Eu alimentava um desejo secreto. Desses que a gente não fala pra ninguém. Não porque fosse proibido, mas porque acreditava ser inalcançável. Um sonho de produzir artes. E quando digo artes, me refiro a tudo o que o homem transforma e torna belo por meio de seus sentimentos e habilidades. E por belo me refiro, também, ao que é desconfortável e muitas vezes rejeitado.
Foi assim quando vi pela primeira vez uma colagem. A possibilidade de trabalhar com partes de um todo formando outra arte que não a original me fascinou. Os recortes de tamanhos e formas variadas. As texturas, as imagens ora impactantes, ora ternas, ora afetuosas, reconstruções de realidades. Fiquei encantada e fui capturada pela arte.
E, por me julgar incapaz, nunca imaginei que pudesse fazer algo parecido. Achava a técnica sofisticada, complexa, imaginava que exigia um conhecimento que eu sabia não ter. E pior, não sabia onde poderia aprender.
Aí entra o caos da pandemia. Me vi entre o desespero de sobreviver e proteger minha família e a loucura de acalmar a mente e o espírito. O horizonte de águas estranhas que apareceu na minha janela foi a única alternativa possível para me arriscar em um mundo que pouco conhecia, mas com certeza estranho para o momento.
Não pensei muito. Me atirei na literatura e nas colagens. Como todo começo, tudo é muito sofrível, desnutrido, sem forma definida. Apenas a voracidade de aprender, de treinar, até que o corpo sofra. Por causa da má postura e dos movimentos repetitivos no tablet para fazer as colagens, ganhei uma tendinite. Dias de dor, remédios e, o pior de tudo, a distância do que no momento me mantinha lúcida.
Depois do temporal o sol ressurge e as águas turvas ficam calmas e translúcidas. É hora de novos mergulhos. Mas agora, com cuidados e equipamentos adequados. E, assim, as colagens foram nascendo, assim como os textos. O pensamento mais organizado. O gosto estético apurado. Me dou conta de que sou capaz de capaz de fazer arte.
E penso que o julgamento alheio é o que nos limita. É da natureza do ser humano fazer julgamentos? Não! Assim como tudo na vida, somos treinados para isso. Julgamos a partir de nossos padrões estéticos pré-estabelecidos. E, no caso das artes plásticas, sobre o que é ou não é belo.
Contudo, como boa libriana que sou, o belo está mais relacionado à estética e à harmonia do que ao conceito de beleza em si. E só quando entendemos isso temos a ousadia de nos lançar em aventuras. Mas é preciso referências, porque ninguém que chegou até aqui, está descobrindo o fogo ou inventando a roda.
É preciso, com justiça, reverenciar quem chegou antes de nós. A metáfora dos anões em ombros de gigantes, atribuída a Bernardo de Chartres, no século XII, expressa: “Descobrimos a verdade a partir das descobertas anteriores”. Posteriormente, Isaac Newton popularizou a metáfora com a frase: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”
Portanto, tenho orgulho de minhas referências e mais do que isso, respeito-as. A apropriação indevida é grave. Reinvente, reescreva, refaça, mas com a consciência que o gigante que lhe acolhe é generoso, e grande o suficiente para esmagar a mediocridade.