Sonhei que eu bebia muita água,
muita água,
muita água mesmo,
que éramos amigos
e você até conhecia meus pais,
até conhecia minha casa,
entrava
por um portão de ferro azul escuro
que não era tão azul escuro,
nem assim tão de ferro,
e muito menos
minha casa,
mas no fundo
eu sabia que era
porque ali estávamos seguros,
porque eu te dava um beijo
sem medo nenhum
e sem qualquer esforço
você aceitava
passar as próximas
quarenta e sete noites de verão
naquele mesmo lugar
comigo,
tomando todas as chuvas,
desde a primeira
até a quadragésima sétima.
A gente bebia muita água,
muita água,
muita água mesmo,
abrindo a boca pro céu
quarenta e sete vezes,
até que
na quadragésima oitava vez,
no quadragésimo oitavo copo,
na quadragésima oitava tempestade
da noite de n° 48 você me dizia
e se a gente nunca mais acordar?
e eu te dizia
e se a gente nunca mais se afogar?

Beatriz Ras é da zona norte do Rio de Janeiro e é graduada em psicologia pela UERJ. Autora de Rasgalume (2019), Nove Casas (2022) e Exoterra (2025), tem poemas publicados em zines e antologias no Brasil e na Argentina.

Uau! E eu achei que bebia muita água kkkk
Brincadeira à parte, amei o poema! =)
Como saber quando “se afoga” num relacionamento? *refletindo*
CurtirCurtir
Amei
CurtirCurtir