Expresso

É como você gosta do seu café e a forma como nosso romance aconteceu.

Já ouviram falar sobre conexão de almas por conta de vidas passadas? Eu acreditei logo que te vi vindo em minha direção tranquilamente naquela quarta-feira chuvosa.

A vida já havia me ensinado sobre o amor e eu o evitei por bastante tempo, por medo de depender de alguém. O que faltava era te encontrar e perceber que quando é para ser, não haverá tal dependência. Falo do amor, como um sentimento universal. Em suas diversas formas e medidas.

O nosso tipo foi e é especial. Me comove e alegra. Me abraça e liberta. Ensina que não é preciso ser todo dia, mas é importante a persistência em nós. Em como somos e nos tornamos. Pois mudamos a cada dia. E talvez, um dia, não gostaremos tanto um do outro.

Por isso, aparecer de vez em quando nos protege de muitas frustações assim como gera outras. Nenhuma é irremediável. Mas todas são computadas em nossa existência conjunta.

Hoje expresso meu sentimento persistente, que ainda faz morada aqui.

Justiça seja feita

Certo, entendi o ocorrido finalmente. Não que eu estivesse em busca de entender coisa alguma, queria mesmo era me ver livre do problema, mas a dúvida não me deixava dormir em paz.

Seis meses antes dessa tarde de inverno – alegre demais para o frio que fazia, ensolarada demais para o humor cinza dos presentes – Têmis e eu demos um tempo. Agora a gente está nessa salinha, coberta de madeira e mármore, para resolver nossa última pendência. A poeira flutua no ar, esvoaçando no rastro dos passantes.

A gente nunca sabe quanto tempo é suficiente para se repensar a relação. Então decidi que não queria que durasse muito. Fomos casadas por seis longos e deliciosos anos, que foram para as cucuias quando começamos a discutir a adoção.

Têmis queria inseminação com doador, eu queria adotar. Não queria um homem entre nós, um esperma doador com um CPF e algum direito sobre uma criança que ele não queria. Ela me garantia que seria anônima, é a lei no Brasil, insistia, queria gestar o bebê e que eu doasse os óvulos, teria a nossa cara. Se fosse menina, se chamaria Sophia…

Sentada na saleta esperando ser chamada, olhei de soslaio sua figura antes altiva, vexada no banco de mogno brilhoso, cabeça baixa, e me peguei pensando onde erramos. Acho que não foi a adoção, foi antes, há dois anos, quando decidimos comprar a casa do condomínio, longe demais do trabalho, com aqueles vizinhos que nos olhavam com uma sentença expedida. E ainda teve aquele incidente com a Fronesis, a  Golden Retriever, que correu atrás de uma borboleta e foi atropelada em frente ao nosso jardim. Têmis ficou em choque, a Golden estava com ela há dez anos… A gente devia ter se mudado na mesma hora, ali tinha um quê de sobrenatural maligno.

Mas talvez ainda não tenha sido isso, não. A gota d’água para mim foi a marca de beijo com batom pink sempre perto do ombro, nos colarinhos das blusas, percorrendo o pescoço. E aquele perfume doce, nojento, que ódio daquele cheiro! Que ódio daquela marca de batom pink que tinha cheiro de flor, peônia. Decidida ao confronto, tudo o que ela me dizia era uma desculpa sem nexo, que não cabia no meu léxico, que não dava para escusar. Aquele batom murchou meu sorriso.

Dona Mocinha, assistente da Têmis, chegou e foi direto cumprimentá-la. É baixinha como seu nome, cabelo branco neve, casaco de flor e óculos de grau, uma belíssima representante da Iris Apfel no Brasil. Reconheci das fotos, nunca tinha vindo ao trabalho da Têmis antes, o tribunal é um lugar assustador. Reconheço o perfume doce, que me revirou o estômago e me fez desistir da gravidez, da adoção e de um pouco mais. A boca, que um dia foi fina, agora era o puro suco do botox, do ácido hialurônico, ou sei lá qual a tecnologia do momento para deixar mulheres com a boca da Angelina Jolie. E lá estava o pink. O beijo, não na bochecha, para não manchar a excelentíssima juíza, foi dado num lugar aleatório qualquer. Dessa vez foi no ombro esquerdo.

Certo, minha cara caiu no chão. Por que não acreditei quando Têmis falou? Não fosse esse batom, que teria sido de nós? Dona Mocinha veio em minha direção e me deu um beijo estranho na bochecha. Fui até o banheiro me limpar. Encarando o espelho, entendi o ocorrido finalmente: aquela senhora decretou o fim de um problema que nenhuma de nós queria enfrentar. A nós, que tudo sobrava, faltava a maior das virtudes, o amor. Entramos na sala e assinamos o divórcio, já posso dormir em paz.

Composição


Não sei compor, meu bem
Não sei tocar violão
Não conheço partitura
E nem mesmo poesia
Não domino a tal métrica
Nem tão pouco melodia
Mas estou de coração
Aqui cantando em livres versos
Que enfrentei dor
Da falta de amor
Da falta de amor
Pouco depois te conheço
Numa feira de rua
E não me esqueço
Logo quis te dar um beijo
Logo quis te dar um beijo
Hoje canto, sabiá
Novo amor a renascer
Nessa vida em que viver
Também é saber sofrer
Deixa ir meu bem
Deixa ir a dor
Essa canção que canto
É pra falar de um novo amor
É pra falar de amor
É pra falar

(Poema do livro Meu Canto, de Carolina Pessôa. Disponível em: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/meu-canto/)

Kim Jiyoung, nascida em 1982, na Coreia do Sul (mas podia ser no Brasil)

            A autora do livro “Kim Jiyoung, nascida em 1982”, Cho Nam-Joo, e eu nascemos no mesmo ano de 1978. Instigou-me saber o que uma contemporânea sul-coreana minha tinha a dizer sobre a vida de outra mulher, sua personagem Kim Jiyoung, um pouquinho mais jovem que a gente. Da cultura sul-coreana sei pouco. Do universo feminino, bem mais. E a curiosidade em saber como vivem as mulheres na Coreia do Sul, ainda que por meio da ficção, me lançou à leitura, assim como mais de um milhão de leitores no mundo, de suas 172 páginas consumidas em apenas dois dias de um final de semana atípico.

            O livro veio até mim como um presente, logo após eu saber que o Prêmio Nobel de Literatura deste ano havia laureado uma conterrânea da autora (e da personagem Kim), a também sul-coreana Han Kang, nascida em 1970.

            Com tantas referências sul-coreanas surgindo por todos os lados em meu mundo eminentemente “ocidental”, lancei-me a conhecer Kim. Em todo o livro, página a página, a história de Kim foi se delineando e mostrando aonde, talvez, a autora quisesse chegar. Porém, só pude mesmo conhecer o coração de Kim nas últimas páginas, quando a autora arremata o ponto final da costura feita durante todo o livro, trazendo um final surpreendente que, enfim, crava a situação da mulher na sociedade sul-coreana.

A história de Kim me descortinou como os sul-coreanos vivem, com tantas tradições rígidas que impactam nas vidas de todos, principalmente nas das mulheres. Kim (e sua mãe, sua irmã, avó, sogra, amigas…) fazem parte de um sistema onde as mulheres são encaixadas em um papel fixo e limitado, porém basilar para a vida familiar. Há relatos, como o da mãe de Kim, que sacrificou seus estudos para trabalhar desde muito jovem para ajudar a pagar os estudos dos irmãos homens, ocupando claramente um papel inferior dentro do seio familiar, o que me pareceu ser uma prática comum para a maioria das famílias. Depois, na vida adulta, mesmo sem muita instrução formal, foi ela a alavancar as finanças da família que constituiu, com sua inteligência, austeridade e tino para os negócios. Kim e sua irmã também muito cederam para a educação do irmão homem. Porém, progrediram e foram à Universidade. Quando caíram no mundo do trabalho, porém, se depararam com discriminação e assédio, aparentemente normalizado na cultura sul-coreana, segundo o olhar da autora Cho Nam-Joo.

As cenas de assédio, os abusos que ocorrem em todos os lugares, inclusive no trabalho, escancaram a realidade de condescendência para com os assediadores e a desumana e injusta responsabilização das vítimas. Algo tão comum também na nossa sociedade ocidental. As situações são tão extremas e constantes que adoecem as mulheres e impactam nas vidas também dos homens e das famílias, pois precisam lidar com esposas e filhas a beira do colapso.

Kim é uma mulher comum, que vive sua vida como qualquer uma de nós, estudando, trabalhando, preocupando-se com as finanças da casa, com o futuro da filha, com a saúde da mãe, com o casamento, etc. Mas se vê enredada em uma teia estrutural tão rígida e injusta que se vê impotente para rompê-la, numa desesperança adoecedora.  

É sobre Kim, é sobre Cho Nam-Joo, é sobre Han Kang, é sobre a Coreia. Mas podia ser sobre mim ou sobre você. No nordeste do Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

Era uma casa muito…

Certamente você não sabe

 na minha casa habitam cinco sapos que cricrilam

dezenove porcos que relincham,

três vagalumes que conversam em inglês e um quarto que só sabe espanhol,

duas periquitas que constroem pontes,

nove crianças-bolinhas descendo colinas.

Na floresta, é o lobo que tem medo de chapeuzinho

linguiça é feita de abobrinha. Imagina fazer linguiça de berinjela?! Jamais!

Na minha casa, uma música toca

tum tum tum pararatibum

a gente dança, fazendo rodopios de mãos dadas

agitando o corpo no ritmo da onda do mar.

Na minha casa os habitantes podem morar por muitos anos

ou serem despejados sem aviso prévio.

Ninguém quer um intruso sem graça!

Ora, se chegou, se aprume e conte uma piada!

ha ha ha! hi hi hi!

Veja que ele já passou. Ele mesmo, esse seu amigo.

Passa rápido e leva os habitantes da minha casa-cidadela-habitada.

Vai-te embora, cretino!

E leva essa piada ruim pra longe daqui.

Certamente, você não sabe

Na minha casa não tem porta nem janela

Nem sacada, nem mansarda

Alpendre para a rede, peitoril para debruçar

A minha casa vai para onde eu quero

E onde você estiver, podemos nos encontrar nela

Meu endereço não consta em nenhuma música rimada

A minha casa não é engraçada,

ou talvez,

talvez,

talvez

seja

Sabe onde ela fica?

Que bom, porque eu não vou contar!

paixão de verão

paralelepípedos tropeços

subimos ruas

arrastando bloco

entre confetes serpentinas

adentro cortejo

marchamos carnaval

corpos vibram tambor

somos par em fantasia

dançando música

micropartículas cintilam

pele arde sol

aquela febre de verões

mergulho boca

sabor glicose

farto sede

anzol fisga peixe

pescador eufórico

esquece molinete

presa se perde cardume

marcham cinzas

paixão de verão

azedume

A Substância

Fui ao cinema acompanhando minha caçula de 18 anos em mais uma escolha dela pelo gênero de terror. Confesso que não é meu estilo de filme preferido. Mas saí no meu domingo à tarde aberta a provar essa experiência. E sim, foi uma experiência!
Sempre que vejo obras (livros ou filmes) capitaneados por mulheres e, mais
ainda, quando estas obras trazem à baila temas do universo feminino, sinto-me tocada a escrever sobre elas e, talvez, plantar mais uma sementinha que pode vicejar em reflexões para mim e para quem me lê. Além de contribuir, ainda que num raio de influência bem limitado, com a divulgação do que as mulheres fazem de relevante por aí, no mundo da escrita e do entretenimento.
A Substância, filme de 2024 da diretora francesa Coralie Fargeat, deixou-me
reflexiva por dias, revendo mentalmente elementos do filme que reforçavam a ideia principal da diretora que, a meu ver, era tocar na ferida do padrão estético surreal exigido para as mulheres, na objetificação dos corpos femininos jovens e no descarte que os corpos das mulheres maduras sofrem.
E por falar em ferida, se você tem asco de ver o corpo humano em sua rudeza
orgânica, com agulhas perfurando feridas adentro e com foco ampliado em costuras de carne, o filme pode lhe causar muito desconforto. Por essas escolhas, a obra é considerada “body horror”, ao trazer cenas que exploram o corpo humano com uma proximidade tal que beira ao grotesco.
Para além de impactar o público com os “horrores” dos nossos corpos, a
diretora se utiliza desse artifício para contrapor a crueza biológica do corpo com a estética perfeita e inalcançável que a sociedade impõe às mulheres. Foi muito interessante ver as cenas da deslumbrante Sue (Margareth Qualley) deixando os homens embasbacados por onde passava para, na cena seguinte, vermos a crueza de como ela conseguia essa aparência às custas da mulher madura e “descartada”
Elizabeth (Demi Moore), jogada no frio chão do banheiro por dias. Estas são as
personagens principais do filme. Uma é a matriz, a versão original, envelhecida mas bela (Elizabeth). A outra é seu “outro eu”, a versão jovem e bela de Elizabeth (Sue).
Os homens são retratados de forma bem caricata, aparecendo ora como
assediadores ou animais (Harvey – Dennis Quaid – é asqueroso na cena comendo camarões), ora abobalhados com o esplendor da beleza delas ora cruéis ao julgar os corpos tidos como dispensáveis.
De fato que teve muito sangue e gosma, corpo humano com suas secreções e textura de carne à mostra e corpos disformes. Todos esses elementos se juntaram ao cerne da questão principal acerca dos corpos femininos e de como a sociedade os vê e os classifica. O filme expõe que qualquer forma de se tentar alcançar esse padrão absurdo só causa mais dor e sofrimento. Seja na carne. Seja na alma.

Sem dar spoiler, uma cena muito impactante mostra o desvario que ambas as
mulheres chegaram para cumprir com seu compromisso midiático. Ainda que estivessem tomadas pela loucura que a situação extrema as impôs, jogaram na cara das pessoas o terror fruto do alto preço que lhes foi cobrado. E os “credores” se aterrorizam com o que veem, ingenuamente acreditando que não fazem parte daquilo tudo. Mas fazem.
Como terror não é meu estilo preferido, eu cortaria algumas cenas que me
pareceram exageradas, inclusive amenizaria o horror da sequência que desencadeia o final do filme. O filme tem mais de duas horas de duração. Acho que poderia ter sido mais enxuto. Mas, se fosse, será que teria passado o recado que queria? Só assistindo para responder.

Recondução

Por anos, escrevi sob meu nome verdadeiro mesmo tendo um pseudônimo que me deixasse a vontade. Hoje, sinto o chamado da escrita me inundando depois de um tempo sem conseguir escrever. A partir de hoje, quem escreve e escreverá, será Gaia. A força e chama que compõe o meu ser literário.

Passei por períodos de estresse crônico nos últimos dias e horas, a vontade de jogar tudo para o alto apareceu e quase aconteceu. Me esqueci de como me reconecto comigo quando sento para escrever, é o momento em que realmente encontro com minha versão original.

Reconduzir, Recomeçar, Ressignificar. São palavras que usarei neste processo. Serão pilares para me reerguer e me entusiasmar novamente. Minha solitude tem estado inquieta, é hora de acalmá-la.

É hora de fechar um ciclo.

E

Iniciar outro.

Serenata de amor

Ontem o motorista do uber me disse, durante o caminho, que sua mãe o subornava com serenatas de amor quando ele era criança.

E me lembrei que minha irmã guardava embalagens do bombom na sua agenda. Devia ser de alguém especial, até hoje não sei. O mistério parece mais interessante.

E do serenata de amor que enfim ganhei do meu primeiro namoradinho, quando chegou minha vez.

E daquele que esperei tanto, mas nunca recebi…

E me lembrei também do serenata de amor que dividi com meu atual namorado na saída do mercado na última semana.

E do quanto minha melhor amiga adorava comer um desses bombons quando estava de tpm.

Achei engenhoso a mãe do motorista usar o “recurso” para ludibriar o filho de fazer bagunças. Se para cada pirraça a minha me dessem um serenata, haja glicose!

E naquela conversa dentro do carro, quase me vi voltando no tempo, para um passado talvez mais romântico, com serenatas e sem cerimônia para amar. (Ou seria apenas uma idealização minha?)

E pensei por fim em quantas vezes um bombom, um simples chocolate ao leite, pode ser sinal de afeto tão grande e ao mesmo tempo tão fugaz.

(Assim como serenatas de amor, que não fazemos mais, mas que permanecem vivas em nossos corações melancólicos)