Morde e assopra

Diana se deitou no sofá. A casa parecia silenciosa demais. O choro, contido até o momento, desabou silencioso. Ficou ali, por um bom tempo, até a dor no peito diminuir. Pela primeira vez, em anos, havia pensado em si mesma. Tinha iniciado a busca por um espaço próprio longe de interferências alheias. A que preço, meu Deus.

Uma brisa de outono entrou pela vidraça entreaberta do janelão. Cruzou os braços, com frio. Olhou o computador ligado e se lembrou da conversa com Mara, no sábado: “Escrever um romance, a esta altura da vida? Quem disse que você pode?”. Naquele momento, sair do apartamento dela pareceu uma ótima decisão.

Preparou um chá de camomila e voltou à escrivaninha. Em uma folha de papel, começou a esboçar ideias para um provável romance. Rabiscou um mapa mental com possíveis ramificações da história.
A chamada de Mara interrompeu-a. Nem se dera conta de quanto tempo esteve sentada trabalhando. Ainda eram seis da tarde, mas sentia-se exausta.

“Sim, estou bem instalada, Má… Já arrumei tudo no lugar… Sim, o apartamento é lindo… Estou bem sozinha… Pode vir me visitar… Vou aparecer, sim… Também te amo.”

Morde e assopra. Guardou os papéis e desligou o computador. Depois de uma chuveirada, foi carregar o celular e viu a notificação da mensagem de Hugo na caixa postal. Lembrou-se da insinuação de Mara de que o havia abandonado. Não queria dar falsas esperanças a ele antes de uma conversa definitiva. Desligou o celular sem ouvir a mensagem.

Começou a chover. Diana fechou a janela de vidro do quarto. Comeu o último pedaço da pizza e depositou as caixas vazias na lixeira do corredor. Escovou os dentes, forrou a cama com um lençol de algodão azul e recostou-se na cabeceira. Estava em sua casa.

Ficou lendo até tarde um dos romances de Lucy Diamond, A casa dos
novos começos. Encantou-se pelas personagens e se identificou com cada
uma. As protagonistas lidavam com o coração partido e buscavam a própria felicidade motivadas pelo apoio das amigas. Pensou em Luci e em como as duas se ajudavam mutuamente. E em como Mara a manipulava, fazendo-a duvidar de sua capacidade de produzir qualquer coisa sozinha.

Encolhida sob a colcha de algodão cru, presente da mãe, anos antes,
ficou ouvindo os pingos de chuva no vidro da janela. Deixou as lágrimas
molharem o travesseiro. Pela primeira vez, em anos, sentiu-se sozinha.

Obra citada: Café & romance
Autora: Denise Gals
Publicado por Editora Pedregulho — 2023

Mais informações:
https://a.co/d/8x0dxlS

Publicado por Denise Gals

Denise Gals escreve no "Café à escrivaninha" sobre como se redescobrir após a meia-idade. É mediadora de clubes do livro e de rodas de leitura. Ah, sim, e ela também escreve romances.

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