Por que você escreve?

Semana passada fui convidada a responder uma pergunta que eu julgava saber a resposta. “Por que você escreve?”

Não tive palavras na hora.

Para me ajudar a responder, pedi ajuda às sábias escritoras que vieram antes de mim.

Cecília Meireles me disse em versos:

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

Clarice Lispector trouxe o gênero para a discussão:

“Sou uma mulher que escreve porque, para mim, escrever é como respirar, faço para sobreviver”.

Conceição Evaristo me falou de sonhos:

“O ato de escrita, para mim, é um ato necessário, vital, mas que eu nunca pude me dedicar totalmente, porque, ao mesmo tempo, também tem o apelo da vida, tem o cotidiano, mas eu ainda sonho um momento que vou poder parar para só escrever.”

Lygia Fagundes Telles ressaltou o papel do escritor:

“tem de vencer o medo para escrever esse medo. E resgatar a palavra através do amor, a palavra que permanece como a negação da morte.”

Virginia Woolf fala sobre conversas inacabadas:

“Aquele laço sobre o qual falei, mulheres e ficção, a necessidade de chegar a uma conclusão em um assunto que evoca toda sorte de preconceitos e paixões.”

Maria Gabriela Llansol me traz alento e apoio:

“_____ escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis de nomear.”

E eu?

Escrevo porque estou viva e preciso respirar, porque as histórias estão povoando minha cabeça por tempo demais, porque sou mulher e preciso vencer meus medos, porque quero. Escrevo porque QUERO.

Hoje é o dia em que minha criança interior me saúda por nossa vida. É 12 de outubro, dia nacional da literatura. E a criança que sonhou um dia escrever revistas em quadrinhos, hoje tem muitas razões para celebrar.

Adolescência

Ao longo dos anos a minha alegria foi se perdendo junto com a minha autoconfiança. Posso afirmar que tive uma verdadeira era de identidade, assumindo de tempos em tempos personalidades diversas que não se encaixavam no meu ideal de vida.

A morte da cada personagem – chamo assim as personalidades – me trazia mais angústias, mais tristezas e eu não conseguia reunir forças para criar uma nova personalidade e ter novamente a esperança de me encontrar.

É extremamente difícil viver sem entrar em acordo com o meu próprio corpo.
Esta não sou eu. Nunca quis ser assim. Como assumir um corpo que não combina com a minha personalidade?

A resposta que encontrei foi tentar de certa forma adaptar a personalidade a esse corpo e, com isso, me tornei mais infeliz ainda.

O que eu desejava infinita e verdadeiramente era adaptar o corpo às minhas personalidades, transformando-o em uma massa disforme, vulnerável e volúvel.

Casa com alma bagunçada


Mais que preferências na decoração, nossa casa carrega histórias espalhadas
em cada canto.
Os tapetes sumiram quando minhas duas meninas vieram morar comigo. Eu amo tapetes pela casa. A filha, não.
Esparramadas no sofá, assistíamos a filmes de todo tipo. A pipoca se misturava com o chão, e a sala virava acampamento de sábado à noite. A Princesinha brincando com amoeba, misturando corantes em cima do tampo de vidro da mesa de jantar.
Pela manhã, o cenário era outro: um rastro de bolsas, mochilas, mantas com pingos de ketchup, livros empilhados e roupas largadas nas cadeiras.
Vinte anos depois, vejo a minha neta, ja crescida, plantando ervas e flores na
varanda, terra para todo lado. Não há mais massinha e lápis de cores sobre a mesa.
Mas as bolsas e mochilas continuam morando na sala.
Nunca gostei de bagunça, mas aprendi a enxergar afeto nela. São as migalhas de pizza, os pedaços de amoeba na mesa, os quadros de artesanato que me dão alegria maior que qualquer obra de arte cara. E são nossos os rostos sorrindo nas telas que minha neta pinta e que estão por todas as paredes.
Essa bagunça é só nossa. Quando as meninas estão fora, arrumo tudo no lugar.
Até estranho o silêncio. Mas logo elas chegam, começa a algazarra, e a vida volta a ocupar cada centímetro. Não abro mão da minha reclamação diária por um pouco mais de ordem. Elas arrumam, organizam, por vinte e quatro horas… até tudo voltar ao seu normal.
Desisti de pedir “não repare a bagunça” para as visitas. Prefiro oferecer café
quente, água gelada e risada garantida.
No fim das contas, descubro que essa casa cheia de quem mora nela, bagunçada e viva, é o lar que escolhi. Aprendi a amar o caos e, vez ou outra, sinto falta dele quando tudo está em ordem. Porque fundo, já sei: o que transforma uma casa em lar é a alma bagunçada que nela vive.

Você

Você tinha cabelos esvoaçantes e gostava de sorrir quando as gotas da chuva escorregavam em seu corpo. Você que me acenava de longe com suas florzinhas saltitantes. Que no sol a pino brilhava como prata nova, mas que ao entardecer se banhava com o laranja do fim do dia.

Você que deitava cedo na pele escura da noite e ao primeiro sinal da luz matutina já estava desperta. Seus sons me acalmavam e me conectavam com o semblante divino do Amor. Daquele que é o Amor.

Você que nutria amizades invisíveis e silenciosas, mas tão intensas. Que viajava o mundo com seus mistérios. Que espalhava sua essência para transformar quem estava perto ou distante. Pura generosidade herdada de quem a criou.

Eles a levaram. Deveras precocemente. Eu ainda tinha tanto a admirar. Tanto a aprender. Tanto a contemplar. Mas você se foi…

 Do Retorno ao Lar Supremo 

Não é o fulgor do sol que guia,

nem o clarão argênteo da lua que ilumina,

nem tampouco o ardor do fogo que consola —

mas sim o chamado do Inefável,

que ressoa nas dobras silenciosas do coração:

“Retorna.”

Os sendos terrenos fatigam a alma,

as veredas pedregosas maceram os pés;

mas há uma morada onde a dor não penetra,

onde o tempo se dissolve em eternidade,

onde o espírito repousa em beatitude inexaurível.

Nesse domínio não há regresso,

porque não há exílio.

Não há sombra,

porque não há esquecimento.

Ali subsiste apenas o fulgor do Ser,

presença que é amor,

amor que é presença.

Bem-aventurado é aquele

que ouve a convocação sagrada

e se entrega ao invisível absoluto.

Pois, ao adentrar a morada suprema,

reencontra o próprio âmago,

reencontra o Eterno,

reencontra o Lar primordial.

E então se revela o Mistério:

voltar para casa

é jamais tornar a perder-se.

A mulher e o castelo

Naquele castelo do alto, naquela casa fria sem vida, vivia uma mulher seiva.

Seus galhos se espalhavam como gavinhas pelo castelo.

Apesar de alimentar a todos, ela mesma não se nutria.

Certo dia de sol aberto, pleno, expandiu-se para fora desse lugar frio.

Sob aquele sol poderoso, a mulher seiva se banhou. Alimentou-se a si mesma.

Olhou para o horizonte e descobriu que o castelo não era ela.

Ela era sua própria casa.

No compasso

O cheiro enjoativo de café frio misturava-se ao aroma de livros e papéis acumulados.
Janice digitava no velho computador. De tempos em tempos, espiava o velho relógio na parede. Pelas janelas amplas, um vento dos jardins abertos e arborizados do campus empurrava o ar pesado dali de dentro, trazendo consigo o frescor de folhas e grama recém-cortada.
Eliane, a professora de Ciência da Informação, apareceu na porta na sala dos
professores, de bolsa na mão e um sorriso animado, pronta para encerrar o dia.
– Vem comigo à aula de samba amanhã à noite?
– Eu, rebolando no salão? – riu nervosa. Por dentro, um aperto no peito. Vinte anos lecionando na Pós-graduação, presa ao ritmo maçante de planejamentos e avaliações. Quando tudo ficou tão sem graça?, lançou mais uma nota no sistema.
– É como um grito de liberdade! – A colega mexeu os quadris, simulando um
movimento do samba. – Anda, se anima!
– Hum, parece divertido… – Pendeu a cabeça pensativa. Conferiu o relógio na parede uma última vez e se preparou para encerrar o expediente. –. Vou pensar.
A ideia ecoava enquanto caminhavam pelos corredores do Palácio Universitário. Ia fazer cinquenta anos no fim do mês. Talvez precisasse mesmo de um novo enredo. No estacionamento do campus jogou a pasta no porta-malas do Mobi preto. Mais um sábado corrigindo trabalhos.
– Os ensaios começam às oito. Pensa com carinho! – Eliane jogou um beijo no ar e seguiu requebrando até o seu fusca vermelho.
No trânsito da Avenida Pasteur, uma batida contagiante irrompeu no rádio do carro.
Os dedos tamborilaram no volante provocando um sorriso surpreso. Sambar? A ideia era louca e tentadora. Como seria deixar um novo ritmo transformar suas aulas e sua vida? “Por favor, aproveite a oportunidade”, sussurrou para o retrovisor. “Você só está indo sambar.”
Em casa, largou a pasta no sofá. Diante do guarda-roupa aberto, hesitou entre os blazers sóbrios. No fundo, um vestido colorido esquecido – presente da filha – que nunca teve coragem de usar. Sentiu a textura macia entre os dedos. Trouxe-o junto ao corpo. No espelho, a imagem era outra – mais alegre, confiante. Respirou fundo e deixou a excitação
crescer. “Está decidido”, surpreendeu-se com a firmeza na voz. “Amanhã, vou dançar”.
As cores vibrantes da fachada da escola de dança eram um convite à alegria. Ajustou o vestido colorido. O tecido leve roçou a pele, despertando uma estranha sensação. Inspirou o ar quente da noite carioca e entrou.
Ao cruzar a soleira, sentiu-se uma nota dissonante. O silêncio acadêmico de alunos debruçados sobre projetos de pesquisa deu lugar a uma sinfonia de corpos jovens sincronizados ao ritmo contagiante do cavaquinho. “Talvez isso tenha sido um erro”, deu um passo para trás. Nesse momento, o grito de Eliane cortou o ar:
– Oi! Você veio mesmo! Pessoal, essa é minha amiga da Universidade.
Quis se esconder atrás de uma pilha imaginária de livros. Antes que pudesse balbuciar qualquer coisa, uma voz grave preencheu o espaço:
– Bem-vinda. – O instrutor de dança apresentou-se com um sorriso caloroso. –
Professora universitária? – Estendeu a mão em um forte, mas gentil aperto.
– Linguagem e informação, mas aqui eu me sinto uma caloura novamente – tentou soar descontraída, mas a voz gaguejante traiu a insegurança.
– Pronta para trocar o quadro negro pela pista de dança? – O roçar da barba grisalha fez o rosto dela esquentar, quando ele a cumprimentou com um beijo em cada lado.
O instrutor, Sr. Carlos, um homem de meia-idade deu o sinal com um aceno de mão.
Os tamborins começaram a pulsar, e como em um passe de mágica, os alunos se moveram com uma graça natural, os pés batendo no chão em perfeita sincronia com a batida do samba.
A luz do estúdio de dança refletia nos espelhos, criando um efeito de multiplicação, como se houvesse mais de uma turma dançando ao mesmo tempo.
Do canto do salão, Janice observava hipnotizada os movimentos fluidos da amiga.
Cada ginga, cada passo, parecia contar uma história. Era como analisar um texto vivo, onde cada gesto era uma palavra, cada sequência um parágrafo ritmado.
– Vamos lá, experimente! – Eliane puxou-a pela mão, com gentileza, até o meio da roda. – Não se preocupe em errar; só sinta a música e deixe seu corpo falar.
A princípio, congelou. Anos de postura rígida diante de turmas atentas pesaram em seus ombros. Mas algo dentro dela gritava por liberdade. Com um suspiro determinado, imitou o primeiro passo da amiga. Desajeitado, fora de tempo, mas um começo.
O professor aproximou-se. As mãos em volta da cintura dela, sem tocar, apenas guiando. Seu sorriso encorajador derreteu as últimas barreiras.
– Relaxe os quadris – instruiu. – Deixe a música entrar no seu corpo.

A cada passo, cada erro, cada risada nervosa, sentia as amarras se soltando. O ritmo, antes estranho, começava a fazer sentido. Era como aprender uma nova forma de comunicação, onde o corpo era a linguagem e o movimento a informação.
Quando a música parou, estava ofegante, despenteada e… feliz. Um sorriso genuíno revelava algo que há tempos não se vivenciava em uma sala de aula.
– Parabéns, doutora – Tiago elogiou-a com aquele olhar que a fez corar outra vez. – Você tem um talento natural para o ritmo.
– Obrigada – respondeu, surpresa com o tom rouco da própria voz. “Mente bem, mas é um fofo”, sustentou o olhar dele.
Eliane abraçou-a pelos ombros e sugeriu um café para celebrar sua estreia no samba.
– Café? – o professor interveio, os olhos castanhos encontrando os de Janice. – Isso pede uma caipirinha!
O convite, carregado de intenção, a fez corar. Lançando um olhar urgente à amiga, agarrou-se a seu braço, ansiosa por escapar dali. A gargalhada de Eliane misturou-se ao som dos tambores que ainda ecoavam em seu peito.
– Pelo jeito, parece que a doutora tem outros talentos escondidos.
As semanas passaram em um novo ritmo. Já não se importava com o suor escorrendo pela testa, enquanto o corpo se movia ao ritmo dos tambores. Quando Tiago pedia que cada aluno improvisasse um passo, ela hesitava por um momento. “Vamos lá!”, respirava fundo.
“É só dançar.” Seus pés moviam-se quase que por conta própria. Por um instante, esquecia-se de notas, prazos e currículos.
– Isso, pessoal! – a voz do instrutor ecoava entre os tamborins. – Deixem a música falar por vocês!
No trabalho, o sorriso radiante, o cabelo solto e o vestido florido sob o blazer
vermelho não passaram despercebidos. Os gestos largos e a voz firme e confiante contagiaram a turma.
— “Adorei o novo corte, professora! – uma aluna não pôde deixar de comentar.
Janice sorria, seu entusiasmo aumentava a cada dia. Movia-se pela sala de aula, como se estivesse em um palco onde a dança de ideias fluía em um ritmo de criatividade que envolvia a todos.
Meses depois, após um ensaio intenso, estava prestes a sair quando Tiago a chamou em um canto da sala.
– Oi, algum problema com meus passos?
– Pelo contrário – ele sorriu –, tenho uma proposta.

– Que tipo de proposta? – Sentiu um leve tremor nas pernas. – “Controle-se, mulher, você não é mais uma adolescente.”
– Que tal ser minha parceira em uma apresentação beneficente no Centro de
Convivência da Praia Vermelha? No mês que vem.
– Você quer dizer, nós dois?
– Sim, nós dois. Um número de samba.
– Eu? Mas… eu mal comecei a dançar… – Tentou disfarçar o nervosismo de se
apresentar no centro cultural do campus.
– Você tem algo especial. Uma energia que não se aprende. – o tom pareceu mais grave que o normal, e ela sentiu o estômago dar uma cambalhota. “Céus, quanto tempo faz que não sinto isso?”, pensou, quase rindo de si mesma.
– Eu… eu não sei o que dizer.
– Diga que vai pensar. Quero a minha sambista favorita ao meu lado. – Tiago piscou, a mão roçando o braço dela. O toque, embora leve, arrepiou-lhe todo o corpo.
Em casa, abriu seu currículo Lattes no computador. Artigos, palestras, livros de poesia… “E se eu acrescentasse ‘sambista’ aqui?”, riu sozinha. “Dra. Janice dos Santos, PhD em Linguagem e informação e Rainha da Bateria.” Seus olhos desviaram para o celular. A imagem de Tiago e ela dançando juntos invadiu sua mente. Sentiu o rosto esquentar. “Minha sambista favorita”, repetiu. saboreando cada palavra. “O que dirão meus colegas? Meus
alunos?”. Mas uma voz mais profunda sussurrava: “E se você não aceitar? Poderá viver com o ‘e se’?” Por um momento, viu-se dividida entre o conforto conhecido da academia e a promessa vibrante da pista de dança.
Com um suspiro profundo, começou a digitar: “Tiago, sobre o convite…” Parou, um momento, hesitante. “Cinquenta anos”, pensou. “Cinquenta anos e ainda tenho medo de dizer sim para a vida.” Com um sorriso nos lábios, fitou o cursor piscante. Os dedos pairaram sobre o teclado, prontos para compor o próximo capítulo de sua vida.

Jogo dos Sete


Desde cedo,
somos treinados,
estimulados pelos exemplos
a ver os erros…
dos outros.
Nossa mente vai se moldando,
e a mágica acontece:
Olhamos e logo podemos apontar:
“o que não está certo”
“o inadequado”
“em excesso”
EXAGERADO
“insuficiente”
Erro alheio…
ninguém mais vê?!
Cirurgicamente,
julgamentos rompem
da ponta da língua…
ops,
da ponta dos dedos.
Ah,
veneno disfarçado de cura
e preocupação.
Para alguns,
um verdadeiro combustível,
um whey protein,
uma vitamina diária.
Caro jogador,
desafio você a virar essa chave
e mudar esse jogo.
Na virada,
você precisará aprender
os sete acertos.
Veja tudo o que quiser,
de quem quiser,
e tente encontrar,
no alvo antes julgado,

o que considera “acertado”.
No início,
sua mente vai te enganar.
Ah, se vai.
Mas com o tempo,
você vai conseguir — acredite —
ficar até feliz
com o “acerto” que descobrir.
E um dia,
quem sabe,
Oxalá antes do juízo final,
quando passar por uma esquina qualquer,
das muitas voltas que a vida dá,
consiga se enxergar
mais na Terra
do que no céu.

Quem começa?

Cordel para Arial 14

Todo mundo tem alguma

Coisa pra se preocupar.

Um olho que tremilica.

Uma pereba pra cuidar.

Uma perna que chacoalha

E que nada faz parar.

Tem gente que tem coisa,

Que a gente nem vê de perto

Ziquizira e Urucubaca

Moléstia de nome incerto

Só benzedeira cura

Ao rezar o verso certo

E tem outras que padecem

Se tratar com um doutor

Doença moderna e chique

Hipertensão e o calor

A mulher na menopausa

Não larga o abanador

Mas se ler é o seu problema

Sempre há um jeitinho

Presbiopia, Miopia

Se pegar no comecinho

ainda dá pra remediar

O óculos é o caminho

Quis Deus que na velhice

O ser humano sabido

Ganhasse algo de bom

E de outro fosse perdido

Um dinheiro mesmo pouco

Pra viver bem destemido

Às vezes Ele nos presenteia

Com seu amor sem medida

A memória aos poucos se vai

A cabeça anda perdida

A dor no corpo se espalha

É o jeito de sentir a vida

Deus oferece sem saber

das letras miúdas o desver

desmemória do presente

Para a gente esquecer

Que a vida é brincadeira

E alguém tem que perder

Mas quem dera o Bom Senhor

Num contrato sem receio

Me oferecesse na hora a

Letra grande, sem defeito

Pode até ter paga alta

Se é pra enxergar, eu aceito

Não precisa tanto alento,

Nem promessa, nem louvor,

Só queria ler meus livros

Com prazer e com ardor,

Sem pedir ajuda a lente

Nem ao óculos salvador.

Se Ele ouvir minha prece,

Nem me olho no espelho

Pode levar meus dentes,

De que vale ter cabelo?

Mas, Senhor, ouça o que digo

A leitura é meu apelo.