Meu novo ano

Meu novo ano, pensei seria fácil

passar pano bento

lavar os pés dos teus prévios

O  que jurei no velho que se despede

e te recebe com fogos, esquece.

nem chegou a cair umbigo pois

dévio destino ocorreu-me

Lembra do mantra

do arrebento do mar Chuá … Chuá…?

Repeti-o até a língua cansar

e perder de velhos os dentes

O mar nada levou

para as sereias afundarem:

nem a mão que tampa minha boca

nem  a Tal dele transformou-se cinza

o sapato ainda é o mesmo

os calos também ainda me ardem

a caminho das praças de pires nas mãos

Meu novo ano, minhas macambúzias

insurreições não foram solitárias e até deixaram

pálidos muitos cínicos de cheios bolsos

cujos ócios muito rendem

Tombou o valo nas batalhas

me agouram tal mortalha de vivo

mas encontrei na palha do tempo

meu Novo Ano

o mapa do Tesouro de Sierra Madre

já gastei por conta, que a vida é sopro

Na estrada

Na estrada

Eu estou na estrada

Na estrada da vida

Catando cacos pelo caminho

Olhando o céu azul

Pensando no medo do fim

Eu estou na estrada

Correndo a mil

Vendo-a passar em segundos

Quase tocando o ar

Me atirando nesse mar

De areia e pedra

Me misturando, camuflando

Sendo um pouco dela…

Eu estou na estrada

Na varanda da minha alma

Sentindo, vibrando, admirando o horizonte

Na estrada

Na estrada

No percurso como em um filme

Em um trajeto firme

Maravilhando-me com o sol brilhante

Que queima, arrasa a terra

Tentando alcançar inútil o infinito

Que me foge arredio

Ainda assim, eu me arrisco nessa estrada

Ah, eu me arrisco na estrada!

Faz um tempo

Faz um tempo que saí de cena
Acordo a hora que quero
Durmo quando o sono vem
Troquei o dia pela noite
Já dormi amanhecendo
Acordei anoitecendo
Vivi fora do tempo das pessoas comuns
Habitei o incomum
Ouvi a chuva cair
Pintei de madrugada
Estudei às 3 da manhã
Fui ao mercado meia-noite
Vi as luzes dos apartamentos se apagando
E me perguntei quem também estava ali
Desperto em um horário proibitivo
Em uma segunda-feira útil
Para as pessoas comuns…
Já eu
incomum
Exilada de tempos modernos
Afastada
Por assim dizer
Por assim me definirem
Voltei no tempo
Voltei a ser quem há muito tempo não era
Livre

Mara não quer mais se definir pela profissão que tem e nem pelo que faz para pagar os boletos. Quer romper os limites das prisões sem grades e se pergunta como. Autora do livro Os menores bichos do Brasil: https://clubedeautores.com.br/livro/os-menores-bichos-do-brasil-2

Eu mergulho

Em um mar de amor

De fé

De dor

De poesia

Não me basto

Não me completo

Não me findo

Eu mergulho

Afundo fundo

Em minhas águas profundas e serenas

Me busco

Sou enseada

Lagoa

Piscina natural

Rio manso, remanso

E me lavo, me limpo, me levo

Navego

sem fim

Deixo a correnteza agir

Já cansei de fugir

Eu mergulho

Em um oceano de mim

Obra

sob expressão introspectiva

permaneço imóvel

sentimento enigmático

destaca rosto

capto mensagem oculta

sfumare

busco riso

me perco multidão

recrio Da Vinci

na Epístola aos Coríntios

examino-nos

este é o meu corpo

nosso templo em eucaristia

devora a Última Ceia

bebo cálice

ascensão

corpo sagrado

comungo

sobreposta no círculo

redescubro proporções

simetria perfeita

algoritmo exato

calculo razão áurea

renasce obra vitruviana

com vértices grafo

carne pecado

concebo A Virgem

contrasto luz

oculto o visível

pertinente adormeço

acordo o sonho

desilusão

Resenha do livro “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola” (autora Maya Angelou)

Deparei-me com esse livro na Bienal do Livro de Fortaleza, em 2022, e o adquiri junto com outras obras. Até então eu nada sabia sobre sua autora, a americana Maya Angelou. Mas fui capturada pelo título avassalador que me fisgou com a promessa de me explicar como alguém privado de liberdade enxergaria o mundo e, de certa forma, floresceria nele . De lá para cá, o nome de Maya surgiu para mim em diversos momentos, inclusive com outro livro dela indicado em um clube de leitura do qual eu fazia parte. Ainda antes de concluir a leitura de “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, descobri a importância da autora não só na literatura mas também em outras áreas da arte e, também, no ativismo em defesa de inúmeras causas importantes.

O livro demorou um pouco a me cativar após iniciada a leitura. A obra é autobiográfica e confesso que o relato da infância de Maya, a princípio, não me chamou tanta atenção, com sua narrativa detalhada do mundo em que ela vivia enquanto criança, boa parte dele em Stamps, no Arkansas, na companhia de um irmão, da avó paterna e de um tio deficiente. Minha avidez por entender a mensagem que o título do livro me instigava talvez tenha me atrapalhado nessa primeira parte da leitura, onde a tônica era a de uma criação rígida por parte de uma avó muito religiosa, austera e calejada pela segregação racial americana.

Alguns elementos são muito marcantes na narrativa de Maya. Sem dúvida que o racismo é um dos temas mais recorrentes e impactantes, não só na vida dela mas de toda sua comunidade e entorno, ditando os códigos de conduta que levam a muitas das ações narradas no livro e que nos fazem saltar os olhos para tanta injustiça e desigualdade. Da infância de Maya, impossível não se sensibilizar com duas situações, dentre várias, extremamente comoventes. Uma deles é quando a menina precisa de atendimento odontológico urgente e não consegue, em uma primeira tentativa, porque o dentista branco se nega “a colocar a mão dentro da boca de um preto”, ainda que a família de Maya pudesse pagar pelo serviço. E a outra, a do abuso sexual sofrido por ela na infância. Esta narrativa de Maya nos traz um nó na garganta porque relata algo vil e inconcebível e é narrado como se fosse a menina Maya (e não a escritora adulta) a contar, com toda a ingenuidade, incompreensão, medo e culpa que se espera de uma criança.

Fiquei extremamente impactada pela narrativa da Maya adolescente, com sua construção do ser mulher e a busca por seu lugar no mundo, driblando o caos, o preconceito, a escassez de oportunidades e a insegurança familiar. Cada linha lida é um deleite. Não só pelos relatos em si e o tanto de aprendizado que se pode tirar deles mas também pela escrita inteligente e verdadeira, que passeia entre o poético e a crueza. Um dos prefácios da edição que li traz Djamila Ribeiro dizendo que a obra “merece ser lida em doses”, sorvida aos poucos. Precisei pausar minha leitura em certos momentos, descansando o livro aberto sobre mim, longe dos olhos, para de fato tentar enxergar o que me era mostrado. Uma pena a narrativa acabar antes de conhecermos a Maya adulta. Contudo, o prólogo fornecido pelo livro nos dá a dimensão do porquê dela ter se tornado a mulher importante que foi e de como ela floresceu e cantou na gaiola para, depois, libertar-se dela e ajudar outros cativos no mesmo caminho.

A Vida Sempre Acha um Caminho (ou a Flor de Jericó)

Certamente você já se deparou com calçadas com rachaduras de onde saíam umas ramas verdes de plantinhas teimosas que não sucumbiram à rigidez do concreto e irromperam bravamente. A vida em potencial estava ali, encarcerada e confinada mas viva e resistindo. Na primeira brecha, ela desabrochou.

Uma vez, deparei-me com uma frase em um livro de hidráulica que lançava mão de uma citação que dizia que a água sempre acharia um caminho, por isso um livro inteiro dedicado aos movimentos dela e em como a engenharia deveria lidar com ela para tirar todos os proveitos que esse líquido precioso, porém voluntarioso, poderia nos oferecer. Essa frase sempre ficou em minha mente e já faz um tempo em que eu resolvi extrapolá-la, a partir do exemplo das plantinhas que citei há pouco (mas não só delas), de que, na verdade, a vida (e não só a água) sempre achará um caminho.

E para além dos exemplos da natureza, que são inúmeros, o que mais me chama atenção mesmo para o imperativo da vida e de como ela pode resistir a situações extremas, são as experiências da vida humana e de sua insistência em florescer, mesmo quando o cenário parece tenebroso.

Os mistérios do mundo são imensos e eu nem de longe me arriscaria a chegar perto da chave que abre a porta das respostas, caso tivesse esse mapa do tesouro. Mas fico observando, do meu cantinho limitado e deveras protegido, os exemplos que me instigam a questionar o porquê de tanta destruição e irracionalidade no mesmo mundo onde brotam exemplos de resistência e esperança. Mais um paradoxo dessa existência permeada deles.

A despeito das guerras que permeiam esse ano que se despede, sejam conflitos armados em outros territórios ou a nossa guerra da desigualdade e violência diária das cidades brasileiras, é sobre a nossa capacidade de superar as adversidades e de ter esperança que me instiga a refletir. São os voluntários espalhados pelo mundo e que se doam pela vida do próximo (e fazem diferença de verdade nessas vidas) que me mostram que um desejado feliz 2024 pode ser possível, dentro das limitações que as próprias decisões da humanidade impõem.

Os abrigos de pessoas e animais, os voluntários que se voltam para as pessoas em situação de rua ou para os encarcerados, os ativistas pelos direitos das mulheres, dos idosos e das pessoas com deficiência, os que lutam pela população LGBTQIAPN+, os que se dedicam à educação transformadora e inclusiva, os que executam políticas públicas de verdade e mais um tanto de gente que se envolve com causas importantes (às vezes com alcance não tão extenso e visível mas igualmente relevante) e que ajudam a vida a florescer e frutificam toda a potência guardada e ainda não desperta é que me trazem o alento de que um novo (e melhor) 2024 pode ser semeado, regado e colhido.

E se a vida pode renascer coletivamente, o que não dizer da nossa experiência também como indivíduos? No nosso caminhar e nas descobertas que a estrada nos traz para que aprendamos a passar por essa trilha da melhor forma? Às vezes a lição que vem com as adversidades é dura e difícil de ser digerida mas nela pode haver uma brecha, tal qual a da calçada de concreto, para irrompermos em viço e potência.

Conversando uma vez sobre o assunto dessa crônica, uma pessoa me falou na Flor de Jericó, uma planta que teria a capacidade de guardar nela a chama da vida mesmo em situações bem extremas, inclusive parecendo que havia sucumbido, mas que, ao menor sinal de água e sol, ressurgiria em plenitude, como se renascesse. Gosto de nos imaginar como essa flor e pensar em nossa resiliência e insistência, apesar de nossas limitações e fragilidades.

Ainda que a dinâmica do mundo tenha seu ritmo próprio e, muitas vezes, alheio aos nossos desejos, nossa fortaleza pode estar em reconhecer nossa limitação e, mesmo assim, optar por seguir em frente e florescer.  Cientes também de nossa efemeridade apesar da força (outro paradoxo), nos permitir brilhar o mais intensamente possível. Mia Couto disse, em seu livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, que “a vida é fogo e nós somos breves incandescências”. Então, sejamos Flores de Jericó, na medida em que podemos, e no tempo em que nos for permitido “incandescer” por aqui.

Lista de fim de ano

Muitos textos dessa época começam com a mesma frase: então é Natal, o que você fez? E de repente, chuá, deságua sobre você um delicioso sentimento de culpa de não ter cumprido a famigerada lista de fim de ano.

Existe até um meme em que a pessoa corta todos os zeros que teria a mais na poupança, e troca o destino final da viagem por outro mais acessível. Eu faço planos grandiosos, mas aprendi a seguir a máxima do maridão: o reino de Deus chega sem avisar!

Calma, não é uma crônica religiosa, nem um texto de autoajuda, coisa na qual não sou especialista. Estou aqui como cúmplice de cada um de vocês na criação das listas de ano novo e, para tal, que tal utilizar algumas regras do mundo dos negócios a nossa vida pessoal? Enganei todo mundo, autoajuda, aí vamos nós!

Antes de tudo, pense no que você gostaria de ter feito esse ano e não teve tempo ou dinheiro para fazer. Era algo que realmente causaria grande impacto na sua vida? Se é relevante, algo que você sabe que faria total diferença, mantenha em vista por enquanto.

Meu exemplo: eu gostaria de fazer uma viagem de trinta dias pela Ásia com a família. Podem chamar de dorameira, eu aceito, mas o sonho veio dos meus filhos, da leitura dos mangás e animes, dos jogos e filmes. Um sonho deles que me fez mergulhar há dois anos na cultura oriental. É relevante? Sim. Pronto, item mantido.

Na lista de desejos tudo deve ser bem específico Eu quero ir a três países, aproximadamente 10 dias em cada um, durante a florada das cerejeiras. Quando colocar seu desejo no papel, escreva tudo relacionado a ele. Se você quer entrar numa academia, veja quais as academias mais se adequariam a sua rotina. Tem que ser perto de casa ou do trabalho? Horário das 6h às 22h, ou poderia ser um studio com hora marcada? Zumba na praça? Musculação, pilates, ambos? Pensar em detalhes nos faz entender melhor o que queremos.

Uma questão que mudou a forma como lido com meus compromissos é a data, o prazo, o tempo no qual vou realizar minha atividade. Uma amiga chama para um café. Se você for carioca como eu, vai responder: vamo marcá! E acabou-se aí o compromisso. Um ano depois vocês se reencontram e falam de novo sobre o café e, rufem os tambores, o vamo marcá ressurge feito fênix. Uma boa lista se concretiza no tempo e espaço. Pergunta para a amiga: quer tomar um café quarta-feira às 17h comigo? Aquele que fica em (coloque aqui o nome) ou “lá em casa!” e se prepare para recebê-la. Marcado? Sim. Se surgir um imprevisto, você tem um compromisso anterior, e não vai desmarcar a menos que o imprevisto seja realmente importante. Se remarcar, tenha a nova data para oferecer.

Nem todo compromisso envolve dinheiro, mas sempre envolve uma parcela do tempo e, diz o ditado, tempo é dinheiro. Para mim, tempo é vida. E vida vale mais que todo dinheiro que a gente possa ganhar. Mas não ignoro a importância dele no mundo em que vivemos. De volta ao meu sonho: não deu para concretizar esse ano porque o dinheiro não era suficiente. Já disse que sonho grande? Sonhos que envolvem muitos recursos financeiros podem ser mais difíceis de sair do papel, ou necessitar de um planejamento que leve mais de um ano. Entrar para academia mais badalada do bairro pode ser caro para suas finanças nesse momento, mas se juntar com amigos para ir à academia ao ar livre na praça mais próxima é de graça. Tem vergonha? Afaste o sofá na sala e tá aí, sua academia particular.

Se o item da sua lista for realmente relevante para você, deixe que sua família saiba disso. Não para usarem como instrumento de cobrança, mas para te servirem de apoio, especialmente quando as coisas parecerem desandar bem na sua frente. A gente cansa de tentar. Tem trabalho, transporte, relações, estudo, cachorro, gato e papagaio para cuidar, casa para limpar, comida para fazer, aniversário para comparecer. Ter uma lista (além de tudo isso) para dar conta me deixa cansada em pensamento. Não faça uma lista de coisas impossíveis, que não cabem na sua vida. Faça uma lista que você possa alcançar porque seu cérebro vai dar pulos de alegria quando você ticar um item.

Essas dicas eu tirei de uma sigla em inglês chamada SMART, que em português significa mais ou menos isso: específico, mensurável, atingível, relevante e temporal. Conheci num evento SEBRAE de formação de empreendedores e depois passei a aplicar no trabalho. É bom demais. Como disse o instrutor, uma meta Smart, para fazer sentido de verdade, tem que vir do coração.

Então, é natal, e o que eu fiz da minha lista de 2023? Muitas coisas, muitas mesmo. Todas? Não. Alguns dos meus itens dependiam de outros contextos e de outras pessoas para se realizarem. A academia tem sido uma batalha, assim como a perda de peso, mas ambas são relevantes para mim e já estão em primeiro lugar na lista de 2024. Sobre o reino de Deus chegar sem avisar, é um lembrete que a previsibilidade da vida não está em nossas mãos. Fazer lista é bom, ter projetos é bom, mas ter jogo de cintura para o inesperado é melhor ainda.

Feliz lista de realizações em 2024!

Microcrônicas de capital #2

Avenida comercial, tanto camelô e gente nas calçadas que fica difícil ver o chão: mais de um tropeçou no corpo até que alguém diagnosticasse “é o calor” associando o 36°C no termômetro do poste da esquina com o rubor e suor. Nessa certeza tratou logo de tirar-lhe o moletom.

No bolso: um cartão vale-passagem do ônibus, o crachá da empresa e um vidrinho de dipirona.