Apart hotel

Ele voltou do passeio com a cadela e tomou a decisão que adiava há um ano e meio: tirou o corpo da esposa da sala.

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Ela gostava de homens narigudos. Calvos. De gengiva preta. E brochas.
O nariz dele era dos grandes. E foi o que a atraiu.
Ele era estranho. Só aparecia na piscina do prédio quando o sol já tinha ido. Ou sábado à noite. Sempre sozinho. Sempre olhando pro nada.
Sua fama entre a equipe de limpeza do prédio não era das melhores. Seu apartamento era dos mais fétidos. Ele, porém, parecia não notar. Os vizinhos reclamavam. Mas a culpa recaía sobre os dois cachorros que moravam junto com seu dono.
Ninguém imaginava que, embaixo do piso, um corpo permanecia.

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Foram casados por nove anos e, então, acabou.
Por responsabilidade dela, dizia.
Primeiro, morou num muquifo em cima de um restaurante popular na Glória. Propriedade de um amigo.
Dividia os 20 metros quadrados com seus cachorros, lagartixas, baratas e suas plantas.
Num impulso, comprou o apartamento do qual se arrependeu.
Mas agora era tarde.
Condomínio nas alturas, potenciais compradores que desistiam da aquisição logo após a visita.
Ele não sabia – ou fingia não saber – que o cheiro da esposa atrapalhava.
Logo o dela, tão cheirosa em vida.
Alguém que sabia que, para se perfumar, era preciso entrar na nuvem da fragrância – e não borrifar o líquido tão perto da pele a ponto de o alcool escorrer.
Ela, morta
Ele, na piscina, em horários improváveis. Então, aconteceu.

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Dizem que são as mulheres que escolhem. E nesse caso foi verdade.
Ela escolheu dar uma chance para o narigudo da piscina.
Primeiro começaram a se cumprimentar
O destino ajudou, com encontros aleatórios e inesperados na rua.
Puxou a ficha do rapaz com as meninas da limpeza.
E foi assim que, quando eles começaram a conversar, ela já sabia mais da metade do que ele contou
Seu nome
Profissão
Estado civil
Os nomes dos cachorros, companheiros fiéis
Como não havia sido sua esposa

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Ele era lerdo pra esse lance de paquera.
Fazia tanto tempo…
O tempo que a guitarra não tocava, por o pai ter partido
Ele sempre falava em divã
Mas não deitava em um
(Embora precisasse)
Foi ao cinema com ela, que o convidou depois de um final de semana na piscina
Há quanto tempo não entrava numa sala escura…
Teria uma nova chance?
Mereceria?

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Ela andava cansada de performar.
Se a ex dele descansava morta sob o piso, ela, por sua vez, tinha já visto a morte de perto – e sobrevivido – por circunstâncias que não cabe aqui explicar.
O trabalho, os pais idosos, a mãe confusa, o pai senil, o supermercado, a casa lotada de roupas pouco usadas, os treinos, as aulas de tamborim, os amigos pedindo ajuda, os riscos e os seguros
Ela se esforçava para estar sempre ocupada
A louça para lavar, a máquina sempre batendo, as refeições saudáveis da semana por preparar, a prontidão por atender qualquer pedido amigo, a corrida, as pílulas para dormir e acordar
Conversando, descobriram que tinham coisas em comum
A mesma profissão
A mesma insônia
Além do ódio
O ódio pelo mesmo bairro
O fato de buscarem estar sempre ocupados
Fugitivos?
De quê?

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Ela gostava de ele ser narigudo e ocupado, com horário para tudo.
Menos tempo para ela
Menos uma tarefa
Mais um item da lista riscado
Um crush arranjado
Fora de apps, à moda antiga
Ele gostava de se sentir desejado
E ter com quem conversar
Depois de tanto tempo sozinho

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E foi, então, para dar uma chance ao recomeço, que ele deu ghosting logo após o primeiro beijo.
Ela achou que era um sinal de que aquele relacionamento não ia dar certo.
Mas o que não sabia é que ele faltou ao trabalho, tirou o piso, picou o corpo, encheu uma mala, saiu pela rua e… voltou muito mais leve. Respirou fundo o ar.

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