Nunca serei mãe

Soa um pouco pesado essa frase: nunca serei mãe. Mas refletindo sobre o tema, me dei conta de que é a mais pura verdade. Além de já estar com a idade um pouco avançada para isso, falta pra mim suporte e o mais importante: um parceiro para esta empreitada.

Nunca verei minha barriga crescer. E a emoção de ter uma criança indefesa em meus braços.

Ver as primeiras lágrimas de alguém. E seus primeiros passos na vida.

Acompanhar seus aprendizados. E suas decepções também.

Poder ver nos olhos de outra pessoa, um pouco de meu olhar. E transcender.

Posso projetar essa ausência em outros. Meu irmão mais novo, meu sobrinho.

De nada vai adiantar.

Porque não é carnal, não e visceral, não é um ser que saiu de mim. Do meu ventre. Que corre em suas veias, meu sangue.

Refleti sobre tudo isso ao conversar com um amigo que me disse: “minha filha é a pessoa mais importante da minha vida”.

Já ouvi isso antes, de outros homens e mulheres. E durante um tempo, contestei. Afinal, não deveria ser você mesmo a pessoa mais importante de sua vida? Ou então, não deveríamos elencar a pessoa mais importante, e sim várias, com o mesmo grau e valor?

Mas hoje eu entendo que é impossível questionar essa frase. Primeiro porque amor não se mede, e cada um sabe de si. Segundo porque, como entenderei, se jamais vivi e viverei a beleza deste momento?

A médica disse que a cada dia é mais improvável que aconteça….

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Porém mais importante que esta conclusão, é todo o caminho ao qual ela leva. Tanto para o bem, como para o mal.

Bate tristeza? Sim. Mas ao mesmo tempo, um sentimento enorme de liberdade.  Às vezes, uma verdade pode ser dura, mas liberta.

Como me disse este mesmo amigo, sentado na mesa do bar: “Aceita que dói menos”.

Ditado bobo, mas real.

Posso não ser mãe de uma criança. Mas posso ser irmã, tia, amiga, filha. Posso ser jornalista, escritora, atriz, poeta. Posso ser mulher, posso ser menina, posso ser uma amante da vida. E posso tentar fazer um pouco de tudo aquilo que eu desejo (dentro é claro de uma perspectiva realista).

A verdade, é que existem emoções e experiências sobre as quais nunca conseguirei aprender. E quem consegue?

Na verdade, nem preciso me cobrar por isso.

Publicado por Carol Pessôa

Jornalista, escritora e atriz. Autora dos livros À Beira da Vida, Salto para o Desconhecido, Amor e outras Histórias: contos para aquecer o coração, A Cápsula e Meu Canto.

4 comentários em “Nunca serei mãe

  1. Obrigada por se dar um pouquinho pra nós nas suas palavras, Carol. Imagino quantas mulheres anseiam por isso e podem ter as mesmas inquietudes. Receba meu abraço caloroso e solidário.

    queria deixar uma mensagem para quem deseja ser mãe e não sabe como será: há muitas formas de maternar. A conexão real se dá no dia a dia. A rede de apolo se apresenta quando a gente precisa e pede por ela. Não é fácil, mas o que é fácil nessa vida? A gente precisa escolher o difícil que vai encarar. Não perca a esperança. ❣️🌹

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