O amor deixou marcas em mim Tatuagens desenhadas em mim Como as lembranças que você deixou No fundo de minhas memórias E que preciso deixar ir Preciso deixar ir Sua presença pendurada naquela parede E nos álbuns que colecionávamos Teu cheiro até mesmo na poeira da casa E em tudo que sonhávamos construir Tudo isso que eu Preciso deixar ir Ah, preciso deixar ir Promessas quebradas E um porta-malas Com apenas o que restou São sobras materiais calculáveis E todo o resto Ah, todo o resto Preciso deixar ir Ah, eu preciso deixar
Já que tamanho cuidado é mero disfarce de exercício de poder vazio.
Improdutivo.
Elitista.
Segregador.
Velho.
Já escrevia em 1925 (!), Oswald de Andrade:
Pronominais Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro.
1925!!!
Há cem anos.
Direto do túnel do tempo.
Eu, que sempre me orgulhei do meu bom português
Na boa, tô mais com a juventude
que escreve tudo em minúsculas
Estão livres
A juventude…
Q td abrevia
Estão livres
A juventude, com seu dialeto próprio
Livres
Que os obsessivos compulsivos do português se roam
Saio pelas ruas nuas da cidade Ruas tristes, sem vida Onde estão as crianças correndo? Onde estão as matriarcas nas janelas vigiando as filhas das vizinhas e não suas filhas sempre castas?
Saio pelas ruas nuas do bairro Com meu cachorro a passear Só encontro carros E lixo em latões revirados Pelas calçadas espalhados
Corpos estirados Dormindo nas calçadas Ruas tristes Árvores cortadas Fios emaranhados Vidas emboladas Encolhidas em suas casas
Corro pelas ruas Todas nuas Sem gente
As árvores me falam Que o tempo passa devagar Mas passa para todos Para elas dias são como brisas Passam levemente Quando se dão conta Estão diferentes Uma hora frondosas E noutras estão nuas Como as ruas
Passeio pelas ruas Pensando Se alguém me observa Como eu observo as coisas Se alguém passa por essas ruas Com o mesmo sentimento De que estão nuas Despidas da vida Que outrora aqui passava
Ruas são as veias da cidade Entupidas de carros, vazias de amor
Onde estão os casais se beijando apoiados nos muros? Pulsam lentamente Reflexo de uma sociedade agonizante.
Salvemos as ruas. Ocupemos as ruas!
Precisamos vestir as ruas de alegria Preencher os espaços sociais Convivência de diferentes Ensinar crianças a pular amarelinha, Brincar de garrafão e pique bandeira. Bento-que-bento-é-o-frade!
Oito horas da noite em ponto. Toca a campainha do meu apartamento: 304. Meu coração bate acelerado. Sei que é você. Corro até a porta e vejo seu rosto pelo olho mágico. Inquieto e curioso, parece olhar para mim do lado de dentro. Recuo assustada. Uma mistura de sensações toma conta de mim no que parece ser uma eternidade, mas provavelmente é um milésimo de segundo. Ansiedade, medo, desejo, adrenalina. Tudo junto, ao mesmo tempo.
Nos conhecemos há pouco mais de um mês e tivemos dois rápidos encontros. Você precisou viajar para visitar a família e ficou algum tempo longe. Tentei contato contigo algumas vezes, mas as respostas foram monossilábicas. Fiquei frustrada. Saí com outros. Mas dentro do meu coração, um nome ecoava. O seu. E de noite perdida em sonhos, lembrava-me de cada parte de seu rosto. Até que fiquei sabendo de seu retorno e não resisti: te chamei. O que, para minha surpresa, gerou uma conversa e a marcação de um novo encontro.
A campainha toca outra vez. Não dá tempo para ficar relembrando nosso curto passado. O presente está atrás da porta e tem nome: Marcelo.
Um pântano viscoso permeado de armadilhas em espiral, que rodopiam incessantemente. Dança traiçoeira seduz e sorrateiramente envolve com seus ágeis tentáculos, até que seja impossível escapar desse embalo perturbador.
Lá o sol aparece de forma tímida, somente quando é insistentemente invocado. E sua aparição efêmera praticamente não interfere na composição daquele estado. As bússolas não funcionam. Na há aonde ir.
Sinos simbilam em um cadenciamento desconsertante. Ecoam velhas vozes escondidas que se agarram com suas mãos pegajosas. Dor latejante. Dor complexa. Gargalha sem pudor. Sem um fio de misericórdia. Atordoa, maltrata, cala.
Ah! Aguilhão afiado. O olhar se perdeu. Caiu. Submergiu. Medos semeados brotam trazendo silêncio e cinzas. Tão petulantes riem um riso febril, entorpecedor. Tecem teias invisíveis e traiçoeiras.
Um lamento antigo vagueia trôpego sem destino certo. Solitário, chora contido. Chora cabisbaixo, ansiando por um novo destino, por uma metamorfose.
É bem certo que as estações sempre mudam. Poderá um dia o pântano ser transmutado.
É o que eu sinto ao acordar todos os dias. Ao sair para o trabalho. Ao andar pela estrada. E ao respirar fundo.
Pode ser falta de exercício mas nunca será por não ter o que fazer, Será que eu ainda consigo respirar tranquilamente?
A vida é feita de escolhas, Mas será que estamos preparados para escolher o nosso trajeto? Será que uma decisão tem que ser a mesma pelo resto da vida?
Sou uma mente curiosa, Cansada, Enlouquecida E ansiosa.
Sou a alma procurando um abrigo Buscando a resposta Do que está por vir.
Luci acordou muito cedo naquela manhã, como na maioria dos dias. A claridade atravessava a cortina de voal e dançava sobre sua cama. Ainda sonolenta, ouviu o canto dos passarinhos lá fora e sorriu. Perguntou-se se estariam nas árvores ou em alguma gaiola dos vizinhos. Embora fosse maravilhoso ouvi-los, angustiava-se com a segunda alternativa. Como devia ser triste viver aprisionado. E, ainda assim, cantavam… Ouviu o barulho do chuveiro. Alguém acordara antes dela? O alarme do celular sobressaltou-a. Nem precisava mais dele para acordá-la. Estava aposentada e podia levantar quando quisesse. Além disso, a luz do sol e a cantoria dos bem-te-vis faziam o mesmo trabalho. Hábito de tantos anos acordando cedo para trabalhar. – Seis horas, vó? – Júlia saiu do banheiro, vestida em seu roupão de banho rosa, com o cabelo ainda pingando e o cheiro de shampoo de frutas vermelhas invadindo o quarto. – Sim. Seis horas em ponto. Chama logo a sua mãe. Vocês dormiram muito tarde ontem. Vão se atrasar. – Não se preocupe com a gente, vó! – ela se exasperou. – Para com essa mania de controlar tudo. Nem sei pra que põe alerta no celular. Pode voltar a dormir, dona Luci! Deveria mesmo dormir até mais tarde e deixá-las cuidarem da própria vida, pensou consigo mesma. Júlia tinha completado 15 anos. Estava mais independente, sem paciência. Ainda a enxergava como uma criança e se assustava com essas reações. – Olha como essa menina fala comigo – reclamou quando a filha enfiou a cabeça na porta de seu quarto, a caminho do banheiro. – Você nunca foi adolescente, mãe? – Suzana perguntou com a voz rouca de sono. Luci balançou a cabeça e respirou fundo. Imagina se ia admitir que tinha sido uma garota rebelde e respondona. Engoliu a repreensão que acabara de receber. Das duas. Depois dos sessenta, percebeu que o tratamento delas mudara um pouco. Talvez a culpa fosse sua por tratá-las como crianças. Sentada na cama, abriu o Kindle e continuou a leitura do romance que havia começado ontem. Estava apertada, mas não queria interditar o único banheiro do apartamento. Deu um tempo para as duas se arrumarem. Logo desistiu e fechou o livro. A mente ainda estava processando este novo papel na vida delas. Será que esta fase adolescente ia demorar muito a passar? Que saudade sentia de abraçar e cheirar a neta. Tão cheia de não-me-toques. De vez em quando, Júlia permitia algum contato físico. Aceitava cafuné, cheiro no pescoço e, às vezes, até a chamava para dormir agarradinha. Suzana estava sempre correndo, do trabalho para a faculdade. Elas tinham uma vida própria e já não precisavam tanto de sua assistência. Lembrou-se do dia em que Júlia engatinhou, depois ficou de pé e começou a andar, segurando nas coisas. Ligou para a filha e contou a proeza. Ainda não havia celulares que tirassem fotos e gravassem vídeos. Suzana chorou por ter perdido este momento tão especial, que fora reservado para a avó. Sempre tão focada no trabalho, desde cedo. Queria ter sido mais presente, mas a vida lhe exigia trabalhar para sustentar a casa. Foi Luci quem curtiu cada momento com Júlia. O primeiro dentinho. O primeiro tombo da bicicletinha. A ida para a escolinha. Ela já sabia, naquela época, que logo a neta iria crescer e a deixaria fora de sua vida. Ainda assim, não foi aquele tipo de avó à moda antiga. Não fazia bolos nem quitutes. Bolinhos de chuva, de vez em quando. Não contava histórias para dormir, mas adorava ficar deitada, ao lado dela, cantarolando baixinho, até adormecer. Às vezes, Júlia a chamava de mãe. Ela ficava repetindo: “É vovó!”. Os pensamentos foram interrompidos com os gritos de “Tiau, vó!”, “Tiau, mãe!”. – Deixa que eu fecho a porta! – gritou de volta – Boa aula, bom trabalho! Mãe e filha desceram as escadas apressadas. Atrasadas. Luci acompanhou, pela varanda do apartamento, quando entraram no carro. Hoje esqueceram de acenar para ela. Voltou para dentro. Finalmente tinha o banheiro só para si. O apartamento todo, aliás. Mas não ia voltar a dormir, como Julia recomendou. Como uma autêntica avó moderna, tinha seus compromissos e afazeres. Trocou-se rapidamente e saiu para a aula de Pilates perto de casa. No caminho de volta, passou no hortifrutti e trouxe frutas e legumes. Depois de uma chuveirada, tomou café coado puro e com panqueca de banana e aveia. Tinha alguns e-mails para responder e contas a pagar no aplicativo do banco. O restante da manhã trabalharia no blog sobre a vida após a meia idade. A expressão “no tempo de minha avó” soava estranha para ela, escreveu no rascunho de um novo post. Seu tempo era hoje! Tempo de aprender os segredos da tecnologia responsável, de despertar em sua neta a consciência ambiental, e outras coisas fundamentais neste mundo conectado. Depois de um tempo, interrompeu a escrita e foi preparar o almoço. Legumes assados na airfryer e macarrão ao alho. Enquanto cozinhava, ouvia uma entrevista no podcast sobre “avoternidade”. A voz da terapeuta ecoou no seu fone sem fio: “Só aprendemos a ser pais e mães depois que somos avós”. Uma faísca acendeu! Será que era porque, com os filhos crescidos, a gente se avaliava e percebia que dava para ter feito melhor?, perguntou-se. A terapeuta continuou a reflexão, e ela se flagrou concordando. “Parece que o carinho que não demos aos filhos quando eles cresceram fica estocado e implora para ser esgotado nos netos, antes que eles também alcem voo.” Será que estava exagerando na dose de amor? Suzana outro dia brincou: “Ser avó é melhor que ser mãe, né?” E ela, sem pestanejar, respondeu: “Milhões de vezes melhor!”. Sem peso na consciência! A experiência a fizera mais paciente, flexível, leve. Ser avó a reinventou! Não sabia se estava preparada para o dia em que a filha resolvesse ir embora. As duas vieram morar com ela desde o divórcio. Lembrou-se da discussão acalorada que antecedeu a mudança. Suzana expulsando o ex-marido, enquanto Júlia chorava, agarrada à boneca de pano. Sentiu-se impotente, dividida entre o desejo de protegê-las e a necessidade de deixá-las seguir os próprios caminhos. Ficava admirando-a se arrumar para sair, no final de semana. Escovava os longos cabelos castanhos, maquiava-se e colocava uns enormes brincos de argola. Ela era uma mulher ainda jovem e muito bonita. Logo encontraria um novo parceiro. Júlia já pensava em intercâmbios fora do Brasil e planejava morar sozinha, depois da faculdade. Daqui a pouco, a casa ficaria vazia. Sem som alto para mandar abaixar. Tudo arrumadinho no lugar. Cesto de roupa vazio. Fogão brilhando. Nenhuma toalha molhada sobre a cama. Nem tênis espalhados pelo chão. Silêncio. Nem vozes, nem gritos, nem risadas. Ninguém para cobrir durante a madrugada. A entrevistada no podcast divagava sobre a onda de idosos redescobrindo o mundo: “Mercado de trabalho, universidades, academias, cursos de arte… uma busca frenética para preencher o vazio, para provar que ainda existem, que a vida não acabou!”. Engoliu em seco essa constatação. Manter-se ocupada evitava a lembrança de que a solidão podia bater à porta a qualquer momento. Terminou o preparo do almoço e voltou ao rascunho. Aproveitou as ideias do podcast e as elucubrações de sua mente. Publicou o post no blog, compartilhou-o nas redes sociais e respondeu a alguns comentários. E lá se foi mais uma manhã de uma avó aposentada que não queria voltar para a cama e dormir até tarde…. A campainha tocou. Julia esqueceu a chave outra vez. Não precisava mais buscá-la na escola, como antes. Já andava de ônibus, sozinha, há algum tempo. Ela entrou em casa dançando, jogando os longos cabelos cacheados de um lado para o outro. Misturava passos de balé, sapateado e jazz, em uma coreografia surreal. Cantava, imitando Magal: “Vooó, eu te amo! Vooó, eu te amo, meu amor! Vooó, eu te amo! O meu sangue ferve por você!”. Por um momento, Luci teve a impressão de que ela era criança novamente. E seguiu atrás rebolando o melhor que conseguia. As dores na coluna se ressentiram, mas as ignorou. Júlia ligou a câmera do celular e filmou a avó grisalha, de short e camiseta, rodopiando pela sala. Uma cena hilária, mas gratificante. – Não vai postar isso, hein! – Caiu na gargalhada. Aquela alegria contagiante era a sua terapia. Não demorou muito tempo, porém, para a casa revelar a presença de uma adolescente. Havia vestígios de Júlia em todos os cantos. O All Star jogado no meio da sala, livros e cadernos esparramados na mesa da sala, o cheiro adocicado de seu perfume no ar. – Que bagunça, Júlia! Quanta roupa espalhada! Que inundação neste banheiro! Deixou a mochila no chão outra vez! Essa menina é fogo! – exclamava, em um misto de irritação e ternura. – Eu vou arrumar tudo depois! Relaxa, dona Luci! Não tem episódio novo da sua série, não? – o sorriso travesso escondia a irritação. Luci pensou nas palavras da terapeuta, no podcast. Não queria se tornar uma idosa sozinha e triste. Talvez até fosse um daqueles passarinhos que cantavam, pela manhã. Mas não os sozinhos nas gaiolas. Pensando melhor, deu-se conta de que a bagunça da neta era a presença viva e real dela em sua vida. Melhor do que casa vazia e arrumadinha. Júlia já estava crescida e não precisava tanto de ajuda, suspirou satisfeita. Podia conviver com sua bagunça temporária. Puxou o sofá retrátil da sala e se espichou para assistir ao novo episódio de Star Trek Discovery. Despreocupada, apertou o play do controle remoto. Mal iniciou o episódio, o grito veio lá do quarto: – Vó, tô cheia de fome! Fez a batata frita que eu pedi? Podia fazer um suco de morango, né? Cadê aquela minha camiseta azul? Vó, costura esta bermuda para mim? Nem tão crescida assim…
Sou Denise Gals, professora, escritora e mediadora de leitura. Passei da metade da vida há alguns anos. O tempo é passageiro. Não quero perder tempo com coisas que não me ajudem a ser alguém melhor. Não sou perfeita e não preciso ser.
Quero que a segunda metade de minha vida seja para aproveitar o máximo os momentos. Viver sem arrependimento, apreciar o que é importante e me concentrar nisso.
Estou aqui para escrever sobre saúde e bem-estar, estilo de vida, projetos de escrita e leitura, sobre como se redescobrir, experimentar e prosperar após os 60 anos.