Carta a minha filha

Maya Angelou, tradução Celina Portocarrero; prefácio Conceição Evaristo – 2ed. – Rio de Janeiro: Agir, 2019.

Um livro com as narrativas de memórias especiais da autora, lições que aprendeu e deseja compartilhar, ora divertidas, ora dolorosas.

Maya Angelou foi ativista pelos direitos civis dos afro-americanos, professora, poeta, escritora, cantora, entre tantos outros lugares que ocupou em sua trajetória. Mas antes de tudo, mulher negra que viveu a dor ainda criança de ser abusada. É dela o livro Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, best-seller mundial, que conta a história da sua vida.

Em Carta para minha Filha, conversa intimamente com cada uma de nós, a filha que nunca teve, a partir de momentos que ela admite não ter contado antes por medo, vergonha ou falta de oportunidade. E já manda o recado: “como não posso desviver a história… tenho esperança de que minhas sinceras desculpas sejam aceitas.” É um processo de se responsabilizar, se perdoar e seguir adiante. Como ela diz, lamentar é fazer com que um animal saiba que tem uma vítima nas imediações.

Dentre minhas crônicas favoritas há uma muito forte, em que narra a violência física que sofreu nas mãos de seu namorado Mark Dois Dedos. Ela sobrevive para contar a história, mas percebemos que ela própria tem dúvidas sobre a razão de ter escapado viva, o que deixa um gosto amargo. Com quem essa mulher contava? Deus? Sua mãe? Uma amiga? Nas entrelinhas, é desamparo o que vemos, e ele pode ser notado em outras histórias, uma marca profunda da dores que sofreu.

Destaque especial para o prefácio de Conceição Evaristo, um deleite para os olhos. E a conexão entre as narrativas dessas duas mulheres grandiosas veio para mim na crônica Filantropia. Maya diz que era a sombra de sua avó, e só consigo me lembrar de Ponciá Vicêncio de Conceição que anda à semelhança de seu avô, ambas mimetizando essas pessoas que são especiais em suas vidas.

Senegal e Marrocos são crônicas incríveis, que despertam todo tipo de sensação, do nojo à vergonha. Gravadas na minha mente, evocam gentileza, honra e humildade. Amei as lições de cada uma e me coloquei naquele lugar de nada sei.

“ O epítome da sofisticação é a absoluta simplicidade.”

Há momentos muito tocantes, tais como quando ela encara o preconceito racial, presente em quase todas as crônicas; ou quando fala do Ser mulher e, especialmente, sobre ser mulher negra com 1.80m de altura. Quando em meio a um surto de culpa não encontra um psiquiatra que possa entender a dor de uma mulher negra. E ainda, quando é bem-sucedida e se destaca em muitas coisas que faz, lá vem a síndrome da impostora! As lições que Maya nos dá nesses momentos são para carregar no peito.

Ela encerra sua carta com poemas e crônicas sobre sua vida cristã. É um livro bonito, com momentos divertidos e outros que nos levam às lágrimas. Apesar de algumas opiniões um pouquinho conservadoras aqui e ali, não vi mal nisso. Parece uma avó conversando comigo e, mesmo que eu não goste da lição, é bom ouvir. E de modo geral, como toda boa avó, é sempre gentil.

Livro bom de ler. Recomendo!                           

Casa de Memórias

Admiro aquelas pessoas que nascem e morrem na mesma casa. Nunca tive uma tenho uma. Tenho várias. Não porque seja proprietária, mas por não ter uma. Filha de pai militar e depois casada com um militar, morei em muitas casas. De cada uma, várias lembranças. Umas boas outras nem tanto.
Em todas elas havia a solidão. Solidão da menina, solidão da adolescente, solidão da mulher. As muitas solidões traçaram meu caminho. Hoje é na escrita e nas colagens que essa solidão é mais necessária. Já não é um incômodo, mas uma necessidade.
A vida ainda é caótica, sem a rigidez de uma rotina de escrita e isso é um problema. Perco prazos de editais, desafios e exercícios de escrita. Mas, por outro lado, sempre me pergunto qual a pressa? Hoje posso me dar ao luxo de não ter pressa e o mais valioso: não aceitar que me obriguem a escrever ou publicar o que não quero.
Pensando sobre essa questão lembrei da Maria Carolina de Jesus. Uma mulher forte, uma escritora rara. Como escrever quando a barriga está cheia de vento? Como escrever quando os filhos gemem de fome? Como escrever quando as contas vencem e o dinheiro escasso? Escrevemos porque a única palavra que não nos abandona é a esperança.
Como disse não tenho uma casa, mas várias com quintais repletos de árvores e frutas, mergulhados no som das brincadeiras e risadas da criança que fui. As festas, os jardins floridos, os móveis escolhidos para o casamento e para o quarto do filho. A cama vazia, as portas fechadas, a partida sem malas. A coragem, o filho pela mão e as lembranças que restam foram ficando pelo caminho.

Fetiches

Os fetiches, as fantasias sexuais, as taras e manias habitam o mais íntimo de todos os seres humanos.

SIM!!! De TODOS os seres!

Imagina, Cláudia! Que absurdo! Jamais me sujeitaria a isso. Sou extremamente religioso(a), minha religião não permite. Isso é coisa de puta. Só cafajeste faz isso com mulher. Blá, blá, blá…

Sinto lhes informar que esses desejos habitam nosso inconsciente e precisam apenas de um gatilho para serem despertados.

Assim como a raiva e a maldade, a crueldade, a vingança, a ira, a gula, o ódio, fomos ensinados a controlá-los e a não demonstrá-los pois é feio, errado.

Existem convenções sociais, regras de convivência, estatutos de diversas instâncias que nos ditam o que fazer e o que não fazer, por isso, recalcamos(escondemos) em nosso inconsciente o que é considerado impuro, errado, aos olhos da sociedade, do senso comum. 

Lembre-se sempre: tudo que foi recalcado volta, em algum momento da vida.

Mas aí, eu te pergunto: por que os programas sensacionalista fazem tanto sucesso? Por que em 99% dos filmes existe uma cena de romance ou sexo, por que flmes de ação, tiroteio, perseguições, terror fazem tanto sucesso. Quem nunca ouviu falar da trilogia do “50 tons de cinza”? 

Por que todas estas fantasias fazem parte da nossa psique e, basta alimentá-las para que elas ganhem força.

Os fetiches estão no campo das perversões, de acordo com Freud. E perversões são práticas sexuais que fogem do padrão pênis/vagina/penetração vaginal.

O fetiche é tornar um objeto inanimado em objeto de prazer: sapato, chicote, cordas, algemas. No fetiche, só se sente prazer se o objeto do fetiche estiver em cena.

Exemplos de práticas sexuais não convencionais são: sadismo, masoquismo, necrofilia, fetiches.

Até as pessoas mais pudicas podem, em alguma circunstância, ver-se tentadas a praticar novas modalidades de sexo, sexo com pessoas do mesmo gênero, em locais inusitados, basta que algo ou alguém desperte nelas esse desejos descartados pelo consciente.

O que costuma acontecer também é a sublimação. Quando desejos considerados impróprios aos olhos da sociedade se transformam em algo aceitável e até sublime: pintura, escultura, encenação, literatura.

Uma pessoa que recalca seus desejos sexuais pode transformá-los em literatura, por exemplo. Assim, usando-se dos personagens, consegue expressar suas fantasias mais secretas.

É de extrema importância considerar que a perversão/comportamento perverso se modifica no decorrer da história e a depender dos valores morais de quem está julgando.

Para a medicina moderna, considera-se perversão quando o comportamento individual de excitação sexual somente se dá em resposta a objetos ou situações diferentes das tidas como normais, e quando esse comportamento interfere na capacidade do indivíduo de ter relações sexuais e/ou afetivas tidas como normais. (KENBERG, 1998).

Para a psicanálise e para mim, o aspecto mais bonito de conhecer e saber tudo isso é que saímos, ou deveríamos sair do papel de pessoas que julgam para nos reconhecermos como parte desse universo.

A partir do momento que sabemos que essas fantasias estão em estado latente dentro de cada um de nós, passamos a ter mais cuidado ao julgar o comportamento do outro, pois sabemos que a linha para que eu me coloque na mesma posição é muito tênue.

E você? Já teve alguma fantasia desperta? Gostou? Colocou em prática?

Permita-se, respeite-se, experimente dentro do que considera aceitável. Reprimir não é o caminho. Nunca!

Conversa de elevador

 Aperta o botão e dispara:

– Você viu a última foto dele?

– Não. Por quê?

– Foto na neve. Ela pendurada no pescoço dele e enrolada na echarpe que eu comprei. A foto seguinte é ela mostrando o sapato Louis Vuitton e dizendo: “Presente do meu amor”.

– Sério?

– Juro! E ele ainda vem me dizer que não consegue pagar a minha parte na divisão dos nossos bens.

– E aí, amiga?

– E aí que eu tô com ódio!

            Elevador chega e entra uma multidão atenta. Todos escutando a conversa das amigas e se entreolhando. Um risinho disfarçado nos olhos de cada um.

            – Aperta o 12 pra mim, faz favor?

            – E você sabe quem é ela, Amanda?

– Uma iludida, amiga, certeza! Ela está achando que ele tem muito dinheiro e é só “postando” foto na praia, viajando, “marcando” restaurante caro. Eu fico só observando. Às vezes me dá vontade de comentar e falar umas “verdades”.

– E qual é a “verdade”?

– Que ele vive “de fachada”, que não tem onde cair morto e que depois que enjoar do relacionamento, vai cair fora.

– Por que você acha que essa sua “verdade” vai ser também a “verdade” deles?

– Como assim?

– Que o que aconteceu na história de vocês vai se repetir nessa nova história?

– Porque ele não presta, amiga!

– Mas, por um tempo, vocês foram felizes, não foram?

Silêncio na cabine. As pessoas olham para o chão, tentando fingir que nada ouvem. A porta abre e entra um casal de idosos.

– Mas eu não me conformo com essa exposição dele, fingindo ser o que ele não é. Você acredita que na semana passada ele veio me pedir para devolver umas taças de vinho que a mãe dele deixou lá em casa para a gente usar em um jantar que oferecemos? Disse que a mãe dele queria de volta. Mas eu aposto que é ela que está querendo.

– E por que o que ele faz da vida dele lhe afeta tanto? Vocês não são mais um casal. Você entende isso?

– É claro que eu sei disso!

– Você sabe. Mas você aceita?

A porta se abre e, apesar da hesitação, algumas pessoas se dirigem para a saída. Precisam desembarcar nos seus andares apesar de quererem continuar a ouvir a história que parece rumar para outro caminho. As portas quase se fecham mas um funcionário do hospital as interrompe bruscamente. Ele entra conduzindo uma paciente em uma maca.

– Amiga, esse seu inconformismo fala mais do seu sentimento do que das ações dele. Você não devia mais acompanhá-lo nas redes sociais. Não está fazendo bem para você.

– Hã?

– Por que você não se afasta das redes sociais deles e tenta focar em você, nas suas coisas, nos seus planos? Um mês sem redes sociais e acho que você vai começar a pensar em outras coisas, nas suas coisas.

– Mas eu tô muito machucada…

– Eu sei…

– Lembra da Luiza?  Ela também me disse para não olhar as redes sociais dele. Está tentando a todo custo me apresentar um amigo dela. Disse que é muito gente fina e tal. Disse que só se esquece um amor antigo com um novo.

A senhora idosa no elevador olhou para ela com jeitinho de quem queria aconselhar, dizer que não era bem assim mas se omitiu pois não era seu costume se intrometer na conversa alheia, ainda que as mulheres não parecessem se importar com a escuta de estranhos. A paciente da maca, que parecia mais lúcida (e talvez fosse) do que todos juntos, não hesitou em se envolver na conversa:

– Faz isso não. Dê um tempo para você ser sua e não de outra pessoa.

Todos do elevador tinham ignorado a paciente desde que ela havia entrado, tentando fingir normalidade com a rotina do hospital. Então foi estranho ouvir esse comentário de quem se fingiu que não estava ali. A senhorinha idosa sorriu e assentiu com a cabeça, concordando. Amanda deixou a lágrima represada finalmente cair e olhou para a amiga, buscando apoio. A amiga pegou sua mão e disse:

– Que tal deixarmos essa visita para outro dia? Vamos tomar um café?

            O elevador chegou no 12º andar. O casal idoso, a paciente, o funcionário e mais outra enfermeira, que tinha subido no andar anterior, desceram. Ficaram apenas as duas amigas que apertaram o botão “T” e começaram a viagem de volta. Amanda nada mais disse e as outras pessoas que entraram depois, no elevador, trouxeram assuntos triviais como o clima, o preço dos combustíveis e o caos do trânsito. Amanda juntou seus pedacinhos e desceu no térreo. O café estava do outro lado da rua.

Te vejo na próxima vida

É provável que nunca me esqueça de você, afinal somos interligados pelo destino.
Eu sei até onde sou capaz de chegar, destinos próximos não me interessam tanto quanto na época que nos vimos pela primeira vez.

Eu me arrependo de muitas coisas, se eu tivesse errado menos a vida teria andado mais rápido e se desencontrado como em todas as outras vidas. Mas te conhecer me fez entender quem eu sou lá no meu íntimo ser.

Dizem que as pessoas não voltam para uma vida com o mesmo rosto da anterior, mas sinto que isso pode acontecer com mais frequência do que imaginamos, você é o melhor exemplo disso.

Espero entender a nossa ligação para te deixar ir em paz. Para que eu possa dormir a noite e olhar para o sol pela manhã. Te vejo na nossa próxima vida.

Nozinho

Céu azul

De brigadeiro nada!

De menina-moça 

Que chacoalha as tranças e balança a roupa, a saia, a roda

O vestido dança

O balão na mão 

Que também se encanta

Com o vento que toca

Que faz som de andança

De esperança 

De ir mais longe

E voar sem trança

Sem tranca

Pelo céu azul

Azul esperança 

Sem poluição nem mancha

Só nuvem branca

Enfeita o dia da menina

Que liberta o balão e deixa que ele faça seu voo

E sorri na partida

Não volta balão 

que eu te encontro 

um dia

Quem sabe no fim

Da vida

Pra gente

Seguir solto

Sem rumo, sem radar

Num céu azul

De beijinho

De cajuzinho

De doce de leite

De dadinho

Sem brigadeiro

Só passarinho

Voa balão 

Me manda um cartão 

Um postal bobinho

Que me diga ‘estou vivo’

E que a dança no céu é mágica 

Que a liberdade é o caminho

Que não tem muro

Nem espinho

E que a amizade tá no coração.

Vai balão!

Trepadeiras brotam da minha cabeça

Trepadeiras brotam

da minha cabeça.

Uma vasta cabeleira 

esverdeada que se espalha 

por todo chão e toma

a nudez desprotegida

do meu corpo

sem critérios.

Lá fora ouço os carros,

mas dentro de mim

só existe o murmúrio

de águas, de pedras rolando

do farfalhar de árvores.

Dos meus poros saem

terra vermelha.

Dos meus olhos voam

borboletas amarelas.

Da minha boca piam

pássaros de todas as cores.

Eu num canto

observando o ruído da cidade,

seu movimento escandaloso

quase indecente.

Eu florestando. 

Infestando tudo ao

meu redor

com essa natureza 

que me toma.

Com esse musgo

que me abraça e

conforta.

Talvez seja um

chamado,

e eu siga sem 

entender bem 

os sinais.

Controvérsia verde

na cidade grande.

Rir, às vezes, é preciso

Quando me aposentei, imaginei que gastaria o tempo com viagens, passeios e bons livros, mas o minguado soldo rendeu-me um posto cativo no banco da praça — um lugarzinho simpático, rodeado de casas assobradadas dispostas num círculo quase perfeito não fosse à interrupção para a entrada do condomínio.

Dia desses, ainda pela manhã, o buchicho me chamou a atenção. A vizinha da casa três comentava com a moradora da casa quatro o acontecimento da noite anterior:

— Graça, você está sabendo do bafafá que rolou entre a Celinha e o Romualdo da casa dois? — sem dar tempo para a vizinha responder, ela continuou. — Acredita que o Romualdo ganhou uma bolada na loteria e deixou a Celinha sem eira nem beira? Pediu o divórcio e está de mudança, o desavergonhado! — O falatório foi interrompido pelo toque do celular. — Desculpe-me querida! Mais tarde nos falamos.

Graça, indignada com a notícia, correu para a porta da casa cinco, recém-aberta.

— Dona Damaris, a senhora vai ficar de queixo caído com o babado que rolou na noite passada: o Romualdo, da casa dois, ganhou na loteria, abandonou a Celinha e as crianças, comprou uma casa num condomínio de luxo e está de namoro com uma sirigaita dez anos mais jovem do que ele. Não é um absurdo?

Do banco da praça, vi o caso do Romualdo se espalhar feito fogo em pólvora. Ao meio-dia, o pacato vizinho da casa dois se transformara no mais novo milionário, sem escrúpulos, divorciado, amante de uma jovenzinha com idade para ser sua filha e com viagem marcada para Cancún, apesar da alta do dólar.

Os comentários sobre a vida do Romualdo ainda eram a pauta do dia, quando o próprio, cabisbaixo, entrou no condomínio. Estranhei seu ar de derrota ao se sentar ao meu lado. Parecia lhe faltar coragem para mais alguns passos até sua casa.

— Tudo bem, meu jovem? — revolvi puxar conversa. — Tudo bem, nada, Seu Creonte! O Senhor acredita que a Celinha teve um palpite para o Jogo do Bicho — disse que ia dar jacaré na cabeça —, me incumbiu de apostar uma boa grana no tal cascudo e eu, idiota, não lhe dei ouvidos? Resultado: perdi uma bolada e só Deus sabe o que eu ainda hei de suportar até aplacar a raiva da minha mulher! — Sem opção, senão enfrentar a fera, o rapaz não esperou por consolo. Deixou o banco e arrastou-se para casa, sem se dar conta de que algumas vizinhas viram-lhe a cara.

Eu gosto de Legião Urbana

Eu gosto de Legião Urbana.

Com toda a pieguice do Renato Russo. Com as melodias melancólicas das letras e canções. Com os altos e baixos dos diversos álbuns.

Eu gosto de Legião Urbana desde pré-adolescente. Com toda minha juventude imatura. Com toda minha sede de perceber o mundo. Com todos os meus altos e baixos.

Eu gosto de Legião Urbana porque meus irmãos ouviam. E eu gostava de acordar ao meio dia ouvindo A Tempestade, pra mim o melhor disco (será que sou depressiva?).

E porque a sinceridade de um ariano alcançava o coração infantil de uma sagitariana.

Eu gosto de Legião Urbana porque me acompanhou nos desencantos amorosos. Porque me senti quebrada em Mil Pedaços, como até hoje na minha música preferida.

Porque me ensinou que é importante não fazermos do amor algo desonesto.

Eu gosto de Legião Urbana porque no fundo me traz uma esperança. Porque me dá vontade de escrever com Giz minha história. Viver um romance como Eduardo e Mônica. E ir pra Salvador, como um Faroeste Caboclo.

Porque me lembro do meu amigo que morreu aos dezesseis e choro.

Porque quase me afogo, em um dia de vento no litoral.

Porque o tempo às vezes parece perdido.

Porque marcou minha vida em cada parte, me fez querer fazer arte. Ser escritora.

Eu gosto porque me lembra meus pais. E me desperta a vontade de ter filhos. Eu gosto porque me faz triste, mas ao mesmo tempo, viva.

Eu gosto de Legião Urbana porque, meu amor, meu coração é pobre, e “quando o teu estava comigo era tão bom”…

Eu gosto porque me ajuda a traduzir em palavras o que sinto por você, mas não deveria.

Acima de tudo, amor… eu gosto de Legião Urbana porque me lembra de mim mesma, uma menina, tentando entender a vilania do mundo.

Por que não nos permitimos o ócio

De acordo com o autor Byung-Chul Han, o cansaço é uma resposta do corpo para o excesso de positividade e a cobrança que a sociedade impõe. 

Essa sociedade do cansaço produz pessoas mecanizadas e centradas no que é essencial para um sistema capitalista: a corrida pelo lucro. Sendo assim, somos metralhados por algumas crenças que nos impedem de desfrutar de momentos de descanso e lazer, sem nos sentirmos culpados por não estarmos produzindo algo: física ou intelectualmente. Algumas dessas crenças são: 

✓ Busca pelo sucesso; 

✓ Imposição de limites é um retrocesso;

✓ As pessoas são capazes de alcançar tudo, basta esforço;

✓ Comparações; 

✓ Excesso de informações e estímulos; 

✓ O mundo perfeito das redes sociais.

É importante lembrar que somos seres constituídos por diversos aspectos: físico, econômico, social, cultural e espiritual.

O equilíbrio é a chave da saúde e do verdadeiro sucesso. 

Permita-se o ócio