Retrovisor Tenho olhado muito pelo retrovisor. Esquecendo o que há à frente? “São fases”, penso. As coisas passaram, mas ainda continuo de olho nelas. Ou no que restou delas. Em parte, pelas circunstâncias. É quase uma necessidade estar a par. Afinal, não há carros ou motos sem retrovisor, não é mesmo? É, eles são fundamentaisContinuar lendo “Retrovisor”
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É aqui que ganho a vida
Dedos sujos de tinta.Vou para o escritório mesmo assim.Há que cumprir:A carga horária.O contrato.As tarefas.As metas.As expectativas (alheias e minhas) sobre mimQueria ser outra pessoa.Mas eles não deixam.Eles nunca vão deixar.Gostaria de ir embora. Ainda que encontre isto mesmo em outro lugar.Dizem que muitos gostariam de estar no meu lugar.Os processos, os padrões, as regras,Continuar lendo “É aqui que ganho a vida”
Segunda-feira
Eu queria que amanhã fosse sábado de sol forte e piscina.Em vez disso, segunda-feira.Eu queria que amanhã você estivesse aqui comigo.Em vez disso, segunda-feira.Eu queria que amanhã houvesse brindes by the pool.Em vez disso, segunda-feira.Eu queria um amanhã recheado de risadas e papos.Em vez disso, segunda-feira.Eu queria amanhã delivery de gelo e guloseimas.Em vez disso,Continuar lendo “Segunda-feira”
Franco-brasileiro
As crianças na escola ao lado ensaiam a quadrilha.Não as vejo. Mas sei que estão lá. Pelo som.É quase junho.Não sei se faz sol ou chove.Minha confusão mental.A velocidade vertiginosa das exigências corporativas.Neste apartamento, o toque do Teams.Na escola, Gilberto Gil, Andar com Fé, gritos, palmasO comando da professora ao microfone“Ummmmmmmm”. As crianças entendem oContinuar lendo “Franco-brasileiro”
Zap
Antigamente, dizem, eram os escritores, a folha em branco e o escrever à mão. Então, veio ela, a máquina de escrever, e os escritores passaram a sentar-se à mesa, graves, para redigir seus textos. Depois, chegou o computador e lá vemos o escritor e a batida figura do sofredor em frente à outrora folha, agoraContinuar lendo “Zap”
Erros acertos
Quero escrever tudo errado.Ser hoje dadaísta. E amanhã também. Para horror dos que me olham do alto Achando que eu não sei Quando, na verdade, não me importo Já que tamanho cuidado é mero disfarce de exercício de poder vazio. Improdutivo. Elitista. Segregador. Velho. Já escrevia em 1925 (!), Oswald de Andrade: PronominaisDê-me um cigarroDizContinuar lendo “Erros acertos”
Apart hotel
Ele voltou do passeio com a cadela e tomou a decisão que adiava há um ano e meio: tirou o corpo da esposa da sala. XXXXXXXXXXXXXXXEla gostava de homens narigudos. Calvos. De gengiva preta. E brochas.O nariz dele era dos grandes. E foi o que a atraiu.Ele era estranho. Só aparecia na piscina do prédioContinuar lendo “Apart hotel”
A infecção
Ela nunca imaginou que sua vida seria assim. As doenças incuráveis e a loucura. Mas foi o que aconteceu. “É a aleatoriedade da vida”, poderíamos dizer, para tentar consolá-la. Mas ela finge que não busca mais consolo. “Não, foram escolhas”, retrucaria. Péssimas escolhas. Em meio ao caos da vida. Ao capitalismo, a histórias de vidaContinuar lendo “A infecção”
Literatura da revanche
Cuidado comigo. Porque eu não ando só. O bloco de notas do celular está aí para isso mesmo e cada gatilho eu transformo em ideia. Minha literatura é da revanche. Meu contragolpe é na forma de letras. Mexe comigo para você ver só. Te transformo em personagem e na digitação rápida do teclado você vaiContinuar lendo “Literatura da revanche”
Os médicos do INSS não sorriem
Os médicos do INSS não sorriem. Estão sempre com a cara fechada. Pouco papo, poucas ideias. Se você ousa falar, os foras são cortantes. “Não foi isso o que te perguntei” – eis aí uma das frases que ouvi quando tive a audácia de abrir a boca. Passei por você hoje, doutora. Você nem meContinuar lendo “Os médicos do INSS não sorriem”
