Te quero aqui…
…com cor
…com gosto
…com cheiro
…quente
…com tua pele
….tua barba
….teu som.
Não quero imaginar, cansei de esperar, palavras ao vento não me convencem mais.
Pega teu medo, tuas decepções antigas, tuas dores de amor, traz tudo pra mim num pacote com laço vermelho que vou passar num triturador, vou fazer teus medos perderem a alma, o corpo, a forma, como fez a bomba atômica em Hiroshima.
Vou consumir tudo, destruir, queimar com o ácido mais eficiente contra o medo de amar – o amor!
Só vem!
ABSOLVIÇÃO
Seguiu para o Largo do Paissandu. Entrou na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos em busca de conforto para os pés e para a alma. Se acomodou defronte ao altar, sob o olhar piedoso dos santos.Tentou recitar uma oração, mas a memória lhe faltava.
O pároco se aproximou:
— Neste horário não há missas, mas, se quiser, estou disposto a receber sua confissão.
— Não tenho o que contar.
— Muitos dizem o mesmo. Se examinar sua consciência, encontrará pecados e omissões. Não há quem pise nesta terra, exceto o filho de Deus, que não cometa delitos diante dos olhos do Senhor.
— Perdi minhas memórias.
O padre encarou a resposta com o mesmo olhar dos santos.
— Quem lhe roubou as lembranças?
— Dizem que um trauma do qual juram que protagonizei.
— Sinto muito! O que posso fazer por você?
— Busco perdão para o crime que não sei se cometi. Como posso alcançá-lo?
— O perdão advém do arrependimento.
— Eu me arrependo de toda a submissão que explidiu em grave delito, pelo menos é o que dizem. Isso basta?
— A culpa, seja ela qual for, não é daquele que é submetido mas de quem submete sem piedade.
— Há penitências a cumprir?
— Viver já é o bastante. — Indulgente, o pároco ungiu sua consciência, absolvendo-a dos pecados que jamais saberia ter cometido.
Ligação
Falei pouco com você.
Talvez nossa distância tenha começado pela própria distância. Ou terá sido pela pouca comunicação?
Talvez você imaginasse que o amor era suficiente e as falas acessórias não eram necessárias. Talvez você esperasse ansiosamente os fins de semana, quando em geral nos encontrávamos. Talvez você esperasse minha iniciativa. E eu esperava a sua.
Vontades desencontradas.
Eu me punha a imaginar se naquele instante você sentia minha falta. Por que não ligava ou escrevia uma carta? Dúvidas! Dúvidas. Meus dias eram entorpecidos por elas. Eu tentava, então, me contentar com os ligeiros encontros.
Queria conhecer suas histórias, saber dos sonhos, medos, traquinagens, da coragem. Vi sua força tão exuberante. Ela me achou, contagiou. A falta das ligações ainda me aflige. Mas, sinto o sorriso do encontro abraçar meus anseios, trazer sossego.
Entendi que você continua lá, mesmo sem ligar, mesmo sem falar.
Sobre a dificuldade de flertar
Que frase é gatilho para um comportamento feminino amoroso?
Os homens acreditam que há uma palavra mágica, um abracadabra. Eu conheço algumas frases que ajudam a lubrificar as juntas gastas das relações.
“Eu lavo a louça, pode ir fazer as unhas!”
“Deixa que eu pego as crianças na escola”
“Quer uma massagem nos pés?”
“Eu te amo do jeito que você é.” (Minha favorita!)
Depois de alguns anos de relacionamento, ouvir essas frases dá um calor na alma que me faz ter certeza de que todas as minhas escolhas foram certas. (Esqueçam a massagem no pé, essa sou eu que peço. Mas se ele ofertar, não recuso, e sempre tem beijo apaixonado depois.)
E no início do relacionamento, quais palavras mágicas fariam uma mulher se derreter por um parceiro/a amoroso (ou pelo menos querer conhecê-lo)?
Minha irmã (culpada por muitos dos meus vícios) me apresentou os realities shows de relacionamento: casamento às cegas, casamento à indiana, solteiros e desesperados na Coreia, e por aí vai. Parece que em todo canto do mundo alguém procura pelo amor e dá com os burros n’agua.
Todos esses programas tem algo em comum. Para que as pessoas se apaixonem, fazem experiências imersivas. Adivinha a primeira coisa que perdem (além da vergonha da exposição)? O celular.
Não vou demonizar meu gadjet favorito. No entanto, não posso deixar de notar que o celular nos distrai facilmente de quem está a nossa frente. Quando me pergunto o que houve nessas gerações um tiquinho mais novas que eu, que não conseguem se relacionar amorosamente com outrem, uma lâmpada aparece no cérebro e eu digo para mim mesma que “não pode ser isso”. Será?
Conversando com um amigo psicólogo, ele me diz que faltam as habilidades sociais para tal. Ligo um alerta! Habilidade se treina, não é? Sou habilitada a dirigir, habilitada a desenhar, habilmente consigo decorar um poema. Onde está faltando o treinamento social, a dita habilidade?
Eu tenho uma teoria, sem nenhuma base científica, óbvio. Ela se fundamenta nas histórias que escuto com atenção. E o que as pessoas me contam, revela muito sobre elas.
Há um medo que suplanta o desejo, que se sobrepõe a toda e qualquer habilidade que a pessoa desenvolva: o medo da rejeição. Ser a segunda opção, ou a última escolha, fere nossos egos frágeis.
Tomadas por esse sentimento, montam seus sistemas de detecção de ameaças, que é tipo o controle da Casa Branca para não deixar os inimigos passarem (mas não era pra ser parceiro/a amoroso?). Com seus soldados a postos, o rosto enrijecido pela seriedade que o momento do confronto evoca, afastam qualquer intruso antes mesmo de saber o que essa pessoa traria para suas vidas.
Tem solução para isso? Tem. Implica em baixar a guarda e acreditar, numa época em que parecemos cada vez mais plastificados, pasteurizados, filtrados por luz e cores falsas, etc e tal. Acreditar implica em confiar, e a gente tem tantas provas que as pessoas que confiam se dão mal, não é? Nem sempre! Mas, se você está no time dos incrédulos, tente o próximo parágrafo.
Essa é mais fácil do que parece, não necessariamente vai te trazer a pessoa amada, mas te ajudará a treinar aquela habilidade social que anda em falta. Meu conselho? Faça um esporte coletivo.
Esportes coletivos nos transformam em seres sociais. Colaborar com um grupo, fazer parte de algo que é maior que você, te ensina a ganhar e a perder, ou a palavra dos últimos anos, resiliência. O esporte te faz ter foco no momento presente, tira sua cara dessa tela colorida e de imagens de pessoas perfeitas e bronzeadas artificialmente para parecer que estão num pôr do sol nas Bahamas. Implica em confiar, em última instância – ou em primeira.
Esporte coletivo e flerte tem os mesmos disparadores de humor, diz meu amigo psicólogo, só que sem o sexo! Vale futebol, vôlei, basquete, tênis de mesa ou carteado. Você começa com o esporte, que te traz um bem enorme para a saúde, e depois estica esse momento para um suco, uma cerveja ou churrasco. Esses encontros são um bálsamo nos dias corridos.
Em resumo, é você, sem o celular, confiando em outras pessoas, vivendo no presente.
Pra finalizar, uma frase que meu amigo compartilhou um dia numa roda de conversa que levo comigo: escolha o seu desconforto. Fazer exercício é dolorido, ser sedentário também. Flertar é desconfortável, estar sozinho também.
Bora treinar?
meus anos
faltava um dia
para festejar
meus anos
magnitude do céu
em chamas
declina inverno
mergulho gole
refaço trajeto
adentro o caos
fermento astrologia
alívio acomete
finda inferno
viro avesso
cego passado
visto traje novo
sento solitária
garganta fecha
acendo vela
aguardo contração
embriago noite
adormeço feto
na aurora
vento sopra
carne fresca
renascimento
Estrada da vida
Andei
Andei em busca de alguém e de mim
Corri rapidamente para não ter que te encarar novamente
Ainda te amei,mesmo que não pudesse
Caminhei na estrada chamada Destino
E te reencontrei.
Dei apenas um tempo
Peguei a mochila velha guardada no canto do quarto. Preenchi com roupas de verão, mas também não esqueci o velho casaco de lã. Precisava me preparar para todas as possibilidades. Chuva forte, sol, garoa, o que fosse. Queria sentir a plenitude de uma nova cidade, com sua natureza, seu patrimônio, sua gente, e até mesmo suas ruas esburacadas.
Precisava de um tempo.
De toda a rotina de trabalho, família, e até mesmo amizades. Aqueles velhos problemas que você até já se acostumou, mas um dia ficam chatos, sabe?
Precisava ressignificar.
Peguei um camisa que ganhei do ex-marido, um relógio de um ex-namorado, e uma calça de um ex-amor. Quem sabe, combinando um pouco de tudo, com um leve batom e pó compacto, e me esparramando pela nova cidade, eu não abriria nova portas?
Explodindo de emoções no peito, guardei minha chave na bolsa e minha passagem na carteira. E me lembrei daquela música do Cartola.
“Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar. Rir para não chorar”.
Eram apenas 4 da manhã, mas eu já estava a mil. O ônibus partiria às seis. Respirei, fiz meditação. Tomei um copo de café, e uma água com açúcar para contrabalançar.
E pensei em quantas coisas vivi. E quantas superei.
Aquela partida repentina que jamais esperei. Aquela promessa não cumprida. E aquela mentira deslavada.
Apenas alguns exemplos de mágoas que o tempo alivia, porém não cura.
Mas feliz também por todas as alegrias vividas, que não foram poucas, parti. Não sem antes, mandar para você esta mensagem.
“Já volto. Dei apenas um tempo”.
Quantas vezes podemos nos apaixonar?
Amor é um só. É possível amar mais de uma vez? Paixão é diferente de amor?
Prometi pra mim mesmo(a) que nunca mais vou me apaixonar.
Ah! Quantas dúvidas nos assolam quando o assunto é relacionamento amoroso.
Não se iludam que, como psicanalista, eu tenha todas as respostas. Muito pelo contrário, talvez eu não tenha nenhuma resposta, mas alguns pontos podemos discutir e refletir sobre, na intenção de aliviar corações angustiados.
Vamos por etapas.
Amor é um só?
Não.
É possível amar mais de uma vez?
Claro!
Paixão é diferente de amor?
A paixão deve estar contida no amor. O contrário, nem sempre.
É comum sentir desejo por outra pessoa, mesmo estando comprometido(a)?
Sim. A diferença é se você resolve levar adiante, ou não.
Muitos de nós já ouvimos falar que só se ama uma vez, que desejar outra pessoa é pecado, que paixão passa…blá blá blá…
Em primeiro lugar, estar com uma pessoa é opção e não obrigação. Como seres desejantes e faltantes que somos, sabemos que, mesmo inconscientemente, ao fazer uma opção estamos deixando de lado bilhões de outras possibilidades.
Sinta-se privilegiado(a) quando alguém disser que te ama, que te escolheu. Tenho certeza de que não foi uma escolha fácil, diante de tantas possibilidades.
Ao dizer: eu te amo, quero estar contigo, sinto saudade, você é importante pra mim; temos implícitas escolhas, análises, sentimentos, abdicações, antigas paixões, possíveis amores.
O fato de escolher alguém para estar do nosso lado, caminhar junto, ser nossa opção neste mundo repleto de possibilidades não impede que desejemos outros corpos, outras vidas, outros modos de viver. O que importa são os combinados, o que acordamos com o outro, o que é aceitável dentro de um relacionamento e o que optamos fazer quando o desejo por outra pessoa surge.
Neste momento, precisamos ter maturidade, jogar limpo, falar a verdade. Mentira, falsidade, traição é sinal de imaturidade, falta de autoconhecimento, insegurança, traumas e, principalmente, falta de responsabilidade afetiva.
O que é isso?
Responsabilidade afetiva é oferecer ao outro apenas aquilo que você pode cumprir, é dizer a verdade, é respeitar o que foi combinado entre ambos.
Outro ponto é que não controlamos quando vamos nos apaixonar ou não. Não é uma escolha, acontece. Podemos até negar, sublimar, recalcar, mas estará dentro de nós e se manifestará mais cedo ou mais tarde.
Então, gente, amamos mais de uma vez, amamos mais de uma pessoa ao mesmo tempo, na paixão não precisa haver amor – o contrário não é verdadeiro – estar com alguém é uma escolha e isso não impede que desejemos outros corpos.
Acalma teu coração, escolhe alguém que te faz bem, tenha responsabilidade afetiva e viva feliz enquanto durar.
Parece simples e é simples. Nomeie teus sentimentos. A partir daí um mundo se descortina e, muitas vezes, aquilo que pensamos que é deixa de ser.
Estou sempre aqui se precisar.
Um abraço!
Cláudia Nagau
Os outros
Eles me distraíram pelo caminho
Me fizeram querer ser como eles
Me fizeram aprender sua língua
Arrancando-me a minha
Rezar sua reza e amar seu Deus
Abandonando os meus
Celebrar seus costumes e sua cultura
Suas conquistas e vitórias
Fizeram-me acreditar em sua história
Ensinaram-me a ter vergonha de ser quem sou
Apagaram meu passado para que eu não pudesse olhar para trás
Disseram-me que o mal habitava meu corpo
Minha cor
Meus cabelos
Minha dança
Minha fala
Minha alma
Eles arrancaram-me tudo
Ensinaram-me a ter medo
Queimaram minhas raízes
Feriram meus ancestrais
Calaram meu povo com sua língua estrangeira
Violenta e sangrenta
Tomaram nossa terra, nosso lar
Violaram nossos corpos
Mataram nossas famílias
Derramaram e beberam nosso sangue
Alimentaram-se de nossa dor
Eles me distraíram pelo caminho
Um dia quis ser como eles
Mas tudo o que encontrei era vazio e escuro
Perdi-me de mim e não me encontrei ali
Onde não havia ancestrais para honrar
Caminho para trilhar
História e lutas das quais pudesse me orgulhar
Imagina só como deve doer
Ser parte de uma árvore cujas raízes se alimentam de dor e sangue
Que são erva daninha que explora, violenta e mata
E carregar por tantas vidas
O preço do sofrimento causado, de todo sangue derramado
Não. Eu não quero ser como eles.
Eu não quero carregar a escuridão que carregam.
Eu não quero dormir e acordar ouvindo gritos de dor e agonia.
Eu não quero pertencer às árvores das folhas de ouro
Com raízes e troncos
Banhados de sangue e crueldade.
Eu quero ser comunhão com minha natureza
Honrar minha terra e meus irmãos
Quero caminhar de mãos dadas e curar-me junto do meu povo
Quero encontrar minhas raízes e ter para onde voltar
Eu quero ser semente que renasce em amor mesmo depois das queimadas
Eu não quero ser como eles
E escolho morrer dez vidas no açoite A matar no açoite um irmão.
Texto de @pensaescrevefala
Próxima vida
Em meio ao céu estrelado, enxergo caminhos bonitos e longos que me levam a pensar em como a vida planeja as coisas e pessoas para momentos oportunos. Acredito que alguns encontros são, na verdade, reencontros de vidas passadas. Quem já foi amigo, pode se tornar um amor e assim por diante.
Devo seguir pelo caminho que parece certo e incerto ao mesmo tempo. Penso que a minha estadia atual neste mundo seja uma experiência para um grande amor em uma próxima vida, algumas preferências me dizem isso sempre que coloco minha cabeça no travesseiro todas as noites e durmo profundamente, ainda que sinta uma saudade inexplicada.
Espero que quando chegar a hora, eu posso estar preparada para o que me espera e reencontre quem me ame profundamente, numa próxima vida.
