Apple Watch – Um relato contracultura hegemônica colonizadora da pós-modernidade

Não, obrigada!

Eu não quero contar os meus passos todos os dias e estabelecer mais uma meta, uma competição comigo mesma. Prefiro seguir sentindo meus passos, meus movimentos, meu corpo e minha mente, o sol e o vento batendo em meu rosto, quem sabe a chuva; observando meus semelhantes, atenta ao que se passa na vida cotidiana que me rodeia, agradecendo a sorte e o privilégio de ter mobilidade.

Eu não quero, afixado ao meu corpo, um aparelho que atravessa meus sentidos e coloca minha mente em alerta sem pedir licença, vibrando, comunicando novas mensagens, novos e-mails, novas notícias, o tal número de passos; adoecendo.

Quero que meu corpo seja livre de tudo o que posso libertá-lo, que seja meu espaço seguro, minha morada.

Quero que minha mente desacelere, crie, sonhe meus próprios sonhos; quero cuidar para que ela não esteja sobrecarregada, que não adoeça, e que não libere em meu corpo os hormônios do tal progresso, do tal desenvolvimento,, que causam ansiedade, estresse tóxico e dependência.

Não, eu não quero pesar minha comida ou ingerir pós milagrosos que prometem um corpo saudável e perfeito e entregam apenas a riqueza de milhões de dinheiros à mais uma indústria, a do bem-estar. A seus criadores-manipuladores-de-mentes-perdidas no estereótipo do corpo perfeito-saudável, que atende à construção social do belo, enquanto suas mentes seguem adoecidas, inflamadas, em colapso. Nada disso é saúde. Tudo isso é engano.

Agradeço a oferta, mas prefiro sentar à mesa com minha família e alimentar nossos corpos e almas, apreciar o momento, partilhar a comida de verdade, temperada com amor, preparada com afeto, livre dos venenos preparados pela indústria, criados para adoecer lentamente, afinal, se acometem nossos corpos com doenças rápido demais, não seremos capazes de gerar lucro e produzir riquezas por prolongado tempo. Adoecendo devagar, todos ganham: a indústria alimentícia, a indústria da saúde, a indústria farmacêu[1]tica, a vida sintético-capitalista.

Não, eu não quero que meu corpo e minha mente sejam colonizados por narrativas e normativas que não partem de mim, de minha humanidade, do que me faz sentido, do que me diz baixinho ao pé do ouvido: é, essa sou eu de verdade. Recuso-me a ser mais uma vítima do estado de coisas, recuso-me ao estado de coma induzido a que o desenvolvimento submeteu a humanidade. Ainda que me recuse, estou presa a ele, nadando contra a uma vasta correnteza.

Da nação dos três poderes independentes, liderada pelos 3 poderes paralelos¹, escolho liderar eu mesma meu corpo, minha mente e minha alma, regida pelos poderes que me conectam à minha natureza, a humanidade: o poder do amor em sua forma mais ampla; o poder do sentir; o poder de decidir. Decidir, principalmente, estar consciente, não me perder de mim. Ser buscadora e aprendiz. Decidir como aplicar os poderes que me regem em prol da minha comunidade. Partilhar, dividir, trabalhar juntos, amar a todos, cuidar das crianças e dos mais velhos, ouvi-los, aprender com eles; proteger os mais vulneráveis, não permitir que ninguém tenha fome ou sede, ou que à alguém falte morada.

Sem contar os passos. Sem o relógio que vibra distrações, cortisol e dopamina – por mais antagônico que isso pareça -, me afastando de quem sou.

Não, eu não quero que meus olhos vejam beleza na Times Square, onde todo o asfalto, todo o concreto iluminado com luzes e cores artificiais e toda a poluição impedem a Terra de existir, de respirar. Quero ver beleza no passarinho que pousa na minha janela pela manhã, e depois de novo, no fim da tarde, entoando seu canto e voando livre pelo ar. O mesmo ar, eu respiro. Quero ouvir a beleza do barulho de um riacho correndo, das crianças brincando no quintal. Quero falar a língua que falavam minha mãe e minhas avós e aquelas que vieram antes deles. Quero sentir o cheiro da terra molhada toda vez que a chuva vier. Quero esperançar a estação de cada fruta para dar todo o valor que a natureza merece, honrar seus ciclos, agradecer pelo alimento, sentir uma saudade frustrante da fruta doce da estação que passou e ficar feliz feito criança com a fruta doce da estação que vai chegar – por mais antagônico que isso pareça.

Às vezes, a gente precisa dar uns passos atrás.


[1]  Nomeio aqui por poderes paralelos aqueles que aparecem como líderes na pós-modernidade neoliberal brasileira, a saber: as big techs, o mercado financeiro e o agronegócio.

Publicado por Elizabeth Gomes

Aprendiz e sonhadora. Humanista e feminista. Entusiasta do amor, da igualdade e da justiça social. Dona de mim e autora de minha própria história, sou tantas quantas quiser ser até o dia de não ser mais nada. Até lá, sou pura vida.

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