Havia um tempo que Mirella se sentia mal. Dor nas costas, nos joelhos, nos cotovelos, na planta do pé, na raiz da vida. Uma árvore na floresta urbana sendo carcomida pelos cupins.
Exagero!
Mirella era uma boa vida, classe média burguesinha, burguesinha, burguesinha… só no filé. Se vestia com as marcas da moda e nem comprava nos tempos de outlet, era sempre a roupa da estação. Gostava da exclusividade, tinha carro, mas preferia ter motorista particular. Performava uma simplicidade estudada, para se sentir menos deslocada em alguns dos seus locais habituais. Na vida, dançava bem qualquer música, mas preferia rock.
Naquele dia, as dores típicas da idade (que não aparentava, glória ao combo santo academia+proteína+botox) estavam prostrando suas intenções. A noite tinha show da sua banda favorita, não ia faltar, comprou os ingressos com seis meses de antecedência. Vestiu a jaqueta de couro e foi se aconselhar com seu oráculo.
A mãe era apenas vinte anos mais velha que a filha. Ostentava a beleza das mulheres vaidosas por vocação e mistério divino. Crescida em outros tempos, conhecia as maravilhas que um bom chá e um pouco de oração podem fazer.
Mirella foi para o trabalho desatenta, pensando no chá com oração e… no que estava pensando mesmo? Esqueceu. Entrou no escritório batendo os saltos da bota preta no piso flutuante, quando foi pega por uma tontura sabe-se lá vinda de onde. Repassou o café da manhã, acreditou seriamente que a última dieta deveria ser a causa de seus problemas. Tomou um café preto com açúcar e umas nozes que estavam na marmita. Precisava de açúcar, devia ser isso.
Abriu a mochila, pegou o laptop e, cadê a fonte? A cabeça ainda girava, lembrou do chá com oração, da falta de açúcar no café, da tontura, agora a bateria. Se o dia continuasse assim, precisaria de um exorcismo. Catou o mouse na bolsa, tentou lembrar de algo, que não era a fonte, mas que era importante para esse dia. Deixa pra lá! Foi quando num movimento muito rápido sentiu as mãos formigarem e uma dor no pulso que a fez se encolher.
Estava morrendo!
O sangue não circulava direito, por isso esquecia as coisas e as extremidades formigavam, e tinha a tontura. Foi a primeira a chegar no trabalho, morreria sozinha em meio a divisórias navais cor de sorvete derretido. Interfonou para a portaria do prédio, antes que faltasse o ar e não pudesse mais falar.
Os bombeiros do prédio chegaram rapidamente, notaram sua palidez e já estavam prontos para chamar o SAMU quando Mirella demonstrou uma melhora súbita. Não tinha mais o aspecto cadavérico de antes, agora parecia muito com ela mesma todos os dias. Estava bem! Seria essa a lua de mel antes da morte?
Mandou um recado para o chefe pelo app de mensagens, recolheu suas coisas e foi para o hospital. De jeito nenhum ela iria para o céu naquele dia! 13 era seu número de sorte, e julho é o mês do rock. Ninguém tinha direito de morrer nessa data!
Uma médica de óculos fundos, pele um pouco flácida, e cabelos presos que gostariam de estar soltos, pergunta a Mirella quando começaram os sintomas. Ela não consegue responder, irrompe num choro nervoso, fungando, engasgando e falando palavras incompreensíveis sobre morrer, rock, árvore solitária e cupins.
É a Menopausa.
O choro estacou num corte seco. Limpou o rosto na barra da saia, chocada. É o que? A médica parecia pronunciar em câmera lenta: M E N O P A U S A. Arrastava a palavra, a língua em repouso, os lábios batendo e se abrindo num grande AAAAAA. Menopausa. Os olhos arregalavam acompanhando sem entender. Era jovem demais para isso.
Milhares de exames e um calmante depois, recebe no celular a mensagem da mãe: “filha, não esquece! toma chá de amora, é ótimo para curar esse calor que você tá sentindo. Lembro bem da minha menopausa, foi terrível. Hahahaha, bem vinda ao clube!” Mirella sentiu o ódio subir a cabeça, a onda de tontura, a vontade de gritar e jogar o celular na parede. Era esse o chá! Estava em choque, por isso não lembrava?
E a oração? – pergunta para a mãe. Recebe de volta: “hatha yoga, para acalmar”. Ah! Outra mensagem da mãe apita no celular: “e o show, vc ainda vai?” Tarde demais. O calmante deu um soninho bom, ela não se sentia relaxada desde… Não deu tempo de agradecer a mãe pela ajuda. Dormiu como um bebê.

tão importante quanto saber escolher… é saber lidar com a realidade e até mesmo desistir. Adorei a crônica-reflexão!
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Algumas lutas parecem nascer perdidas kkkk sigamos
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