O cheiro enjoativo de café frio misturava-se ao aroma de livros e papéis acumulados.
Janice digitava no velho computador. De tempos em tempos, espiava o velho relógio na parede. Pelas janelas amplas, um vento dos jardins abertos e arborizados do campus empurrava o ar pesado dali de dentro, trazendo consigo o frescor de folhas e grama recém-cortada.
Eliane, a professora de Ciência da Informação, apareceu na porta na sala dos
professores, de bolsa na mão e um sorriso animado, pronta para encerrar o dia.
– Vem comigo à aula de samba amanhã à noite?
– Eu, rebolando no salão? – riu nervosa. Por dentro, um aperto no peito. Vinte anos lecionando na Pós-graduação, presa ao ritmo maçante de planejamentos e avaliações. Quando tudo ficou tão sem graça?, lançou mais uma nota no sistema.
– É como um grito de liberdade! – A colega mexeu os quadris, simulando um
movimento do samba. – Anda, se anima!
– Hum, parece divertido… – Pendeu a cabeça pensativa. Conferiu o relógio na parede uma última vez e se preparou para encerrar o expediente. –. Vou pensar.
A ideia ecoava enquanto caminhavam pelos corredores do Palácio Universitário. Ia fazer cinquenta anos no fim do mês. Talvez precisasse mesmo de um novo enredo. No estacionamento do campus jogou a pasta no porta-malas do Mobi preto. Mais um sábado corrigindo trabalhos.
– Os ensaios começam às oito. Pensa com carinho! – Eliane jogou um beijo no ar e seguiu requebrando até o seu fusca vermelho.
No trânsito da Avenida Pasteur, uma batida contagiante irrompeu no rádio do carro.
Os dedos tamborilaram no volante provocando um sorriso surpreso. Sambar? A ideia era louca e tentadora. Como seria deixar um novo ritmo transformar suas aulas e sua vida? “Por favor, aproveite a oportunidade”, sussurrou para o retrovisor. “Você só está indo sambar.”
Em casa, largou a pasta no sofá. Diante do guarda-roupa aberto, hesitou entre os blazers sóbrios. No fundo, um vestido colorido esquecido – presente da filha – que nunca teve coragem de usar. Sentiu a textura macia entre os dedos. Trouxe-o junto ao corpo. No espelho, a imagem era outra – mais alegre, confiante. Respirou fundo e deixou a excitação
crescer. “Está decidido”, surpreendeu-se com a firmeza na voz. “Amanhã, vou dançar”.
As cores vibrantes da fachada da escola de dança eram um convite à alegria. Ajustou o vestido colorido. O tecido leve roçou a pele, despertando uma estranha sensação. Inspirou o ar quente da noite carioca e entrou.
Ao cruzar a soleira, sentiu-se uma nota dissonante. O silêncio acadêmico de alunos debruçados sobre projetos de pesquisa deu lugar a uma sinfonia de corpos jovens sincronizados ao ritmo contagiante do cavaquinho. “Talvez isso tenha sido um erro”, deu um passo para trás. Nesse momento, o grito de Eliane cortou o ar:
– Oi! Você veio mesmo! Pessoal, essa é minha amiga da Universidade.
Quis se esconder atrás de uma pilha imaginária de livros. Antes que pudesse balbuciar qualquer coisa, uma voz grave preencheu o espaço:
– Bem-vinda. – O instrutor de dança apresentou-se com um sorriso caloroso. –
Professora universitária? – Estendeu a mão em um forte, mas gentil aperto.
– Linguagem e informação, mas aqui eu me sinto uma caloura novamente – tentou soar descontraída, mas a voz gaguejante traiu a insegurança.
– Pronta para trocar o quadro negro pela pista de dança? – O roçar da barba grisalha fez o rosto dela esquentar, quando ele a cumprimentou com um beijo em cada lado.
O instrutor, Sr. Carlos, um homem de meia-idade deu o sinal com um aceno de mão.
Os tamborins começaram a pulsar, e como em um passe de mágica, os alunos se moveram com uma graça natural, os pés batendo no chão em perfeita sincronia com a batida do samba.
A luz do estúdio de dança refletia nos espelhos, criando um efeito de multiplicação, como se houvesse mais de uma turma dançando ao mesmo tempo.
Do canto do salão, Janice observava hipnotizada os movimentos fluidos da amiga.
Cada ginga, cada passo, parecia contar uma história. Era como analisar um texto vivo, onde cada gesto era uma palavra, cada sequência um parágrafo ritmado.
– Vamos lá, experimente! – Eliane puxou-a pela mão, com gentileza, até o meio da roda. – Não se preocupe em errar; só sinta a música e deixe seu corpo falar.
A princípio, congelou. Anos de postura rígida diante de turmas atentas pesaram em seus ombros. Mas algo dentro dela gritava por liberdade. Com um suspiro determinado, imitou o primeiro passo da amiga. Desajeitado, fora de tempo, mas um começo.
O professor aproximou-se. As mãos em volta da cintura dela, sem tocar, apenas guiando. Seu sorriso encorajador derreteu as últimas barreiras.
– Relaxe os quadris – instruiu. – Deixe a música entrar no seu corpo.
A cada passo, cada erro, cada risada nervosa, sentia as amarras se soltando. O ritmo, antes estranho, começava a fazer sentido. Era como aprender uma nova forma de comunicação, onde o corpo era a linguagem e o movimento a informação.
Quando a música parou, estava ofegante, despenteada e… feliz. Um sorriso genuíno revelava algo que há tempos não se vivenciava em uma sala de aula.
– Parabéns, doutora – Tiago elogiou-a com aquele olhar que a fez corar outra vez. – Você tem um talento natural para o ritmo.
– Obrigada – respondeu, surpresa com o tom rouco da própria voz. “Mente bem, mas é um fofo”, sustentou o olhar dele.
Eliane abraçou-a pelos ombros e sugeriu um café para celebrar sua estreia no samba.
– Café? – o professor interveio, os olhos castanhos encontrando os de Janice. – Isso pede uma caipirinha!
O convite, carregado de intenção, a fez corar. Lançando um olhar urgente à amiga, agarrou-se a seu braço, ansiosa por escapar dali. A gargalhada de Eliane misturou-se ao som dos tambores que ainda ecoavam em seu peito.
– Pelo jeito, parece que a doutora tem outros talentos escondidos.
As semanas passaram em um novo ritmo. Já não se importava com o suor escorrendo pela testa, enquanto o corpo se movia ao ritmo dos tambores. Quando Tiago pedia que cada aluno improvisasse um passo, ela hesitava por um momento. “Vamos lá!”, respirava fundo.
“É só dançar.” Seus pés moviam-se quase que por conta própria. Por um instante, esquecia-se de notas, prazos e currículos.
– Isso, pessoal! – a voz do instrutor ecoava entre os tamborins. – Deixem a música falar por vocês!
No trabalho, o sorriso radiante, o cabelo solto e o vestido florido sob o blazer
vermelho não passaram despercebidos. Os gestos largos e a voz firme e confiante contagiaram a turma.
— “Adorei o novo corte, professora! – uma aluna não pôde deixar de comentar.
Janice sorria, seu entusiasmo aumentava a cada dia. Movia-se pela sala de aula, como se estivesse em um palco onde a dança de ideias fluía em um ritmo de criatividade que envolvia a todos.
Meses depois, após um ensaio intenso, estava prestes a sair quando Tiago a chamou em um canto da sala.
– Oi, algum problema com meus passos?
– Pelo contrário – ele sorriu –, tenho uma proposta.
– Que tipo de proposta? – Sentiu um leve tremor nas pernas. – “Controle-se, mulher, você não é mais uma adolescente.”
– Que tal ser minha parceira em uma apresentação beneficente no Centro de
Convivência da Praia Vermelha? No mês que vem.
– Você quer dizer, nós dois?
– Sim, nós dois. Um número de samba.
– Eu? Mas… eu mal comecei a dançar… – Tentou disfarçar o nervosismo de se
apresentar no centro cultural do campus.
– Você tem algo especial. Uma energia que não se aprende. – o tom pareceu mais grave que o normal, e ela sentiu o estômago dar uma cambalhota. “Céus, quanto tempo faz que não sinto isso?”, pensou, quase rindo de si mesma.
– Eu… eu não sei o que dizer.
– Diga que vai pensar. Quero a minha sambista favorita ao meu lado. – Tiago piscou, a mão roçando o braço dela. O toque, embora leve, arrepiou-lhe todo o corpo.
Em casa, abriu seu currículo Lattes no computador. Artigos, palestras, livros de poesia… “E se eu acrescentasse ‘sambista’ aqui?”, riu sozinha. “Dra. Janice dos Santos, PhD em Linguagem e informação e Rainha da Bateria.” Seus olhos desviaram para o celular. A imagem de Tiago e ela dançando juntos invadiu sua mente. Sentiu o rosto esquentar. “Minha sambista favorita”, repetiu. saboreando cada palavra. “O que dirão meus colegas? Meus
alunos?”. Mas uma voz mais profunda sussurrava: “E se você não aceitar? Poderá viver com o ‘e se’?” Por um momento, viu-se dividida entre o conforto conhecido da academia e a promessa vibrante da pista de dança.
Com um suspiro profundo, começou a digitar: “Tiago, sobre o convite…” Parou, um momento, hesitante. “Cinquenta anos”, pensou. “Cinquenta anos e ainda tenho medo de dizer sim para a vida.” Com um sorriso nos lábios, fitou o cursor piscante. Os dedos pairaram sobre o teclado, prontos para compor o próximo capítulo de sua vida.