A CAIXA

Abri o armário à procura de uma blusa para combinar com a saia estampada.
Não podia chegar atrasada e queria causar uma boa impressão no primeiro dia de trabalho.

Na pressa da procura da roupa perfeita para a ocasião, tomei um susto quando a caixa rosa com flores azuis e laço de fita caiu aos meus pés. Meu coração disparou. Há tempos tinha decidido que não iria mais olhar o que estava guardado dentro dela.

Mas a dor e a lembrança sempre nos pregam peças e, na mesma hora em que vi a caixa, lembrei da música que embalava aqueles momentos únicos de ternura que ficaram congelados no tempo. O cheiro morno e doce, a pele macia, o sorriso. Nada poderia apagar aquelas sensações e imagens que agora flutuavam ao meu redor.

Fiquei entorpecida. Como é possível que a simples visão de uma caixa desperte emoções tão profundas e perturbadoras? Peguei a embalagem e sentei-me na beirada da cama. Desfiz o laço lentamente e abri a caixa com cuidado exagerado.

Foram tempos difíceis. Mas havia muita esperança. Esperança que tudo
acabaria bem e que nosso lar seria novamente um lugar feliz. Entretanto, nem tudo é exatamente como desejamos e planejamos. Existem situações que nos fogem completamente ao controle. E assim a tristeza se instalou em nossas vidas.

Superamos? Não. A caminhada até aqui foi longa e dolorosa.

Já estava me acostumando com a ausência e agora essa caixa surge na
minha frente me fazendo recordar de momentos maravilhosos que tive a
oportunidade de viver, mas que deixaram um amargo na boca que nunca será digerido.

Não contive as lágrimas. Chorei de saudade, de raiva, de alegria.

Sentimentos contraditórios me tomaram por inteira. Com as mãos trêmulas, acariciei o vestido branco de organza, bordado com borboletas coloridas. Foi só o que me restou. Minha pequena Alice partiu sem nunca ter usado o vestido, comprado especialmente para o seu primeiro aniversário.

Publicado por ceupassos

Escrevo e rabisco contos, crônicas e poemas. Faço colagens digitais e tudo mais que minha alma deseja e o corpo permite.

6 comentários em “A CAIXA

  1. Oi, Céu, parabéns! Seu texto, surpreendente e cheio de sentimento, escrito com tanta delicadeza, me tocou profundamente, não há dor maior que a de perder um filho ou filha. Obrigada, querida.

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