NÃO TOQUE NO MEU CABELO!

Por: Elaine Resende

Recebi uma tarde dessas uma mensagem com uma foto, uma daquelas recordações que te transportam de pronto para um dia infinitamente bom. Minha irmã e eu, lado a lado, no batismo da bebê que eu seguro nos braços, com meus olhos inchados e o nariz vermelho.

Olívia, a bebê em meu colo, é nossa avant-première. Uma celebração de laço vermelho que inaugura em nós uma vida adulta de verdade: filha para minha irmã, neta para minha mãe, sobrinha e afilhada de consagração a Maria para mim. Muitas mulheres numa mesma sentença. Existia uma vida antes de sua chegada, e como em um solstício de verão, uma nova estação se inicia em nossos calendários. Um egoísmo nosso dar todo esse peso à primogênita, mas é difícil lidar com esse sentimento no primeiro encontro. Olívia marca o começo de uma nova geração, e nós que éramos apenas três, agora vemos o mundo com a perspectiva de uma continuidade antes inexistente.

Minha irmã se casou com meu melhor amigo de faculdade e tiveram a mais linda bebê que eles poderiam ter. Aquela bebê que me fitava de volta numa foto antiga, nosso grande amor. Sagaz, espirituosa e divertida, ela é a remetente da mensagem com a foto e a legenda curiosa: “o mais engraçado dessa foto é que a mamãe ainda usa o mesmo penteado.” Emendei: “eu também!”. E rimos juntas dessa peculiaridade.

Dias depois recebo uma mensagem de um dos meus endereços de e-mail que não costumo acessar. Uma caixa postal com a perseverança cristã de me fazer reviver em suas mensagens recordações de outros tempos. Cedendo as suas súplicas, abri várias mensagens e me deliciei com as fotos, de todos os tempos e narrativas. Numa das imagens, há pouco mais de quatro anos, estou lá eu e meus cabelos super curtos: a recordação do big chop. Lembrei logo do comentário feito com a Olivia e foi impossível não transformar essa simples frase em uma grande reflexão.

Big chop, BC para as íntimas, é um termo que foi incorporado ao dia a dia das mulheres de cabelo crespo e retrata o momento de maior sacrifício na transição de um tratamento capilar qualquer para os cabelos naturais: a hora do corte. Passei aquela foto e mais outras tantas, e me encontrei loira sarará, como diria Sandra de Sá, um dos meus maiores arrependimentos devidamente registrado em meu passaporte. Digo mais, esse não foi o meu primeiro grande corte. Talvez nem de longe seja o último. Sou afeita às transições, às mudanças e às vezes aos modismos, mas sinto que estou sempre em busca, uma busca que não se encerra em si própria, que se retroalimenta nas minhas necessidades de afirmação e poder. Cabelo é poder!

E não é à toa que digo isso. Lá nos idos da história antiga, Dalila cortou os cabelos de Sansão e lhe roubou as forças, num ato desesperado para salvar seu povo da força de um homem (aqui alguém pode me dizer que foi apenas por dinheiro, importante manter o foco no cabelo!). Desde os meus 13 anos mudo os cabelos como se mudam as estações. Essa idade tão marcada é a data do meu primeiro alisamento de cabelo. Eu era uma menina rebelde, que corria livre de pés calçados, que amava o vento no rosto, e detestava pentear os cabelos. A solução? Alisar para controlar o volume indomável. Indomável era o meu espírito! Meu cabelo, apenas um reflexo. A vasta cabeleira não resistiu e se desiludiu com a vida, me abandonando aos poucos. Eu parecia um cão sarnento sem pelos. Tá aí a minha recordação mais antiga, meu primeiro big chop!

Naquele tempo não existia uma variedade de produtos para cabelos crespos que não causassem algum tipo de dermatite. Os cremes bons eram caros e não garantiam uma hidratação de qualidade, os cremes acessíveis eram só isso, acessíveis.

Crescida, parti para tratamentos menos destruidores. E por volta dos 22 anos decidi que era hora de mudar. Outro big chop, dessa vez saindo do natural para o cabelo alisado e curto. Um big chop reverso, acho que posso chamar assim. Meus longos cachos foram cuidadosamente retirados, lavados e transformados em um aplique para uma noiva que tinha o cabelo rarefeito. Meu cabelo indomável entrou na igreja de véu e grinalda, com pompa e circunstância, para ver realizado o sonho de outra mulher. Eu não fui convidada, mas estive lá na minha forma mais marcante.

Quando dei o passo na direção dos alisamentos não tinha como mensurar o tamanho do estrago que aquela decisão me causaria. Não seriam problemas capilares tratáveis com medicamentos. As raízes são sempre interiores ao que se pode enxergar na superfície, e as minhas datavam da minha origem humilde e da minha questão racial. Me tornei refém das escovas, completamente escrava da imagem que criei de mim. Imagina lidar com os 40°C do Rio de Janeiro e o cabelo alisado no calor do secador? Era só pôr um pé na rua para sentir o suor escorrer no couro cabeludo e o desejo de fazer aquele desafio do balde de gelo na cabeça crescer espontaneamente. Para os fracos! Eu era, no meu entender, uma fortaleza obstinada, não ruiria frente a um problema tão simples de resolver. Nas estações mais quentes, no mínimo 2 escovas semanais eram necessárias.

Fiz a alegria e a desgraça dos salões de beleza. Altos níveis de exigência, lisos perfeitos com ondas nas pontas de um cabelo que chegava ao meio das costas. Ganhei o apelido de dondoca e outros que provavelmente não sabia que eram para mim. Fazia duas ou três pessoas trabalharem simultaneamente comigo para economizar tempo, um bem sempre escasso. E me sentia feliz assim. Ou pelo menos achava que sim.

Se toda história tem um revés, o meu começou no mestrado, durante as aulas de engenharia dos materiais. Estávamos eu e meu marido nos preparatórios para o nosso primeiro filho quando comecei a entender um pouco melhor sobre os produtos químicos. Quando a gestação se concretizou, não queria usar em meus cabelos produtos que poderiam envenenar meu bebê, alguns feitos à base de lítio, chumbo ou outros metais pesados. Formaldeídos? Nem pensar! A mudança não podia mais esperar e um outro big chop veio de assalto.

Usei tranças nagô coladinhas na cabeça, tranças rastafári em apliques cacheados, e meus cabelos naturais voltaram a preencher os espaços vazios. Tentei me manter forte e adepta de uma mentalidade mais natural, mas não durou muito. E como não poderia fraquejar sozinha, levei muitas amigas para alisar os cabelos comigo. Apresentava minha cabeleireira de confiança, que as conduziria no caminho de incontáveis retoques de raiz, escovas e pranchas, e um mundo de produtos dos quais não entendemos nem os 3 primeiros ingredientes do rótulo.

Dentre as adeptas do meu estilo de vida, uma amiga em especial que costumava se orgulhar de seu cabelo Black Power acabou cedendo aos meus encantos. Renunciou ao seu Black e viveu por um ano, ou talvez dois, alisada. Ter os cabelos nos ombros, soltos e esvoaçantes, fizeram-na mudar de comportamento. Ela era linda com seu Black, mas se sentiu poderosa com seu corte Chanel. E esse poder durou até o dia em que seu noivo a deixou, sob as alegações de que gostava mais da versão anterior, pois os cabelos a transformaram em outra pessoa. Um golpe sujo (ou não) e ela retornou ao Black, mas o noivo, esse nunca retornou.

De uma outra amiga querida ouvi que a vida na comunidade em que morava era como uma estrada do interior, cheia de obstáculos. Seu ex-marido e vizinho sentia saudades, queria que ela reatasse o casamento rompido. Na ânsia de ser atendido, se queixou ao mandante da comunidade sob o pretexto de que ela o traía. Na súplica do marido traído, a amiga foi chamada ao julgamento sumário, cuja punição para a adúltera era, rufem os tambores, raspar a cabeça. Quer tirar o poder de uma mulher? Roube seus cabelos. Ela conseguiu provar sua inocência mesmo não havendo crime, e preservou sua honra e seus cabelos.

No filme V de Vingança, durante o processo de dor e humilhação ao qual a heroína é submetida, numa tentativa de forjar seu caráter guerreiro, seus cabelos… conseguem adivinhar? Natalie Portman foi a primeira a raspar a cabeça para um filme, até onde me lembro, em uma única tomada sem cortes. Chocante! Num filme mais recente, Felicidade por um Fio, Sanaa Lathan vive o drama de perder os cabelos alisados desde a infância, e uma mudança de comportamento se inicia. A atriz também raspou as madeixas e eu me identifiquei muito com esse filme.

Na literatura me lembro da Fantine de Victor Hugo em Os Miseráveis, que veste a filha com seus cabelos, como ela mesma diz. Em Mulherzinhas, é Jo March (possível alter ego da escritora Louisa May Alcott) quem vende os cabelos para que a mãe possa viajar e cuidar do pai, ferido durante a guerra. No livro de Eliana Alves da Cruz, Nada Digo de ti que em ti não Veja, um romance histórico do Brasil colônia, são os cabelos crespos e fartos como lã da mulher trans e negra alforriada, Vitória, que seduzem o rapaz de ascendência nobre portuguesa.

Quando se fala em cabelo nós, mulheres negras, temos muito a dizer sobre nossos percalços. Para sermos “aceitas” na sociedade, era essencial alisar e pentear como as mulheres brancas o faziam. Li há pouco tempo (e infelizmente perdi a referência) que os senhores de escravos mergulhavam as cabeças das negras escravizadas em barris com uma mistura que levava soda cáustica para “amansar” os cabelos crespos. Cento e trinta e dois anos depois do fim da escravidão no Brasil, ainda estamos escravas de uma estética que não nos pertence, cerceadas de nossa verdadeira identidade.

Hoje, por conta das lutas sociais e da maior representatividade da mulher negra no mercado, como geradora de riqueza e consumidora, há produtos especialmente concebidos para os nossos cabelos, considerando os diferentes tipos de crespos que existem numa terra tão vasta e miscigenada como a nossa. O cabelo é mais que uma representação de feminilidade, da nossa etnia ou da identidade de uma pessoa. O cabelo é um instrumento político! Como diria Nilma Lino Gomes no livro Sem Perder a Raiz, o cabelo crespo no Brasil é uma linguagem, um signo, uma identidade e um estilo de vida. Nós, negras e pardas, ainda podemos alisar se essa for a nossa vontade, mas temos escolhas, e podemos mostrar o poder que o nosso cabelo tem.

Para encerrar minha odisseia capilar, lembro que não importa se sua cabeça é raspada ou cabeluda, se seus cabelos são fininhos como os da Xuxa, ou vastos como os da Tais Araújo, as escolhas são suas, e toda tentativa externa de definirem como você deve se comportar em relação aos seus cabelos é uma tentativa de controle. E o controle é seu!

Sobre a minha Olivia, nascida numa família inter-racial, de pele muito clara e cabelo loiro e fino que contrastava com a nossa cor, temi por um curto tempo que ela se afastasse das nossas origens étnicas, como eu me afastei um dia. Mas ela é sagaz demais e hoje, acho que posso dizer sem lhe causar vergonha, que ela é a nossa Merida, a princesa Valente de cabelos vermelhos, que ostenta um crespo longo e lindo. Aquela bebê pequena em meus braços é hoje uma mulher poderosa, com suas próprias escolhas.


Crédito da Imagem: Foto montagem de Elaine Resende

Os textos representam a visão dos respectivos autores e não expressam a opinião do Sabático Literário.”

Publicado por Elaine Resende

Aspirante a escritora, amante das letras, viciada em criatividade fantasiada de texto, foto, desenho, música e escultura de argila. Um dia será boa em pelo menos uma dessas coisas, mas se diverte em seguir tentando.

17 comentários em “NÃO TOQUE NO MEU CABELO!

  1. Como não me emocionar com tamanha clareza e lucidez. Com a contextualização de nosso povo. Me emocionei com a riqueza e a transversalidade de nossa história.
    Super parabéns. Sucesso. Grande beijo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Rita, minha amiga querida! Bom demais ter você por aqui. Obrigada pelo carinho e fico honrada com as suas palavras. Nós que viramos madrinhas dessa Olivia linda, que viramos amigas nesse processo de construção da família, é um pouco da nossa história contada nesse texto. Saudade grande! ♥️

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  2. Então…difícil encontrar palavras para qualificar esse texto! O relato de uma história pessoal se mistura com a História cultural de nosso país! Quantas reflexões, quantos desenlaces, quanta dor na alma para atingir os padrões aceitos e no final essa heroína moderna se liberta da escravidão não da pele propriamente dita, mas do espelho. Redescobre suas origens e encontra sua beleza original. Agora é feliz porque sabe que é livre pra escolher. Divino, honesto, uma terapia em forma de texto que merecia um livro. #ficaadica

    Curtido por 2 pessoas

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