Os corredores estão vazios As gargalhadas nas prateleiras soam tristes De repente se está lá, sem que se queira estar Já era outro tempo e foi a música que lhe levou O perfume que lhe levou A cicatriz na pele O filme em cartaz A rua movimentada O sorriso de alguém O seu sorriso também está no mural Na instalação que ninguém entenderia É tarde Já lhe levaram ao museu de novo À força Nessas idas e vindas As prateleiras estão abarrotadas Há gavetas fechadas Não é preciso abrir para saber o que está lá Não se demora no museu Não se quer souvenir Tudo o que se quer é partir Só que foi o partir que lhe levou ali O gosto salgado desperta E se bate em retirada Apressada Até a próxima visita Que demore Em que não se demore Até que se deixe de ir
Crédito da Imagem: Pexels
“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”
Voar para longe do que é ruim. Não adianta se apegar e agarrar aquilo que não faz sentido, o que não acrescenta em nada de bom para a vida. Voar para longe é a melhor solução. Voando para longe a vida te dá novas asas para que se possa chegar em novos endereços.
Se algo parecer sem solução, se você não tem estratégias para sair de um mundo louco que te faz remoer e remoer mais de uma vez em cada pensamento; então voe para longe desse ambiente, pessoa ou qualquer seja o seu problema.
O minuto seguinte sempre é de esperança. Voar para outra história em busca da alegria e de todo encanto que a vida pode te proporcionar. Não se apegue ao passado pois as novas oportunidades aparecem quando se desapega daquilo que não te traz felicidade e do que não lhe faz bem.
Então voe para longe sem medo de ser feliz.
Crédito da Imagem: Daniela Echeverri Fierro
“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”
Da porta da cozinha ela espreita a sala Por vezes não acredita em tudo o que conquistou Da porta da cozinha ela olha a janela Lembra do diploma, prêmios, cargos conquistados O sucesso ainda por vir Mas... há uma linha invisível e forte entre a porta da cozinha e o mundo Que insiste em prender sem amarras Constranger sem palavras Paralisar sem pudor Na porta da cozinha ela se sente segura Afinal, no doce lar, cada um tem seu espaço E transgredir é delírio de quem não é Na porta da cozinha tudo se conforma E quem canta a liberdade lá fora Aqui é presa dócil Da porta da cozinha Vê-se a nudez da realidade Árida e experiente Mas... tudo passa Desde que se continue simples e irremediavelmente na porta da cozinha
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“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”
Faria qualquer coisa para alcançar a felicidade que lhe garantiram.
Ela queria conquistar o mundo, mas não conquistou a si mesma.
Era jovem, bonita, dedicada e inteligente.
Era determinada, forte, competente e capaz.
Amava o trabalho.
Tinha acabado de ser promovida.
Teria um futuro promissor.
Respeitada por clientes,
querida por amigos,
amada pela família,
cuidava de todos.
Tinha alcançado o sucesso.
Amava a família, o cachorro e a bicicleta.
Pedalava para buscar sua paz.
Era livre e independente.
Mas…não era feliz.
Não se amou de verdade.
Não aceitava sua imagem, seu corpo, nem sua essência.
Achava-se feia e nada atraente.
Buscava o padrão de beleza do mundo para agradar o mundo que não a agradava.
Queria ser aceita socialmente, se sentir amada.
Queria um amor que a acompanhasse nesta jornada chamada Vida.
Acreditava que seu fracasso amoroso era devido à sua aparência.
Invejava o sucesso das amigas com assuntos do coração.
Queria uma beleza irreal, fabricada, se sentir desejada.
Tentou se encaixar no padrão do mundo: lhe garantiram a plena felicidade.
Fez dieta, fazia exercícios e vários procedimentos estéticos.
Mas nada disso bastava.
Queria mais, queria ser completa.
Faria qualquer coisa para alcançar a felicidade que lhe garantiram.
Estava disposta a pagar preço, mas pagou com a própria vida.
Aceitou se submeter a uma cirurgia com o sonho de sentir-se bonita e desejável.
As coisas saíram dos planos, passou por complicações…
Ela não resistiu.
Tentando ser aceita pelo mundo, não aceitou a si mesma.
Crédito da Imagem: Daniela Echeverri
“Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.“
Em cada salto, uma esperança de matar a vontade de algo que nunca experimentou.
E ela amanheceu assim, completamente no cio! É um desespero de contorções, um desassossego de movimentos, nada tá bom, nada tá satisfatório. E ela segue no seu sofrimento matinal ao longo do dia…
Comer e beber é um sacrifício, falta concentração, foco, vontade. Em movimentos circulares e repetitivos, ela percorre todo o quarto, a sala, a cozinha… espera uma brecha pra fugir em busca de satisfazer sua vontade.
Por quantos dias ela ficará desse jeito? É perturbador, angustiante, sentir tanta necessidade e não poder saciá-la… tô ficando cansada por ela, quero ajudar e não sei como…
Tento conversar, acarinhar, deixa-la confortável, mas nada ajuda, nada faz efeito, nada alivia esse tormento da natureza felina…
Em cada salto, uma esperança de matar a vontade de algo que nunca experimentou, é o primeiro cio e ela não sabe o que é isso, ela não sabe como fartar tanto desejo, só sente… e espera…
De repente ela para, se posiciona e espera… espera por algo, espera o preenchimento, espera a penetração, espera um momento fugaz de prazer e nada…
Janelas e portas fechadas impedem que ela fuja, impedem que um intruso entre, impedem um momento de prazer irracional, impedem a concretização do instinto de reprodução, impedem que a população felina dos arredores aumente…
Sigo contemplando esse estado de excitabilidade profunda, pensando nas minhas carências e necessidades há tanto tempo esquecidas, há tanto tempo camufladas, há tanto tempo deixadas de lado…
Então somos duas fêmeas desejando satisfazer de tanto desejo: pra mim adormecido e pra ela novidade…
Queremos acasalar, mas não procriar. Eu posso e consigo, sei como ter o prazer sem cria…Ela não… Quando for castrada perderá esse desejo sôfrego, essa necessidade, essa inquietação…
Agora ela adormeceu e está sossegada. E eu também. Faz um tempo que despertei pra vida dos orgasmos múltiplos, das caricias intimas, dos beijos nos pescoço e tenho gostado de viver de novo tanta coisa boa…
Castração agendada para início de maio/2021, falta pouco Dandara! Falta pouco pra você ficar livre desse tormento pra sempre… te prometo… você terá uma vida tranquila, segura, estável, poderá comer e beber em paz, brincar sem amarras, dormir onde e como quiser!
Mas eu estou embarcando numa viagem inversa. Quero a inquietação e o desassossego de um relacionamento… quero as incertezas e as possibilidades infinitas de fracasso e sucesso… quero deitar de um jeito e acordar de outro, todo dia… quero me sentir diferente, vulnerável e um tanto insegura… quero as expectativas, as emoções e muito gozo… quero viver plenamente meus cios!
Rosi Santos
Artesã, apaixonada por gatos, apaixonada pela vida.
Em janeiro do ano passado, participei de um desafio epistolar com uma comunidade de mulheres de língua espanhola. Nos três dias de desafio, enviei três cartas a uma estranha e devia receber três cartas de outra estranha.
Recebi uma bela carta de uma professora de literatura que morava em Cali, uma cidade tropical do interior da Colômbia onde – como ela diz – às vezes chove, mas nunca faz muito frio.
Ela me contou que mora em uma casa grande e amarela com quatro desconhecidas que sempre se ajudam ente elas. Como aquela vez em que seu gato ficou preso em algum lugar do jardim e todas a ajudaram a resgatá-lo.
Ela só me escreveu uma vez e durante algum tempo eu checava ansiosamente meu e-mail todos os dias, na esperança de receber a segunda e a terceira carta contando sobre sua vida tropical, mas essa carta nunca chegou.
Eu me interessei muito pela história dela, pois além de ser professora de literatura – profissão que considero maravilhosa – ela morava em Cali, cidade onde nasceu um movimento cultural nos anos 70, que alguns chamavam de Caliwood, muito rico em cultura e artes. A cidade da salsa, La María de Jorge Isac, Sandro Romero Rey, Patricia Restrepo, Pilar Quintana, Andrés Caicedo, Luis Ospina, Carlos Mayolo, o pandebono¹ e o chontaduro².
Pensei em escrever-lhe de novo para que me contasse mais sobre a sua vida e escrevesse uma crónica mais real, confesso que tenho alguns receios de escrever sobre uma cidade que não é minha, que nunca foi, mas de alguma forma senti que foi minha através da literatura, música e as curtas passagens que tive por ela.
Também tive medo de arriscar e ela me dissesse – como disse uma vez Luis Ospina – que o narcotráfico acabou com a cultura de Cali, ou que em Cali agora só existe o futebol, como já disse Sandro Romero Rey.
Decidi então criar minha própria versão da Carla, aquela professora de literatura que passava noites inteiras em frente à máquina de escrever tomando café e escrevendo poemas, escrevia palavras aleatórias que rimavam umas com as outras e depois juntava para criar belos versos.
Imaginei que ela chamava aquela casa grande e amarela de Casa Solar e suas quatro companheiras de casa também eram artistas e de vez em quando realizavam exposições de fotografia e peças de teatro abertas ao público no quintal da casa.
Ela ouvia “Elsa y Elmar” e dava aulas de literatura na Universidade del Valle, onde o fantasma do jovem escritor Andrés Caicedo a perseguia pelos corredores, nos quais o viu parado entre as ondas do oceano Pacífico que tinham viajado centenas de quilômetros até entrar no recinto.
Falava para seus alunos sobre “Que viva la música” e “El Atravesado” de Caicedo, “Las cerimónias del deseo” de Sandro Romero Rey e “La perra” de Pilar Quintana.
Aos sábados, gostava de passear nas livrarias e de vez em quando estacionava no corredor para ler um poema achado entre as prateleiras.
À tarde, quando voltava da faculdade com fome, comia chontaduro com mel e sal sentada no terraço de seu quarto observando o pôr do sol e acariciando seu gato, enquanto ouvia Let it bleed dos Rolling Stones.
E depois de imaginá-la de muitas maneiras e em muitos lugares, imaginei-a lendo essa história e me mandando para o inferno de raiva por ter inventado uma ficção tão distante de sua realidade simples e plana.
Alguém há de comentar laconicamente que tudo ficou mais tedioso depois do smartphone. Um pouco, tenho que concordar!
Para contar uma boa história muitos elementos são necessários. Precisa ter bons personagens, enredo cativante, as primeiras linhas devem entreter seu leitor para que ele não vá embora. Às vezes eu vou! E faço isso também em filmes.
Não consigo passar muito tempo lendo algo com o qual não me identifico, nem mesmo vendo um filme que não me agrada, e me perdoo por isso. Alguém há de comentar laconicamente que tudo ficou mais tedioso depois do smartphone. Um pouco, tenho que concordar!
Um post no Instagram, por exemplo, é uma história curta com 2.200 caracteres, que cabe no tempo de uma leitura de 2 minutos. Em um único post, uma vida narrada. Para os excelentes escritores, uma linha basta. Para mim, tateando no escuro dos meus pensamentos, uso cada uma das linhas que me é permitida. Mas não continuo nos comentários, como vejo ocorrer vez ou outra. Acho ruim o suspense, a quebra. Melhor cortar no texto e deixar tudo na linha de visão do leitor.
Li de um escritor, o cronista recém falecido Contardo Calligaris, que ele precisava fazer muitas coisas, ler e ouvir outras tantas, para escrever sua crônica semanal para um grande jornal paulista. Ele precisava ter o que contar para tanta gente que valesse a pena ser lido. Me peguei pensando na vida interessante que ele deve ter vivido por conta de sua profissão. Percebi que, assim como ele, vivo em busca de coisas interessantes para alimentar minha vida e meus textos.
Dentre os meus interesses da semana surgiu a escritora Renata Corrêa (@letrapreta), que comecei a seguir no Twitter. Em sua publicação ela informa que assiste ao BBB – Big Brother Brasil – enquanto lê um bom livro (assim as pessoas param de reclamar do programa, nas palavras dela), e compartilha sua lista atualizada a cada livro que termina. Deus, perdoa, que baita inveja eu senti daquela organização! Enquanto isso, ela escreve para a TV, trabalha em sua vida de roteirista, apresentadora de podcast e escritora. Eu sigo levando meus dias como malabarista de pratos, o que também é bastante trabalhoso.
Outra história que ouvi nessa semana veio de uma escritora que tem as melhores Newsletter do mundo. Estava ouvindo o podcast da Aline Valek (@alinevalek), Bobagens Imperdíveis, e ela lembrou que desde criança já escrevia, fazia zines e roteiros para suas bonecas Barbie, brincando de ser aquilo que se tornaria sua profissão no futuro. Daí veio uma grande revelação: eu brincava de ser bancária. Se comecei uma carreira literária, culpem minhas professoras de português!
Não tenho certeza se posso chamar escrita de profissão, acho que está mais para vocação, assim como o sacerdócio, no qual se aceita que há um chamado muito maior que deve ser acatado. Escrevemos mesmo quando isso não nos remunera o suficiente para pagar um cafezinho no boteco da esquina. A necessidade de escrever é anterior a racionalidade, ao cérebro organizado, ao projeto e ao planejamento. Só se precisa escrever.
E será que para escrever tem que ler, assistir filmes, ver desenhos animados, ouvir o que toca nas rádios, acompanhar as novelas e o jornal, numa busca implacável pela novidade? Talvez não! Esse pode ser o meu estilo de escrita, mas não precisa ser o seu. A sua escrita pode brotar simplesmente dentro de você, como uma planta espontânea que cresce sem ser cultivada, uma flor de tiririca amarelinha que enfeita os campos. E, assim como a flor, ser linda e tocar os corações, porque toda história que precisa ser contada é uma história que importa.
Noite passada aconteceu um desses momentos em que ouvi o chamado da caneta e do papel, meu sacerdócio.
Byron, nosso cachorrinho que tem seu nome inspirado no escritor romântico Lord Byron, foi protagonista dessa história de coincidências. Ele invadiu minha reunião virtual e seu nome foi motivo de alegria por parte da coordenadora do evento, pois seu irmão tem uma cadelinha chamada Ada Lovelace, mesmo nome da filha de Lord Byron. Essa é uma das coisas que só o destino nos traz.
Quer mais? Deu vontade de sentar na hora e escrever sobre isso tudo. E contar que Lord Byron, o poeta, era um namorador incorrigível que teve medo, e por isso casou-se comAnnabella, a quem ele chamava Princesa dos Paralelogramos, uma mulher genial amante da matemática. Dessa união nasceu Ada Lovelace, a mulher danada de boa que uniu o conhecimento matemático de sua mãe com a poesia de seu pai, e projetou a inteligência do que seria a máquina conhecida 100 anos mais tarde como o primeiro computador. Li trechos de cartas escritas por eles, verdadeiras obras de arte.
Essa foi uma semana de leitura de colunas de jornais, que assim como os posts do Instagram, são textos mais curtos. Foi tanta gente que não cabe num só texto! Para encerrar, a última que li foi da Socorro Acioli(@socorroacioli), escritora e colunista de um grande jornal cearense, que veio por mensagem de um amigo. Ela falava da leitura em tempos de pressa e das muitas vidas que precisaríamos ter para ler todos os livros de uma biblioteca caseira, tal qual essa que tenho aqui em casa. Sugestão dela (e minha): saboreie os clássicos, deguste os demais.
Sobre não terminar a leitura de um livro ou um filme, preciso confessar que ainda sinto a curiosidade de saber o fim. Muitas vezes volto como quem não quer nada, naquele tempo que perderia com qualquer coisa sem sentido, e finalizo a pendência, saciando meu desejo de saber como acaba a história. Sem expectativas, apenas como observadora. Como diria Francine Prose, lendo como uma escritora.
Nesse mundo de especialistas estamos perdendo o nosso olhar aberto. O olhar simples que percebe a eterna transitoriedade do mundo.
Por: Karla Militão
Parafraseando Fernando Pessoa; quero meu olhar nítido como um girassol que olha para o lado direito e para o lado esquerdo e de vez em quando também olha para trás. Desejo nunca perder a flexibilidade de poder olhar em várias direções e principalmente desejo sempre ver algo novo. Uma novidade que estava escondida e que quando revejo me espanta por não ter percebido antes.
Nesse mundo de especialistas estamos perdendo o nosso olhar aberto. O olhar simples que percebe a eterna transitoriedade do mundo. Nesse olhar fixo que só busca uma única direção vamos deixando o inusitado passar ao largo de nossas experiências. Nossa inflexibilidade nos coloca uma viseira ensimesmada que reduz o nosso deslumbramento e a capacidade de acreditar no milagre do vir a ser. Vamos perdendo nossos sonhos ou quando não perdermos deixamos eles adormecerem ao lado da nossa condição transformadora do nosso próprio ser.
Quero ser como um girassol que tem todas as pétalas abertas mesmo quando o sol não esta brilhando no horizonte ou quando há ameaças de um temporal.
Quero seguir sempre em frente, mesmo que as vezes precise recomeçar e que dez passos para trás seja necessário dar. Mesmo que muitas vezes precise olhar novamente para algo que ainda não havia compreendido ao olhar de relance pela primeira vez. Ao olhar para a realidade desejo ver seus ângulos e recantos e não me prender apenas na minha subjetividade. Sem conflito, sem negação ou idolatria. Se for necessário pedir perdão, por um mal juízo de valor.
Quero meu olhar nítido como um girassol de visão ampla e inclusiva. Que não desiste nunca de enxergar a constante novidade que é a vida.
Karla Militão
Psicanalista, graduanda em Psicologia, leitora apaixonada e aprendiz no mundo da escrita.