Seja apaixonada por você

Acho que o amor é o combustível para tudo na vida, e não estou falando do amor romântico. Sabe o que te faz bem, o que voce saber fazer melhor e aonde quer chegar com um desejo, isso é se amar.

Em um mundo que vive em telas e que a comparação está em voga, se autoconhecer e se desenvolver em prol de si é o maior ato de amor próprio. Às vezes será doloroso, às vezes será satisfatório, essas sensações são parte de um processo de longo prazo para você se tornar sua melhor versão.

Eu estou nesse processo, você também pode estar e procurar por si no meio de uma multidão de padrões, é um ato de amor. E vamos seguir assim, nos amando em primeiro lugar.

A árvore (in)visível

Ela estava ali 

plena

Enfeitada e colorida 

luzes e bolas

Afinal

Natal

Época em que os corações mais esperançosos 

Aguardam 

Dádivas e retribuição 

Aquela inspiração 

Que enche a vida

De um ar meio mágico 

A árvore

Impossível não ver!?

Impossível não sentir!?

Eis que 

para triste espanto

(ao menos meu)

Ela passa aos olhos da indiferença 

Nem olhares 

Nem olhar

A árvore 

Ela somente existe

Como mero elemento 

Mais um

Menos um

Tanto faz

Inevitável pensar 

Ela e eu

Parecidas

Naquele lugar

Apesar de estarmos 

Não somos

Chovia intensamente lá fora

Chovia intensamente lá fora. Eu queria fazer um fluxo de pensamento. Mas meu cérebro estava travado, empacado, ao lado do Caminho do Artista, atrás de um copo com um cigarro velho. Na TV baixinho notícias de desgraças diversas, toda uma lista de “bondades” e bobagens que o jornalismo nos oferece cotidianamente. Uma bala perdida em uma comunidade, o lançamento de um prêmio qualquer ou o resultado do PIB.

Desço as escadas, pego um café, e tomo um chá. Preciso despertar, mas ao mesmo tempo manter a calma. Ser escritor é difícil, mas é a única coisa que penso que sei fazer. Vejo um sutiã atrás da almofada em cima do sofá e me lembro de roupa acumulada pra lavar. Um vento frio atravessa a janela. O gato mia agudamente, esqueci a ração desde ontem. Esqueci também de pensar no último amor perdido, o que por si só já é um alívio, se não me lembrasse agora.

Pego o celular, confiro mensagens, nada de novo. Tento voltar para o computador, não está fácil. Abro a janela para ventilar as ideias, os respingos caem, desisto. Fico no escuro do fim da tarde. Tento pegar o Caminho, mas é chato tanta meta. A Tv me distrai com mais uma morte violenta, me lembro da do meu pai na porta de casa em um dia de jogo de futebol. Torcidas desorganizadas.

O estômago ronca, hora da fome. Sinto medo de eu ser apenas um relógio biológico, minha pretensa sabedoria escorrendo nada criativa. Seria um corpo robótico?

Enfim, como, bebo, renovo o cigarro do copo. Me lembro de velhos amigos. Da família distante. Do meu diagnóstico. Não quero sofrer, preciso ser prática. Ponho então a roupa na máquina. Faço exercícios físicos, limpo uma mancha de extrato de tomate na tolha de mesa. E me ponho inesperadamente a escrever sobre tudo isso, em uma espécie de exercício de páginas matinais, só que no fim da tarde. O texto é confuso, como se vomitado por uma criança com verminose. Será que é isso mesmo que me faz feliz?

São muitas perguntas sem respostas. Enquanto isso, escuto A Tempestade, do Legião Urbana. Tudo em uma hora.

E chovia intensamente lá fora.

Microcrônicas de capital #1

Sempre no mesmo horário, no mesmo ponto de ônibus, mas o dela passa antes do meu. Tem quinze dias acordei feliz e sorri dizendo “Bom dia!”. Ela só fechou a cara e abaixou a cabeça. Fiquei na minha. O ônibus dela passou, ela entrou. Depois passou o meu.

E nunca mais ela esteve naquele ponto de ônibus. Não sabia que um “bom dia” causava transtorno, desculpe!

Adeus,23. Olá,24.

Eu sempre fui adepta a aniversários, de gostar de receber e guardar as mensagens deste dia, de esperar por uma festa surpresa e de ser um dia especial que espero ansiosamente.

Quando completei 23 anos, eu era uma pessoa muito diferente do que sou hoje, acredito que a cada aniversário, um novo ano pessoal se inicia e aos quase 24, vejo que eu precisava tomar decisões para estar firme por aqui.

Eu sempre vivi numa bolha, você pode considerar isso até bom porém essa proteção me custou memórias, conhecimentos e habilidades essenciais que eu poderia ter gastado menos tempo ao conquistá-las.

Aprendi na marra e por estar buscando novos horizontes que a solitude pode ser uma amiga importante, que a minha zona de conforto não é necessariamente confortável, que eu entendi depois de muito tempo quem eu sou,verdadeiramente.

Aquela que ama Advérbios quando escreve,

Aquela com muitos sonhos no papel,

A que está sempre aprendendo mais,

A que sente saudade de quem a mais amava,

Uma vida preciosa que começou ontem, vive o hoje e planeja um grandioso amanhã.

Uma história que ainda está em andamento, 23.

Seja muito bem-vindo, 24.

Deixa o novo entrar

Um sentimento de inadequação sempre me invadia quando um relacionamento não dava certo. No que será que eu errei? Poderia ter feito diferente? O que ele não gostou em mim?

Com o tempo, aprendi que o meu gostar não era suficiente para garantir o gostar do outro, que podemos nos pintar de ouro e continuaremos não fazendo diferença na vida de quem não nos quer.

Aprendi que não preciso mudar para agradar ninguém e que o sim é muito claro. Se existe um pingo de dúvida, é não.

Tudo que já nos marcou a ferro quente, nos deixou marcas e cicatrizes também nos ensinou algo. Pessoas também nos ensinam o que não queremos para nós.

Que os finais e as marcas deixadas por todos que nos constituíram como pessoa sirvam de ponte para o recomeço, para o novo atravessar e chegar.

A palavra de ordem é a impermanência. Nada é para sempre, quanto mais tentamos aprisionar nossa felicidade num instante mais ela escapa pelos vãos dos nossos dedos. O que não depende de nós não nos pertence e a atenção plena nos ensina a viver o agora.

Por tudo isso, se o novo bater a sua porta, deixe entrar. Receba com um sorriso, o coração grato, a alma leve. Esquece o que te fizeram no passado, não generalize comportamentos, não coloque as pessoas no mesmo balaio, não finja ser o que não é para agradar e não pense no amanhã, não crie expectativas; principalmente, em relação ao que não depende de você.

Se de alguma maneira o novo te gerar insegurança, ansiedade, dúvidas, desconforto e sentimento de não pertencimento…aguce seus instintos, amplie o campo de visão e esteja alerta se isso não seria um NÃO.

Lembrando, o sim é muito claro e se realmente for ele batendo em tua porta, abra, sem medo, sem reticências e estenda o capacho: SE FOR PRO BEM, PODE ENTRAR E FICAR!

Salve, Mulher

Salve, Mulher

Rainha de onde quiser

Vida de corres, no amor ou no ódio

No ponto de ônibus

Na fila da van

Esperando o uber

Salve

É por você que choram

Bocas famintas em casa

Para você suplicam o peito, o carinho, a cama na hora do sono

Nos conte uma história, faça um cafuné, dê cá sua companhia

Os seus olhos cansados

as pálpebras manchadas dos dias de trabalho e das noites insones

se voltem a nós com doçura

E depois de muitos anos

De dedicado trabalho à família

Entregue seus filhos ao mundo

Seu trabalho cumprido

Aval concedido

– Que deixem o ninho vazio!

– Que deixem o coração partido!

Voltem a ti, com amor e frutos

E a promessa de um tempo feliz

Amém


Crédito da imagem: Dall-e

SOBRE GIGANTES, DESEJOS E SONHOS NOSSOS DE CADA DIA

Eu alimentava um desejo secreto. Desses que a gente não fala pra ninguém. Não porque fosse proibido, mas porque acreditava ser inalcançável. Um sonho de produzir artes. E quando digo artes, me refiro a tudo o que o homem transforma e torna belo por meio de seus sentimentos e habilidades. E por belo me refiro, também, ao que é desconfortável e muitas vezes rejeitado.

Foi assim quando vi pela primeira vez uma colagem. A possibilidade de trabalhar com partes de um todo formando outra arte que não a original me fascinou. Os recortes de tamanhos e formas variadas. As texturas, as imagens ora impactantes, ora ternas, ora afetuosas, reconstruções de realidades. Fiquei encantada e fui capturada pela arte.

E, por me julgar incapaz, nunca imaginei que pudesse fazer algo parecido. Achava a técnica sofisticada, complexa, imaginava que exigia um conhecimento que eu sabia não ter. E pior, não sabia onde poderia aprender.

Aí entra o caos da pandemia. Me vi entre o desespero de sobreviver e proteger minha família e a loucura de acalmar a mente e o espírito. O horizonte de águas estranhas que apareceu na minha janela foi a única alternativa possível para me arriscar em um mundo que pouco conhecia, mas com certeza estranho para o momento.

Não pensei muito. Me atirei na literatura e nas colagens. Como todo começo, tudo é muito sofrível, desnutrido, sem forma definida. Apenas a voracidade de aprender, de treinar, até que o corpo sofra. Por causa da má postura e dos movimentos repetitivos no tablet para fazer as colagens, ganhei uma tendinite. Dias de dor, remédios e, o pior de tudo, a distância do que no momento me mantinha lúcida.

 Depois do temporal o sol ressurge e as águas turvas ficam calmas e translúcidas. É hora de novos mergulhos. Mas agora, com cuidados e equipamentos adequados. E, assim, as colagens foram nascendo, assim como os textos. O pensamento mais organizado. O gosto estético apurado. Me dou conta de que sou capaz de capaz de fazer arte.

E penso que o julgamento alheio é o que nos limita. É da natureza do ser humano fazer julgamentos? Não! Assim como tudo na vida, somos treinados para isso. Julgamos a partir de nossos padrões estéticos pré-estabelecidos. E, no caso das artes plásticas, sobre o que é ou não é belo.

Contudo, como boa libriana que sou, o belo está mais relacionado à estética e à harmonia do que ao conceito de beleza em si. E só quando entendemos isso temos a ousadia de nos lançar em aventuras. Mas é preciso referências, porque ninguém que chegou até aqui, está descobrindo o fogo ou inventando a roda.

É preciso, com justiça, reverenciar quem chegou antes de nós. A metáfora dos anões em ombros de gigantes, atribuída a Bernardo de Chartres, no século XII, expressa: “Descobrimos a verdade a partir das descobertas anteriores”. Posteriormente, Isaac Newton popularizou a metáfora com a frase: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”

Portanto, tenho orgulho de minhas referências e mais do que isso, respeito-as. A apropriação indevida é grave. Reinvente, reescreva, refaça, mas com a consciência que o gigante que lhe acolhe é generoso, e grande o suficiente para esmagar a mediocridade.

Sou rio e mar

A gaveta entreaberta mostrou a camisola encharcada
E que fora displicentemente guardada
Para um novo uso
O toque gelado eriçou a dor que fingia descansar
Mas que em um átimo retornou à cena para explicações
Reiterada e exaustivamente
Em monólogo
Na ilusão de que ao se explicar
lhe fosse permitido partir
 
Os olhos cerrados ardem
E perguntam se sou só água salgada
E de que poço sem fim ela jorra sem descanso
Discreta ou escancaradamente
Em rio de rímel que percorre os sulcos da face
Do pescoço e do colo
E que se represam na camisola saturada de mim
 
Retiro-a e seu cheiro de maresia inunda o quarto
E despida de quem pareço ser
Encaro-me no espelho, aconselhando-o


Devagar, junto meus pedaços empapados de água e sal
Deito-os na cama fria
E sinto-os, pouco a pouco, escorrer pelos lençóis, tapete e chão
Deslizando pela sala, descendo as escadas, lavando pés estranhos
Alcançando a rua, escurecendo o asfalto
E chegando ao mar
Para o rio que sou, enfim, nele desaguar

Três vezes amor

Em teus versos me perco

Tua beleza, meu espanto

Se digo que vou te amar

Na verdade, já amo

***

Tô pra receber um dinheiro

Vou te comprar a tv

E um casaco maneiro

Pra nunca mais te perder

Mas se a grana faltar

Prometo me esforçar

Pra compensar em versos

Poema não vai faltar

***

Miro alvo

Acerto cupido

Laço amor

Devoro

Tensiono carne

Sinto êxtase

Descanso corpóreo

Descarrego adrenalina

Durmo em plumas

Acordo sintomático

Dores e flores

Corpo e alma

Tenho febre

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