A Substância

Fui ao cinema acompanhando minha caçula de 18 anos em mais uma escolha dela pelo gênero de terror. Confesso que não é meu estilo de filme preferido. Mas saí no meu domingo à tarde aberta a provar essa experiência. E sim, foi uma experiência!
Sempre que vejo obras (livros ou filmes) capitaneados por mulheres e, mais
ainda, quando estas obras trazem à baila temas do universo feminino, sinto-me tocada a escrever sobre elas e, talvez, plantar mais uma sementinha que pode vicejar em reflexões para mim e para quem me lê. Além de contribuir, ainda que num raio de influência bem limitado, com a divulgação do que as mulheres fazem de relevante por aí, no mundo da escrita e do entretenimento.
A Substância, filme de 2024 da diretora francesa Coralie Fargeat, deixou-me
reflexiva por dias, revendo mentalmente elementos do filme que reforçavam a ideia principal da diretora que, a meu ver, era tocar na ferida do padrão estético surreal exigido para as mulheres, na objetificação dos corpos femininos jovens e no descarte que os corpos das mulheres maduras sofrem.
E por falar em ferida, se você tem asco de ver o corpo humano em sua rudeza
orgânica, com agulhas perfurando feridas adentro e com foco ampliado em costuras de carne, o filme pode lhe causar muito desconforto. Por essas escolhas, a obra é considerada “body horror”, ao trazer cenas que exploram o corpo humano com uma proximidade tal que beira ao grotesco.
Para além de impactar o público com os “horrores” dos nossos corpos, a
diretora se utiliza desse artifício para contrapor a crueza biológica do corpo com a estética perfeita e inalcançável que a sociedade impõe às mulheres. Foi muito interessante ver as cenas da deslumbrante Sue (Margareth Qualley) deixando os homens embasbacados por onde passava para, na cena seguinte, vermos a crueza de como ela conseguia essa aparência às custas da mulher madura e “descartada”
Elizabeth (Demi Moore), jogada no frio chão do banheiro por dias. Estas são as
personagens principais do filme. Uma é a matriz, a versão original, envelhecida mas bela (Elizabeth). A outra é seu “outro eu”, a versão jovem e bela de Elizabeth (Sue).
Os homens são retratados de forma bem caricata, aparecendo ora como
assediadores ou animais (Harvey – Dennis Quaid – é asqueroso na cena comendo camarões), ora abobalhados com o esplendor da beleza delas ora cruéis ao julgar os corpos tidos como dispensáveis.
De fato que teve muito sangue e gosma, corpo humano com suas secreções e textura de carne à mostra e corpos disformes. Todos esses elementos se juntaram ao cerne da questão principal acerca dos corpos femininos e de como a sociedade os vê e os classifica. O filme expõe que qualquer forma de se tentar alcançar esse padrão absurdo só causa mais dor e sofrimento. Seja na carne. Seja na alma.

Sem dar spoiler, uma cena muito impactante mostra o desvario que ambas as
mulheres chegaram para cumprir com seu compromisso midiático. Ainda que estivessem tomadas pela loucura que a situação extrema as impôs, jogaram na cara das pessoas o terror fruto do alto preço que lhes foi cobrado. E os “credores” se aterrorizam com o que veem, ingenuamente acreditando que não fazem parte daquilo tudo. Mas fazem.
Como terror não é meu estilo preferido, eu cortaria algumas cenas que me
pareceram exageradas, inclusive amenizaria o horror da sequência que desencadeia o final do filme. O filme tem mais de duas horas de duração. Acho que poderia ter sido mais enxuto. Mas, se fosse, será que teria passado o recado que queria? Só assistindo para responder.

2 comentários em “A Substância

  1. No processo de busca da melhor versão, existe uma linha tênue e imaginária entre o que é considerado saudável e doentio. Talvez, a grande sacada seja exatamente essa: até onde é viável ir? No mundo de incessantes comparações se torna bem difícil estabelecer o limite, mas é preciso se conhecer muito bem para poder dominar os excessos desse processo.

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