Bruxa

Sou Dian. Mas é Meridian que domina os labirintos da nuvem digital. Meus joelhos estalam quando sento à mesinha de ferro, um lembrete que a gravidade não ignora. Não é peso, é alicerce. Aqui fora, as roseiras nos vasos vigiam, espinhosas e antigas, como eu. O piso rústico arranha a sola dos meus pés; essa sensação me aterra.

Aqui, em meio às folhas da samambaia que giram com o vento, meus dedos entrelaçam o presente e o futuro no teclado do notebook, num rito só meu. A urgência da cidade tenta escalar a grade da varanda, mas aqui, o tempo obedece ao meu ritmo, não ao das notificações.

O clique da cena final do novo livro mal se dissolveu. Antes que o som se esvaísse, um bip-bip estridente explode da mesinha. Meridian, o nome que Artur, meu editor, insiste em usar, treme na tela. O prazo para entrega do manuscrito esgotou e a editora está pressionando, leio nas letras apressadas e mal pontuadas.

O tempo é meu. Sorrio e o deixo esperar.

Minha reação não é descaso, é resistência; O preço para ser inteira e indomável. Eu, que já vi tantas estações, sei que a luta não muda de ritmo. Sou eu que defino a cadência e cultivo o ruído. O mundo agora escuta a minha voz.

Fixo o olhar no reflexo distorcido da janela ao lado. Vejo a sombra que tentam projetar sobre mim: um script velho, um feitiço de invisibilidade para mulheres que envelhecem. É uma coreografia de submissão que conheço bem: fale baixo, ou melhor, fique calada, ocupe menos espaço, desapareça aos poucos. Minha pele, curtida de sarcasmo, rejeita essa aderência. Não me pergunto como quebrar a maldição; simplesmente não a recito.

Lembro-me das tardes em que o convencional tentou me enquadrar, e eu me desviei por rotas que só a matéria conhece. Aprendi a ler a pulsação das coisas: o momento exato de quando o sorriso deve sumir, ou de quando o silêncio deve reverberar. Dizem que sou louca. Chamam de bruxa. Ou, no máximo, teimosa. Eu chamo de visão plena. A memória visceral vibrando na espinha antes que o mundo sequer consiga articular o próximo passo.

Encerro o texto e, com um suspiro que é metade ironia, metade cansaço, eu ligo. “O tempo é meu, Artur”, ratifico.

No instante em que encerro a chamada, a tela pisca com uma nova notificação. Uma palavra apenas, enviada no mesmo segundo: Bruxa.

Publicado por Denise Gals

Denise Gals escreve no "Café à escrivaninha" sobre como se redescobrir após a meia-idade. É mediadora de clubes do livro e de rodas de leitura. Ah, sim, e ela também escreve romances.

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