Cuidado comigo. Porque eu não ando só. O bloco de notas do celular está aí para isso mesmo e cada gatilho eu transformo em ideia. Minha literatura é da revanche. Meu contragolpe é na forma de letras. Mexe comigo para você ver só. Te transformo em personagem e na digitação rápida do teclado você vai sofrer. De você vou rir, debochar, ironizar. sangrar. Aqui é meu reino, meu império, aqui quem manda sou eu. Entre uma frase e outra, darei gostosas gargalhadas. Porque é muito divertido poder dizer tudo sem censura. Você devia experimentar. Ah, mas você não pode, tadinho. Escrever é um dom, não é todo mundo que tem. Lamento. Acesso fechado para você. Sem saída. Você é meu prisioneiro, este aqui é seu labirinto e adivinhe quem é o Minotauro. O lado bom: você vai viver além do tempo, fixado neste texto. Suas ações serão conhecida por pelo menos uma dezena de pessoas. Meus leitores. Isso te assusta ou te consola? E quem sabe se viralizar? Tudo pode acontecer na internet. Sim, porque você vai para a web. E não adianta chamar os advogados. Seu nome eu vou mudar, mas se você ler, vai saber que é você, nesse seu papel ridículo e calhorda. Vou te expor com a sagacidade de quem sabe ler as pessoas como ninguém. Você, minha musa ou muso ao contrário. Todo errado. Que delícia é te pisotear e te ridicularizar nesta tela, simulacro do papel. Eu quero te ver sofrer, se sentir pequeno e inadequado. Quero gerar dor, tristeza, melancolia. MEDO. Quero te ver chorar e tremer, como eu tremi e chorei um dia. Esta é minha revanche!
Microcrônicas de capital #6
Como eram muitas pessoas para receber marmitas já descemos os três do carro, um pegou os agasalhos para distribuir. Juliana me mandou olhar para trás: vinham policiais. Pior: polícia montada! Ai, meu Deus! Vão jogar os cavalos sobre as barracas, se não jogarem sobre as pessoas!
– Quem é a pessoa responsável pela distribuição? Uma voz de quem está acostumado a gritar.
Corajosa pero no mucho, só levantei e mão sem falar nada. Vontade de ligar para minha mãe…
– Tem uma moça grávida na viela atrás do supermercado. Leva lá para ela.
– Sim, senhor.
E foram embora nos cavalos sobre o canteiro central da avenida.
Troquei
Troquei
Troquei a roupa do corpo depois de uma noite debaixo da chuva. E assisti nua a lua brilhando no céu de primavera.
Troquei a inocência de olhos inexperientes diante da vida. Nasceu uma nova mulher, madura e decidida.
Troquei o tempo de correria de um trabalho que me massacrava. Comecei a me dedicar a uma nova oportunidade.
Troquei a falta de perspectiva de uma cidade pequena. E migrei para a cidade grande para trilhar novo caminho.
Troquei de setor, de salário e de rotina. Troquei de lar, de amigos, de roupas e de perspectiva.
Troquei de sonhos, de objetivos, de metas.
Troquei de ares, de dores, de pesares.
Troquei de ressentimentos para alegrias. E troquei de tempo, de sons e de ideias.
Troquei…
Troquei de ritmo. Passei a dançar jazz. Troquei de vestibular, passei das artes cênicas para o jornalismo.
E troquei de estilo. Passei das notícias para a literatura contista. E troquei de escrita. Migrei para a poesia.
Troquei…
Acima de tudo, troquei a lágrima pelo riso. Troquei a tristeza sofrida de um amor magoado pelo abandono por uma nova oportunidade de sentir o coração bater outra vez. Bater outra vez.
Troquei…
A roupa do corpo.
E da alma.
Sobre livros e números
Li um texto que me trouxe um misto de inquietação, “aceita que dói menos” e que atiçou um bicho dormente que mora em mim. A querida amiga Aline Valek, escritora que admiro sem fim, tem uma newsletter chamada Uma Palavra e publicou em 29 de junho de 2024 o texto Neurose com Números.
Quando Aline escreve, é como se eu me olhasse de fora várias vezes. Não temos vidas semelhantes, mas talvez o início dos nossos caminhos seja parecido em alguns pontos e isso me atinge em cheio. Nesse trecho especialmente:
“Nada como circular nas panelinhas intelectuais de São Paulo para se sentir pobre, desinteressante e atrasada! Eu tinha tanta vergonha de não ter tido acesso às mesmas referências que aquelas pessoas consideravam básicas (desculpa, é que eu não sou daqui, eu vim de outra classe social) que cheguei a listar em um caderno todos esses nomes de autores oh-meu-deus-não-acredito-que-você-nunca-leu.”
Aline Valek.
Logo me veio a imagem dos primeiros dias na faculdade, quando contei aos novos amigos que li meu primeiro Machado de Assis na escola pública no último ano do ensino médio e não gostei. Desculpa, Machado, era Helena! E eu precisava de heroínas poderosas para me inspirar. A realidade já era bastante bizarra.
Mamãe fez um esforço para me ajudar a passar no vestibular e comprou um kit de 18 livros de literatura brasileira que vendia com o jornal O Globo, um dinheirão. Li uma parte deles, mas acho mesmo que li o final de todos, o resumo e a moral da história, porque trabalhava e o tempo era escasso.
Aliás, tempo sempre único, um continuum onde coloco em linha reta todas as coisas que preciso fazer. Se entra uma atividade nova, outra precisa sair. Essa coisa do tempo ser a quarta dimensão, hum-hum, Einstein vai precisar me explicar melhor em outra hora. Agora tô com pressa!
Comecei a frequentar uma livraria perto do trabalho que tinha um livreiro com o meu sobrenome. Ele indicava o que estava bombando para uma garota de 20 anos na época, os “trend” da Gutemberg. Conheci Zelia Gattai, Richard Bach (aquele do Fernão Capelo Gaivota, numa versão ainda mais autoajuda), Ana Maria Machado (Young Adult) e Leonardo Boff. Esse, tive a oportunidade de tietar, pegar autógrafo, ler e reler muitas vezes. Foi minha bíblia durante a turbulência de descobrir que o trabalho era desagradável e algumas pessoas também.
Não é que não tenha lido muito na adolescência e na juventude, apenas não li aquilo que se esperava. Mais velha, de tempos em tempos, comprava um livro top da lista de mais vendidos da Veja e lia para ter assunto nas rodinhas de conversa. Nunca era suficiente. Assinava jornal, revista, lia na barca, em pé no ônibus, no sinal. A sensação de não saber morava ali, naquelas páginas que eu carregava na bolsa sem tempo de folhear.
Com o advento do casamento a estante de livros mudou. A pequena biblioteca que parecia desinteressante ganhou novos títulos, uma vida mesclada em lombadas coloridas. Os filhos pequenos adicionaram novas camadas de literatura infantil todos os dias. Pela manhã, os clássicos de Andersen, Grimm, Ruth Rocha e Ana Maria Machado. À noite, livros para acalmar. Até descobrir que eu poderia ler tudo o que quisesse para eles, e que com isso, aquele tempo único que compartilho com todas as coisas prazerosas que faço, poderia ser tanto deles quanto meu. Libertador!
Macunaíma, Hamlet, A falência, Irmãs da Revolução, Dom Casmurro, O Livro do Desassossego, A padaria dos finais felizes (que virou um vídeo no YT), Rei Lear, o Mandarim, Neuroses a Varejo, Pequenas Tiranias… no limite, me preocupo apenas em cortar trechos muito sangrentos para que eles durmam um sono tranquilo. Lemos em voz alta, em família. Às vezes eles leem para mim. Todo mundo pode comentar. A visão das crianças sobre as obras me dão novas perspectivas.
Voltando ao texto da Aline, faço listas para comprar e ler depois. Espero promoções, compro em sebos quando me interesso demais pelo tema e está escasso nas livrarias. Quando chegam, abro alguns e leio vorazmente, outros deixo marinar ainda em sua embalagem original, para manter o cheiro de folha nova preservado. E um dia, estando o alimento pronto, desembrulho, inspiro seu cheiro de vida, e começo a me deliciar lentamente.
Não achei nenhuma fonte segura para esse trecho, mas cito aqui porque ameniza a culpa:
“Se, por exemplo, consideramos os livros como medicina, entendemos que é bom ter muitos em casa em vez de alguns: quando se quer sentir melhor, então vai ao ‘armário dos remédios’ e escolhe um livro. Não um aleatório, mas o livro certo para aquele momento. É por isso que você deve ter sempre uma escolha nutricional!”
Umberto Eco.
Ficar neurótica comparando meus livros lidos com as listas de livros lidos dos colegas, ou invejar sua organização para ler mais livros, ver mais filmes, escrever e publicar, vai me fazer mais feliz?
Nada… leio porque me dá prazer. E sem prazer, não leio nada.
Não saber qual a briga do momento, qual o sucesso do tiktok, qual a série trend, não me fazem menos eu, nem mais, nem menos feliz. Então, dou novamente o braço a torcer. Aline está certa, isso tudo passa! E o bicho dormente que vive em mim e levantou assustado com o cronômetro tiquetaqueando nos ouvidos, foi dormir tranquilo outra vez. Conhece esse bicho? É a ansiedade…
Os médicos do INSS não sorriem
Os médicos do INSS não sorriem. Estão sempre com a cara fechada. Pouco papo, poucas ideias. Se você ousa falar, os foras são cortantes. “Não foi isso o que te perguntei” – eis aí uma das frases que ouvi quando tive a audácia de abrir a boca.
Passei por você hoje, doutora. Você nem me viu. Meu caso era leve: estava só pedindo alta. Queria voltar a trabalhar. Você não me deixou fechar a porta. Zero privacidade. Entre nós, esse plástico gasta do tempo da covid. A minha cadeira posicionada de lado, formalizando que você realmente não quer me ver frente a frente. A posição desconfortável, a porta aberta, o rosto fechado.
Hoje meu objetivo aqui é mais leve. É mais fácil conseguir autorização para voltar a trabalhar do que ficar sem trabalhar, não é mesmo? “Esses vagabundos…”, será que você pensa isso? Porque parece.
Olho suas unhas, enquanto você digita. Tec, tec, tec. Vermelhas. E pela primeira vez, eu pude te ver. Porque assim como nós, pacientes, parecemos todos iguais para vocês, nós também achamos vocês todos iguais. Você é a terceira da sua categoria que eu conheço. O primeiro lá no centro da cidade até que foi melhor. Mas aqui em Copacabana… por Deus… você e o outro médico que me atendeu… Nossa, vocês parecem muito de mal com a vida.
Semblante sempre fechado, fortaleza imperscrutável. Armados. Hoje contei a quantidade de vigilantes. Cheguei a três, quatro. O detector de metal na porta materializa o clima bélico. O portão fechado a chave. Só entra com nome agendado.
É, doutora, um “não” seu pode despertar instintos assassinos, me contam silenciosamente os vigilantes e o detector de metal. A senha escrita a caneta no papel, o telão com uma mensagem de erro, mas funcionando. Atraso de uma hora. Eu só queria voltar a trabalhar e nunca mais vir aqui, doutora. Fica tranquila que, se depender de mim, nunca mais vou pegar senha para ver seu rosto carrancudo. Não triste, mas enfezado. Com raiva do mundo.
Tec, Tec, Tec. As unhas vermelhas me fazem pensar que talvez você seja mais descontraída. Que até sorria. Que talvez tenha um amor. E só para ele reserve o que aqui não tem: semblante aberto, olhar atento.
Vou te falar. A prova pode ser concorrida, mas eu jamais gostaria de ter este emprego. O salário certamente é bom. Mas os sorrisos estão sequestrados por todo o expediente. A humanidade junto com eles. E tudo cinza e enraivado.
Hoje eu vi o que é. De verdade. Porque não é medicina, nem atendimento médico, embora seja feito por médicos. É mero trabalho burocrático: assine-se aqui, diga-se acolá, carimbe-se – ainda que virtualmente…Repartição pública, na pior acepção da palavra
Fico pensando que vocês são médicos, podiam ter um emprego melhor.Aí pensei no dinheiro. Ah, o dinheiro. Eu sei como é. Uma gaiola de ouro. E o tempo passa, né? As vezes rápido, às vezes lento. Mas ao sabor das senhas. E uma hora acaba. E você está livre, doutora. Você pode sorrir, agora. Você pode abrir a cara. Você pode. Mas…será que consegue?
Ou as histórias tristes do dia te perseguem?
O que será fingimento e o que será real?
Você finge que nada disso te abala?
“Realmente não me abala”, vejo você dizendo, com a cara fechada.
Se não te abalasse, doutora, você não precisaria fingir que é brava, séria, durona. Não precisaria fingir que não é… gente.
Ah, esse texto vale para você também, doutor.
Você sabe com quem está falando?
Era mais uma reunião para tratar de um assunto recorrente e um tanto quanto polêmico. Sabíamos que o cliente não havia se conformado com nossa recusa e buscaria, em uma reunião presencial, reverter nossa decisão.
Ou, pelo menos, entender os motivos dela e, talvez nos trazer algum fato novo que nos permitisse reconsiderar, o que seria o mais razoável.
Dirigimo-nos à sala de reunião, cumprimentamos os participantes gentilmente e nos colocamos à disposição para escutá-los.
O cliente não trouxe nenhum fato novo para que avaliássemos. Tão somente reforçou seu pleito. Com toda serenidade, tentamos explicar o embasamento que nos levou à decisão e íamos, no momento seguinte, propor alternativas técnicas para talvez contornar a situação de outra maneira, eliminando as restrições que já tínhamos identificado para a situação posta.
Estávamos tão tranquilos quanto à nossa posição e à motivação dela que não esperávamos a cena que se sucedeu. Dois participantes da parte do cliente (incluindo ele próprio) se exaltaram e passaram a bater na mesa e gritar conosco, tentando nos intimidar com sua posição social “de poder” e insinuando que nossa recusa era desrespeitosa, quando, na verdade, era nitidamente o contrário. Felizmente, a situação tensa foi contornada e os clientes foram embora. Nossa decisão foi mantida e, posteriormente, quando o cliente alterou a proposta original dele, eliminando os entraves que identificamos inicialmente, ela pôde ser aceita.
Lidar com pessoas é um carrossel de surpresas. E, por mais que saibamos disso, situações inesperadas como essa nos deixam boquiabertos. Entender o que move verdadeiramente cada um e como ele se enxerga dentro desse mundão de meu Deus é mais difícil do que acertar os números da Mega Sena. Há pessoas que mesmo estando em posição de poder, não subjugam os demais e buscam uma interlocução respeitosa. Não é assim com
todos e a velha frase “Você sabe com quem está falando?” ainda é muito ouvida por aí, nas mais diversas situações.
Essa frase joga nos ouvintes a presunção de quem a profere, sedento
pelo reconhecimento da sua posição. Mais do que isso: desejoso de extrair algo de terceiros com base na importância que ele mesmo credita a si. E normalmente advém de pessoas que desejam forçar o reconhecimento de uma eventual “importância” por meio da intimidação.
Em alguns desses episódios, as perguntas de volta deveriam ser: “E você saberia mesmo com quem nós estamos falando? Você, de fato, conhece a si mesmo e enxerga quem verdadeiramente é, com suas qualidades e limitações? Tentou nos enxergar de verdade antes dessa interlocução desrespeitosa?”.
Afinal, porque é tão difícil para algumas pessoas “tentar usar a roupa que estamos usando” (como diz Luis Melodia em “Pérola Negra”)?
Sempre que me deparo com situações nas quais pessoas se posicionam num patamar de superioridade e humilham os demais, inclusive em contextos dos quais eu nem participo, reflito se estas pessoas estão presas na armadilha de supervalorização de si. Se caíram no fundo falso que elas mesmas montaram sob as folhas e galhos secos da sua insegurança. Tão infladas que estão do que querem ser (ou parecer ser) que não se permitem se conhecer de verdade e entender realmente quem são e o papel que têm. Pior que isso é não se permitirem se reconhecerem como falíveis, minando as possibilidades de evolução.
A linha limítrofe que separa a autoestima da zona do ego inflado pode ser tênue e, às vezes, imperceptível. A autoestima e autoconfiança são importantíssimas para que construamos a segurança na nossa capacidade, de forma a nos fortalecermos para empreendermos as batalhas diárias que todos nós estamos sujeitos. Mas quando essa confiança se exacerba perigosamente ou é construída sobre as bases frágeis da imposição do
poder e dinheiro, torna-se arrogante e origina muitos desentendimentos e injustiças.
O exemplo da frase intimidadora que citei é bem extremo. Mais do que o grito do ego em si, ela tem também um viés cultural da forma como pessoas tidas como “importantes” agem frequentemente. Tanto no trato de assuntos relevantes como nos quotidianos. Mas quando falo na armadilha do ego, estendo, ainda, para aqueles que, ainda que saibam que não tem todo esse poderio nas mãos, se acham soberbamente especiais por alguma condição.
Uma colega de trabalho que já se aposentou há algum tempo e a quem eu muito admiro me disse uma vez que tratava a todos com total cordialidade e respeito, sem distinção da posição social. Isso a ajudava, inclusive, a saber lidar com pessoas tidas como “muito importantes”, pois as tratava com naturalidade, sem vergonha ou receio. E eu a via “em ação”, praticando. Transitava naturalmente entre pessoas de poder e pessoas extremamente
humildes, como as que encontrava nos trabalhos sociais dos quais ela fazia parte. Uma pessoa realmente admirável!
Na música “Competição de Ego”, da banda “O Grilo”, o trecho “O universo não gira em torno de mim. Faço do meu verso um recado pra ti. O universo não gira em torno de ti. Faço do teu verso um recado pra mim” é um lembrete para que fiquemos atentos às armadilhas do ego que podem acometer até aqueles que se acham imunes a elas.
Na reunião contada no início deste texto tudo acabou bem. Nós ficamos perplexos com o que ocorreu mas tranquilos sobre nossa conduta que permaneceu respeitosa mesmo em meio ao embate. Sabíamos que as ofensas do cliente diziam mais sobre ele do que sobre qualquer outra coisa. Nós, de cá, seguimos fazendo nosso melhor e tentando escapar dessas
armadilhas à espreita em cada esquina.
Vai dar tudo certo, mesmo que dê tudo errado
Foi demitido depois de 10 anos na mesma empresa. Mas resolveu se dedicar a dar aulas, e descobriu sua verdadeira paixão.
Vai dar tudo certo. Mesmo que dê tudo errado.
Perdeu no vestibular pela terceira vez e teve que fazer um concurso nível médio, onde conheceu novos amigos e descobriu a importância social de ser funcionário público.
Vai dar tudo certo. Mesmo que dê tudo errado.
Terminou amizades que te decepcionaram. Mas conheceu novas pessoas em um curso novo, que se tornaram quase uma família.
Vai dar tudo certo. Mesmo que dê tudo errado.
Comprou um apartamento que descobriu que precisava de muito mais reparos do que o que o proprietário disse? Mas com as reformas, virou um cantinho super especial.
Vai dar tudo certo. Mesmo que dê tudo errado.
Perdeu alguém que julgava ser o grande amor. Mas depois conheceu outra pessoa, e sentiu que a vontade de amar é inesgotável.
Vai dar tudo certo. Mesmo que dê tudo errado.
Na minha vida, por quantas dessas mudanças de percurso passei. E por quantas ainda passarei.
Trocas da profissão, de amores, de amigos, e de visões de mundo.
Por todas elas, mesmo com a alma em prantos, apenas uma certeza, no fundo do peito.
Mesmo que pareça tudo errado… vai dar certo!
(Ah, já deu)
Liberdade?
Que coisa é essa tal liberdade?
É “memo” coisa?
É coisa que se vive ou que se pega ou que se compra?
Ou coisa que se devora num mundo de faz de conta?
Livre eu, livre você, livre pra que?
Livre de que?
Ouvi dizer que livre quem é
Faz o que quer
Mas o que será que é?
Será um cheiro, um gosto, uma sensação?
Um sentimento, um momento,
Um choro, uma emoção?
Daqui, donde escrevo, não sabemos que diacho é isso não.
Uma Medalha e um Picolé
Maio é mês das mães, das noivas, da coroação de Nossa Senhora, e também
meu aniversário. Desde pequena adoro celebrar o dia, receber as pessoas,
abraços, beijos, carinho e presentes. Bolo (que eu prefiro comer no dia
seguinte, não conta pra ninguém!), docinho, salgadinhos, pipoca… tudo que me remete a aquele lugar na infância.
Maio é um mês fresco de outono.
Esse ano decidi comemorar de um jeito diferente. Convidei o marido para uma corrida de rua. Destreinada que estou, peguei leve, apenas 2,5 km. Ele é mais ousado, treinou para os 6km. Fomos na antevéspera do meu aniversário. Ao final, uma medalha e um picolé. Era uma manhã linda de outono, num circuito quase artístico, pois emoldurado pelas obras de Niemeyer, com uma neblina que foi se dissipando aos poucos para revelar a cidade maravilhosa.
Maio tem suas próprias peculiaridades.
Pensei na vida, em quantas vezes eu fiz um esforço gigantesco para entregar o projeto no prazo, corri pela cidade para não perder o ônibus, caí de cara no
chão para conseguir alcançar a barca. Como eu queria que tivesse uma
medalha e um picolé no final de cada desafio. Se não tivesse medalha, apenas
o picolé já dava um refresco.
Maio é o mês de conscientização contra o assédio moral.
Lembrar de todos os empregos pelos quais passei até chegar aonde estou, em ser respeitada independentemente do meu gênero ou orientação sexual, nos assédios que eram considerados normais há 20 anos e hoje são impraticáveis.
Isso me faz pensar que temos evoluído, somos um pouco melhores. Ainda não para a medalha, mas merecemos o picolé.
Maio é um mês de chuvas.
E as chuvas castigaram um estado que já estava castigado por um governo desrespeitoso da natureza, que prioriza o agronegócio, e que resolveu usar o
tempo – esse bem tão precioso – para discutir leis que não contribuiriam para a redução dos impactos ambientais, mas ao contrário, aumentariam os danos de uma natureza devastada. Aos que estão em mutirão, arriscando as próprias vidas, minha pequena homenagem, uma medalha para vocês! Aos políticos, de vocês, esperamos mais respeito.
Maio é mês das mães.
Eu sou mãe e sempre achei que aos 50 anos seria muito sábia, muito vivida,
muito entendida de tudo. Mas na véspera dos meus 50 sei que não entendo muito de nada. Que não sou muito sábia, talvez vivida, talvez experiente. E não sei citar filósofos. Não sei mesmo. Mas posso dizer que sou feliz.
Maio é o mês do meu aniversário. E Urano entrou em conjunção com Júpiter.
Soube que vai ser um ciclo de desafios. Espero conseguir atravessá-los e que
a vida me trate bem. Ninguém é de ferro, nem super-heroína, não peço muito
não. Só pra, de vez em quando, receber uma medalha e um picolé. Porque
desistir não faz parte do meu vocabulário. Mas com recompensa é mais
gostoso!
Para minha estrela
Eu aprendi do jeito mais difícil que é solitário quando ficamos sozinhos no mundo. Quando você se foi,eu demorei a perceber e depois perdi meu chão.
Lembro de todas as nossas aventuras, segredos e confidências. Gostaria de ter mais lembranças físicas. Eu te guardo na memória e te escrevo com amor recheado de saudade.
Muito obrigada por me trazer ao mundo,minha Rosa. Muito obrigada por me dar mais uma mãe que me ama tanto quanto você me amou. Espero que você esteja bem no mundo espiritual e saiba que eu te amo muito.
