Mães no Poder

Cheguei no evento em cima da hora. A dificuldade em conseguir um táxi na hora mais movimentada da manhã fez com que eu não chegasse com a antecedência que eu queria. Apesar de estar um pouco preocupada com o horário, estava feliz em contemplar as paisagens daquela cidade cheia de significado para mim e na qual eu tinha pousado na véspera. 

Minha primeira ida à Brasília foi a trabalho, há mais de quinze anos. Depois de várias idas e vindas para participar de grupos de trabalho onde aprendi muito e conheci muita gente bacana, morei na cidade por um ano, quando assumi um novo cargo na mesma empresa.

No caminho do aeroporto para o hotel, lembrei de mim mesma há dez anos atrás, quando embarquei em Brasília para assumir aquele novo cargo. Naquela ocasião, ia morar e desbravar o cerrado como residente. Agora, voltava em outro momento profissional e pessoal bem distinto. Agradeci por tudo que vivi ali e que me conduziu, de certa forma, a esse novo reencontro.

Ofegante, cheguei ao local do evento. Desci as escadas com minha perna direita dolorida mas mantendo a pose de quem estava plena com seu salto elegante. Ao fim do dia, a escolha por essa “elegância” me cobraria seu preço. Todas as escolhas têm um preço.

Tentei passar despercebida, pois me considerava atrasada e me sentei na primeira cadeira vazia que vi. Alguns colegas ainda chegaram depois de mim. O evento demorou um pouquinho para começar e pude ir descansando da correria e entrando no modo observadora-reflexiva. O evento era destinado aos gestores técnicos (no caso, engenheiros ou arquitetos). Com um representante para cada uma de nossas Unidades no Brasil.

À medida que ia me ambientando e olhando o entorno, buscando achar algum rosto conhecido ou identificar alguns colegas com quem converso apenas de forma online, apropriei-me que a maioria esmagadora era de homens entre meus pares. A constatação não foi novidade e era até esperada, o que não a torna menos incômoda.

Quando eu era criança, eu me achava uma menina invencível. E achava que com muito esforço eu poderia chegar onde quisesse. E tambem tinha certeza de que quando eu fosse adulta o mundo seria mais justo para as mulheres. Passados muitos anos, vejo que algumas coisas mudaram, principalmente no discurso. Mas, na vida prática, ainda há muito que se caminhar.

Antigamente, eu me orgulhava em alcançar espaços predominantemente masculinos (como no curso de engenharia, por exemplo, ou quando ia jogar sinuca com meu pai nos bares em que ele frequentava), achando que eu era uma menina-mulher “especial” por isso, por ocupar esses lugares. Hoje, vejo que esse pensamento era fruto de uma cultura que eu tinha aprendido de que as mulheres não podiam mesmo ocupar certos lugares, e, por isso, estar neles era como se eu fosse melhor que as outras. Refletir sobre o que impede as mulheres de chegarem na linha de destino que desejam é uma das coisas que hoje mais me instiga.

Então já faz bastante tempo que troquei esse “orgulho” por inquietacao, ao ocupar esses espaços com presença predominantemente masculina. E não foi espanto também quando se formou a mesa de autoridades para abertura do evento. Ela era toda masculina. Toda.

Por que é tão difícil para as mulheres ocuparem determinados espaços? Cada vez mais, observo um movimento em que trabalhadoras preferem abrir mão de determinadas posições porque as condições muito frequentemente não são favoráveis para elas. Seja pela dificuldade de conciliar com a vida pessoal, com uma carga doméstica e do cuidado
comumente mais pesada para elas (isso já foi até tema de redação do Enem), seja porque as regras do jogo no ambiente corporativo colocam as coisas mais difíceis para elas, como seleções com bancas predominantemente masculinas ou necessidade de uma disponibilidade irrestrita, incluindo jornadas excessivas ou exigências difíceis de conciliar com a rotina familiar, como mudanças frequentes de cidade.

E quem perde com a falta de mulheres no “poder”? Todos. Os filhos, os companheiros e companheiras, os pais, os amigos, os colegas de trabalho, os líderes e liderados, as empresas, as cidades… Que deixam de contar com as habilidades, as ideias, a competência e a sensibilidade delas, tornando o mundo mais empático e inclusivo (e não só para elas). Ainda há muito machismo entre as próprias mulheres, quando dizem, por exemplo, que não gostam de chefes mulheres ou que algumas delas são mais duras que os chefes homens, talvez porque estas não tenham encontrado outra forma de se posicionarem em um mundo corporativo normalmente hostil para elas. Às vezes, a “casca dura” é uma defesa, tal qual o mandacaru do sertão.

Fui mãe aos 21 anos e trabalho “de carteira assinada” desde os 23, quando me formei.
Desde então, minha jornada profissional e todas as decisões que tomo quanto à minha carreira ponderam, antes, sobre quais os impactos dessas escolhas sobre minha família. Às vezes avanço, em outras recuo. Levar minha família em consideração nessas tomadas de decisão me limita mas não me poda. Porque o ser que sou também é formado pela porção da minha família em mim. E a gente é um ser único e integral, com todas as nossas parcelas constituintes. Em uma entrevista recente que fiz para uma banca (toda masculina) em um processo seletivo interno, para contornar o nervosismo habitual que ronda uma situação de avaliação, me imaginei entrando na sala com minhas filhas e algumas amigas incríveis que poderiam e/ou queriam também ter aquela oportunidade. Isso me deixou tranquila porque me lembrou o verdadeiro sentido de eu estar ali e reforçou a força delas em mim.

Mas voltemos ao evento. Gradativamente, fui me ambientando e trocando experiências com meus pares de ambos os gêneros. Nos dias seguintes aos da abertura, troquei o salto por outro calçado mais
condizente com minha condição física naquele momento (uma dor crônica na perna direita que vinha me acompanhando há algumas semanas e da qual eu não “parava” para olhar. Posteriormente, esse descuido também me cobraria seu preço).

Nos dias seguintes, libertei meu estilo pessoal que também inclui um visual feminino e colorido (mas não só ele). Porque tambem não quero ter a obrigação de usar o “dress code” masculino para parecer competente. Há quem pense o contrário de mim, indo ao encontro dos manuais de vestimenta do mundo corporativo que pregam que os batons e esmaltes vermelhos não são recomendáveis. Talvez porque entendem que ao ser “feminina demais”, aquela mulher seria frágil ou incapaz de decisões sérias, encarcerando a feminilidade desde sempre, como se ela fosse uma ameaça (a quem? a que?).

Recentemente, vi a entrevista de uma jornalista de destaque, na qual relatava que demorou a se “libertar” do estilo masculino de se vestir que a obrigavam quando iniciou no jornalismo. Era isso ou ela não teria as oportunidades que teve.

Uma vez, atendi um cliente que normalmente era atendido por um determinado engenheiro que, naquela ocasião, estava de férias. Quando ele me viu, ficou decepcionado e me perguntou se não tinha um engenheiro (homem) para atendê-lo. Qual não foi seu espanto quando eu lhe disse que eu seria a engenheira que o atenderia e que eu estava formalmente substituindo o colega ausente.

Apesar de saber que o nosso valor não está no reconhecimento alheio, é muito cansativo enfrentarmos tantas dificuldades como essas que já deveriam estar superadas há muito tempo. E quanto menos mulheres no poder, mais difícil será mudarmos esse status quo. E todos, todos perdem com isso.

Então, homens e mulheres que entendem que um mundo com equidade de gênero nos beneficia a todos, apoiem e ajudem de verdade (e não só no discurso) as colegas de trabalho de vocês que enfrentam tantas batalhas (fora e durante o trabalho) para estarem ao lado de vocês, lutando nas trincheiras.

4 comentários em “Mães no Poder

  1. Texto maravilhoso Lidianne! Você expôs muito bem os sentimentos! Adorei!
    Me vi muitas vezes em situações idênticas a que você descreveu! Tanto na faculdade de engenharia como nos muitos anos de trabalho!
    Me encheu os olhos de lágrimas quando li você dizer que muitas decisões a gente pensa primeiro em nossas famílias, e que isso te limita mas não te poda ! 👏🏻👏🏻👏🏻
    Mas sempre é o que digo as meninas minhas filhas, porque só tive mulheres: “ o que nos fragiliza é a maternidade, nosso ponto fraco são os filhos”
    Fora isso seríamos invencíveis profissionalmente!
    Beijão
    Adoro seus textos! ❤️❤️❤️

    Virgínia Costa

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  2. Quêisssuuu???

    lindo demais o texto e sim, você descreveu como eu lhe enxergava quando trabalhei próximo a você. Foi isso que me trouxe confiança para tentar uma amizade com você. Precisamos de diversidade e equidade de gênero em todos os modes operandi da estrutura social. Inspirador. Parabéns pela visão.

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