Zum.
Sinal. Rádio traçadores. Entrada liberada.

A mensagem era enviada por corredores estreitos sob uma luz intensa que se alternava ao refletir o rio vermelho durante o percurso.
Na corrida, nenhum soldado é abandonado, eles mantêm o ritmo constante.

Uma forte correnteza faz com que eles naveguem em fluxo contínuo. Há um bombeamento que torna o rio fluído, impulsionando-os sempre em frente. 

O primeiro pelotão de rádio traçadores chega ao destino e se aloja rapidamente. Eles não sabem, mas um gigantesco scanner verifica a área. Estão acuados enquanto a leitura é feita. Uma central recebe as informações e processa suas imagens em tempo real, mas… 

Nenhum som é emitido. Onde está o inimigo?

Nesse momento, nem a correnteza vermelha parece se mover com velocidade. A pouca luz obrigava-os a se alinhar e movimentar com sincronismo, como pássaros em voo no céu, reconhecendo o espaço no qual estão confinados.

O segundo pelotão é lançado na correnteza e a luz forte, que alterna períodos de total escuridão, os guia no mesmo caminho. É preciso chegar ao primeiro grupo e unir forças. Quando finalmente encontram o alojamento, estão sencientes de que há algo maior que os vigia.

O scanner varre a área e observa, num zunido quase imperceptível, aqueles guerreiros em seu espaço, as imagens sendo enviadas para uma central, onde ninguém nada vê. De súbito, uma ordem, o caos se instaura.

A central envia um carregamento da droga LA-6, um ataque sutil e letal, capaz de gerar um grande desequilíbrio eletrolítico: tonturas, agitação, sede, boca seca, náuseas e taquicardia. Uma efervescência crescente faz com que o rio se torne uma torrente caudalosa, arrastando tudo por onde passa, tal qual um terremoto no meio do mar.

Quando a onda gigante de LA-6 atinge o alojamento, os rádio traçadores são obrigados a nadar rapidamente para escapar da morte por sufocamento causada pela droga. O segundo pelotão mal chega a se alojar e é realocado em outro acampamento, mas tudo é provisório, e sua situação está por um triz.

O scanner continua acompanhando seus movimentos.

Eles se movem aleatoriamente.

Minutos depois, tudo está acabado. 

Dois pelotões de rádio traçadores foram completamente exterminados por meio de uma central de processamento de dados, uma inteligência artificial, sem contato humano, sem amparo.

O rio vermelho segue seu curso. O scanner volta a sua posição inicial.

Um dia as imagens serão analisadas por olhos humanos, e o grande massacre dos rádio traçadores será lembrado. Bem como sua virtude tóxica.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

FÊNIX

Por: Lidianne Monteiro

Sou mil mulheres em várias vidas
Em cada fase que parecia infinita, vi desmoronar sem aviso o muro das certezas
Cada etapa se foi sem que se percebesse que jazia o tempo de dizer adeus

De repente se foi
Nem notei
Nem me despedi

E, sem aviso prévio nem lamento, uma vida nova estreia com ar de campeã de bilheteria

As novas fases empinam seus narizes arrogantes 
e minimizam o que ficou para trás
Ofuscam com seu brilho a saudade para que não se pense nela

Então bate à porta um novo recomeço
Inesperado
Duvidoso
Instigante
A roupa velha é descartada
Ou guardada como relíquia preciosa
Para ser contemplada como um troféu do que se viveu

Na fase em que se quer calma, a alma se regozija pelo consolo da trégua
O corpo cansado da batalha nem entende como se deixou calejar tanto
Parecia que só existia esse jeito de ser
Encabeçando guerras e convencendo a ser seguida rumo às trincheiras
Para em um átimo tudo se dissipar e o que se fez parecer desvario

Ora era pássaro construindo minuciosamente o ninho com cada graveto escolhido a bico
Ora decidia destruí-lo para conseguir se apartar dele e ir curar as feridas em outro pouso
Para então seguir o voo mais alto que se ousava imaginar, desbravando feliz a nova
oportunidade de Fênix renascida

Em sendo jovem, já me fiz velha pelo peso do fardo
E, com cabelos brancos, ja me vi menina de novo, invencível e arteira

Tem fase de busca
E tem aquela de apenas se deixar encontrar
Como quem espera desprevenida e intencionalmente

Já vivi a rigidez das convenções e a expectativa ilusória de que estaria resguardada
Deste rio avassalador que leva tudo que encontra quando se vê impelido pela tempestade
Para depois retomar o fluxo calmo
E inaugurar um novo tempo

Fui terna e protetora
Frágil e indefesa
Menina e mulher ao mesmo tempo
Forte e inabalável às vezes
Enquanto calculo palavras e escrevo números
E contemplo apaixonadamente a vida e os meus
Para, logo em seguida, me abraçar às urgências impacientes
Sou muitas
Sou todas
Nasço e findo a todo instante
Como a Fênix mitológica com sua melodia cíclica

Sou tantas em uma
Que cada fase parece ter sido vivida por outras
E foi
E todas elas aplaudem o espetáculo que protagonizaram
Ora chorando
Ora sorrindo
Esperando pelo próximo ato

Crédito da Imagem: Foto por Marek Piwnicki em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

VIDA X MORTE

Por: Claudia Nagau

Dia 5 de novembro, comemorei meu aniversário como há muito tempo não fazia: leve.

Acordei com o entusiasmo e esperança de todos os dias, disposta a escrever todos os propósitos para meu novo ano pessoal.

Agradeci pela minha vida, mentalizei coisas boas, fiz uma postagem no Instagram para que todos soubessem da minha alegria e parti para meu dia, agora com motor 4.4.

Recebi felicitações de amigos, parentes, alunos, cantei sozinha no carro, me dei um belo charuto de presente, trabalhei a manhã toda disposta e sorridente e fui para casa na hora do almoço.

Ao rolar o FEED do Instagram, dei de cara com a notícia da morte da Marília Mendonça. Não ouço sertanejo, não acompanhei a carreira, não era fã; mas a primeira coisa que veio à cabeça foi a brevidade da vida, tudo que ela tinha para viver e o filho que ficou sem sua mãe tão jovem.

Não gosto destes posts piegas e nem desse senso comum, mas o fato do ocorrido ter atropelado o dia do meu aniversário, ter me feito pensar sobre os planos, metas e objetivos que almejava traçar naquele dia, me fez querer falar sobre isso.

Diante da ironia da brevidade da vida, deixei meu bloco de metas de lado, abracei meus filhos, fiz uma piadinha com minha mãe, conversei com amigos pelo Whatsapp, recebi duas amigas e vivi meu dia com quem eu amo, um copo de whisky e o tabaco aceso.

O futuro é agora…


Crédito da Imagem: Foto por Julia Volk em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CARTA PARA MÃE BIOLÓGICA DA MINHA FILHA ADOTIVA

Querida amiga:

Este ano resolvi escrever cartas para as pessoas, que de alguma forma fazem parte da minha vida. Você é uma dessas pessoas, que entrou na minha vida de forma radical e para sempre.
Hoje é seu aniversário. Não me esqueço e nunca poderei esquecer. Você me deu uma das joias preciosas de minha família. Você gerou e nós, meu marido e eu, cuidamos.
Nós não nos conhecíamos. Morávamos em cidades muito distantes uma da outra. Não sabíamos como éramos, mesmo assim, você me entregou certa de que nós faríamos o melhor por aquela criança que crescia em seu ventre, mas que você não podia ficar com ela. Nós a recebemos e não questionamos seus motivos, não fizemos nenhum julgamento sobre sua atitude.
Nossa filha acostumou-se a verdade de sua existência e sempre conheceu toda a sua história e dizíamos que o dia que ela quisesse a levaríamos para conhecer você.
O tempo passou e aos 23 anos o desejo dela de conhecer você foi realizado. Lindo foi ver vocês duas se encontrarem e se abraçarem como grandes amigas. Tudo ficou tão natural e nossas famílias passaram a ser uma só.
Já há alguns anos você foi incluída nas nossas conversas abertamente. Todas as pessoas da nossa amizade conhecem a história da nossa filha. Somos felizes e agradecidos por toda esta maravilha em nossa existência.
Parabéns pela família que você soube construir ao lado do seu marido. Parabéns pelos netos lindos. Nós duas completamos nossa maternidade de forma a nossa filha poder desfrutar as duas famílias, a que você formou depois do nascimento dela e a que nós já tínhamos e que foi aumentada com ela.
Abraçamos você com carinho em mais um aniversário e que venham muitos mais para a alegria de todos nós.
Nós dois.

Crédito da Imagem: Foto Pexels.com

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DUAS FORMAS DE SER

Por: Sônia Souza

ÍMPAR

Era um naquele instante ímpar
procura seu lugar pequeno e cômodo no final do dia
Pela manhã se feria no meio dos outros tantos pares
E sentia na pele a dor de dividir 
o que deveria se completar

FALTA UM

Nas segundas emergia 
e duvidava até do que dizia(…) 
Na terça renovada 
sentia o chão sob os pés e orava 
Na quarta, ingenuidade refletia a água 
e tudo o que passava 
Na quinta, o incômodo 
a ânsia do que há por vir 
Na sexta e sábado a libertação 
Não tinha dono nem preço certo não 
Na segunda(…)

Crédito da Imagem: Foto por Elina Fairytale em Pexels.com

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ESTAÇÕES

Por: Lidya Gois


No inverno perco a roupagem
 
Fico seca, aparento fraqueza e solidão
 
Olho o entorno, as outras estão vaidosamente exuberantes e frondosas
 
A comparação golpeia meu sossego e me lança flechas venenosas
 
Ainda cingida de angústia, decido ouvir o Vento suave sussurrando
 
O que Ele diz me aduba com um novo ânimo
 
Aprofundo minhas raízes e reencontro o alimento
 
Percebo que o sol ainda brilha a despeito das nuvens opacas
 
Um broto de esperança começa a germinar
 
Volto a sentir a primavera se refazendo em mim


Crédito da Imagem: Foto Cerrado por Karina Freitas @kvdfreitas

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Memento

Memento.

Gosto de te esquecer

Gosto de te esquecer todos os dias

Como um processo degenerativo,

te lembrar.

Para então,

Ter motivo de esquecer.

Gosto de verificar as portas e as janelas 

Me certificar

continuam fechadas.

Te olhar rindo nos dentes de domingos

E desfolhar as cartas de mínimas

Escritas

Ditas

Lidas

Guardadas

Furtivas

De promessas suspensas de aindas.

Perfídias.

Repetidas novelas. 

No hoje busco te olhar

Vestido 

tecido fibroso de desprezo 

te saber avesso.

Naturaleza

Tão ridiculamente normal

Que a aura Diosa 

Torna-se fácil de esquecer,

Tinta secando nas paredes

Desse quarto que não habita.

Gosto de esquecer.

Do processo venenoso do esquecimento.

Deuses não existem

No vazio esquecimento.

Crédito da Imagem: Pexels

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Ela – Segunda parte

… Já dentro do crepúsculo tranquilo da caverna entre o medo e uma leve sensação de bem-estar, ela seguiu contando os passos atenta às camadas de poeira e teias que se exibem sedentas por mudança e aceitação.

Daqui de dentro o medo e o pavor semelham-se raquítico na procura do alimento que mantém esse lugar tão seguro e menos assustador.

Lágrimas derramam no lavar dos sentimentos inexplicáveis dos rastros impuros das sensações proibidas e ocultadas, quase inacessíveis pela dúvida e a dualidade.

Ela respira corajosamente e acolhe a caminhada dentro desse “Dèjá vu” montando pedaços que ela não inventa.

Crédito da Imagem: Pexels

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