Tentou gritar…não conseguiu. A fala não cabia mais naquele cenário unilateral de um relacionamento. Olhou para a única coisa boa que restava, sua filha Ana. Seus olhos cheios de esperança eram responsáveis por sua resistência.
Talvez sem Ana , já teria se desintegrado como uma estrela que morre numa galáxia longínqua e ninguém percebe. Pensou na frase; e virou estrelinha… e quantas vezes sentiu seu brilho se extinguir mas ao sentir a presença dos meigos olhos de sua filha toda a força que ainda restava se multiplicava novamente.
Outra frase em seu pensamento…Levar somente o necessário. E mais um dia normal se foi. Ele mais uma vez chegou tarde, bafo de bebida, agressivo e com cheiro de outras bocas. Reclamou de tudo e mais uma vez forçou uma relação sexual. E aí foi bom pra você ? Ela perguntou a si mesma como se precisasse provar que ainda era uma mulher e não uma coisa.
Levantou, foi ao banheiro e tomou banho numa vã tentativa de purificação. Vestiu-se, foi até o quarto de Ana e observou que ela dormia tranquilamente. Foi dormir, mas antes chorou silenciosamente e rogou forças para o dia seguinte.
Todo dia era sempre igual. Mais um dia normal. Chegaaaaaa! O grito saiu. Ana olhou assustada. Não compreendia o que se passava com aquela mãe aparentemente muda. Se recompôs, pegou Ana pelo braço e partiu. Para onde foi? Não sabemos, não deixou notícias, nem levou celular. Será que virou estrelinha? Desejamos que esteja bem. Em algum lugar onde conseguiu uma nova chance de recomeçar.

Muito tocante! Há muitas mães de Anas por aí, tidas como passivas mas que estão apenas juntando forças para as guinadas necessárias e normalmente nada fáceis! Parabens pelo texto!
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Que a mãe da Ana esteja curtindo a vida adoidado, sem que nunca mais precise viver um dia igual ao outro. Parabéns pelo conto!
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