Entrei na agência dos Correios e só havia homens na fila. Jovens. Eu perguntei: “Quem é o último?”, e alguém levantou a mão. Eu, com meus cabelinhos brancos e essa carinha linda de velhinha fofa, me postei atrás dele. Pensei com meus botões que eu nem precisava entrar na fila. Enfim, quis evitar o desgaste, porque toda vez que passo adiante, alguém reclama, e a atendente precisa avisar que sou prioridade.
Entre a pressa e a cara feia
Pois bem, quando chegou a vez do rapaz, ele me mandou ir primeiro. Olhei o monte de caixas que carregava, parecia ter muitas entregas a fazer, e disse que podia ir antes. Ele insistiu. Eu agradeci e fui despachar meu livro para uma amiga em Maceió.
Fiquei matutando se ele foi gentil ou se me ouviu “pensar alto” que eu nem precisava estar na fila. O rosto dele permaneceu sério o tempo todo. Sequer me olhou quando “cedeu” a vez. Depois do episódio eu ri. A gente perde o freio depois dos 60.
Essa história me fez pensar em como estas situações mexem com a gente no dia a dia. Por um lado, a prioridade é um direito garantido. Por outro, a pressa e o estresse da rotina fazem com que algumas pessoas nos olhem com cara feia, como se estivéssemos tirando vantagem, e não exercendo um direito que custou a vir.
Gentileza ou condescendência
O rapaz das caixas transformou o que seria apenas uma obrigação em um gesto de gentileza. Ou teria sido condescendência? No fim das contas, a forma como as pessoas reagem a esses pequenos momentos na fila diz muito mais sobre elas do que sobre nós.
O incômodo dos outros que gera a “cara feia” costuma ser apenas o reflexo de uma rotina estressante, onde as pessoas enxergam a prioridade alheia como um obstáculo pessoal. Poucos a encaram como uma reparação histórica e social.
Reclamar esse direito é exercer a cidadania sem o peso da culpa que a juventude muitas vezes nos impõe. Mesmo que, para garanti-lo, precisemos derrubar a trava que antes nos impedia de ocupar os espaços com a dignidade que merecemos.
Exigir nosso direito não deveria ser um ato de resistência, mas, já que topamos com caminhos fechados, que a gente continue perdendo os freios e as travas continuem caindo.
E vocês, o que acham? A gente perde o freio depois dos 60 ao reclamar nosso direito? Me contem aqui nos comentários!
Foto de Nk Ni na Unsplash
