NA POESIA DOS TEUS OLHOS

Poeta das cores e luzes instantes,

que se repetem sequer em sonhos.

Encanto entorpecente aos sentidos!

Meus olhos fixos em ti e em teu jardim,

seguem teus passos a cruzar a ponte

sob a tela flutuante de nenúfares…

O amor se revela na vivacidade poética

dos traços eternizados no entardecer…

As sombras beijam o orvalho nas folhas.

Paixão impressionista em pinceladas

únicas, tal qual a claridade efêmera

acariciando as flores e tua face ao sol.

Um momento, visão de uma obra-prima

fúlgida no portal da alma criativa…

Êxtase profundo! Expressão fugaz!

E porque a poesia reside no poema

dos traços de cada olhar, eu quero

estar presente na poesia dos teus olhos.

(Lívia Maria – 13/08/2021)

Crédito da Imagem: Foto PEXELS

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

DE MALAS PRONTAS

Por: Rosi Santos

Minha querida M,

As malas já estão prontas. Coloquei as melhores blusas, as melhores calças, os melhores vestidos e sapatos. Os brincos de prata, o terço de rosas prensadas, a Bíblia Sagrada.

Numa pasta organizei os últimos exames médicos, os certificados e diplomas, o currículo atualizado. Levo fotos de todos os meus amores: humanos e felinos, vivos e mortos, os de perto e os de longe.

Não foi fácil tomar essa decisão, mas já era hora de caminhar por minhas próprias pernas e seu apoio foi fundamental para que eu desse esse passo. O primeiro passo de uma caminhada nova, desconhecida, ousada, determinada.

Sou muito grata por tudo que recebi de você nesses 21 anos de vida: amor, cuidados, ensinamentos. Quantas coisas maravilhosas vivenciamos juntas? Incontáveis! Inesquecíveis! Incríveis! Importantes!

Com você aprendi que honestidade e sinceridade são imprescindíveis. Que devemos sempre respeitar nossos sentimentos, nossos desejos, nossas limitações. Que devemos nos priorizar sempre, mas sem esquecer do próximo. E que espiritualidade é fundamental!

Aprendi a ser equilibradamente positiva, a acreditar sempre que tudo dará certo e a ter um plano alternativo para situações inesperadas. A me importar verdadeiramente com as causas das “minorias”, a defender bandeiras e posicionamentos que nem imaginava que existiam. Aprendi sobre sororidade e empatia, e me sinto mais HUMANA depois de tantas identificações!

Aprendi a valorizar toda manifestação cultural, a opinar sobre algo só depois de conhecer, a estar disposta às experimentações musicais, cinematográficas, gastronômicas e me surpreendi com as descobertas, com os novos gostos, as novas predileções.

Foram muitos aprendizados adquiridos e muitos ainda virão. Agora numa nova fase das nossas vidas!

Sei que a saudade da nossa convivência diária será grande e doída, sei que os afazeres e compromissos tomarão nosso tempo e que nem sempre vamos poder nos conectar como desejamos, sei que deixaremos de viver coisas juntas, que vamos querer estar perto da outra quando algo legal estiver acontecendo com a gente, mas você me preparou para esse momento, então sigo em paz, sabendo que você é a pessoa que mais torce pelas minhas conquistas!

Fica bem, minha filha que tanto amo, vou ali trilhar uma nova jornada!


Crédito da Imagem: Foto arte por Manuela Santos

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

APENAS UM MINUTO

Por: Karina Freitas

Quanto tempo dura um minuto?

Para o tempo do relógio apenas sessenta segundos. Nem mais. Nem menos.

Mas…

E quanta emoção cabe em um minuto? 

Pelo prisma do tempo psicológico…

Um minuto…(10)

  1. para aguardar o sinal abrir;
  2. para atravessar a rua;
  3. para cair;
  4. para levantar;
  5. para se afogar;
  6. para ficar sem ar;
  7. sem fôlego;
  8. sem as batidas do coração;
  9. para quem pede socorro;
  10. para quem ajuda;

Um minuto…(20)

  1. para alguém que parte;
  2. para quem chega;
  3. para o beijo de despedida;
  4. para o abraço de boas vindas;
  5. para o adeus que nunca termina;
  6. para a briga;
  7. para a reconciliação;
  8. para o avião que aterrissa;
  9. para o trem que some na curva do trilho;
  10. para o elevador que não chega;

Um minuto…(30)

  1. para a criança que chora;
  2. para o adulto que sofre;
  3. para o jogador que vai bater o pênalti;
  4. para o último gol que vai garantir o título do campeonato;
  5. para definir a vitória e a derrota;
  6. para a nota do vestibular;
  7. para o resultado do exame;
  8. para aprovação do concurso;
  9. para a ligação de emergência;
  10. minuto que define vida e morte;

Um minuto…(40)

  1. para celebrar;
  2. para descansar;
  3. para despertar;
  4. para se olhar;
  5. para ver o filme da vida frente aos olhos;
  6. para o mergulho no mar;
  7. para o banho de chuva;
  8. para fugir da tempestade;
  9. para correr do vendaval;
  10. para sonhar;

Um minuto…(50)

  1. para saborear a fruta madura;
  2. para se deliciar com o sabor do doce;
  3. para degustar o salgado;
  4. para a água que mata a sede;
  5. para a discussão;
  6. para a oração;
  7. para estabelecer a paz;
  8. para decretar a guerra;
  9. para a ligação perdida;
  10. para a mensagem não respondida;

Um minuto…(60)

  1. para o desencontro;
  2. para o reencontro;
  3. para olhar o céu;
  4. se perder no horizonte;
  5. para apreciar o canto dos pássaros;
  6. o movimento da vida;
  7. para respirar;
  8. para si;
  9. para agradecer…
  10. a Deus.

O coração acelera, as mãos ficam frias, o corpo treme, os olhos lacrimejam, a garganta seca, a voz que trava, a palavra que silencia.

O conjunto desses minutos formam as horas, os dias, as semanas, os meses e os anos.

O tempo pode ser calculado pela contagem do calendário ou aferido pela intensidade da emoção que experimentamos, dos sentimentos que guardamos nos afetos, da lembrança que trazemos no coração.

O tempo pode parecer o mesmo, mas o quanto esse minuto representa pode durar toda a vida.

E é só seu e de ninguém mais.


Crédito da Imagem: Foto por Giallo em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

RISCOS ANÔNIMOS

Por: Jovina GBenigno

há espaço
em meu sobrado
volta
tirei a chave da porta
dos lençóis
lavei o cheiro
do outro
foram poucos
nada deixaram
além de restos
no banheiro
sem tons carmins
sem folguedos
e lamentos do fim.

Aquela
não mais
te espera
fúria
fera
saciaram penúrias.

fartei tertúlias.

não estranhe as novidades
de minhas carícias
de gato
lambendo teu passado

dos traços
em ti riscados
algum traz meu nome?

Crédito da Imagem: Foto por cottonbro em Pexels.com

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

LITERATURA FEMININA

Comecei a ler livros de literatura na adolescência. Iniciei com a Ilíada de Homero, e a partir desse momento fiquei obcecada pelos livros de literatura clássica: Dostoiévski, Tolstoi, Gogol, Kafka, Sartre, Tomas Man, depois fui para a literatura latino-americana: Cortázar, Borges, García Márquez, Sábato e depois tive uma fase japonesa: Murakami e Yoshimoto Banana eram meus favoritos. E assim foram passando os anos, sempre levando um livro na minha bolsa, lendo na sala de espera dos consultórios médicos, nos pontos de ônibus, esperando uma entrevista de emprego, em metrôs, trens, aviões, aeroportos e na cama antes de dormir.

Passei quase vinte anos lendo sem perceber que a maioria desses autores eram homens e apenas de vez em quando uma autora surgia entre minhas leituras.

No avião, além de ler o romance de plantão, gosto muito de dar uma olhada na revista que disponibilizam na poltrona da frente, e sempre desfruto de uma atenção especial às primeiras páginas da revista Avianca, onde aparecem os escritores do mês com uma foto em preto e branco e uma minibiografia.

Foi assim que descobri Maitena Caiman, uma escritora espanhola que me chamou a atenção porque em sua minibiografia dizia que dava oficinas de redação. Isso me lembrou de um antigo sonho de escrever, que com a correria da vida adulta acabei arquivando e esquecendo em uma gaveta. Então peguei a agenda que sempre levo comigo, anotei o nome dela e continuei lendo a revista como já era minha rotina no avião.

À noite, quando cheguei ao hotel, procurei pela Maitena Caiman na internet, encontrei seu Instagram, me inscrevi em sua Newsletter e explorei todo o conteúdo que ela oferecia online: textos, poemas, workshops e círculos de escritores.

Descobri que por aqueles dias estavam lançando as inscrições para um desafio epistolar, que para quem lê meus textos regularmente, sabe que sou apaixonada por cartas e que esse desafio foi uma inspiração para outros textos que já publiquei aqui no Sabático.

Para quem não leu meus textos anteriores ou não se lembra, o desafio consistia em enviar três cartas a uma estranha. No terceiro dia, recebi o desafio pouco antes de entrar no avião para voar de Barranquilla a Bogotá e consistia em recomendar à destinatária das minhas cartas – que depois das duas primeiras cartas já não nos sentíamos como desconhecidas, mas sim um pouco íntimas – três escritoras do meu país.

Para minha surpresa, passei os noventa minutos do voo com a minha mente em branco, nenhuma autora do meu país que eu tivesse lido nos últimos meses, ou no último ano, me veio à cabeça. Depois de várias reflexões e chicotadas mentais durante o voo, finalmente desembarquei em Bogotá e corri até a livraria mais perto para procurar na seção de literatura colombiana escritoras que me chamaram a atenção ou que alguém me recomendou um dia, mas nunca me animei a ler.

Selecionei dois: Somos Luces Abismales de Carolina Sanín e La Perra (A Cachorra) de Pilar Quintana, ambas li em uma sentada. E foi assim que comecei a selecionar mais e mais livros escritos por mulheres e cada vez me identifiquei mais com eles, a tal ponto que hoje só há livros escritos por mulheres na minha mesinha de cabeceira; não quer dizer que eu tenha eliminado escritores homes da minha vida, de vez em quando um deles aparece na minha mesa de cabeceira, mas são as mulheres que ocupam a maior parte das minhas horas de leitura.

É claro que evoluímos muito se olharmos para a época de Jane Austen e as Irmãs Brontë, mas não é coincidência que a revista da Avianca que tenho agora na minha escrivaninha apresente na sua página dentre seis escritores participantes da edição número 76, só duas mulheres, e que o Google insista em traduzir a palavra “escritoras” como “escritores” enquanto faço a tradução deste texto do espanhol para o português.

É por isso que precisamos de mais espaços para nós mulheres escrevermos e nos lermos, e é por isso que a @criaelaineresende e eu criamos o Sabático Literário, onde quatro vezes por semana nos deleitamos lendo amigas e colegas, com diferentes crenças, culturas e estilos.

E você, quantos livros escritos por mulheres tem na sua biblioteca pessoal ou leu no último ano?

Crédito da Imagem: Daniela Echeverri Fierro

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário. ”

MEIO-DIA

Por: Sônia Souza

Todos os dias, na saída da Escola 
passava por aquela casa de vila 
em uma rua repleta de árvores.  

Dali vinha um cheiro de casa, vozes ao fundo,  
panela de pressão no fogo, 
tempero de comida fresquinha para alguém.

Nunca vi nem tampouco conheci qualquer pessoa dali.
Mas, naqueles não mais que 02 minutos de passagem acontecia  
um abraço, aconchego,  
uma intimidade reconfortante.

Quando crescemos, vez em quando precisamos disso
Um cheiro afetivo
Uma sensação carregada de matizes
de um lugar só seu 

Passados muitos anos 
Agradeço ao universo por aquela casa da vila, que me fazia sentir
que tudo estava exatamente 
onde deveria estar.

Crédito da Imagem: Foto por Daniela Echeverri @danielaecheverri

Os textos representam a visão das respectivas autoras e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

CARTEIRO

Por: Angelica

Na minha adolescência tínhamos uma verdadeira veneração pelo carteiro. Como já está dito no próprio nome da ocupação que tem, o carteiro era o funcionário dos Correios que tinha por obrigação entregar a correspondência nos endereços escritos nos envelopes.
Naquele tempo, só homens podiam ser carteiros. Andavam a pé por muitas ruas do bairro e a gente ficava a espera deles, todos os dias, com um enorme desejo de receber alguma mensagem. Com o passar do tempo surgiram as carteiras, moças que andavam a pé ou de bicicleta, funcionárias do correio ocupando o mesmo lugar dos homens.
Muitas vezes ouvi a vizinha chamando a minha mãe e dizendo: – Olha, o carteiro já está subindo a rua!
O uniforme deste entregador de cartas e cartões era amarelo parecido com uma roupa de soldado.
Ficávamos ali, algum tempo no portão ou andando na calçada, para quem sabe receber alguma coisa.
Podia ser uma mensagem de alegria ou de tristeza. Uma carta de amor ou de reclamação. Ficávamos a esperar porque podia ser que desta vez chegasse.
Era também mais um momento do dia que as vizinhas se cumprimentavam e trocavam algumas palavras, interrompendo o trabalho doméstico que estivessem fazendo. Às vezes, quando a patroa não tinha condições de ficar na frente da casa, mandava algum filho ou a empregada, ficar a espera do carteiro, com medo de não receber  aquela carta querida.
O tempo passou, cresci, casei, formamos nossa família. Antes eu morava em uma casa e o carteiro tinha acesso aos portões das residências. Quando me casei fui morar em apartamento. A correspondência não era entregue ao morador, o carteiro entregava ao porteiro que distribuía nas Caixas de Correio do prédio.
Assim, foi tirada de minha vida a magia da espera do Carteiro. Já não sabia mais a cor do uniforme dele. Não via o seu rosto nem desejava uma Boa Tarde, moço!
E não parou por aí, meus filhos cresceram e tornaram-se adolescente e surgiu o computador e a internet. O deslumbre agora era outro, a rapidez com que a mensagem chegava ao seu destino era incrível. As pessoas esqueceram-se de que existia CORREIOS. As agências que eram cheias começaram a ficar mais vazias.
Claro que o Correio é usado para se mandar documentos, encomendas, cartões de felicitação ou de pêsames, mas a internet tornou tudo mais rápido. Posso mandar uma mensagem que chega imediatamente ao seu destino, ou simplesmente faço uma chamada de celular ou vídeo e dou pessoalmente o recado.
Tudo tornou-se imediato. Tudo muito rápido. Com o aparecimento das redes sociais o contato com os amigos ficou só de um lado. O administrador da rede faz uma postagem e se espalha por todos que são amigos. E cada um tomará conhecimento do fato ou da mensagem a hora que acessar a sua própria rede.
Foi recebendo e-mails que me dei conta de que os sentimentos são parecidos com o que se sentia à espera de uma carta. De repente me pego olhando o celular ou o computador a espera de alguma resposta ou confirmação.
Hoje fazemos compras online que nos são entregues por portadores motorizados. Muitas lojas realizam a façanha de entregar encomendas até em três horas.
A modernidade chegou e trouxe uma grande mudança a toda nossa vida. A informática facilita e nos proporciona segurança. Mas fica registrada na história da humanidade a atuação do nosso carteiro e o nosso: muito obrigada, moço!


Crédito da Imagem: Foto por Ylanite Koppens em Pexels.com

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O MAR

Estava correndo na praia sem prestar muita atenção em nada, apenas inserida na corrida e na música que gritava alto aos meus ouvidos, quando de repente um insight passou pela minha cabeça; estou correndo aqui agora como estou correndo na vida ordinária e estou perdendo o simples e belo que a paisagem do viver contém.

Então parei de súbito, e fui em direção ao mar. Poxa como o mar é lindo. É um perder-se infinito de verde sem fim. As vagas vêm e vão em ciclos que começam e terminam num movimento eterno.

Assim somos nós, mulheres cíclicas que estão sempre recomeçando e finalizando as várias fazes da existência. Somos crias, somos criaturas, somos criadoras. Porque não dizer que também somos gotas desse imenso mar e fazemos parte desse universo aquático. Um mar que pode estar calmo, mas que também tem seus dias de ressaca.

Respirei toda aquela brisa que embalava meus cabelos e minha alma. Poxa como o mar é lindo. Sentei e contemplei minha história por alguns minutos e agradeci a Deus por estar presente. Viver é um presente. Viver é o presente. O amanhã não existe e ontem não volta mais.

Olhei mais uma vez aquela beleza e lembrei porque as sereias encantam; com certeza elas sabem todos os mistérios do mar. Respirei profundo e gravei o marulho e a pintura daquela paisagem na minha memória. Enfim, sai caminhando e quando reparei estava já correndo novamente.

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário. ”

HERANÇA

De mim meus filhos herdarão todos os nomes.

 As dores.

E todos os amores.

Herdarão o fruto e a semente.

De mim meus filhos herdarão o que há por vir.

Herdarão o fim e o começo.

 O que fui.

O que quis.

Herdarão tudo o que há de juntos.

Tudo o que há de tudo.

Tudo o que há de nada.

E tudo que não posso dar.

E que não posso ser.

E tudo que ainda há de ser.

Herdarão de mim o que são.

Herdarão de mim o livre.

Da leveza ao fluído.

Herdarão as asas.

 E os pousos.

 E as pérolas.

 Herdaram as telas e as tintas.

 Desenharão para si o próprio mundo.

Crédito da Imagem: Pexels

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário. ”

DIARIAMENTE

Por: Lidianne Monteiro

Tenho que lavar o cabelo.

Agora estou sem paciência.

Será que dava para aguentar sem lavar até amanhã?

Olho no espelho. Reparo na cor dos fios. Ora gosto. Ora duvido se a última cor ficou boa mesmo. Mas eu ia apenas decidir se estava sujo. Foco.

Lembro que amanhã terei um compromisso muito cedo.

Melhor lavar logo o cabelo hoje. Mas estou atrasada. Não vai dar.

Amarra o cabelo e vai!

Preparo a marmita do almoço e dos lanches da manhã e da tarde. 

Deixa eu lembrar o que levei ontem e nem comi. Ah! Com certeza deve ter algo na geladeira do trabalho que não deu tempo comer essa semana, feito aquela maçã sem graça que segue escapando de ser devorada. Sorte dela.

Acho que estou engordando de novo. Qual meu peso na semana passada? Esqueci de anotar. Peso agora. Mas já tomei café. Então melhor só me pesar amanhã. Na próxima vez, não esquecerei de anotar.  

Interfone toca.

O taxi chega.

Pego o kit de sobrevivência “fora-de-casa-o-dia-todo-na-pandemia”. Da máscara não esqueço mais. E a maquiagem pela metade já virou costume. A gente se acostuma com tudo. Reflito. A máscara fica amarelada na parte interna por conta do protetor solar com cor e do pó. Às vezes tasco um batonzão vermelho também. Ninguém vai ver mas eu sei que estou com ele. Eu sinto que estou com o batom dos superpoderes.

Tenho que descer. Falta tomar as vitaminas e o colágeno dissolvido na água para dar uma animada na cartilagem do joelho. Esse é o tipo 2, conforme o ortopedista comentou. Não vai dar tempo. Só uma vezinha sem tomar não vai atrapalhar o tratamento. 

Lembro que talvez precise resolver umas pendências na hora do almoço. Então preciso trocar a sandália de salto por uma sapatilha mais confortável. Volto para o quarto e troco o calçado. A sapatilha não combina com o resto do look. O taxi já está lá embaixo. Vou de sandália alta mesmo.

Na saída do quarto, driblo a cachorrinha que me quer um pouquinho só para ela. Mas não vai ser agora.

Entro no quarto da pequena que está sonolenta em sua aula online. Beijo sua bochecha e desejo um excelente dia. 

Coloco a máscara e os óculos escuros. 

Entro no elevador que está com a cabine deteriorada. Esse prédio precisa de obras. Quando vim aqui pela primeira vez nem me importei por ser antigo. Agora, penso se foi um bom investimento.

Olho para os pés e a sandália dá sinais de que não vai ser condescendente com minha correria. As unhas dos pés estão bonitas. Mais tarde preciso cortar as unhas dos pés da minha caçula. Estão horríveis. Só me lembro quando ela não está comigo. Então não devem estar tão horríveis assim. Tenho que cuidar mais dessas coisas todas. Escovar os dentes do cachorro todo dia. O gatinho eu sei que não vai deixar. Ainda fui inventar de criar cachorro. Mas eu amo os bichinhos, fazer o quê? E quem vir dizer que fui procurar sarna para me coçar, nem vou me importar.

O elevador pára e entra outra mulher tão carregada de objetos quanto eu.

Ela pega o celular e envia um áudio com várias instruções. Está ofegante pelo esforço de todo o movimento. Cai uma planilha impressa e eu me ofereço para ajudar. Lembro do artigo que uma amiga me incentivou a escrever sobre uma metodologia nova que criei. Um dia o artigo sai! Não sei quando.

Minha companheira de elevador está de tênis. Que inveja! Comprei um tênis que fica bem bonito com essa minha roupa de hoje. Mas esqueci que tinha essa opção.

Sobressalto-me lembrando do taxi me esperando.

Checo se estou com meu celular. Sair de casa sem ele seria o caos.

No caminho até o taxi, olho para o céu e está um azul esplendoroso. O vento balança as folhas no jardim, derramando algumas em meu caminho. Que lindas! Só tenho esses minutinhos para ver o céu azul? Depois que me internar no trabalho, só saio à noite, com o céu escuro de estrelas.

Olho para o táxi e reavalio se é a melhor opção para os deslocamentos diários. O combustível está tão caro! Aonde vamos parar com esse custo de vida? O táxi é um conforto que me poupa um pouco do stress de dirigir nos engarrafamentos.

Faz sentido essa correria toda? Vou ser mais leve. Preciso. Consigo? Quero?

Entro no taxi. O motorista é daqueles de muita conversa. Lembrou que me buscou outro dia. Lembrou até com quem eu estava. Eu hein? Prefiro ficar quietinha para ver se ele desiste de interagir. “Meu senhor, já tem coisa demais na minha cabeça! Deixe-me quietinha por favor!”.

Aproveito a trégua do motorista e olho o celular. Começo também a enviar minhas mensagens de resposta ou pedindo respostas. Todos querem resposta. Vamos começar pelas mais importantes. Ou urgentes. Melhor, pelas urgentes e importantes. Penso que não deveria agitar minha mente tão cedo. Mas ainda tenho que decidir se essa minha agitação matutina é boa ou não. Já pensei nisso outras vezes. Lembro de respirar. Resolvo olhar a vida pela janela. Parece um filme sem sentido em uma tela em movimento. Mas quem se movimenta mesmo não é a janela ou as árvores. Sou eu. Essa constatação me intriga. Reflito novamente. Guardo o celular na bolsa. Mas bem que eu podia adiantar aquele assunto pendente, né? Mas adiantar para quê? Para quem? Precisa mesmo? Precisa não. Vou relaxar um pouquinho.

Chego no destino. Já? Nem relaxei nem respondi às mensagens. Nem tomei as decisões importantes. Fazer o quê? E ainda são 8h da manhã. Checo se saio do carro levando comigo tudo que estou carregando, inclusive os pensamentos. Saio e olho no entorno para ver se é seguro prosseguir. O que vou fazer com essa minha tela toda em branco hoje? Repetir a pintura de ontem e de anteontem? Ao menos uma pincelada diferente vai ter. Espero. Desejo. Sigo.


Crédito da Imagem: Foto por @danielaecheverri

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”