A gaveta entreaberta mostrou a camisola encharcada
E que fora displicentemente guardada
Para um novo uso
O toque gelado eriçou a dor que fingia descansar
Mas que em um átimo retornou à cena para explicações
Reiterada e exaustivamente
Em monólogo
Na ilusão de que ao se explicar
lhe fosse permitido partir
Os olhos cerrados ardem
E perguntam se sou só água salgada
E de que poço sem fim ela jorra sem descanso
Discreta ou escancaradamente
Em rio de rímel que percorre os sulcos da face
Do pescoço e do colo
E que se represam na camisola saturada de mim
Retiro-a e seu cheiro de maresia inunda o quarto
E despida de quem pareço ser
Encaro-me no espelho, aconselhando-o
Devagar, junto meus pedaços empapados de água e sal
Deito-os na cama fria
E sinto-os, pouco a pouco, escorrer pelos lençóis, tapete e chão
Deslizando pela sala, descendo as escadas, lavando pés estranhos
Alcançando a rua, escurecendo o asfalto
E chegando ao mar
Para o rio que sou, enfim, nele desaguar

Que dor profunda, abre sulcos e mostra a alma desnuda. Que bom que essa dor se dissipou no mar. Lindo poema!
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