O vazio que você deixou

É tão estranho quando alguém morre. Um vazio muito grande. Até outro dia minha avó descia as escadas, bem devagar, quando eu chegava na casa da minha tia.

Me lembro da sensação estranha quando cheguei novamente na casa após o seu falecimento e ela não estava mais lá.

Hoje é meu pai. Não tenho mais ninguém para mandar algum zap falando de política, ou alguma besteira qualquer.

Não tenho mais meu velho pra visitar nas férias e feriados.

E mal tivemos tempo de passear com meu cachorro recém adotado na praça próxima ao meu apt novo, que ele mal chegou a conhecer.

Esteve aqui perto recentemente pra uma consulta, mas voltou em seguida pra casa, disse que não estava muito bem.

Me perdoa meu pai, se eu dimensionasse a gravidade, eu que teria ido lá nessa consulta em Niteroi te ver.

A verdade é que ninguém imagina que pouco tempo depois de descobrir uma doença seu pai vai morrer. É uma imaginação dura demais e o cérebro reprime.

Há alguns anos ele já não me buscava mais, por causa da vista parou de dirigir. E também não fazia outras coisas, como viajar pra praia, que a gente tanto gostava.

Ele foi sumindo aos poucos, aos poucos, até que sumiu de vez. Que nem minha avó. 

E me pego relendo mensagens que a gente trocou e fotos antigas. Mas nada disso me traz ele de volta.

Se eu pudesse voltar no tempo, escolheria um daqueles dias em que eu dizia, pai, vem me pegar aqui na rodoviária, já cheguei. E alguns minutos depois ele aparecia.

Mas ele não vem mais. Não manda mensagem. E nem vai almoçar no restaurante.

Ele sumiu. Foi pra um lugar distante, sem zap, sem telefone, nem correio.

Hoje fecho os olhos antes de dormir e falo com ele de uma forma diferente, pelo pensamento. E digo, pai, fala comigo em meu sonho que está tudo bem contigo.  Que Deus está cuidando de suas feridas.

Da sua pele tão frágil já no fim da vida.

Tão frágil como eu me sinto agora.

Nunca vou me esquecer de você dizendo, quando o caixão da vó foi pra terra há poucos anos, que você seria o próximo. E chorando.

Previsão certa.

Mas errada.

Uma filha que ama um pai nunca vai achar bom ele morrer, por mais que possa ter sido a única alternativa diante de uma doença tão grave.

Pai, desculpa qualquer coisa. Se precisar de algo, me avisa no nosso encontro da madrugada.

***

E me despeço aqui com nossas frases.

Amor e fidelidade sempre.

Estive, estou, estarei

(1960-2026)

Publicado por Carol Pessôa

Jornalista, escritora e atriz. Autora dos livros À Beira da Vida, Salto para o Desconhecido, Amor e outras Histórias: contos para aquecer o coração, A Cápsula e Meu Canto.

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