No Japão também chove

Dia desses me peguei tão dentro de mim que parecia estar em um labirinto. Minha mente vagava por diferentes corredores, em versões distintas de alto otimismo e euforia ao mau pressentimento. Quando estamos assim não adianta ir muito longe, a viagem não deve ultrapassar a distância segura da sala de estar.

E nesse fluxo de sensações, uma imagem me chamou atenção na TV. Estava chovendo. Chovia. Sim, chovia e muito.

A princípio não estranhei, afinal eu estava ali e nessas condições não faz muita diferença se neva no filme enquanto você sua horrores.

Mas, com o passar dos segundos me dei conta: chovia no Japão. E imediatamente fui envolta nessa realidade. Eu estava há muitos mil quilômetros de distância e a chuva me resgatou. 

Chove em todo lugar. Existem alegrias e momentos tristes em todos os lugares. Existem oportunidades e desafios também.  

Então, aquela nuvem de diferentes matizes que habita a sua cabeça também habita a de outros.

Surpresa com aquela insana certeza eu respirei e pude sentir por dentro o cheiro da chuva. 

E decidi, corajosamente, fazer como meus colegas humanos de lá: abri o guarda chuva e saí.

Dorama como inspiração

Você conhece a expressão dorama? São as séries ou novelas de drama orientais. Seus espectadores no Brasil recebem o nome de dorameiros. Em 2022 me tornei uma dorameira: assinei canal exclusivo de doramas, me inscrevi em newsletters especializadas no assunto, assisti mais de 12 novelas, troquei indicações com as amigas e comecei a estudar coreano.

Sobre o último, sendo muito realista, apesar de estar no módulo 12 de coreano no Duolingo, sei menos que o básico. Identifico alguns anglicismos na escrita, conheço as letras, sei dizer que sou do Brasil, obrigada e desculpa. O resto, um bando de palavras soltas que não fazem muito sentido sozinhas.

Há 3 anos começamos a planejar, a pedido do filho mais velho, uma viagem para o Japão. Desde que entrei no universo dos doramas, os planos de viagem passaram a incluir China e Coréia do Sul no circuito. Quero conhecer os prédios e ruas que vejo nas telas, o marido quer provar as delícias culinárias e os meninos querem ir a todos os parques que existem. Ainda falta o essencial para uma viagem longa como essas: o capital! Aos poucos vamos resolver esse “detalhe”.

Além de aprender um novo idioma e da perspectiva de uma viagem legal, os doramas coreanos me trouxeram algo mais. Há ali muito material de inspiração para aplicar nos meus próprios textos. Então, quando não estou distraída demais suspirando de amor, observo as novelas pelas lentes da sua construção: arcos longos, personagens com muitas camadas, múltiplos plots, ganchos bem-feitos e muito subtexto para dar pano pra manga. Adoro quando eles fazem personagens se reencontrarem após longos anos de separação.

Assisti esses dias a Something in the rain. Nessa série, se juntasse todas as falas dos personagens durante a temporada completa, caberia em um único episódio. Longos silêncios e pausas para reflexão, com muito espaço para a imaginação de cada um completar de acordo com suas vivências. E, claro, encontros sob chuva. Ouvi dizer que as cenas mais bonitas nos filmes românticos são os beijos apaixonados em noite de chuva. Tenho certeza de que você lembrou de uma cena dessas agora. Na trama, a protagonista tem 35 anos e começa a namorar o irmão da melhor amiga, mais jovem 4 anos. Até então, tudo bem, eu penso, você pensaria também. Mas há várias questões que fazem com que a família dela não aceite a união: eles se conhecem desde a infância, o rapaz não fez faculdade, vem de um lar desestruturado etc. e tal. De maneira nenhuma ele é um bad boy. É um trabalhador do universo dos games (novas profissões que os mais antigos nem sempre compreendem), bonzinho, colega exemplar, amigo para todas as horas.

No entanto, é a idade o maior tabu que precisam superar. Há uma cena que me chamou atenção e motivou essa escrita. Durante um acampamento, o mocinho apresenta a namorada para os casais amigos, todos mais jovens que ela. Na tradição oriental de respeito aos mais velhos, ela é tratada conforme
sua idade, o que significa que a fazem se sentir como os idosos para quem cedemos o lugar no transporte público. À noite, as mulheres se reúnem para dormir juntas e conversar. A protagonista ocupa o lugar de quem venceu os obstáculos na carreira, a irmã mais velha, como elas chamam. As mais jovens começam a relatar suas dificuldades e decepções e esperam os conselhos. Uma delas conta que voltou para a faculdade por falta de emprego, outra que está de saída do quarto emprego, pois apesar de toda a formação que possui, só serve para levar café e escrever atas de reunião.

Guardadas as proporções culturais de cada quinhão do mundo, exageros dramatúrgicos à parte, as séries são fonte de discussão de padrões comportamentais tóxicos na sociedade. Nos romances, em particular, as discussões giram em torno dos comportamentos inadequados dos homens em relação às mulheres. Há muito assédio moral e sexual nos ambientes de trabalho, há uma forte hierarquia onde o homem manda e a mulher obedece, o silenciamento constante dos desejos e vocações femininas e, ainda, uma imposição por casamento e maternidade que recai sobre elas. Sempre. É sobre seus ombros que se ampara a construção dessa sociedade.

Essas discussões sobre nosso papel no mercado de trabalho (ou dentro de uma relação) consistem no ponto alto da trama para mim. São como naquele filme “A Origem”, onde sonhos são plantados para fazer com que os sonhadores mudem de opinião. Na novela, são as ideias de respeito às mulheres e valorização do feminino que estão num nível ora de tema principal, ora secundário, mas me fascinam quando surgem em momentos como essa cena do acampamento, apenas como uma semente esperando o tempo certo para aflorar.

Realizando a justa adaptação transcultural, temos um Brasil com menos tabus em relação à idade ou mesmo ao sexo fora de uma relação de casamento. No entanto, há outros pontos de contato com essa narrativa: mulheres preteridas em vagas por conta da maternidade, assédio moral e sexual gerando constrangimentos no ambiente de trabalho, e pessoas que ainda acreditam que servir o café ou arrumar a mesa do almoço é atividade exclusivamente feminina.

Participei uma vez de um esquete num treinamento de trabalho onde deveria desempenhar o papel da chefe ruim. Encarnei a pior versão que pude imaginar: a cada vez que uma colega tentava expressar opinião, eu a interrompia solicitando um café para o cliente, pegar pastas no arquivo ou fazer qualquer serviço desconectado do ponto central da reunião. Um tratamento tosco.

Os instrutores não entenderam minha atuação.

A bem da verdade, parece que não entendi a solicitação. Devia ser uma chefe ruim para o cliente e fui ruim para os colegas. Pedi desculpas, me sentindo uma tonta por não entender o que foi designado. No fundo, minha vontade era dizer que não importava qual fosse o cargo, tratar mal o cliente externo ou interno me tornaria a pior das colegas. Pegar o café ou a pasta do arquivo não é tarefa a ser desmerecida. É a falta de respeito que incomoda.

Não vou falar aqui sobre as doenças emocionais oriundas de se estar num ambiente de trabalho ou num relacionamento amoroso opressor. Ambos são difíceis e merecem atenção especializada. Parafraseando Frida Kahlo, se não for bom, não permaneça por muito tempo. Se couber denúncia, procure apoio, há profissionais e canais aptos para ouvir e tratar essas questões. Reúna provas, peça ajuda as amigas e amigos, mas não se isole com sua dor.

Precisamos tirar o bode da sala, o grito da garganta, o poder de quem não o merece. Pense que, quando falamos de trabalho, estamos falando de 1/3 dos nossos dias e que trabalharemos por aproximadamente 30 anos de nossas vidas. Como você espera passar esse tempo? Para mim, é bom que seja num lugar onde eu queira estar, onde me sinta respeitada e acolhida, onde desempenhar uma atividade seja motivo de satisfação. Nem sempre foi assim, por isso hoje sou grata por trabalhar num ambiente saudável, com colegas que respeito e admiro, e onde me sinto igualmente respeitada.

Por fim, sobre o romance, devo dizer que amo suas muitas facetas. Algumas mais fictícias e irreais, outras reflexivas e profundas, amores possíveis para uma sociedade que muda. Os doramas mostram que não devemos aceitar qualquer situação ou relação apenas para cumprir com os requisitos de uma “to do list”. Sei que é difícil mandar no coração, mas uma coisa que descobri na vida e nos romances é, se for para ter um relacionamento amoroso, escolha alguém que te respeita mesmo quando discordar de sua opinião; e que te faça sorrir, seja porque lembrou da sua música favorita, ou …(complete aqui com o que te faz sorrir).

Para mim, basta que ele apareça onde estou.

A calcinha revolucionária

Toda revolução tem início numa ação. Vitória, menina de dez anos  frequentava uma colônia de férias durante o recesso escolar, e carregava por toda parte uma mochila.

Nela havia tudo o necessário para passar o dia em um clube. Entre outras coisas, uma calcinha. Era uma peça aparentemente vulgar, digo, comum. Grande, de bolinhas, mas furada. Um aspecto surpreendente de tal peça e que escapava aos olhos dos demais, inclusive de Vitória, é que aquela, na verdade, era uma calcinha inconformada.

Talvez com a sua condição de estar sempre na escuridão,  sem poder observar o mundo lá fora. Havia mais do que era apresentado à ela pelos “amos da caverna”, como diria Platão?

Então, a calcinha decidiu sair e ver além. Vitória amarrava os cadarços, quando um dos supervisores apontou para baixo e disse: – Ei! Olha aí as coisas caindo para fora da mochila. Vitória, essa calcinha é sua?

A menina arregalou os olhos, e assentiu se transformando no exemplar de pimentão vermelho mais pigmentado da história. “Céus.. alguém viu minha calcinha furada…” Pensou vencida.  E a peça foi parar dentro da bolsa novamente. Vitória mal sabia que isso era o prelúdio de algo maior. A calcinha relatou o que viu para as outras vestimentas e por elas foi considerada louca.

Mas incomodada, não desistiria. Na volta para casa, já dentro do ônibus, eis que Vitória ouve o grito da boca de um moleque qualquer: – Ah lá uma calcinha furada!- E aquelas palavras ecoaram no seu cérebro centenas de vezes. A verdade  revirou seu interior.  Sabia mesmo sem olhar: era a tal calcinha com certeza.  O mundo não seria mais o mesmo para Vitória, nem para a peça íntima. A garota ficou sem ar, começou a adquirir um tom cinzento e um aspecto acolchoado que a plasmava ao assento numa demonstração de mimetismo camaleônico, traço evolutivo adquirido por ela em tão pouco tempo que surpreenderia até mesmo Darwin.

Como desgraça pouca é bobagem, dizem, a calcinha inconformada foi jogada de um lado para o outro pelas crianças em uma zoeira infernal, tão característica da selvageria infantil desses seres humanos pequenos sem supervisão. O momento mais longo da existência de Vitória, e da calcinha até então. Sabe-se que os revolucionários, várias vezes são mal compreendidos por muitos. Mesmo consciente, a calcinha inconformada jamais desistira de tentar.

Calcinha de fibra.

Quando as crianças se cansaram, foi parar no chão e recolhida por Vitória em momento oportuno. Considerada perigosa, foi  condenada às gavetas, mas seu exemplo de atitude e coragem resiste por meio da sua história contada, que nos serve de inspiração até os dias atuais.

Juventude de Amor

Eu sei como começou e foi engraçado pra caramba. Eu lembro de tantos detalhes quanto me esqueço deles. Você é uma amizade que só de lembrar tenho vontade de te conhecer de novo, de passar todos os momentos novamente e rir de muitos deles.

Mesmo que passem 3 décadas, parece que foi ontem que nos vimos pela primeira vez e eu usei meu dom de fazer piada ruim, coisa que sei fazer bem. Já escrevi tanto sobre nossa amizade e ainda tem muito que quero falar.

A principal característica da gente é a persistência e a reciprocidade.

Eu amei te conhecer e continuo adorando o fato que nossa amizade é como um abraço apertado e um beijo estalado na bochecha, é um sentimento muito acolhedor e às vezes eu posso ficar sem palavras pra descrever tudo isso que somos.

Muito obrigada por todos os anos. Que venham muito mais experiências e viagens nas nossas conversas infinitas.

Um abraço apertado, querido amigo. Obrigada por tanto!

O rio do Sítio Almas

Encaminhou-se até o oratório e procurou a imagem de São José. Tinha pressa e a minguada luz do candeeiro não ajudava. Achou-o por detrás de outras imagens, com a cabeça unida ao corpo por uma cola espessa e amarelada. O conserto feito por ela própria não tinha ficado muito bom. Mas ela não podia pedir por chuva sem levá-lo consigo. Nem o santo nem Deus a ouviriam.

Colocou-o em uma sacola de pano e tateou até a cama para pegar o terço de pedrinhas brancas pendurado na cabeceira. As vizinhas já estavam no alpendre, na frente da casa, esperando por ela. A madrugada findava e logo o sol avançaria iluminando um céu terrivelmente limpo, replicando a imagem aterradora que se sucedia dia após dia, sem nuvem escura que pudesse anunciar sinal de uma gota sequer.

Era dia de São José e não havia mais nada a fazer a não ser rezar para que chovesse. Ninguém suportaria mais um inverno como o do ano anterior, tão escasso de água e de esperança. Saíram em um grupo pequeno formado por mulheres e algumas crianças sonolentas. Seguiram silenciosamente pelo caminho de terra. Os rostos sérios nem se olhavam, como se temessem encontrar no outro a desesperança que se contrapunha ao fato de estarem ali, clamando por um milagre.


Pequena tomou a frente do grupo. Era o lugar que lhe cabia. As alpercatas de couro levantavam poeira e os pés ficavam cobertos por uma fina camada de terra vermelha e muito seca. As veredas abertas para abreviar as distâncias pareciam rasgos em meio à vegetação seca e retorcida. Aos poucos o Sítio Almas ia ficando para trás.

Pequena pensou em adiantar a reza e balbuciou um começo de terço. As outras a seguiram e ela se calou para mergulhar em suas próprias lembranças, enquanto as companheiras embalavam a reza. Viu-se jovem, atravessando aquele mesmo rio para chegar até a outra margem onde ficava a gruta de oração. Sua mãe levava mudas de roupa em uma trouxa sobre a cabeça para que pudessem rezar com roupas secas após a travessia. Naquela época, o clamor era para que a chuva cessasse e interrompesse as inundações que tudo alcançava e destruía. Hoje, como que amaldiçoados pela inconstância de não saber o que pedir, o pranto era para que chovesse pelo amor de Deus.

Pequena refez o mesmo caminho de outrora, desta vez com os pés secos. Do outro lado do que fora um rio, a gruta esperava pela comitiva sonâmbula. Pequena fez as outras se ajuntarem e solenemente retirou a imagem de São José da sacola. Em suas mãos, um São José sem cabeça segurava um menino Jesus gordo e corado. A cabeça do santo não estava na sacola e as mulheres se entreolharam assustadas, com medo de que o incidente fosse um mau presságio. O filho de Pequena apressou-se para tentar localizar a cabeça que deveria ter caído no caminho, ele imaginou. Há alguns metros da gruta, suas mãos miúdas e ágeis colheram a cabeça que jazia no chão e estava misteriosamente úmida, como se tivesse sido molhada por um rio invisível que só existia no passado de Pequena. A criança entregou a cabeça do santo à mãe e foi a primeira a perceber que algumas gotas começavam a cair sobre si. Inicialmente, eram espaçadas e faziam-na duvidar de seus sentidos. Depois, irromperam grossas e incontestáveis. As lágrimas de Pequena, então, se juntaram à chuva e ao rio saudoso que, há muito tempo, esperava por ela.

A CAIXA

Abri o armário à procura de uma blusa para combinar com a saia estampada.
Não podia chegar atrasada e queria causar uma boa impressão no primeiro dia de trabalho.

Na pressa da procura da roupa perfeita para a ocasião, tomei um susto quando a caixa rosa com flores azuis e laço de fita caiu aos meus pés. Meu coração disparou. Há tempos tinha decidido que não iria mais olhar o que estava guardado dentro dela.

Mas a dor e a lembrança sempre nos pregam peças e, na mesma hora em que vi a caixa, lembrei da música que embalava aqueles momentos únicos de ternura que ficaram congelados no tempo. O cheiro morno e doce, a pele macia, o sorriso. Nada poderia apagar aquelas sensações e imagens que agora flutuavam ao meu redor.

Fiquei entorpecida. Como é possível que a simples visão de uma caixa desperte emoções tão profundas e perturbadoras? Peguei a embalagem e sentei-me na beirada da cama. Desfiz o laço lentamente e abri a caixa com cuidado exagerado.

Foram tempos difíceis. Mas havia muita esperança. Esperança que tudo
acabaria bem e que nosso lar seria novamente um lugar feliz. Entretanto, nem tudo é exatamente como desejamos e planejamos. Existem situações que nos fogem completamente ao controle. E assim a tristeza se instalou em nossas vidas.

Superamos? Não. A caminhada até aqui foi longa e dolorosa.

Já estava me acostumando com a ausência e agora essa caixa surge na
minha frente me fazendo recordar de momentos maravilhosos que tive a
oportunidade de viver, mas que deixaram um amargo na boca que nunca será digerido.

Não contive as lágrimas. Chorei de saudade, de raiva, de alegria.

Sentimentos contraditórios me tomaram por inteira. Com as mãos trêmulas, acariciei o vestido branco de organza, bordado com borboletas coloridas. Foi só o que me restou. Minha pequena Alice partiu sem nunca ter usado o vestido, comprado especialmente para o seu primeiro aniversário.

Não Sou Eu, É Você, de Mhairi McFarlane, editora Harper Collins Brasil, julho/2016

O livro conta a história de Delia, uma relações públicas que pede o namorado com quem vive há 10 anos em casamento e descobre, no mesmo dia, que está sendo traída.

A história de Delia se desenvolve a partir desse ponto. Primeiro o luto pela relação, passando por todos os estágios, inclusive a negação, até se descobrir alguém com desejos próprios e sonhos engavetados.

Ela muda de cidade, de trabalho e de amor, sem se fazer a pergunta mais importante: o que eu quero de verdade? 

Tem um ditado que diz que se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. Apenas quando Delia toma suas próprias decisões é que sua vida começa a fluir novamente. 

O livro me cativou do início ao fim. É bem escrito, tem uma trama paralela sobre trabalho e ética muito atual, com políticos corruptos e subcelebridades que topam tudo para se promover. 

Tem também uma história de amor plausível, com questionamentos reais e sofrimento idem. 

Delia tem as mesmas dúvidas que as mulheres de trinta têm ao se separar: ainda dá tempo de arranjar outro parceiro que queira ter filhos? Para as mulheres, o relógio biológico muitas vezes é o fiel da balança. 

Teve apenas um ponto fraco, que são pequenas falhas de português, mas nada que comprometa a leitura. 

O livro está disponível em formato e-book pela Amazon e, para quem tem Kindle unlimited, pode baixar gratuitamente. 

Mhairi é escocesa e autora best-seller do livro Amor a Segunda Vista.

Redecorando minha casa e minha alma

O amor não sobreviveu a força do tempo. Foi eterno enquanto durou, chegou ao fim. Agora é hora de recomeçar. E redecorar minha nova casa, meu novo quarto, e minha alma.

Alguns quadros eu já tenho, outros vou comprar. Também pretendo trocar o capacho com aquela imagem da sua série preferida. Talvez escolha um rosa choque escrito “bem-vinda nova vida” (se não existir eu encomendo!)

Também pretendo comprar umas flores de plástico. Sim! Porque eu sempre gostei e você não, rs. E colocar novas fotos pela sala.

Tudo será muito simples e discreto, porque preciso economizar, agora que minhas despesas vão ser maiores. Com exceção do rosa choque, que não quero abrir mão! A ideia é que a nova organização transmita um pouco mais de quem eu sou. Estava tão apagada nos últimos tempos…

Quero flores de lótus, para simbolizar meu renascimento, imagens de gatinhos (porque acho tão fofo), meu velho quadro do bondinho, meio de transporte tão agradável…

Quero rosa, lilás, azul e verde, para me trazer esperança nesse novo ciclo. Um amigo também sugeriu acrescentar mais um número na porta do apartamento, porque segundo ele o atual traz azar. Vimos em um site que a soma deles traz afastamento entre os moradores. Será que foi isso? Não acredito tanto assim em numerologia.

Meu amor, te falo com todo meu coração: me perdoa se escrevo como se fosse fácil. Saiba que não é. Tenho me arrastado por dentro, mas sei que é preciso. Vou fazer algo duro, mas necessário. Tiro sua vitrola agora, e coloco de volta a minha vida.

Texto do livro Salto para o Desconhecido, da autora Carolina Pessôa. À venda no site: https://www.editorapenalux.com.br/loja/salto-para-o-desconhecido

Saiba mais sobre a jornalista e escritora em: https://www.carolinapessoa.com.br/ https://www.instagram.com/carolinapessoa25/

Quero

Quero
A vida levada.
O coração aberto
O sorriso de cara limpa
O corpo no movimento do sol
Vistoso, forte e quente
Iluminando cada caminho,
Escaldando a alma leve e livre como o vento, necessária eterna e transparente, pisando na terra saudável e resistente.
Quero me banhar em cada gota de orvalho, rio, cachoeira e mar da minha essência!
Quero!

Eu luto

Eu luto
e o meu luto
perpassa
as minhas artérias
os meus capilares
escuros de tinta azulada

As raízes do meu peito
dos meus cabelos
hoje estão quase pretas
tintas de mar revolto.

Pois a minha caneta chora
e a tinta vem de dentro.
Esse é o meu sangue.
É disso que ele é feito:
tinta.

Nada consegue
remediar
Isso é apenas dor
tudo é apenas perda

O que resta
é só esse ressentimento
estranho.

Eu olho a minha imagem
no espelho e vejo um sonho
se enevoando.

  • É, você foi enganada.
    diz o eco na minha cabeça.

E hoje não tem sorriso

  • como de costume
    Desses que ofereço
    gratuitamente aos passantes.

Só há sangue azul de tinta
espalhado por todo canto
e tudo o que eu ouço
é o canto de um pássaro fúnebre
com suas asas azuis
da janela daquele quarto
onde escrevo sonhos
como esse, frustrados.

No canto, o outro canto
o da sala
me encolho como um feto.

Até virar semente de novo
Até poder brotar novamente
Até conseguir botar
minhas folhinhas de fora
verdes, verdinhas e com flores
nas pontas dos galhos compridos.

Apesar de toda essa tinta
de um azul tão violento
que tristemente
joguei fora…

Assim de dentro pra fora
num luto
que eu luto
todo santo dia.