As 7 fases do luto de amor

Tem emoções que todo mundo sente, mas ninguém sabe explicar. Algumas situações da vida, quando acontecem, a gente sabe como agir. Pode ser puro instinto ou a repetição de padrões que aprendemos ao longo da vida.

O que fazer quando o amor acaba é uma delas.

Até vemos em filmes e novelas algumas cenas, mas não dá pra imitar a arte, nesse caso. Algumas pessoas adotam esse padrão, mas confesso que já tentei, mas me senti meio ridícula. Dramático demais.

Na ausência de um ritual que me agradasse, identifiquei algumas das fases pelas quais passamos na sequência a um término amoroso. Baseada na minha própria experiência e nos relatos das amigas que enfrentam a inglória saga de encontrar sua outra metade e, quem sabe, perpetuar a espécie. Ou só se divertir mesmo, compartilhar o home office e pagar boletos.

A primeira fase é a SURPRESA. Ela sempre chega. Para a pessoa que quer romper o relacionamento é a surpresa para si próprio. É quando ela se dá conta de que algo não faz mais sentido. Que o frio na barriga sumiu. Que o beijo perdeu o gosto. Que o celular do outro é mais importante que você. Para o outro é bem óbvio. É a surpresa da notícia. Que cai de repente, como caca de pombo na sua cabeça. Ele não se deu conta de que, o que pra ele estava confortável, não preenchia mais os seus sonhos. Que a admiração mandou lembranças e o amor resolveu partir.

A DÚVIDA. Será que é isso mesmo? Entendi direito? O que eu fiz de errado? É aquele momento que você repassa cada segundo na sua mente, e lembra de alguns detalhes que seu cérebro guardou numa caixinha pra você poder se apaixonar. 

Aí vem a CHECAGEM: você quer respostas para todas as perguntas. Precisa ver e materializar a dor. Quanto mais palpável, melhor. Se puder rasgar, quebrar, estraçalhar, é a perfeição.

Já diz o ditado: quem procura, acha. E assim, chegamos na CONFIRMAÇÃO. É real, oficial. Aconteceu de fato. Está acontecendo. O buraco se abre de novo sob seus pés. Tal qual Alice, você cai nesse buraco que parece não ter fim. 

No fundo do poço tem o ÓDIO. A raiva que te consome. Direcionada àquele ser malévo que te envolveu nas teias do amor e te abandonou à própria sorte nos mares da vida. E a raiva por ter se deixado levar pelo papinho mole, beijos gostosos e abraços aconchegantes.

Dessas doces lembranças saltamos de cabeça no lago da DOR PROFUNDA. Um sentimento intenso e desagradável, uma sensação de que somos a única pessoa no mundo que não é amada. O perigo é não sair daqui. Que seja breve enquanto dure.

Depois de tanto pensar e sentir, depois da exaustão emocional, vem o RENASCIMENTO. Quando conseguimos transmutar toda a dor e a raiva, triturar a dúvida e a certeza, transformar tudo em pó e lembranças. Quando resolvemos que esse capítulo da vida vai pra gaveta lá de baixo. Quando estamos prontas pra nos jogarmos na vida. Ao acaso. Dos casos, o menor. Dos amores, os fugazes. E, de novo, reparar nos rapazes. 

E, de novo, encontrarmos a paz.

O sobressalto. De novo. São sete e quarenta e nove. Por que estou com medo mesmo? Ah, lembrei. Poxa, hoje é sábado. Poderia dormir mais, até acabar o sono. É feriado prolongado. O dia em que eu ia emendar nesse feriado e abater do meu banco de horas… melhor não folgar. Esse trabalho tem que dar certo. Mas o que é melhor eu fazer? Inspira, expira, inspira, expira, inspira, pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Eu devia ter mandado aquele e-mail antes. Se fosse outra pessoa, o teria mandado. Mas foi melhor que eu checasse as informações antes. Isso é comparação. Não se compare. Você é competente. Você é ágil. Você é inteligente. Inspira, um, dois, expira, um, dois, inspira, um, dois, expira um dois. Melhor ouvir uma meditação guiada. Não, melhor levantar. Fazer as coisas para não me atrasar. Que pena. Há alguns meses, não sou quem eu verdadeiramente sou: a energia está tão baixa. Tem dias que me sinto prostrada. As brincadeiras bobas, as piadas infames, não existem mais. Quando estou com as meninas, quero falar as bobagens que me vêm à cabeça, mas a vontade de ficar quieta é maior. Reaje! Vai, levanta! Quando esse trabalho terminar, eu serei mais feliz. Será? Ou vou substitui-lo por outra preocupação? Melhor anotar e levar para a sessão de terapia na quinta. Acho que vou tomar café na padaria… essas padarias aqui são tão caras. O que eu estava fazendo mesmo? Não, não era isso. Concentra no agora. “A docilidade dominado é o sorriso do dominante.” A quem interessa o estoicismo no mundo corporativo? Essa é uma boa reflexão. Preciso me impor mais. Esqueci de comprar a bolsa para levar à piscina. Qual era o endereço? Mas a vida não é só trabalho. Preciso cuidar das outras dimensões dela, são tão importantes quanto a minha carreira. O dia está lindo! Vou mandar mensagem para a amiga do Porto. Ela me ajudou tanto quando me separei. E tenho que comprar a passagem para ir visitar a família. Daqui a pouco, vão esquecer da minha cara. Preciso ir lá, atualizar o reconhecimento facial. Mas estou indo para o Flamengo, por que estamos na Nossa Senhora de Copacabana? Concentra no trajeto porque esse motorista está perdido. Não posso esquecer de comprar o gin quando chegar. E uns petiscos.
De novo?
-Você deveria ter entrado à direita.
Desse jeito, vou chegar só depois que o sol de outono se esconder. Se pelo menos eu não tivesse… por que de manhã é mais difícil? Inspira, expira, inspira, expira, inspira. I may be a fool, but till then, darling, you’ll never see me complain. Concentra no trajeto.
-Pode parar aqui mesmo.
Acho que o preservativo saiu. Ele disse que não. Por que ele mentiria nesse caso? Se tivesse saído, você saberia. Será que o contato externo dos fluidos é perigoso? Ai, para! É muita neura para uma cabecinha só. Queria, pelo menos, me soltar mais e aproveitar melhor esses momentos, já que ele só quer sexo mesmo. Nada de atenção. Por que permito isso? Minha mãe não me achou no lixo. Mas parece que é pra lá que me jogo quando não dou um basta nessa situação. Lembra: o que sinto pela pessoa é menos importante do que a maneira como ela me faz sentir.
-Bom dia, vai ser no débito.
Eu vou morar aqui um dia. É minha meta. Estou jogando para o universo. Aliás, vou fazer hoje aqueles cálculos para sair logo o divórcio. Já demorei muito para resolver isso. Olha você se julgando de novo. E estou me julgando por estar me julgando. Meu Deus, que cheiro horroroso! E a Renata não respondeu minhas mensagens. Acho que ela está chateada comigo.
-Bom dia! Sim, a Mariana liberou minha entrada.
E se eu encontrar o carinha do aplicativo por aqui? Sem maquiagem, descabelada. Estou só o rascunho do inferno. Espero que eu não o encontre. O que adianta beijar bem se a promessa para um próximo encontro é um “a gente vai se falando”? E a cereja do bolo: quero entrar em um relacionamento só depois que me autoconhecer. Ah, vai pro inferno!
-Oi, meninas!

Dançarina do acaso, buscando improvisos na coreografia sincopada da vida. Escritora de si mesma, para dar vazão ao que transborda da mente e do coração. Teima em sonhar, mesmo com os descompassos do cotidiano.

Segunda-feira

Eu queria que amanhã fosse sábado de sol forte e piscina.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria que amanhã você estivesse aqui comigo.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria que amanhã houvesse brindes by the pool.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria um amanhã recheado de risadas e papos.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria amanhã delivery de gelo e guloseimas.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria amanhã mergulho no mar.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria amanhã uma manhã lenta.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria amanhã almoço ajantarado.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria amanhã sorvete de casquinha.
Em vez disso, segunda-feira.
Eu queria amanhã tanta coisa…
Em vez disso, segunda-feira.

As tias

Não sei como são as tias de vocês, mas as minhas são encantadas.

Tenho três tias por parte de mãe, a parte mais chegada da família. A família por parte de pai é outra história, que posso contar mais adiante. Mas, o foco aqui são as tias mais próximas, que me acompanham mais de perto, desde que eu nasci, no século passado. 

Tias são uma espécie de entidade. Elas te amam e cuidam, mas também brincam e em alguns momentos até transgridem as regras. E são divertidas. Ah, como são… Cada uma com suas particularidades. Características que herdamos pela prosa e pelo exemplo. 

Como minha mãe trabalhava fora, minha tia mais jovem ficava comigo e com a minha irmã durante a semana. Ela estudava à noite e aos finais de semana ia pra casa. Para mim ela era pura alegria! Uma docilidade coroada pelas margaridas que ela gostava de por nos cabelos. Era meio hippie, meio menina. Uma lindeza! Lembro das tardes na cozinha, experimentando novas receitas: teve churros, pipocas temperadas e bolos de todos os tipos. Fazíamos festas de aniversário para as bonecas. Uma farra compartilhada com outras meninas da vizinhança. Hoje percebo o quão generosa ela foi conosco e o quanto aprendi sobre feminilidade, sobre amor, sobre a magia da vida. Tudo tinha um toque especial. O gato dela usava um laço de fita de cetim no pescoço e tudo o que ela fazia, me parecia encantado e belo. Com ela também aprendi o que era namorar, e acompanhei suas paixonites da juventude. E, quando ela casou, tive o prazer de ajudar a arrumar seu ninho de amor.

Minha família é multiétnica. Puro suco da mistura de povos que resultou na população brasileira. Uma espécie de microcosmo do Censo. Temos loiros, morenos, ruivos e sararás. Cabelos de lisos aos mais enroladinhos, olhos azuis, verdes, mel, castanhos e pretos. A cada gravidez vem a curiosidade: como será esse novo integrante? A quem irá “puxar”?

Toda essa introdução é para explicar que, a mais encantada de todas as tias, é a mais diferente: nasceu ruiva e foi adquirindo sardas ao longo da vida. Além de também ser um doce, é uma das pessoas mais alegres que já conheci. Sempre sorridente e de bem com a vida. A dona das melhores histórias e aventuras. A mais moleca, que me ensinou a subir em árvore, comer fruta direto do pé. Um ser livre que me ensinou que a vida pode ser boa. E é. 

Ela era tão livre, que voava. Sim. Eu tenho uma tia que voava! Pequenas distâncias, mas voava. Cresci com esse encanto, e a certeza de que podemos e podemos muito. Basta acreditar e se jogar. Amava passar uns dias na casa dela, depois que casou e teve filhos. Lá a diversão era garantida. Passávamos dias e noites brincando, imitando chacretes e cantoras, enquanto meu tio tocava violão. Era comum fazer um bolo à meia noite e esperar esfriar para comê-lo no meio da madrugada. Lá a regra era outra: ser feliz e ponto.

As tias transmitem cultura, ensinam artesanato, criam e nos apresentam as tradições da família. Com elas aprendi o que fazer e o que não fazer. 

Esse ano fiquei muito feliz quando meu filho me disse que pediu apoio da tia, a minha irmã, para resolver um problema. E espero que meu sobrinho saiba que pode contar com a tia aqui.

Tias são encantadas, são acolhimento. Tias são pura simpaTIA. Sim, pras tias!!!

Para você

Perguntei a você se poderia te escrever um texto.

Em outros tempos, escreveria e ponto.

Tenho estado mais tímida para essas coisas do coração.

Tenho tentado ser precavida, me proteger.

Mas é difícil, porque contraria minha essência ligeiramente perigosa.

Fiquei então gestando as palavras em meu ventre-poeta.

E senti medo do que poderia nascer.

Escrever sobre isso é um ato de coragem.

Porque sentir, é somente para os bravos.

E sinto-me uma tola às vezes.

Tivemos apenas um singelo primeiro encontro.

E sei que não está pronto para algo mais sério.

E não sou de fantasias sentimentais. Ou sou?

Me derramo em lágrimas, me derramo em versos, mas também sei ser dura.

Escutei uma música do Elton Jhon e pensei em você (I want love)

A man like me is dead in places… I can’t love, shot full of holes

Escutei uma música da Billie Ilish e me lembrei de você (Ocen Eyes)

I’m scared, I’ve never fallen from quite this high

Já fui melhor em minhas declarações

Vivo um momento difícil

Uma nuvem pesada passou em minha casa

Chove por aqui. E em Campos?

Queria estar no quentinho da sua cama.

Sem perder tempo com tantas besteiras.

Traumas, coisas pesadas.

Aquilo tudo que sabemos que importa, mas me pergunto.

Será que por uma noite não poderíamos esquecer?

Faltam 3 horas

Duas da Tarde. Faltam 3 horas para te ver. Numa sequência de dez dias de espera. Penso, enquanto espero, na velocidade do tempo e no ritmo da vida. Na demora para aquilo que tanto desejamos. E no ritmo veloz quando alcançamos o que queremos. Mas já são duas da tarde. Agora, faltam apenas três horas de mais de 200 que aguardei, pacientemente. Ou nem tanto. Ainda dá tempo de sonhar? Não sei. Olho para o relógio: restam 3 horas.
Na demora do tempo que não passa, penso. Penso em você, penso em mim. Penso em nós. E projeto, como uma menina boba. Planejo ingenuamente o que falaremos um pro outro, nossos beijos e carícias. Arrisco mais um pouco e chego a sonhar com um compromisso, um anel e quem sabe até algo mais. Mas nossa, ainda faltam 3 horas!
Fecho os olhos. E quase sinto seus lábios no meu. A textura da sua pele e seu perfume. Seu sorriso e seus olhos mirando os meus. E sua expressão alegre ao me ver. Seria recíproco esse sentimento? São apenas mais 3 horas…
E me ponho a mastigar palavras. Anoto sentimentos, rabisco na tela. Tento trazer a beleza deste momento para a arte. Literatura, ou apenas tentativas de escrito de uma menina boba, ainda aprendendo sobre o amor ou a paixão? Olho para o relógio, persistente, que não me defende e diz. Calma, ainda faltam 3 horas.
Começa a chover. Gotas caem pela janela de vidro. E o céu torna-se mais escuro. A natureza se transforma, lenta, mas definitiva. Como quero que seja nosso encontro, daqui há 3 horas.
As lembranças vão longe, como pipa no céu. Lembro-me do meu primeiro beijo. E da primeira noite de amor. Da adrenalina das primeiras conquistas e descobertas… Sinto que a cada uma delas, ganhei maturidade, mas nem tanto. Continuo uma tola buscando um grande amor. Este que, quem sabe, encontro em três horas.
E uma infinidade de silêncio, angústia e ansiedade me envolve. Centro e oitenta minutos de pura solidão. Um silêncio angustiante que nada preenche. Três horas de puro pensamento. Leve, solto… Como esse texto no papel. Três horas de fluxo de pensamento.

Café para Dois

Sentada,
olho ao longe pela janela.
O cheiro de café invade —
é um misto de força
e conforto.

Alguém se aproxima…
— Já quer pedir?
Me viro
e encontro um sorriso simpático.
Prontamente respondo:
Claro!
Café para dois, por favor.

A moça olha o lugar vazio à minha frente…
Estou ali há mais de quinze minutos…

Como quem duvida do que ouviu,
ela confirma:
— Para dois?
Sim, respondo.
Sempre.

Ela se afasta,
e cenas invadem minha mente:
namoro,
casamento,
filhos,
dias tensos,

dias felizes,

momentos marcantes…
outros esquecidos.
Tantas coisas…
Tantas.

Ela volta.
Ainda não convencida,
olha o lugar vazio
e sorri como quem pensa:
“Endoideceu…”

Coloca uma xícara à minha frente,
titubeia com a outra,
mãos quase errantes.

Olho por sobre o ombro dela e sorrio 
Recebo um sorriso lindo de volta.

—Desculpa, amor, me atrasei!


A moça se espanta.

— Ah, meu café…
Ele se inclina,
e me beija.

— Que bom que pediu para dois.

Olho para a moça,
ainda incrédula,
e com um certo ar travesso, respondo:
Para dois, sempre.

Franco-brasileiro

As crianças na escola ao lado ensaiam a quadrilha.
Não as vejo. Mas sei que estão lá. Pelo som.
É quase junho.
Não sei se faz sol ou chove.
Minha confusão mental.
A velocidade vertiginosa das exigências corporativas.
Neste apartamento, o toque do Teams.
Na escola, Gilberto Gil, Andar com Fé, gritos, palmas
O comando da professora ao microfone
“Ummmmmmmm”. As crianças entendem o comando. Eu não. Palmas.
A escola é franco-brasileira.
Nada barata. Mas ainda assim não de elite. Classe média alta.
Penso que os pais ficarão felizes ao ver a apresentação, os filhos.
Pais que, como eu, a esta hora, dançam outro tipo de quadrilha, em algum escritório ou home office. Qualquer.
Comandam ou são comandados?
Sofrem? Ou fazem alguém sofrer?
Normal.
Os empregos são todos iguais.
É um pior que o outro.
Não tem eldorado.
Assim como não tem príncipe encantado.
Pote de ouro ao fim do arco-íris.
Coelhinho da Páscoa.
Papai Noel.
Só as festas. De todas esses coisas que não existem.
Caipira existe.
Existe?
As crianças parecem se divertir.
Às vezes suspendem a música no meio. Então, acho que não deu certo. Teve esporro?
O-RI-EN-TA-ÇÕES
Lembro de mim, pequena, introvertida, corcunda na foto do jornal da escola.
Corcunda aos nove anos que nem meu pai.
Meu pai que só me ama se eu não pedir dinheiro a ele.
Meu pai não me ama.
E eu odiava festa junina.
Não tenho dúvidas de que alguma criança ali também está a sofrer.
CA-LA-DA
O mundo pré-formatado não tem espaço para nós, criança.
Está chegando junho. Andem, andem, temos que dançar quadrilha. Fazer festa. Junina. Mostrar para os seus pais como o dinheiro deles tem sido bem gasto aqui.
Dancem, dancem.
Porque, muito em breve, vocês nunca mais vão dançar. Ainda mais com um par.
Alegrem-se, alegrem-se.
Porque muito em breve este artigo, a alegria, será raro.
Sincronizem os movimentos, porque já já quero vocês aqui, sob meu jugo, trabalhando como um time, mesmo se odiando, fingindo alegria.
SORRIAM,
É tudo um treinamento, no final das contas.
O sinal da escola, o apito da fábrica, agora o Teams.
O bedel.
O professor.
O diretor.
Os colegas.
Os amigos.
O poder coercitivo.
E no meio….
Nós.
Nós?

EU TERIA

Eu teria velado seu sono

Passado noites sem dormir

Teria aceitado seus erros

Suas imperfeições

Teria abraçado suas causas

Me afogado em suas lágrimas

Te carregado no colo

E sonhado seus sonhos

Teria vivido sua vida

Esperado sua viagem pro outro lado do mundo

Teria sofrido, teria chorado, teria calado

Teria te amado

Se você não fosse

Oceano sem fim

Mar bravio, travesso

Ou forasteiro em terra nova

Sem rumo, sem garantias,

E certezas

Apenas fiel a si

Deixe a correnteza levar

O sol empurrou para longe o aguaceiro do dia anterior. Mas eu sabia: aquele céu limpo era só um intervalo. Chuva de verão sempre volta. Enquanto me arrumava para levar a filha ao colégio, vesti o meu uniforme de carioca despreocupada: short jeans, blusa sem mangas e chinelos de dedos.

A sombrinha dobrável foi um impulso de última hora. Não que me importasse em chegar molhada, mas havia os olhares das outras mães. Impecáveis, como se a chuva respeitasse compromissos.

Na metade do caminho, a água desabou sem aviso. O vento ameaçava virar o
guarda-chuva do avesso. Minha filha, de capa vermelha transparente, parecia uma pequena aventureira. Ria enquanto segurava o capuz inflado por cima dos cachos. Quem me dera enfrentar o mundo com essa leveza.

Enquanto caminhávamos, tudo parecia se dissolver em água: o homem apressado segurando a pasta encharcada; a senhora equilibrando sacolas e guarda-chuva; crianças rindo e pulando nas poças. Cada um lidava com a chuvarada à sua maneira. E eu? Arrastava meus chinelos escorregadios e tentava não pensar no desconforto da roupa grudando na pele.

Quando faltavam poucos metros até o portão da escola, meu pé afundou em uma poça disfarçada de buraco. O chinelo ficou para trás. Minha filha gargalhou alto ao me ver equilibrando-me em uma perna só: “Mãe-saci!” Eu ri também, mas por dentro uma irritação crescente. A sombrinha escorria água pelo meu rosto como se quisesse apagar os últimos resquícios de paciência.

Estranho… Nada de carros em fila dupla ou crianças uniformizadas correndo pela calçada em frente à escola. O portão estava fechado, trancado com cadeado. Apertei a campainha e espiei pelas grades enquanto o porteiro se aproximava devagar.

— Não viu o aviso no grupo da escola? — apontou para o celular. — Cancelaram as aulas por causa da previsão de tempestade.

Fiquei ali parada, sem saber se ria ou gritava. As mensagens no grupo… Sempre as mesmas: mães exibindo as conquistas dos filhos como troféus. Qualquer coisa importante se perdia no meio daquela enxurrada de palavras.

Minha filha olhou para mim por baixo do capuz vermelho, as sobrancelhas erguidas em triunfo silencioso: “Eu sabia que ia dar errado.” Um sorrisinho maroto escapou no canto da boca.

Suspirei fundo e engoli o palavrão que subia pela garganta. Um táxi passou direto por nós, levantando uma onda que nos fez recuar para o canto da calçada. A água fria e lamacenta escorreu pelas minhas pernas enquanto eu tentava decidir o que fazer a seguir.

— Pelo menos não tem dever de casa hoje — ela disse, com aquela sabedoria
infantil que só as crianças têm.

Fitei-a por um instante, e algo dentro de mim desmoronou — não a frustração, nem o cansaço, mas talvez aquele peso invisível que carregamos sem perceber. Dei uma gargalhada. O som se perdeu no barulho da chuva. Toquei-lhe a ponta do nariz gelado com meu dedo enrugado. Ela sorriu, como se soubesse que eu havia aprendido algo que ela já sabia há tempos.

— Vamos? — perguntei.

Ela apertou minha mão com força. Atravessamos a rua em direção à lanchonete da esquina. O chinelo perdido ficou para trás, junto com a escola vazia. Só a chuva incessante insistia em cair sobre nós.