Senti o ar entrando em meu corpo para me preencher, me rechear. Era diferente do ar do Rio de Janeiro, poluído, sujo, podre. Era puro, natural, renovador.
Para quem não sabe, Capitólio é uma das trinta e quatro cidades banhadas pelo Lago de Furnas, cercado por grandes paredões de pedra, que formam piscinas naturais e cachoeiras de uma beleza sem igual.
São os Cânions do Rio São Francisco.
O destino tornou-se sucesso há algum tempo, e passou a atrair milhares de turistas todos os anos, mesmo depois de um deslizamento de uma rocha que chocou todo o país.
Eu era só mais uma.
Estava ali sem câmera, sem pauta, sem objetivo. Apenas uma mulher em busca de sua recuperação física e mental. Ou quem sabe até espiritual.
Escolhi começar o passeio pela trilha do Sol, circuito que conta com diversos caminhos que levam a cachoeiras inesquecíveis. Eu estava fora de forma, e subir e descer tudo aquilo foi uma verdadeira loucura. Pensava que por ser repórter, ficar pra lá e pra cá atrás da notícia, teria alguma vantagem, mas que nada.
Eu estava velha, gorda, abatida.
Mas precisava prosseguir. Como se prossegue na primeira entrada ao vivo desajeitada, mas você precisa fazer porque é uma questão de honra, uma espécie de cala a boca para quem duvidou do seu talento. E um agradecimento eterno a quem ajudou.
Nathália estava certa. Sempre esteve. Aquela viagem não era só externa, era interna. A cada passo do caminho, em meio aquela beleza sem igual, refleti sobre minha vida, minhas escolhas, sobre mim mesma.
(…)
Minha vida era obcecada pelo trabalho, por metas, por uma tentativa insana de aparecer no vídeo. E pra que, para depois receber curtidas nas redes sociais e no máximo dois tapinhas nas costas?
Aceitei trocar de horário diversas vezes. Aceitei ir pra tudo quanto é buraco. Levei fora de político, de artista, e até de missionário. Engoli sapo, almocei amendoim no intervalo da coletiva, escorreguei em bueiro mal tampado.
E além disso, não fiz mais nada.
*Trecho do romance A Cápsula, de Carolina Pessôa. Disponível aqui.
