Reencontro

As vozes ecoam em uníssono
Harmoniosas e melódicas
A cantiga não é daqui
É de antes de mim, de nós

Elas se dão as mãos
E a energia que vem delas me preenche
Vibra em cada pelo eriçado do meu corpo
As saias coloridas dançam no ritmo da brisa fresca
e me convidam para nunca mais deixar de ser parte

Meus olhos descansam e me levam para outro lugar
Onde mulheres de outro tempo estão ao meu lado
Suas mãos repousam em minha cabeça
e delas saem raízes que me fincam ao solo fértil
Da minha cabeça brotam tronco, folhas
e muitas, muitas flores coloridas
que se erguem até onde não mais se consegue ver
Percebo que todo esse emaranhado de vida
prospera com a seiva que vem de todas elas

E das que virão

A cantiga cessa
E essa imensa paz também finca suas raízes
Fortes e potentes para reiniciarem um novo ciclo
Abro os olhos, sorrio, levanto e sigo

Meu Canto

Meu canto

Meu canto é (des) encanto
É samba de despedida,
dor de partida
Meu canto é um lamento,
Santo

Meu canto
É lágrima que cai
Tristeza que se esvai
É diáspora
Sangue

Meu canto
É meu corpo em versos
É luto e luta
Resistência e persistência
É mulher em essência

Meu canto
É música cheia de mágoa
Um choro
Um coro
Um pranto

Meu canto
Tem gosto de saudade
E entoo com vaidade
Porque vem do poeta
Com alma que grita,
MINHA VERDADE

Meu Canto é o quinto livro da jornalista, escritora e atriz Carolina Pessôa, sendo o primeiro de poesias. À venda em: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/meu-canto/

Preferido

A solitude é minha amiga de anos, nós nos damos bem e a vida segue nesse ritmo. Começando um novo ciclo, aconteceu algo que meu coração já estava desacostumado, uma nova paixão. E dessa vez, mútua.

Minha linguagem do amor se classifica em palavras de afirmação, toque físico e presentes. Ainda não havia encontrado um ser que se encaixasse tão bem nesses quesitos, mas há um tempo descobri você. Minha paixão avassaladora.

Talvez este texto nunca chegue até você. Talvez nós nunca vamos ter a coragem de nos assumir um para o outro, mesmo que nossos olhares nos entreguem por inteiro. Isso é bom e ruim, mas você ainda não tem ideia que escrevo sobre esta droga lícita que é a paixão por você.

Ao longo da vida de escritora, registrei todas as pequenas e grandes paixões. Revisito meus “eus” do passado e compreendo o que cada pessoa significou ou ainda significa, normalmente mantemos contato. A amizade é uma das minhas paixões também, mantenho quem eu amo por perto mesmo que não fale muito.

Então, sinta-se lisonjeado. Você é meu preferido.

Por enquanto.

Prazer, Elaine!

Encerrei mais uma aula de fim de semana inteiro. Experimentei estar novamente com um grupo de colegas de profissão, discutindo a aplicação dos nossos conhecimentos. Alguns colegas muito jovens, professores muitas vezes mais jovens que eu. Tudo muito dinâmico, muito intenso, muito.

A aula anterior tinha deixado uma marca dolorida na pele, um hematoma de confusão entre vida real e vida aparente digital. Aquilo que vendemos nas redes não pode ser o mesmo que vendemos nas salas, eu imagino. Quem se apresenta para a gente é um ser humano. Colegas de profissão. Somos iguais, não?

A experiência de viver na era das redes sociais é, para mim, a mesma de viver de aparências no século passado. As fotos mais bonitas, o pescoço esticado e sem rugas, a família sorridente de dentes clareados, os cabelos no lugar, a roupa de grife comprada no brechó ou herdada do parente abastado.

Criamos personas para nos representar. Sou Elaine, prazer! Esposa amorosa, filhos bem-educados, casa limpa e arrumada. Sou Elaine, prazer! Profissional responsável, arquiteta há 15 anos, servidora pública, cumpridora dos meus deveres. Sou Elaine, prazer! Escritora de livros infantis, de contos e crônicas voltados ao ativismo, pró mulheres, diversidade, questões raciais e direitos iguais. Sou Elaine, prazer! Filha, irmã, amiga, estudiosa, comprometida, briguenta, opiniosa. Não, não sinta prazer em me conhecer assim.

Não sou nenhuma delas, não importa onde tenhamos nos encontrado. Sou todas. E não sou perfeita como nesse retrato que pintei, nem sempre o que digo e escrevo vai te agradar.

Cansei de só conhecer você por aquilo que você me apresenta. Cansei de me apresentar somente como uma dessas vertentes de desenho bem delineado e retificado. As redes sociais cansam demais. Ver hoje um professor se emocionar e se abrir com a gente, desde o salário às dores de não conseguir pagar o aluguel, desde o sucesso de estar num lugar de alto padrão até seus projetos mais lindos, me deu um panorama muito grande da pessoa que ele é. E eu gostaria de conhecer a todos assim. Como humanos, integrais. Estar com ele foi como passar cânfora no hematoma.

Somos iguais na nossa humanidade. E sinto que houve uma conexão profunda de todos os colegas presentes nesse fim de semana. Baixamos nossas máscaras e nos mostramos reais, sem ressalvas. Experimentei uma oportunidade de me sentir acolhida, de enxergar além da rede, da tela, da aparência.

Na próxima aula de fim de semana inteiro, juro, estarei mais aberta às falas de cada um, vou escutar com atenção, e quando me apresentar, bem, você já me conhece…

Asfalto quente cor de sangue

O vento quente balançava os cabelos de Elisa. A caixa em suas costas era pesada e inclinava-a para trás, exigindo que ela se agarrasse com mais força à cintura de João.

Ainda tinham muitas entregas até o dia de trabalho dele findar. Como ela
entraria em seu plantão à noite, no hospital, aquele tempo sobre duas rodas era o único em que poderiam ficar juntos naquele domingo de sol.                

Faltavam três meses para o casamento deles e o dinheiro extra daquele domingo seria valioso para ajudar a concluir as compras para a casa que estavam prestes a alugar. Não haveria festa para familiares e amigos. A festa deles seria a dois, na casa nova, na primeira noite de casados. Elisa já tinha planejado tudo: um jantar romântico, o quarto arrumado, o vestido mais bonito dela que, depois, daria lugar à camisola toda de renda feita pela avó, mãe e irmãs. Três gerações costurando o novo momento dela. Não precisavam de outra festa.

Com Elisa na garupa de João, conseguiam ser mais rápidos e fazer mais entregas. Era uma parceria de sucesso. A mãe de João tinha preparado o almoço dos dois que estava na caixa de isopor, junto com as entregas dos clientes. O cardápio de hoje era o prato preferido dela. A sogra a conhecia tão bem! Lembrou-se da primeira vez em que a viu, quando foi fazer um trabalho de escola na casa do colega de classe, junto com outros amigos. Alguns anos dividindo as carteiras escolares da mesma sala e a paixão entre eles foi crescendo junto com o envelhecer dos pais, da escola e deles próprios.

Pararam para que ela descesse e entregasse o almoço para um senhor de meia-idade que já os esperava na porta. Ele agradeceu gentilmente e estranhou a entrega feita por um casal. Perguntou por que eles faziam entrega em dupla e ela resumiu que eram noivos, precisavam do dinheiro para casar e, juntos, ganhavam mais e ainda podiam desfrutar da companhia um do outro.

O cliente ofereceu uma gorjeta e pegou o celular para fazer um pix. Elisa rapidamente informou a chave pix dela e o cliente se pôs a fazer a transferência. Ele errou algumas vezes o número que ela fornecera e, querendo se desculpar, brincou, dizendo: “Parece até que hoje eu tô com TDAH”. Elisa sabia o que era TDAH. Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Após a conclusão da transferência, ela agradeceu e se despediu, sem nem conferir qual o valor depositado. Subiu na moto
e o capacete começou a incomodá-la, parecendo sufocá-la. Mas não podia
dispensá-lo naquele momento. As lágrimas escorriam timidamente e João,
conduzindo sua moto rumo à outra entrega, nem percebeu. TDAH, para Elisa, não era brincadeira. Era sua condição permanente, diagnosticada por uma psiquiatra que ela conheceu no hospital e que ofereceu gratuitamente as consultas que resultaram no diagnóstico, depois que ouviu um relato sofrido de Elisa ao fim de um plantão.

O diagnóstico era recente e Elisa ainda estava se adaptando à medicação. Mas já sentia uma diferença considerável. Conseguia se planejar melhor para realizar suas tarefas de rotina, se concentrava mais facilmente quando precisava ler algo, não se sentia mais tão exaurida ao sair do trabalho e estava sonhando em cursar uma faculdade, assim que pudesse abrir mão do dinheiro dos plantões noturnos. Todos os dias ela agradecia a Deus pela oportunidade que a psiquiatra havia lhe dado.

A médica continuava a acompanhá-la gratuitamente, pois havia se compadecido da história de vida de Elisa, repleta de situações de vergonha e sentimento de desencaixe num mundo diferente do que ela sentia internamente. Mas o diagnóstico não foi indolor e nem redentor de imediato.

Demorou um pouco até que Elisa entendesse que muito possivelmente o TDAH era a origem do seu desconforto e que as sensações que a acompanhavam ao longo da vida não eram decorrentes apenas de uma fase da vida, como os pais pensaram, mas sim resultado do transtorno que ela tinha herdado de algum familiar. Saber do porquê dela ser como era estava paulatinamente dando o conforto de entender melhor a si mesma. Mas a dor não deixa de existir porque foi explicada. Então o comentário do cliente fez sangrar a ferida em cicatrização lenta.

O rímel que tinha passado nos olhos pela manhã estava se desmanchando. Ela tinha a preocupação de não passar rímel quando sabia que iria se emocionar. Foi assim no jantar de noivado dela, no casamento da irmã, quando o avô faleceu… Mas não havia se programado para chorar naquele domingo de entregas sem fim. “Dane-se o rímel, o choro, e esse controle que não é meu”, pensou. Tratou de acalmar o coração e se concentrar na paisagem que corria tão apressada quanto os desejos do coração dela.

Repentinamente, em meio ao sol torrencial da cidade praiana, uma chuva vermelha se fez sobre eles. Grossas gotas pintaram os capacetes, as roupas, os cabelos. Apenas a caixa de isopor, que já era vermelha, desdenhou da torrente. Foi tudo tão rápido que, ainda sem entender, pararam no semáforo, também vermelho, que estava há poucos metros de onde foram alvejados pelas gotas. Elisa tratou de verificar se não estavam feridos. Seria sangue deles a espirrar em ambos?

Seria sangue de outra pessoa? Seria sangue, afinal? Por segundos, o pânico tomou conta deles, apesar de não estarem sentindo nada que indicasse que estivessem feridos. Mas de onde teria surgido essa “chuva”? Um motoqueiro parou do lado deles e apontou para algo jogado no meio do asfalto, há alguns metros atrás. Em um primeiro momento, Elisa não conseguiu raciocinar nada lógico que vinculasse o que via no asfalto ao que havia acabado de acontecer.

“É tomate! É molho de tomate!”, gritou o colega motoqueiro. E mostrou novamente a caixa de molho de tomate jogada não se sabe por quem no meio do asfalto. Foi o próprio motoqueiro que, em um descuido, passou a moto por cima da caixa, amassando-a e explodindo o conteúdo dela sobre eles. O motoqueiro companheiro de entregas também estava tão pintado de molho de tomate quanto eles, iguais as pizzas que entregavam pela cidade. Todos caíram na risada.

Elisa e João encontraram um bom lugar à sombra para estacionar e verificarem o quanto estavam sujos e se poderiam prosseguir daquela forma. Nesse momento, Elisa checou o celular e viu a notificação da gorjeta que o cliente anterior havia creditado em sua conta. Foi de mil reais! Elisa não acreditou no que via e a primeira coisa que pensou foi que o senhor devia ter se equivocado e colocado alguns zeros a mais na transferência. Mas a observação contida no crédito dizia: “O valor da gorjeta é mil reais mesmo. Me emocionei com a história de vocês. Boa sorte”!

Elisa mostrou a João e contou a conversa com o cliente, inclusive a
menção ao TDAH. “Incrível como o ser humano ainda me surpreende”, pensou Elisa.

Eles se abraçaram e choraram de gratidão. Com aquela gorjeta poderiam encerrar as entregas depois da última encomenda que já estava com eles. Subiram na moto e antes de acelerarem, Elisa disse para João:- Da próxima
vez, ao invés de me preocupar se devo ou não usar rímel, é melhor me preocupar em sair com um guarda-chuvas para molho de tomate! Aceleraram e o barulho do motor se misturou às gargalhadas deles. E partiram rumo à próxima entrega.

Microcrônicas de capital #6

Como eram muitas pessoas para receber marmitas já descemos os três do carro, um pegou os agasalhos para distribuir. Juliana me mandou olhar para trás: vinham policiais. Pior: polícia montada! Ai, meu Deus! Vão jogar os cavalos sobre as barracas, se não jogarem sobre as pessoas!

– Quem é a pessoa responsável pela distribuição? Uma voz de quem está acostumado a gritar.

Corajosa pero no mucho, só levantei e mão sem falar nada. Vontade de ligar para minha mãe…

– Tem uma moça grávida na viela atrás do supermercado. Leva lá para ela.

– Sim, senhor.

E foram embora nos cavalos sobre o canteiro central da avenida.

Memória

Jogar todas aquelas coisas fora foi como uma despedida a conta gotas. Tinha de tudo naquele quartinho, desde roupas velhas e fotos até documentos pessoais e um telefone antigo.

Era com dor que fazia aquilo, mas precisava, pois se mudaria para um apartamento muito menor. Não dava mesmo para levar tudo.

Sabia que sua querida avó, onde quer que estivesse, não o culparia pela decisão.

Que o mais importante era guardar na memória a lembrança dos momentos bons que passaram juntos.

E que não foram poucos…

Terminou de juntar tudo e se despediu das caixas.

Uma despedida dolorosa, mas infinitamente menor que perdê-la. Ela que foi seu grande amor, sua maior referência.

(Verdadeiros amores permanecem, para além do tempo e do desgaste de objetos e pequenas paixões, perdidos na imensidão de nossos passageiros pesares)

Mães no Poder

Cheguei no evento em cima da hora. A dificuldade em conseguir um táxi na hora mais movimentada da manhã fez com que eu não chegasse com a antecedência que eu queria. Apesar de estar um pouco preocupada com o horário, estava feliz em contemplar as paisagens daquela cidade cheia de significado para mim e na qual eu tinha pousado na véspera. 

Minha primeira ida à Brasília foi a trabalho, há mais de quinze anos. Depois de várias idas e vindas para participar de grupos de trabalho onde aprendi muito e conheci muita gente bacana, morei na cidade por um ano, quando assumi um novo cargo na mesma empresa.

No caminho do aeroporto para o hotel, lembrei de mim mesma há dez anos atrás, quando embarquei em Brasília para assumir aquele novo cargo. Naquela ocasião, ia morar e desbravar o cerrado como residente. Agora, voltava em outro momento profissional e pessoal bem distinto. Agradeci por tudo que vivi ali e que me conduziu, de certa forma, a esse novo reencontro.

Ofegante, cheguei ao local do evento. Desci as escadas com minha perna direita dolorida mas mantendo a pose de quem estava plena com seu salto elegante. Ao fim do dia, a escolha por essa “elegância” me cobraria seu preço. Todas as escolhas têm um preço.

Tentei passar despercebida, pois me considerava atrasada e me sentei na primeira cadeira vazia que vi. Alguns colegas ainda chegaram depois de mim. O evento demorou um pouquinho para começar e pude ir descansando da correria e entrando no modo observadora-reflexiva. O evento era destinado aos gestores técnicos (no caso, engenheiros ou arquitetos). Com um representante para cada uma de nossas Unidades no Brasil.

À medida que ia me ambientando e olhando o entorno, buscando achar algum rosto conhecido ou identificar alguns colegas com quem converso apenas de forma online, apropriei-me que a maioria esmagadora era de homens entre meus pares. A constatação não foi novidade e era até esperada, o que não a torna menos incômoda.

Quando eu era criança, eu me achava uma menina invencível. E achava que com muito esforço eu poderia chegar onde quisesse. E tambem tinha certeza de que quando eu fosse adulta o mundo seria mais justo para as mulheres. Passados muitos anos, vejo que algumas coisas mudaram, principalmente no discurso. Mas, na vida prática, ainda há muito que se caminhar.

Antigamente, eu me orgulhava em alcançar espaços predominantemente masculinos (como no curso de engenharia, por exemplo, ou quando ia jogar sinuca com meu pai nos bares em que ele frequentava), achando que eu era uma menina-mulher “especial” por isso, por ocupar esses lugares. Hoje, vejo que esse pensamento era fruto de uma cultura que eu tinha aprendido de que as mulheres não podiam mesmo ocupar certos lugares, e, por isso, estar neles era como se eu fosse melhor que as outras. Refletir sobre o que impede as mulheres de chegarem na linha de destino que desejam é uma das coisas que hoje mais me instiga.

Então já faz bastante tempo que troquei esse “orgulho” por inquietacao, ao ocupar esses espaços com presença predominantemente masculina. E não foi espanto também quando se formou a mesa de autoridades para abertura do evento. Ela era toda masculina. Toda.

Por que é tão difícil para as mulheres ocuparem determinados espaços? Cada vez mais, observo um movimento em que trabalhadoras preferem abrir mão de determinadas posições porque as condições muito frequentemente não são favoráveis para elas. Seja pela dificuldade de conciliar com a vida pessoal, com uma carga doméstica e do cuidado
comumente mais pesada para elas (isso já foi até tema de redação do Enem), seja porque as regras do jogo no ambiente corporativo colocam as coisas mais difíceis para elas, como seleções com bancas predominantemente masculinas ou necessidade de uma disponibilidade irrestrita, incluindo jornadas excessivas ou exigências difíceis de conciliar com a rotina familiar, como mudanças frequentes de cidade.

E quem perde com a falta de mulheres no “poder”? Todos. Os filhos, os companheiros e companheiras, os pais, os amigos, os colegas de trabalho, os líderes e liderados, as empresas, as cidades… Que deixam de contar com as habilidades, as ideias, a competência e a sensibilidade delas, tornando o mundo mais empático e inclusivo (e não só para elas). Ainda há muito machismo entre as próprias mulheres, quando dizem, por exemplo, que não gostam de chefes mulheres ou que algumas delas são mais duras que os chefes homens, talvez porque estas não tenham encontrado outra forma de se posicionarem em um mundo corporativo normalmente hostil para elas. Às vezes, a “casca dura” é uma defesa, tal qual o mandacaru do sertão.

Fui mãe aos 21 anos e trabalho “de carteira assinada” desde os 23, quando me formei.
Desde então, minha jornada profissional e todas as decisões que tomo quanto à minha carreira ponderam, antes, sobre quais os impactos dessas escolhas sobre minha família. Às vezes avanço, em outras recuo. Levar minha família em consideração nessas tomadas de decisão me limita mas não me poda. Porque o ser que sou também é formado pela porção da minha família em mim. E a gente é um ser único e integral, com todas as nossas parcelas constituintes. Em uma entrevista recente que fiz para uma banca (toda masculina) em um processo seletivo interno, para contornar o nervosismo habitual que ronda uma situação de avaliação, me imaginei entrando na sala com minhas filhas e algumas amigas incríveis que poderiam e/ou queriam também ter aquela oportunidade. Isso me deixou tranquila porque me lembrou o verdadeiro sentido de eu estar ali e reforçou a força delas em mim.

Mas voltemos ao evento. Gradativamente, fui me ambientando e trocando experiências com meus pares de ambos os gêneros. Nos dias seguintes aos da abertura, troquei o salto por outro calçado mais
condizente com minha condição física naquele momento (uma dor crônica na perna direita que vinha me acompanhando há algumas semanas e da qual eu não “parava” para olhar. Posteriormente, esse descuido também me cobraria seu preço).

Nos dias seguintes, libertei meu estilo pessoal que também inclui um visual feminino e colorido (mas não só ele). Porque tambem não quero ter a obrigação de usar o “dress code” masculino para parecer competente. Há quem pense o contrário de mim, indo ao encontro dos manuais de vestimenta do mundo corporativo que pregam que os batons e esmaltes vermelhos não são recomendáveis. Talvez porque entendem que ao ser “feminina demais”, aquela mulher seria frágil ou incapaz de decisões sérias, encarcerando a feminilidade desde sempre, como se ela fosse uma ameaça (a quem? a que?).

Recentemente, vi a entrevista de uma jornalista de destaque, na qual relatava que demorou a se “libertar” do estilo masculino de se vestir que a obrigavam quando iniciou no jornalismo. Era isso ou ela não teria as oportunidades que teve.

Uma vez, atendi um cliente que normalmente era atendido por um determinado engenheiro que, naquela ocasião, estava de férias. Quando ele me viu, ficou decepcionado e me perguntou se não tinha um engenheiro (homem) para atendê-lo. Qual não foi seu espanto quando eu lhe disse que eu seria a engenheira que o atenderia e que eu estava formalmente substituindo o colega ausente.

Apesar de saber que o nosso valor não está no reconhecimento alheio, é muito cansativo enfrentarmos tantas dificuldades como essas que já deveriam estar superadas há muito tempo. E quanto menos mulheres no poder, mais difícil será mudarmos esse status quo. E todos, todos perdem com isso.

Então, homens e mulheres que entendem que um mundo com equidade de gênero nos beneficia a todos, apoiem e ajudem de verdade (e não só no discurso) as colegas de trabalho de vocês que enfrentam tantas batalhas (fora e durante o trabalho) para estarem ao lado de vocês, lutando nas trincheiras.

Terça à noite

Que dor, que solidão!

Há quanto tempo não me sentia assim?

Hoje minh’alma tá doendo

Tá sangrando

Tá difícil

Uma distância

Um não caber

Um não pertencer

Doendo por não me achar digna

Dilacerando não me ver merecedora

Me colocando abaixo do pódio

Para aquém do último lugar

Doendo o querer e não poder

Querer gritar e não ter voz

Escrever e nada ser suficiente pra me traduzir

O estar e não parecer

Tá doendo ser invisível

Será que esse negócio de realização não é pra mim?

Será que ser cuidada não estava no meu manual de instruções?

Não acredito que precisarei me contentar com o céu que pinto

Mas ainda acredito ser feliz num infinito que ainda nem vislumbrei

Se eu estiver errada e tiver que me contentar com a pontinha azul do céu pela fresta da janela

Tira do meu peito o condor, ele merece além das minhas migalhas

E me contente com lápis e folha de papel…

Voltei para te escrever

Faz meses que não consigo escrever,  muitos projetos ficaram pelo meio do caminho e eu me lembrei de você, a pessoa que nunca leu algo que eu escrevi. Quando era mais nova, era mais fácil escrever sobre amores platônicos e pequenas paixões abruptas. Os dias têm corrido em uma velocidade superior ao que consigo acompanhar, mas meus passos se tornaram mais ágeis.

Eu não sou uma pessoa que desabafa sobre as dificuldades com qualquer pessoa ou para jogar esse fardo em alguém que amo. Por isso eu ainda escrevo. Para dizer o que sinto para desconhecidos que não me conhecem, mas que por coincidência podem se identificar com os causos da minha vida.

Acredito que seguir a vida se torna algo difícil quando seu ponto de partida ainda não está claro, muito menos o de chegada. Já me senti tão perdida no que fazer, nas minhas inseguranças e nos meus sonhos. Mas tenho procurado me achar. 

Preciso fazer isso por mim, pela vida que quero viver, pelos sonhos que nutro e objetivos que preciso alcançar. Não se trata de puro ego. Já desisti de muita coisa para me manter “estável”. No final, não foi suficiente.

Ainda tenho objetivos tão grandes quanto sonhos imensuráveis. 

E o dia de realizá-los está chegando. Vou voltar para te ver.