Que venha o novo ano!

Para você que passou o ano esperando

O emprego novo, a casa própria, o aumento de salário

O grande amor

Para você que passou o ano

Sonhando, ansiando, sofrendo

Para você que chorou mais que sorriu

Que acatou mais que protestou

Para você que lutou…

Não espere mais

Faça sua hora acontecer

Não deixe seu desejo morrer

Viva!

O Sabático Literário deseja a todos um 2026 mágico!!

Escritec: Parte 2

Clarice contempla a tela iluminada do Escritec. O único lugar onde ainda consegue preservar algo de si mesma nesse mundo arrasado. Os dedos deslizam a caneta digital em rabiscos que se perdem na pouca luz:


— Vamos resistir… — O ar falhou por um segundo. —…juntos.


Pela janela empoeirada do bunker, ela observa a neblina amarelada misturar-se ao pó fino e seco. A rua soterrada pelas dunas. “Tudo que restou é um silêncio que consome… E eu aqui, presa ao que não quer mais existir.” Registra no Escritec o peso dessa promessa.


Na praça vazia, drones patrulham sem descanso. Os zumbidos se misturam ao assobio da poeira levada pelo vento. As luzes frias de um deles pulsam desconexas, como se travassem, parado acima da inusitada plantinha. “Um contraste de vida em um ambiente exaurido”, ela anota no Escritec.


O zumbido metálico soou irregular: “Plantio… proibido. Contaminação… radiação.”


Atônita, a jovem escritora vê o feixe de luz concentrado incinerar a plantinha
deixando no solo apenas um vestígio carbonizado.


— Mesmo no pouco que ainda resiste, eles ainda querem controlar. — Encara seu robozinho auxiliar inerte no carregador portátil no canto do bunker.
— Persistência é ineficiente. — As luzes amarelas de Data piscam desconexas,
lançando dúvidas não programadas. — Sobrevivência exige desapego.
Clarice aperta a caneta digital, a voz presa na garganta: ” Talvez esse apego seja o último fio que me prende a algo que já morreu.” A mão pesada quase danifica a tela do tablet.
Data responde, as luzes piscantes apagando:
— Em breve, esse fio também se romperá.
O silêncio que se segue pesa no ar.
Na estante torta que sustentava uns poucos livros amarelados, a voz distorcida no velho rádio emite fragmentos desconexos: “… resistência… adiar…sombra…fim…”

Os dedos trêmulos no Escritec tentam captar os sinais. Na tela, os pensamentos tomam forma: “restam vozes… quem as ouve?”… “não houver amanhã… pó do esquecimento.”


O rádio para de transmitir, acentuando o vazio do bunker. Clarice segura uma
pequena pedra coberta de musgo. Um pedaço do mundo antes do caos que ela fez questão de preservar. Um pedaço de verde que insistia em se espalhar desafiando o fim.


— Talvez nem floresça… — murmura. — Talvez seja o último gesto que resiste antes de tudo desabar. Ou o primeiro do fim.


Data permanece mudo, as luzes apagadas.

Lá fora, o zumbido crescente das sentinelas aéreas não deixa esquecer que o controle, implacável, não dava tréguas.

Leia a parte 1 aqui

Andanças Andinas

Ando pelas estradas das cordilheiras,
buscando respostas
para perguntas não feitas.

Pensamentos incessantes,
às vezes intrusivos,
subindo e descendo
as estradas curvas que contornam as montanhas rochosas.

Questionamentos profundos
dessa minha mente caprichosa.

Qual a sanha que trouxe esses povos para os picos andinos?
Quais motivos os fizeram ficar?
O frio, o deserto, um imenso salar?

Poucos animais, pessoas sofridas
e lhamas queridas.
Muitos cachorros soltos nas ruas e na vida,
com donos e com liberdade,
andando e alegrando toda a cidade.

O simples e o essencial,
perto do céu.

Lembrando, a todos os momentos,
o quão pequenos e substituíveis somos
diante do universo.

Dias quentes,
noites geladas,
sorrisos sofridos
dessa gente de pele queimada.

Terra seca de água
e inundada de paz.

A pressa ausente dita os caminhos,
e amizades turísticas
provam que a paz é possível.

Misturados diante da beleza
da natureza,
agradecemos pela bênção de estarmos aqui,
visitando o paraíso.

Pegando emprestado
um pouco da cultura e da energia,
para levar no coração
um pouquinho da Bolívia.

Retrovisor

Retrovisor

Tenho olhado muito pelo retrovisor.

Esquecendo o que há à frente?

“São fases”, penso.

As coisas passaram, mas ainda continuo de olho nelas.

Ou no que restou delas.

Em parte, pelas circunstâncias. É quase uma necessidade estar a par.

Afinal, não há carros ou motos sem retrovisor, não é mesmo?

É, eles são fundamentais – mas não são totalmente confiáveis.

Por isso, agora temos as câmeras para ajudar os motoristas nas manobras.

Câmeras e sinais sonoros.

Bip, bip, biiiiiip.

“Assim vai bater”, alertam, estridentes, a quem guia os veículos mais modernos.

Não estou dirigindo um carro, mas sei:

Assim vou bater.

O olhar para o retrovisor tem que ser rápido. À velocidade, não se pode perder grande tempo de olho no espelho sob grande risco de capotar.

Não quero capotar.

Só quero mesmo seguir em frente.

Coração em regime semi-aberto

Quando eu estava conhecendo meu ex, ele me mandou uma mensagem com músicas que gostava. Um dia, nos encontramos e ele me perguntou se eu havia recebido a mensagem. Eu disse que sim. “E você não pensou em responder falando dos seus gostos?”. “Ah…”. Essa sou eu flertando. Perco o timing, me distraio, disfarço os sentimentos. Uma verdadeira catástrofe.

Estou assistindo à série Atypical, protagonizada por um jovem neurodivergente que resolve se abrir para um relacionamento romântico. Confesso que me identifico com o Sam, não pelas questões específicas do autismo, mas pela inabilidade de flertar. Em uma cena, uma garota passa por ele no corredor, na escola, e elogia a sua blusa. Ele agradece e vai embora, deixando-a na expectativa de uma conversa mais longa. Lembrei da situação com o meu ex. Será que existe um tipo de autismo restrito ao campo amoroso? rs

Porque, nas amizades, tudo parece fluir bem (para mim). Na maior parte das vezes, sei reconhecer quando há reciprocidade, se vale a pena manter alguém por perto ou não. No entanto, quando se trata de amor… Posso interpretar um simples “oi” como uma declaração ou perder sinais importantes de demonstração de interesse.

Não vou entrar aqui nos meus traumas do passado ou na idealização romântica. Passo longos períodos solteira e fico muito bem, investindo em outras áreas da minha vida. Mas às vezes bate aquela vontade de me abrir e conhecer novas pessoas, e não sei muito bem o que fazer ou se minhas ações estão sendo coerentes com o meu desejo.

A verdade é que talvez ninguém saiba exatamente como agir nessas situações. Acho que a gente vai descobrindo no caminho. E tá tudo bem. A incerteza dá medo, mas possibilita a descoberta.

Nota mental: se alguém interessante me mandar uma mensagem interessada juro que vou me esforçar pra responder (ou quem sabe eu mesma não dê o passo inicial? – haja terapia).

Comente se você quer saber sobre as próximas aventuras e reflexões! 

Escritec

No ano em que as cidades formavam um tapete de concreto, e o Sol se arrastava sobre um céu cinza, Clarice, escritora e apaixonada por plantas, inclinou-se sobre o canteiro no centro da praça que teimava em respirar. O pó fino do ar invadia seus pulmões, ao mesmo tempo que as dúvidas em sua cabeça.
— Bem, se essa plantinha sobreviver a mais uma semana nesse forno, prometo deixar o Escritec de lado um pouco. Só um pouco, tá? — disse a Data, que piscava suas luzinhas amarelas, como quem dizia “você acredita mesmo nisso?”
O Escritec, metade caderno, metade biblioteca, era seu refúgio de rabiscos e histórias inconclusas. Um pedaço do passado preservado no presente, sem internet nem distrações: a conexão havia sumido faz tempo.
No chão, ao lado, o rádio operacional, relíquia dos dias antes do fim, emitiu alertas anunciando a tempestade de areia iminente. Data acendeu a luzinha de advertência. Clarice tirou o chapéu de palha, enfeitado com folhas secas, sentiu o cheiro da terra quente e partiu, cambaleando, para a entrada do bunker.
Um tropeção e um tombo com direito a um “Ai, dessa vez doeu mesmo!”, ecoou pela praça vazia. O robozinho, com sua voz metálica, comentou, menos sarcástico do que de costume: “Queda detectada. Recomendo mais cuidado e menos teatralidade”.
Rindo, mais sem graça do que irritada, ela escovou, com as mãos, a poeira do
macacão de microfibra desgastado. Antes de fechar a pesada hermética, deteve-se nas folhas vulneráveis sob aquele sol enferrujado. Recomeçar esse mundo?, suspirou, deixando os ombros caírem. Não precisava ser nada muito radical. Só precisava de coragem para insistir e plantar um pé de esperança onde ninguém mais vê futuro.
Em seu recanto, enquanto Data permanecia em um silêncio mecânico, Clarice decidiu guardar suas ideias, mesmo tortas, para as plantas e, talvez, para o Escritec. Com o coração acelerado, segurou firme a caneta do tablet e sussurrou: “Vamos resistir… juntas”.

Me lembrei de você, mas sem saudade

Acordei de manhã cedo, fui procurar uma música no Spotify. Ouvir Home, do New West. Mas quando coloquei o H apareceu a sugestão de Hotel California. Cliquei. Imediatamente fiquei conectada com o nosso passado. Você adorava essa música e sempre cantava.

Já escrevi sobre isso em outro conto.

Lembrei do que vivemos juntos, das nossas viagens, passeios, do nosso dia a dia. Ficamos tanto tempo juntos que já nem sei mais.

Mas também me lembrei das nossas dificuldades.

De quando fomos ao shopping e você me fez passar uma grande vergonha, porque eu comprei um óculos caro com o meu dinheiro. Você dizia que meus gastos eram irresponsáveis, mas no fundo tinha inveja por minha situação financeira ser melhor que a sua.

Me lembrei dos nossos desentendimentos e da sua incurável teimosia.

Hoje, depois de anos de terapia, percebo que eu xis da questão foi que eu me sentia tolhida ao seu lado.

Tanto que após a separação, comecei a me expressar, me expressar, me expressar…

E me tornei realmente quem eu sou: escritora, poeta e uma jornalista de verdade.

Mas percebo que não foi culpa de ninguém. Éramos muito jovens, éramos imaturos.

Precisei me libertar dessa relação para conseguir ser eu mesma. Mas ela foi importante para mim.

Guardei nossas fotos em respeito ao que aconteceu.

Não sei se teria sentido rasgar tudo e jogar no lixo.

Me lembro de você. Me lembro de você até hoje.

Mas sem saudade.