Meu pai, te vejo todos os dias em um vasto campo verde, iluminado pelo Sol, caminhando sorridente e tranquilo com uma bata e calça branca. Que nem nas novelas espíritas.
Imagino você feliz e leve, muito mais do que conseguiu ao longo da vida.
E você podendo ajudar ao próximo e exercendo o bem.
Te imagino modificado em suas dificuldades emocionais, em suas atitudes muitas vezes tão difíceis de lidar.
E quase consigo sentir seu cheiro. Uma espécie de memória olfativa difícil de explicar. Não é o aroma de algum tipo de perfume, ou tecido, algo assim. É mais uma sensação do que algo racional, que possa ser definido em uma fórmula, apontado com alguma palavra concreta.
Ah, mas a textura da sua pele eu memorizei. Consigo resgatar em mim, como em um beijo no rosto e um abraço apertado.
Pai, te vi envelhecer aos poucos em minha frente, e tão pouco pude fazer contra isso.
Era um processo natural, mas não soou tão natural assim pra mim. Por trás dessas mudanças havia a explicação óbvia de que um dia eu iria te perder.
E apesar de todas as nossas dificuldades e conflitos, te garanto que essa era uma das últimas coisas que eu queria.
De você, guardarei as lembranças doces. Com sabor de chocolate. Ou sorvete. Ou sorvete de chocolate.
Adorava suas roupas mal combinadas, aquele sapato mocassim com meia até metade da perna e camisa quadriculada estilo festa junina, sua obsessão por política, e até mesmo as piadas idiotas, como a do japonês que só conseguia comer feijoada porque era a única palavra em português que ele conseguia falar.
Você achava essa piada engraçadíssima, e eu toda vez que ouvia tinha vontade de chorar. Eu tinha muita pena deste japonês. Ainda assim, daria tudo para te ouvir contando novamente.
Fica repetindo na minha cabeça o dia que eu saí com um rapaz e você apareceu correndo na porta, quando ele me deixou de carro em frente a casa, chamando bravo meu nome, e o menino acelerou e saiu correndo de medo. O detalhe é que já tínhamos quase 40 anos…
Eu me arrependo um pouco desse dia. Teria sido melhor ficar contigo. Perder uma noite a seu lado, em meio a tão poucas que eu tinha disponíveis, foi bem burro.
Fica na lembrança ainda o dia que você me chamou pra catar manga no pé, na praça em frente a sua casa. Parecia um jovem de cabelo branco. Um menino brincando.
Fica dentro de mim, em looping infinito, o dia que te vi olhando pro chão com o olhar perdido de quem começava a ter uma doença grave, que afetou muito sua visão.
E fica comigo a recordação de quando você se desesperou porque eu vomitei na sua frente em um restaurante. E levando um balde pra mim no banheiro quando mais uma vez em vomitei, desta vez em casa.
E me lembro também quando eu deitei passando mal ao seu lado e pedi para você comprar uma remédio para mim pelo aplicativo.
Foi a última vez que eu deitei ao seu lado.
Talvez eu tenha passado mal tantas vezes pouco antes de você morrer porque queria ter a oportunidade de me recordar de momentos de cuidado que eu tive ao seu lado. Talvez meu espírito já tivesse me avisando o que estava prestes a acontecer. Antecipando a dor…
E fica dentro de mim, infelizmente, o retrato de você acamado no hospital. Entre tantos outros complicados momentos que experimentamos ao longo do seu adoecimento.
Tubo, traqueostomia, bolsa de sangue…
Pai, eu não consigo entender porque a vida fez isso com a gente. Porque fomos mais separados do que já estávamos. Será que já não bastava morarmos em cidades diferentes?
Apesar dessa tristeza, meu pai, o pior momento não foi te ver no caixão. Tive certeza ali, no primeiro olhar, de que não era você, era só seu corpo. Embora eu tenha falado várias vezes com ele, afinal era a única possibilidade que eu tinha de dizer adeus.
O momento mais duro para mim foi quando te enterraram. Me perguntei assim, nossa por que precisa ser tão lá no fundo e com tanto cimento em volta? Meu pai já afastado de mim, precisa colocá-lo ainda mais longe?
Por que vocês querem tirar ele de mim?
Naquela hora, realmente eu confundi teu corpo com tua alma. E tive a estranha sensação de que você estava sendo colocado numa prisão. Crime de pena perpétua, sem visita.
Achei tudo muito cruel. Comigo, com você, e com todos nós.
Hoje, a vida segue em frente. Fui até na academia. E achei estranho todo mundo conversando sobre os assuntos do dia-a-dia. Pensei assim, como tudo segue normalmente, se meu pai morreu? Será que ninguém está sabendo?
Não, ninguém estava sabendo. Pouca gente sabe da nossa morte. Da sua, da minha, de todos nós. A dor do cidadão comum não sai nos jornais.
E mesmo quem sabe, também segue em frente, também vai malhar, come churrasco, escuta música alta, e etc e tal.
Que bom né? Já pensou se o mundo todo entrasse em colapso e parasse de funcionar?
Ainda bem que está tudo bem pra maioria das pessoas. Mas pai, pra mim meu pai, não está,
NÃO.
((E como nas novelas espíritas, me imagino te reencontrando num abraço longo e apertado. Cheio de sorriso, saudade e perdão))
***
Seu sangue, meu sangue, nosso.
Amor e fidelidade sempre.
Estou, estive, estarei.
De 1960 a 2026
Com tudo o que você merece, Carol
