IN MEMORIAN

O dia chora contra meu peito
Lágrimas frias de partida.
Não das palavras,
Vivas
Agarradas ao muro feito Hera
Feito Eva
Sobem esgueiras e transcendentes.
Agarram o tempo do poema que prometi
E não cumpri
Não cumpri porque eram suas as palavras
De seus segredos
Que me pediu duras de vida
Para trazer de volta
Os passarinhos
Verdes
Da sua juventude.

(In memorian Isabel Pakes)


Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

SAUDADES FELINAS

Por: Rosi Santos

Faz 78 dias que estou longe dos bichanos da minha vida, oito ao total. Desses, quatro gatinhas são minhas e nem sei descrever o nível de saudade que estou sentindo…

Dormir sem meus felinos – meus reikianos naturais – tem sido estranho, só sofro um pouco menos por conta da pós que ocupa bastante a minha mente. Mas nos momentos que caminho na praia penso no dia que vamos nos reunir na nova casa, nos brinquedos que vou comprar, nas caixas de areia, nos arranhadores, nas telas nas janelas e nas baratinhas mortas que ganharei de presente.


Minhas gatas tem nomes bem significativos e fortes: Frida, Nina Simone, Dandara e Serena, que foram escolhidos para homenagear essas mulheres incríveis que tanto inspiram e para manter essas qualidades imprescindíveis marcadas na minha rotina.


Frida é como a pintora mexicana: alma livre e belíssima! É daquelas gatas que só se aproxima na hora da ração e depois se aninha ao seu lado para a sonequinha de agradecimento, rs. É branca com manchas pretas, bem peluda e de olhos bem delineados. Super arisca, só se aproxima de quem conhece e confia. É a mais velha no momento e é um privilégio conhecê-la, pois se esconde dos estranhos assim que os pressente.


Nina Simone é preta, esguia, melancólica e carente por demais. Mia sempre, me procura sempre, ronrona sempre! Muito exigente e seletiva, está sempre perto de quem ama. Veio até mim no primeiro chamado, era um filhote magrinho e criei com muito carinho e zelo e ela retribui sendo grata e sempre presente. Gosta de estar nos lugares mais altos, olhando tudo, vigiando tudo, cuidando de tudo. É uma ninja!


Dandara foi resgatada um ano depois. Era a menor da ninhada e pensei que não resistiria, mas resistiu, por isso recebeu o nome de Dandara Vitória, porque foi guerreira e persistente e obstinada! Ela chegou na mesma época que peguei Covid e a sensação febril dos “dementadores” só se aplacava porque todo o tempo ficava aninhada no meu travesseiro, perto da minha cabeça. Seu pelo é curto, cinza tigrado, bem pequena e magrinha. É a mais dengosa, a mais companheira, a mais protetora! Meu xodozinho!


Serena é irmã de Dandara, foi castrada com seus irmãos para adoção, mas foi ficando e me cativando, e agora já a adotei também. Literalmente é serena, quase não mia, e trata todos os gatos como se fossem seus filhotes. É extremamente plena e divide essa plenitude com todos. Ela acalma, observa, acompanha. É preta com manchas brancas, é a mais preguiçosa e dorminhoca.

Eu sabia que sentiria falta delas quando saí de casa nessa jornada, só não sabia que seria tanta e todo dia me pergunto se pensam em mim da mesma forma que penso nelas, daria uns doces por esses pensamentos… O que aplaca as ausências é lembrar das características delas (gatas e musas) que admiro e valorizo, e que tanto preciso no momento, afinal foram elas que me motivaram a partir!


Gateiros entenderão plenamente meu sofrimento. E pra quem não entende só deixo uma dica:

PERMITA-SE CONVIVER COM UM FELINO!


Crédito da Imagem: Foto por Mustafa ezz em Pexels.com

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A SAPATILHA QUEBRADA (Ou um abraço no ano novo)

Acostumou-se a ser competitiva desde criança. Nas aulas de jazz que fazia ainda bem pequena, a professora sempre dava uma sapatilha de louça para a aluna que tivesse se destacado mais. Quase toda a semana, era ela quem ganhava. E sentia-se orgulhosa. Uma sensação de que seu esforço era visto, reconhecido. E enfim, era admirada, amada, invejada.

Aquilo se tornou uma espécie de vício.

Já eram 3 anos de aulas. O ciclo básico acabara. Mas ela quis continuar. E foi ficando, ficando…

E continuava a ganhar a sapatilha, quase sempre. Até que um dia, em um pequeno vacilo, uma distração dentro de casa, ela a quebrou.

Que

brou

em

pe-da-ci-nhos

E aquilo a abalou como se fosse a perda de um ente querido. Sua mãe a consolava, e dizia: “filha, foi só uma sapatilha”. A professora arruma outra.

Mas para ela isso não era só um objeto. Era como fosse seu coração.

Par

tido

A mãe não conseguia alcançar tamanha compreensão. Mas sentiu que havia algo errado. Resolveu tirar a menina das aulas. Aquilo não estava mais fazendo bem. Talvez ela precisasse ver outras coisas. Percebia que a vida de Alice girava em torno daquilo: esperar pela aula, dançar até a exaustão, ganhar a sapatilha, e sentir-se completa. Esperar pela aula, dançar até a exaustão, ganhar a sapatilha, e sentir-se completa.  Esperar pela aula, dançar até a exaustão, ganhar a sapatilha, e sentir-se…

Completa?

(será que isso era “realmente real”)

A notícia da saída das aulas não foi fácil. Mas Alice, resiliente e forte como era, uma verdadeira vencedora, enfrentou. E venceu.

Aprendeu inglês, natação, patins, e até capoeira!

Mas carregou aquilo por toda a sua vida. Aquela busca obsessiva pela sapatilha. E o arrependimento por tê-la quebrada. Uma estranha sensação de ser imperfeita, incapaz de cuidar direito de sua própria sapatilha, de suas próprias vitórias. E assim foi por toda sua vida. Sempre que alcançava algo que parecia bom, ela temia. E pensava: será que eu vou dar conta? Ou acabo quebrando minha alegria em pedacinhos de novo?

Era seu inconsciente falando. Mas ela não era capaz de compreender. E de o fato, o que sempre terminava fazendo, era autossabotando suas próprias vitórias, e sim, por atitudes dela mesma. Tudo se tornava no fim uma grande sapatilha quebrada.

Foi assim com seu casamento, sua promoção na agência de publicidade, seu mestrado que ficou pela me/tade.

E hoje, depois de um ano de terapia, Alice já consegue se perceber. E escreve até sobre si mesma em terceira pessoa. Compreende enfim, que apesar dos dissabores da vida, teve mesmo uma parcela de responsabilidade em seus fracassos. E que tudo começou em uma busca insana pela perfeição. Que ela aprendeu, duramente, depois de tanto tempo e tanta reflexão, que não existe.

“Então foi isso? Trinta e cinco anos para descobrir que busquei algo que não existe?”

Pega então sua agenda de anotações para o ano seguinte, 2022. Rasga a página das metas, dos boletos, dos planejamentos, das promessas. E escreve: ser feliz.

Sim! Agora ela está pronta. Que venha o novo ano!

(((E que EU, Alice, possa dançar errado, nadar de costas, cair de patins de bunda e até dar um soco de boxe na capoeira. Porque sim, eu estou puta, com minha vida, minhas escolhas, meu país, e até que uma porrada cairia bem. Um soco na obsessão, na tristeza, na revolta. E um abraço no recomeço!)))


Crédito da Imagem: Foto por Anna Tis em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ANO PESSOAL UM

Por: Elaine Resende

Existem assuntos que são sempre difíceis. Falar das nossas dores, expor sentimentos aos olhos de outrem, ao julgamento ou à condescendência, tudo isso é delicado. Toca em pontos sensíveis, muitas vezes é um gatilho para questões muito mais profundas. Fim de ano costuma acentuar esses nós na garganta e por isso resolvi escrever para vocês.

Quando começamos o Sabático Literário nos abrimos a uma experiência completamente nova, não tínhamos certeza de quais sapatos calçaríamos para percorrer esse caminho, se para nós seria confortável ou se o trajeto teria obstáculos. Simplesmente nos lançamos com o objetivo em mente e o desejo de compartilhar a ideia pulsando. Fizemos tal e qual aquelas pessoas que, de posse apenas de uma placa, oferecem abraços grátis para desconhecidos. E fomos além: criamos laços.

Eu que pensei que seríamos apenas um repositório de textos escritos por mulheres, de susto descubro que somos um movimento. Sem querer entrar no mérito de discussões políticas, preciso escrever essas palavras para que elas se tornem vívidas como luzes de Natal: se temos gênero, somos feminino. Se temos bandeira, somos feministas.

De mais de uma centena de textos publicados no Sabático Literário, vistos por mais de sete mil vezes (um número mágico!), recebemos obras que falavam de amor, de dores da alma, de esperança no futuro, da alegria de novas vidas, de recomeços, de partidas. Foram presentes sob nossa árvore, embalados como poemas, crônicas e contos de todos os tipos. Em cada linha, outras tantas entrelinhas se abriram em possibilidades abissais.

Digo mais, correndo o risco de me repetir: recebemos histórias e, vez ou outra, ficamos sem palavras. Nem sempre conhecemos as mulheres que nos escrevem. Às vezes o contato surge de um encontro casual, de uma sala de aula, de um bate papo virtual, numa reunião de trabalho. Não sabemos de suas dores e de suas alegrias. E nada mais sabemos delas até que escrevam, que compartilhem seus textos (e suas datas de aniversário em alguma rede social).

Mas temos empatia.

Sempre teremos empatia, pois essas histórias nos conectam. E acendem uma fagulha de reflexão. Então, quando chega em nossa caixa postal um texto que fala da perda de um ente querido ou de um relacionamento abusivo, nos colocamos no lugar daquela mulher, abraçamos sua dor com respeito, e amplificamos sua voz. Quando menos se espera, aquela fagulha se espalhou e acendeu uma luz em cada pessoa que se permitiu ler e ser tocada pela mensagem.

Mas, como me disse uma amiga, a partir do momento que te entrego meu texto, ele se torna seu e você decide se ele é um desabafo, um inventário de ideias, um manifesto, ou um instrumento de desopressão. Reivindico unicamente que você entenda que ele é também um pouco de mim, e de cada uma dessas mulheres incríveis que abraçaram de volta esse sonho. Na leitura dos textos, nos comentários, nos livros que lemos e indicamos, ESTAMOS ALI.

Ouvi um discurso recentemente que falava sobre a gratidão e a imensidão de sentimentos que cabem na palavra. Gratidão vem da graça no latim, e estar em graça significa que conquistamos algo pelo bem, sem a obrigação da contraprestação de um favor.

Estamos em graça nesse quase um ano de blog, com cada letra lida, cada visualização, encaminhamento, publicação e republicação.

Cansa? Claro que sim! Dá trabalho e muito! No entanto, é maravilhoso saber que começamos a ola e o estádio inteiro acompanhou, até o momento que essa onda gigante se transformou na mais perfeita forma, sem início e sem fim, um círculo de amigas e histórias, de mulheres escritoras e suas vidas. Nossas histórias. Nossas vidas. E de nossos leitores.

O ano pessoal um na astrologia significa um novo ciclo. Não sei qual foi o número pessoal do Sabático em 2021, mas tenho certeza que ele deu início a um novo ciclo, um reset na rotina de muitas pessoas – especialmente na minha, e garantiu 10 minutos de leitura prazerosa ao chegar às caixas postais de mansinho, acompanhado do café nosso de todo dia, com textos sem filtro. Café forte!

Nesse ano que foi salpicado de dores e alegrias, de perdas e uma infinidade de mistérios que somente a fé explica, o Sabático agiu como um bálsamo para nos reconfortar, reduzindo a dureza da nossa realidade. Um poder que só a literatura tem. Espero que tenha sido assim para você também.

Para 2022, desejo que você tire de letra os assuntos difíceis, distribua muitos abraços apertados, e que seus nós estejam apenas amarrados em fitinhas coloridas para te lembrar de não esquecer (de levar o vinho, do encontro, dos amigos no bar, de comprar coco ralado para colocar no cuscuz). E criar muito, com liberdade e afeto, com gentileza e amor.

Gratidão, Sabáticas! Gratidão aos nossos leitores Sabáticos!


Crédito da Imagem: Foto por Thought Catalog em Pexels.com

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FURTIVO

Por: Katja Mota

De seus dedos teias
Invisíveis e sensíveis
Me pegam pelas mãos,
Pés
atam-me pelas pernas
Corpos
Distante-dentro
Buscam (se furtam) o cheiro de pertencer
Despertar da noite-adeus
O meu passo sólido
(Ébrio)
Percorre
Persegue
a criatura enluarada
Minguando certezas.

Crédito da Imagem: Foto por murat esibatir em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

VAZIO

Não se beija o olhar

Não se enxerga a voz

Não se sente a alma

Vazio

Cerram-se os lábios

Acumula-se a voz

Cegam-se os olhos

Vazio

A alma beija a solidão

A solidão preenche os olhos

Os olhos cantam o silêncio

Vazio

E nada faz sentido

E nada supera a dor

E o nada torna-se tudo

Vazio

E tudo torna-se nada

Nada além do vazio…

(Lívia Maria – 31/01/2017)

Crédito da Imagem:  Lívia Maria

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NUNCA É TARDE

Por: Karina Freitas

Domingo estava fazendo minha caminhada matinal quando uma imagem me desviou a atenção.

Uma senhora nos áureos dos seus cabelos brancos andava de bicicleta de rodinhas.

Exatamente, a mesma rodinha que usei quando criança para aprender a pedalar.

Atrás um jovem rapaz a acompanhava em outra bicicleta.

Olhei, admirei e pensei: – Nunca é tarde para aprender.

Imaginei … um diálogo entre avó e neto …

…de como ela lhe contou aquele sonho antigo de aprender a andar de bicicleta.

De como ela achava que o tempo tinha passado, que estava velha demais!!!

Afinal, o que as pessoas iriam pensar ?

Aquela senhora aparentava ter mais de 60 anos, mas tinha uma alma jovem, de quem tem sonhos a realizar.

E o neto ao conhecer aquele sonho adormecido, sufocado e esquecido pelas atribulações da vida … a estimulou e despertou algo esquecido há anos.

Ela tinha medo de cair, de não conseguir, de se machucar, de de expor ao ridículo.

Mas ela tinha se machucado a vida toda, mas a dor era moral e não física, escondia em seu íntimo e ninguém sabia o que se passava em seu coração.

Ele um jovem rapaz que aparentava seus 20 anos, com olhar amoroso disse que ajudaria e sempre estaria a seu lado!!! E a abraçou.

Ela aceitou aquela oferta com um brilho nos olhos como uma menina que ganhava a boneca que tinha pedido de Natal.

E com certeza andar de bicicleta foi um dos dias mais felizes de sua vida.

Afinal! Nunca é tarde para aprender.

Olhar aquelas aquela senhora me fez lembrar quando aprendi a andar a pedalar!

O porto seguro que eram aquelas rodinhas: havia equilíbrio, estabilidade e um falso controle.

E o momento de retirá-las: as quedas, as feridas, os hematomas, os choros.

Primeiro uma… e depois a outra.

E durante aquele processo aprendi: persistência, insistência, resiliência, prudência, coragem, medo, ousadia e liberdade.

Refleti de como andar de bicicleta pode ter me feito uma adulta mais segura de mim.

O tombo dói, as feridas cicatrizam e o sabor da aventura é um deleite, que minha memória saboreia até hoje.

Aquela senhora relembrou que ninguém é tão velho que não tenha algo a aprender.

E aquele jovem aprendeu que ninguém é tão novo que não possa ensinar.

Crédito da Imagem: Foto por Taryn Elliott em Pexels.com

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FINAL FELIZ



Quando eu ainda era criança ouvia muitas histórias infantis. Mesmo que durante toda a narrativa houvesse o relato de sofrimento ou dificuldades no final sempre acabava tudo bem. Com certeza o príncipe se casava com a mocinha mesmo que ela fosse a gata borralheira.


Toda história terminava muito bem. Os malfeitores eram castigados e os bons recompensados. No entanto o que havia de mais importante era o casamento dos protagonistas, que eram “FELIZES PARA SEMPRE! ”


Cresci ouvindo esses relatos e percebia que não era bem assim. Via casais que se amavam tanto e que viviam uma relação infeliz e cheia de violência.

Percebia, às vezes, ela se queixar para as vizinhas. Outras vezes, ouvia uma voz de homem dar um grito alto com sua mulher e além de humilhá-la fazia com que ela se sentisse envergonhada diante das outras pessoas, como se fosse a culpada por ele ficar nervoso. Ele um pobre pai de família mal compreendido pela própria esposa.


Os anos se passaram, deixei de ouvir histórias de Cinderelas e passei a prestar mais atenção nos relacionamentos de casados e namorados. Percebi que os jovens se sentindo preparados começaram a ter pressa para construir suas vidas de adultos, seus relacionamentos amorosos e muitas vezes não se davam conta de toda a responsabilidade de uma vida a dois.


A descoberta do amor trazia uma certeza de se ter encontrado uma paixão para o resto da vida e que seriam felizes para sempre. Aquela paixão muitas vezes virava um grande pesadelo.


A descoberta do amor não correspondido ou ainda a falta do amor que pensava existir em seu peito por aquela pessoa, levava a um grande sofrimento. A separação do casal, o reconhecimento da escolha errada, a desilusão amorosa levava a uma grande frustação e culpa.


Durante algum tempo este reconhecimento do erro desmotivava o casal que deixava de tentar se ajustar, e passava a viver insatisfeito e desanimado, transformando o lar doce lar em uma prisão.


O divórcio trouxe a esperança e o direito a uma nova união civil para quem assim desejasse. Foi um alívio para muitos filhos que deixaram de conviver com a guerra entre seus pais. A separação trouxe a oportunidade de acerto para um novo casamento e para as crianças uma nova chance de serem amados pelos casais agora formados por seu pai e madrasta e mãe e padrasto.


Sabe-se agora, que final feliz não é apenas aquele das histórias de príncipes e princesas, mas sim de mulheres e homens que reconhecendo a escolha não muito certa, assumem e aceitam uma separação e vão em busca de uma vida equilibrada e feliz, onde não há lugar para violência. Agora sim, é o verdadeiro FINAL FELIZ da história, onde há respeito e amor.

Crédito da Imagem: Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

ROSA, NA CABECEIRA

Por: Jovina GBenigno

Nele um amarelo marrom,
herança do tempo.
pingos vermelhos
feito água de sangue
aspergida sobre o corpo.
ao tocá-lo, aspirei
o olor molhado de mofo,
o cheiro do abandono.
Cobria-lhe um frio úmido
de matéria sem vida,
sem o calor de existir,
como se nele
não mais
pessoas e suas histórias
como se viagens sem malas
não mais fossem possíveis.

Na carícia de seu rosto
a aspereza de grânulos
feto sal fugido do mar
que ali encontrara abrigo.

Como pude abandoná-lo?!
era o preferido
e o larguei num desmazelo
de quem, distraído,
põe no cesto do quintal
as cascas gêmeas da laranja,
exauridas no portento suco.

Forte a nossa história.
em cada linha que eu sorvia
me encontrava personagem
de tramas, alegrias, desgostos,
estradas de poeira em sertões
onde viver era
ter as noites exauridas
de luta e sede.

Um cansaço nas carnes
segurava corações.
dormiam em colchão de formigas,
olhando o céu,
a liberdade das estrelas.

Decidida,
corri a salvá-lo.
durante muito tempo
eu o colocava sob o sol
na esperança
da ressurreição
(não tinha pecados).

Fugiram os odores envelhecidos
feito se vai o cheiro
do chá não tomado.
arrefecera o vermelho das gotas,
nele não há êxodo
de palavras.
as vidas estavam ali,
seca, chuva, morte, fome
e o dizer inusitado delas,
os cenários de existência
eram ele próprio.

E desde então,
oráculo em minha cabeceira,
repouso minhas mãos
sobre ti
com serenidade e gratidão,
Rosa do Sertão
das Veredas de Guimarães. 

Crédito da Imagem: Foto por MoldyVintage Photo em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

EU NÃO TENHO CÓDIGO DE BARRAS

Por: Lidianne Monteiro

Meu nanochip estava dando sinais de instabilidade há algumas semanas.

As falhas, a princípio, não me prejudicaram muito. Uma loja que entrei e a vendedora me ofereceu artigos que eu não tinha interesse, o robô do supermercado que me trouxe comida para o passarinho que não tenho, o café que veio descafeinado quando a cafeína é minha mola propulsora…

Mas a gota d’água foi no trabalho e quase me rendeu uma demissão. Em uma reunião importante para contratação de um cliente que bateria minha meta individual anual, meu código retornou que eu estava o tempo todo flertando com o cliente. Nossa empresa não permite que desconectemos o código individual. Então nossas emoções ficam ali à disposição de quem quiser ler com seus óculos de decodificação. Dizem que é por isso que nossos clientes nos veem como confiáveis. Eu só percebi essa falha no meu chip ao fim da reunião, com o cliente me olhando desconcertado e meu chefe querendo me matar. E o cliente nem fazia meu tipo. Só o contrato dele é que verdadeiramente me interessava! Quando o chip enviou sinais para o meu celular e a tela começou a piscar intermitentemente informando que algo estava errado, é que me dispus a conferir a decodificação que eu estava exibindo. Vi muitos corações flamejantes e nada de cifras e objetividade. Daí até explicar a eles que o meu chip estava com defeito, apesar da manutenção periódica estar em dia, foi uma novela mexicana. No fim das contas, acho que ninguém acreditou mesmo e eu posei como uma descompensada que não sustenta uma reunião sem deixar seus impulsos passionais dominarem a cena.

Na volta para casa, depois que o carro travou e deixou de funcionar porque queria me obrigar a ouvir samba nesse dia cinza de poucos amigos, resolvi largar os outros compromissos e encarar a manutenção corretiva do meu código. Se meu chip estivesse funcionando adequadamente, não enviaria o comando para tocar samba naquele momento.

Aguentando o carro que insistia no samba de feijoada de domingo, fui até uma unidade de atendimento de plantão. Na sala de espera, o robô da triagem me conduziu para o primeiro atendimento. Eu disse a ele que não se ofendesse mas que meu caso era grave, tinha que ser resolvido por um humano. Ainda assim, ele seguiu o algoritmo e me submeteu a uns testes que eu sabia que não iam ajudar em nada. Superada essa fase, fui para a sala onde o atendimento seria com um humano, um luxo que felizmente meu plano de manutenção de código me permitia usufruir.

Na sala, várias pessoas aguardavam atendimento. Percebi que todas as pessoas cujos códigos estavam requerendo manutenção corretiva de nível avançado eram mulheres. Nem adiantava colocar os óculos que me retornariam com a descrição delas e de seus estados de espírito. Assim como eu, todas estavam com seus códigos desbalanceados. Diferentemente de mim que estava deveras mal-humorada pela reunião malsucedida e pelo samba de brinde, algumas pareciam bem contentes. Escutei uma delas dizer que estava se sentindo livre, com seu código desligado permanentemente. Mas estava ali porque tinha recebido duas multas da agência reguladora. Quase cochichando para sua interlocutora de sala de espera, confessou: “Esse código nunca soube me ler de verdade. E nem vai conseguir. Estou aqui porque sou obrigada mas sei que não vai dar certo”.

O burburinho da recepção foi silenciado pela entrada de uma mulher misteriosa que serpenteou pela sala com seu passo rápido e leve, como uma gata astuta com itinerário minuciosamente calculado. Rapidamente sacou da bolsa um dispositivo-mensageiro que foi sendo colocado em cada um dos nossos celulares. Ao colocar meus óculos decodificadores para entender um pouco sobre ela, fui alvejada por um olhar duro. Percebi o porquê quando meus óculos retornaram com mensagem de código inexistente para aquela mulher. Ela não tinha chip.

Os dispositivos-mensageiros nos trouxeram automaticamente a propaganda de um levante de mulheres contra a prática obrigatória dos códigos ambulantes que classificam a todos e expõem mentes, desejos e sentimentos. Eu já tinha ouvido falar desse movimento mas era a primeira vez que ele chegava tão perto de mim e da minha irrefletida vida de monitorada. O movimento era tão antigo que ainda se reportava ao começo do monitoramento. O levante se chamava “Eu não tenho código de barras”. 

As outras mulheres da sala não demonstraram surpresa com a visita subversiva. E algumas até trocaram olhares de cumplicidade com a militante. Por alguns instantes, fiquei absorta pensando como seria a vida sem o código. Desde que nasci era assim. Não sabia como era viver de outro jeito. Fui despertada pela notificação do meu celular de que havia sido disparada uma mensagem automática para todos os lugares onde estive e pessoas com quem interagi nas últimas semanas, informando da minha localização naquele momento, em uma unidade de manutenção de código. A notificação informava do envio de um relatório sucinto das falhas (ainda sem solução) do meu chip. Emprego e reputação salvos!

Um sinal sonoro e metálico avisou que em instantes um humano viria até a recepção buscar a próxima pessoa a ser atendida. Uma notificação nova no meu celular indicou que a próxima da fila seria eu. Uma pessoa com fisionomia familiar apareceu na porta, olhou-me e com um movimento de cabeça me deu permissão para que eu me aproximasse. Recolhi minha bolsa apressadamente e quando olhei a humana com atenção identifiquei de quem se tratava. Espantada, tentei rapidamente decodificar seu código com meus óculos mas não consegui. Ela também não tinha chip! Então, em um rápido movimento, ela levou o dedo indicador aos lábios em um sinal para que eu ficasse em silêncio. E seu rosto rígido e enigmático emoldurado pela porta de vidro fosco se desvaneceu e nada mais eu vi.

Comentário: Este texto veio de um insight (dentre tantos) de uma conversa nada futurista em uma sexta à noite com Afrânio de Sousa Alves, a quem dou os créditos pelo título do texto, utilizado por ele em referência a si próprio.


Crédito da Imagem: Foto por Tara Winstead em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”