Era uma viagem a trabalho a Recife.
Havíamos acabo de retornar ao hotel em Boa Viagem, depois de um dia inteiro em campo. Sol, poeira, almoço apressado, trabalho em pé.
Cansadas, sujas, famintas, paradas no hall do hotel, combinávamos aonde iriamos jantar. Sendo que eu nem queria ir comer com elas.
Então, ele passou.
Minha cabeça girou, acompanhando seu movimento.
Um ímã.
Não era ele?
Lenine.
A partir daí, só pude repetir, para as colegas de equipe: “Lenine. Vocês viram? O Lenine. Le-ni-ne”.
Eu não podia acreditar!
Éramos recém-conhecidas. Eu e elas. Não tinha nem 20 dias que havia começado no trabalho novo. Um cargo em uma subsidiária da maior empresa do Brasil.
Esperava que elas dissessem: “Uau, o Lenine”. Mas… que decepção!
Na verdade, elas, em postura de superioridade, demonstraram, isso sim, um certo desprezo da minha reação.
“Ah, eu não ligo de ver artistas”, disseram.
Como se esse fosse o ponto…
Meu entusiasmo deu lugar à dificuldade de explicar o óbvio.
Se me lembro, ainda tentei argumentar. Mas notei ser inútil.
Como explicar o valor da poesia para desertos?
Subi ao meu quarto. Sozinha, enfim. Pus “Paciência” para tocar no celular.
“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para”
Conversei comigo mesma. É ruim não ser compreendida. Ser interpretada como alguém bobo, fútil. “Se tem algo que me tira do sério é não ser levada a sério”.
Não conseguia entender como alguém não podia sentir emoção ao ver alguém que escreveu “Paciência”.
“Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara”
Depois de muito pensar a respeito, acabei usando a estratégia clássica que uso sempre em momentos assim: eu ri das colegas. Sim, eu ri. Ri da soberba em se acharem superiores a um poeta.
Hoje o acontecido me veio à lembrança, após ler Socorro Acioli. A cronista pôs em palavras o que então não pude dizer.
“Costumo agradecer, em silêncio, quando escuto uma música bonita. Digo obrigada pelo dom, pelo tempo que o autor dedicou a aprender um instrumento, pelo caminho de cada palavra antes de ser verso e por deixar, naquela canção, um pedaço da alma.”
Obrigada, Lenine. Adorei te ver.

O show dele é maravilhoso e ele é muito educado e carismático.
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